Este recanto da nossa página é dedicado à cultura do
Rio Grande do Norte, seus poetas, escritores e artistas.
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Elino Julião, cantor
Elino
Julião nasceu em 13 de novembro de 1936, no quente sertão do Seridó, na cidade
de Timbaúba dos Batistas - RN. Filho de Sebastião Pequeno, tocador de cavaquinho
e Concertina. Foi menino butador d'água junto ao seu estimadíssimo
jumentinho "Moleque", no sítio Tôco, onde cantarolava batendo numa lata as
modinhas que aprendia na festa de Sant`Ana em Caicó - RN. Na casa grande da
fazenda , onde se reuniam os moradores da redondeza, Elino Julião fazia a
alegria da rapazeada. Costumava sair da fazenda descalço e a pé, rompendo 18 km
de caatinga para bater a famosa " peladinha " em frente à Igreja de Sant`Ana na
cidade de Caicó e articular-se, claro, para cantar na sede do Caicó Esporte
Clube, no domingo à tarde. Cantar para Elino, já era êxtase.
Nos anos 50, destemidamente o garoto de 14 anos "pegou morcego" no caminhão de Artur Dias e veio para Natal, se escondeu no bairro das Quintas e logo garantiu seu espaço para cantar no Programa Domingo Alegre da Rádio Poti, junto ao radialista Genar Wanderley e no animado Forró da Coréia, onde hoje é o o Estádio de futebol Machadão, forró esse que o inspirou a compor um dos seus grandes sucessos: "O forró da Coréia''.
Menino esperto que trouxe no sangue as raízes do autêntico "forró pé de serra" do sertão nordestino, vem registrando e divulgando com originalidade e alegria a cultura e as tradições dos folguedos populares nordestinos há mais de 4 décadas. Criador de grandes sucessos da música popular Nordestina tais como: O Rabo do Jumento, O Relabucho, Maria Home, Puxando Fogo, Na Sombra do Juazeiro, A festa do Senhor São João, Cajueiro de Pirangi, Filho de Gaiamun e muito outros.
Discografia
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1- Elino Julião Tô na praça, 1968 2- O Fino da Roça Vl. 1, 1969 3- O Fino da Roça Vl. 2, 1970 4- O fogo na Geringonça, 1970 5- Pau de Sebo Vl. 5, 1971 6- Aquilo – Elino Julião, 1971 7- Pau de Sebo Vl. 6. 1972 8- Desafio Elino Julião, 1972 9- Pau de Sebo Vl. 7, 1973 10- Xodó de Lado, 1973 11- Pau de Sebo Vl. 8, 1974 12- Dois Sujeitos Incrementados, 1974 13- O Melhor do Forró, 1974 14- Pau de Sebo Vl. 9, 1975 15- Cara de Durão, 1975 16- Seleção de Carimbó, 1975 17- Seleção Carinbó, 1976 18- Forró e Mulher, 1976 19- O Enganador, 1977 20- Pau de Sebo Vl. 12, 1978 21- Sucesso de Ouro Elino Julião, 1978 |
22- Coração Louco, 1978 23- Pau de Sebo Vl. 13, 1979 24- Meu coração das Mulheres, 1979 25- O preço do Amor, 1980 26- Meu Bauzinho de Felicidade, 1981 27- As Mulheres Merecem Flores, 1981 28- Coração Doce, 1983 29- O melhor de Elino Julião, 1984 30- Arrastando a vida, 1984 31- Puxando Fogo, 1985 32- Só Gosto de Você, 1986 33- Simplesmente Elino Julião, 1992 34- Na Sombra do Juazeiro, 1994 35- Eu de cá Você de Lá, 1997 36- Eu de Cá você de Lá, 1995 37- Elino Julião Só Sucesso, 1998 38- Vamos Fazer Run-Run, 1998 39- 20 S. Sucesso Elino Julião, 1998 40- Canto do Seridó, 2000 41- Canto do Seridó II, 2002 42- Sucesso do Povo Especial |
Clique e ouça as músicas:
O burro - O rabo do jumento - Na sombra do juazeiro
Meus amigos,
O Rio Grande do Norte - em particular o Seridó - perdeu um dos seus maiores artistas. Elino Julião morreu nesta madrugada, vitimado por um aneurisma cerebral. Tinha 71 anos, uma vasta discografia e mais de 1000 composições. Desnecessário dizer que foi um dos mais legítimos representantes da nossa cultura popular.
Estamos de luto: o Rio Grande do Norte, o Seridó, Caicó e Timbaúba dos Batistas, sua terra Natal.
Pêsames a todos,
Roberto Fontes
Morre Elino Julião
Notícia publicada por Paulo Jr. no site http://www.semopcao.com.br/
A música do Rio Grande do Norte está de luto. Ontem, dia 20 de maio, o cantor Elino Julião faleceu às 21h30, em seu apartamento, em Natal.
Natural de Timbaúba dos Batistas-RN, Elino foi um grande divulgador do autêntico forró pé-de-serra no Nordeste, com inúmeros CDs gravados e shows realizados em vários Estados pelo Brasil.
Elino Julião era bastante querido em todo o Brasil
No último sábado, Elino realizou um show no Forró da Lua, na Lagoa do Bonfim, em Natal, ao lado de Dominguinhos.
Segundo familiares de Elino Julião, provavelmente, o cantor faleceu em virtude de um aneurisma cerebral, não descartando problemas cardíacos.
Conheça mais sobre Elino Julião
Elino Julião nasceu em 13 de
novembro de 1936, no quente sertão do Seridó, na cidade de Timbaúba dos Batistas
- RN. Filho de Sebastião Pequeno, tocador de cavaquinho e Concertina. Foi menino
butador d'água junto ao seu estimadíssimo jumentinho "Moleque", no sítio Tôco,
onde cantarolava batendo numa lata as modinhas que aprendia na festa de Sant`Ana
em Caicó - RN. Na casa grande da fazenda , onde se reuniam os moradores da
redondeza, Elino Julião fazia a alegria da rapazeada.
Costumava sair da fazenda descalço e a pé, rompendo 18 km de caatinga para bater
a famosa " peladinha " em frente à Igreja de Sant`Ana na cidade de Caicó e
articular-se, claro, para cantar na sede do Caicó Esporte Clube, no domingo à
tarde. Cantar para Elino, já era êxtase.
Nos anos 50, destemidamente o garoto de 14 anos "pegou morcego" no caminhão de Artur Dias e veio para Natal, se escondeu no bairro das Quintas e logo garantiu seu espaço para cantar no Programa Domingo Alegre da Rádio Poti, junto ao radialista Genar Wanderley e no animado Forró da Coréia, onde hoje é o o Estádio de futebol Machadão, forró esse que o inspirou a compor um dos seus grandes sucessos: " O forro da Coréia ''.
Menino esperto que trouxe no sangue as raízes do autêntico "forró pé de serra" do sertão nordestino, vem registrando e divulgando com originalidade e alegria a cultura e as tradições dos folguedos populares nordestinos há mais de 4 décadas. Criador de grandes sucessos da música popular Nordestina tais como: O Rabo do Jumento, O Relabucho, Maria Home, Puxando Fogo, Na Sombra do Juazeiro, A festa do Senhor São João, Cajueiro de Pirangi, Filho de Gaiamun e muito outros.
Visite o site de Elino Julião clicando AQUI
Mariane Oliveira, escritora
Mariane
começou a desenvolver seu talento para poesias, aos 10 anos, quando fazia a
quarta série do ensino fundamental. A professora de literatura incentivava seus
alunos para escreverem em prosa ou em verso. Quando ela chegava em casa,
mostrava para seus pais, Weber e Adriane Oliveira.
Um dia sua mãe pediu para que ela fosse guardando todas essas poesias para no futuro lançar um livro.
Com as poesias prontas, chegou a hora de ilustrá-lo. Daí então teve a magnífica ajuda de seu tio "Airton Júnior" designer gráfico, que com todo carinho se inspirou nas poesias de Mariane para dar aquele toque especial nas ilustrações.
O livro foi todo custeado pelos pais, impresso e editado aqui mesmo em Natal.
Suas inspirações foram crescendo, com o apoio dos pais que a levavam frequentemente à bibliotecas e livrarias, para ler e saborear poemas de personalidades como "Cora Coralina, Vinícius de Morais, Cecília Merireles, Ricardo Cunha Lima, e os nossos potiguares Diógenes da Cunha Lima e o imortal Luiz da Câmara Cascudo.
Além disso, herdou o dom de seu avô Guaracy Queiroz de Oliveira, jornalista e advogado militante, e de seu bisavô, o poeta do Vale do Assu, Oliveira Júnior.
A
idéia de lançar um livro não passava pela cabeça da pequena Mariane nos seus
apenas dez anos de idade. Ela achou tudo muito estranho, mas acabou concordando
e adorando a idéia. Hoje com doze anos, já pensa em lançar seu segundo livro.
Mas, não sabe ainda quando isso irá acontecer. Vai depender da inspiração.
O livro, lançado em setembro de 2004, traz 23 poesias que abordam temas do cotidiano infantil. A autora criou personagens e usou a imaginação para transmitir ao leitores seus sentimentos, de forma a incentivar as crianças para a literatura.
O livro foi bastante divulgado na época do lançamento. De lá pra cá, Mariane teve a oportunidade de lançar o livro com tardes de autógrafos em vários lugares. Inclusive, com direito a autógrafos na Bienal Internacional do Livro, relizada ano passado em Natal. Lá ela teve a oportunidade de trocar livros e autógrafos com esctirores como Marina Colassanti, Zeca Camargo, Diógenes da Cunha Lima dentre outros.
Teve também uma divulgação nacional e foi citado nos "Programa do Jô" (Soares) e Ana Maria Braga.
Cefas Carvalho, escritor
Uma pessoa que ganha vida a vida com as palavras (e tem nelas um de seus maiores prazeres) mas que é péssima na hora de se auto-definir. Talvez eu ainda não saiba exatamente quem sou. Talvez saiba, mas tenha consciência de que cada pessoa tenha uma visão diferente de mim e que, portanto, nenhum perfil feito às pressas se encaixará na imagem que gregos ou troianos têm de mim. Ademais, já escreveu Cecilia Meireles: a vida só é possível reinventada...
E suas preferências literárias:
O fio da Navalha, de Maugham, O Jardim do Éden, de Hemingway, Dom Casmurro, de Machado de Assis... e quase tudo de Balzac, Maupassant e literatura francesa do século 19, além de um pouquinho de Sade e os malditos franceses, que ninguém é de ferro.
Na verdade, nem sei se Cefas aprecia este tipo de tietagem.
Mas tive a sorte de trabalhar com ele, que é, sem dúvida, um grande talento jornalístico - e uma ótima conversa.
O perigo de trabalhar com Cefas, inclusive, é esse: vc só querer ficar conversando com ele.
Em entrevista ao jornal TRIBUNA DO NORTE:
O jornalista e escritor Cefas Carvalho tenta quebrar a barreira imposta pelo mercado através da internet. Ele integra um grupo de escritores com raízes na grande rede (“Verborrágicos!”), mas curiosamente, ainda usa a velha máquina de escrever na produção bruta. “Na máquina você tem mais liberdade para criar. Tem essa coisa mais lúdica. Tem coisas muito boas porque a máquina não trava nem ninguém te fala que você digitou o arquivo errado. O ruim é que você pode derramar café no texto (risos). Mas depois passo tudo para o computador”, afirmou.
Ele se diz “apaixonado” pela escritora Cecília Meireles e conta que foi incentivado a publicar seu “Reinvenções” depois de dois romances. “Conheci o pessoal do site e comecei a receber convites para publicar os textos na rede. Aí peguei os poemas recentes e outras pérolas de 20 anos atrás que estavam guardadas. Embora não siga nenhuma escola e tenha um estilo livre, posso dizer que sou lírico com muita referência de Cecília Meireles, a quem eu venero”, afirma.
Nascido em São Paulo, mas com raízes paternas em São José de Campestre, Cefas Carvalho trabalha com a rotina. “Escrevo sobre o que vejo, sinto. Raramente vou mais longe. Nesse livro estão 45 poemas e algumas pérolas”, diz.
E
pelo jornalista Carlos Peixoto:
Cefas Carvalho, depois de incursões pelo romance (Ponto de Fuga, Três, Carla Lescaut e Os puxadores de piano), toma o rumo da poesia e lança (...) Reinvenções (109 páginas, R$ 15,00, Ed. Potiguar Notícias). Leitor voraz de Shakespeare, Hemingway, Somerset Maugham, Florbela Espanca e Cecília Meireles, Cefas confessa ser homem de um só compromisso: a palavra impressa.
Encantamento
De repente, tantos encantos...
Um olhar sorrateiro
Um sorriso de soslaio
E eis conjurado o encantamento...
Incenso? Cinzeiro? Versos passionais?
Vinho branco derramado
Espargido em roupas e peles
E o desejo leva o vestido negro ao chão...
De repente, tantos encantos...
Uma vontade satisfeita
Uma saudade abafada
E eis conjurada a distância...
Anchela Monte, poeta
Anchella
Monte Fernandes Ribeiro Dantas, filha de Henrique Fernandes Silva e Maria Salete
Monte Fernandes, nasceu em 15 de outubro de 1957, em Fortaleza, Ceará, onde
morou apenas um ano.
O pai militar foi transferido para Natal, cidade na qual a família viveu até a ditadura, cuja instalação em 1964 provocara a mudança para São Paulo - primeiro residindo em Santo André, depois em São Pedro.
Nesta última, concluiu os estudos primário e ginasial e construiu amizades que ainda perduram. De volta a Natal, em fins de 1974, concluiu o ensino médio na colégio estadual Winston Churchill, começando logo em seguida a cursar letras na UFRN.
Em 1996 tornou-se especialista em Educação no núcleo NEPEC, na UFRN. Professora de Língua Portuguesa, desenvolve atualmente dois projetos de leitura na escola municipal Professor Ulisses de Góis: "O Autor é Leitor" e "Poesia Potiguar em Cena".
Publicou "Passagem" ( 1976 - ETFERN, RN ), "Ato" ( 1978 - edição mimiografada ), "A Trama da Aranha" ( 2001 - Sebo Vermelho ) e agora está lançando "Temas Roubados", também pelo Sebo Vermelho.
O
livro Temas Roubados será apresentado no próximo dia 4 de maio, as 18h na
Galeria de Arte Demétrius Coelho, na rua Seridó, 493, Petrópolis.
A obra apresenta poemas líricos, trabalhando a intertextualidade através de temas resgatados da obra de poetas admirados pela autora. Dentre eles, a presença marcante da poética potiguar: Demétrio Vieira Diniz, Iracema Macedo, Francisco Ivan, Deífilo Gurgel e outros.
Em 2004 e 2005 a autora foi premiada em segundo lugar no Concurso Literário Luís Carlos Guimarães, da Fundação José Augusto.
Outros poemas trabalham livremente os temas, tirando das vivências cotidianas a matéria poética, como ocorre nos poemas abaixo.
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A mãe fantasma
A mãe fazia poemas e rezava em novenas. Mãe magra e devota zelosa dos meninos.
Muito amiga dos anjos foi levada cedo de casa. Os meninos assombrados também foram levados.
No orfanato tosados os cabelos matavam a fome com cascas e a tristeza com silêncio.
Não se queriam os dois mais sozinhos quando se viam iguais: tristes com frio e descalços.
A mãe chegou ali em pleno inverno perguntando baixo pelos seus meninos.
O menor a viu e chorou por dentro e por fora mas as luzes da manhã levaram a mãe embora.
O fantasma da mãe entre medo e milagre tirava a orfandade.
Bonsai
Em bandejas a árvore é servida.
Retirada do mundo ganha contornos suaves miúdos.
Pequenina em sua galhada de adulta não tem pássaros nem lamentos de desocupados.
Precisa mão a fez doce escultura reprodução do que teria sido solta nas matas, colinas e quintais.
Árvore prisioneira: o bonsai. |
Mingau das Almas
Pés fora do lençol Mãos aflorando sob o travesseiro O menino.
Vibram almas notívagas e Ligeiro carregam o menino Em seus braços desencarnados Nos quais restou o carinho.
O menino não estranha Come frutas, bebe o mingau E caminha sobre os telhados.
De volta à cama Entre espreguiços e sol Esfrega a branca crosta Do canto da boca.
Doce mingau das almas Perturbadas e sozinhas Servido em sombras e sonhos Aos meninos sonolentos.
O Carneiro
Presente. O carneiro morreria para o churrasco na praia.
Preparos. Mesas, tempero, bebida e o principal regalo: o carneiro.
Olhos tristes no mar parado preso à cerca e ao coqueiro o carneiro.
Sucedem-se as pauladas dos homens sem fúria. Caçada urbana e espúria tortura a caça amarrada.
Lenta a morte. O carvão se incendeia e prepara a farra e o olvido ao carneiro.
Os homens embriagados tilintam copos e garfos em contentes brindes à vida sobre o carneiro no prato. |
DuSouto, banda
Definir
a música do grupo potiguar DuSouto, que lançou seu primeiro álbum durante o
festival Mada (Música Alimento da Alma) - que aconteceu em maio de 2005 em
Natal, na capital do Rio Grande do Norte -, não é uma questão de nomeclatura.
Isso porque, sem purismos e sem preconceitos, são muitos os gêneros usados pelo
grupo para criar uma sonoridade que já não é tão nova ou inédita, mas que
termina cristalizando um novo estilo, com espírito indie, diferente de
tudo já feito.
Definitivamente não é modismo, já que o novo pop brasileiro vem se moldando com as mais diversas influências. Sem restrições, no caso do DuSouto elas incluem o samba, a bossa nova, o reggae, o baião e principalmente, o coco. Mesclado a esses ritmos "tradicionais", o grupo usa como base algumas vertentes da "moderna" música eletrônica, como o jungle, o dub e o drum'n'bass. O resultado é uma profusão de grandes idéias, que com seus minimalistas detalhes eletrônicos e percussão vigorosa seduz à primeira audição.
Não é apenas a diversidade rítmica do DuSouto que torna a sua música superlativa. Nas letras e nos samples usados revelam-se temas e citações que confirmam a pluralidade brasileira, que vão desde um ponto de candomblé, em "Ie Mãe Jah", até a bossanovista "Nem o Mar Sabia", com Os Cariocas, em "Do Lado de Lá", passando por Luiz Gonzaga ("Deixa a Tanga Voar"), em "Black Point", e Chico Antônio ("Luquinha da Lagoa"), em "Tá na Roda", além de um trecho do Artigo 1º da Declaração dos Direitos Humanos, lido por Jardes Macalé no espetáculo "Banquete dos Mendigos".
Todas as músicas do DuSouto foram criadas, editadas, produzidas e arranjadas coletivamente por seus integrantes: Paulo Souto e Gustavo Lamartine (vocais), Gabriel Souto (groove box, MPC e picapes) e Fídja Novaes, Edmundo de Jesus e Cacau Arcoverde (percussão). Além deles, o grupo também tem como integrante o VJ Júlio Castro, que usa cenas captadas da Cidade do Natal, de animações e de fotos para transformar em imagem o que as músicas dizem.
Numa última análise, a música do DuSouto é indefinível por não ser previsível, chata; nem traz experimentalismos assustadores, surpresas incompreensível. É um música liberta de rotulações, suave ao mesmo tempo que empolgante, emocional. O prazer de ouvi-la está no equilíbrio das referências atualizadas.
Suceso lá fora
Neste
mês de abril de 2006 o Rio Grande do Norte foi surpreendido com uma notícia
relevante para a banda. Uma das composições do grupo foi escolhida para fazer
parte da trilha sonora do game Copa do Mundo Fifa 2006, produzido pela
Eletronic Arts. Abaixo, a notícia publicada na comunidade DuSouto no Orkut:
Trilha traz Sergio Mendes e Du Souto
A Electronic Arts divulgou ontem a trilha sonora do jogo Copa do Mundo Fifa 2006. Assim como suas edições anteriores, desde 2003, artistas brasileiros estão presentes. Agora é a vez de Sergio Mendes, ao lado do grupo Black Eyed Peas, cantando Mas Que Nada, de Jorge Benjor; e o grupo potiguar De Souto, com a música Ié Mãe Jah.
Todo ano a Electronic Arts lança uma nova versão do jogo de futebol para computadores e videogames. Na versão deste ano estão na trilha boTECOeletro (Coco Nutz Mass), o DJ argentino Nero e Carlinhos Brown (Nabika) e Marcelinho da Lua (Tranqüilo.
É política da Electronic Arts colocar artistas consagrados ao lado de novatos nas trilhas de seus jogos. Em anos anteriores já estiveram juntos Ivete Sangalo com o hit Sorte Grande e o grupo Inverga + Num Kebra, com Eu Perdi Você.
A empresa, a maior do mundo no ramo de jogos, começou a incluir músicas em seus jogos na versão do jogo para a Copa da França, em 1998. Foi graças ao jogo que a música Song 2, do grupo Blur, virou um sucesso planetário. O jogo é vendido aos milhões ao redor do mundo.
Por isso mesmo Gustavo Lamartine, integrante do grupo De Souto, do Rio Grande do Norte, está entusiasmado. "É uma ótima notícia está que você está me dando", disse. Lamartine ficou sabendo da inclusão da música pela reportagem do Jornal da Tarde, bem às vésperas do lançamento do primeiro disco do grupo, também chamado De Souto.
O grupo foi formado há um ano, em Natal, por, além de Lamartine, Paulo e Gabriel Souto. Gabriel é DJ, Paulo faz baixo e voz e Gustavo é guitarrista. Em apresentações ao vivo o grupo ganha mais um baterista e um VJ. "Nós fazemos música eletrônica em cima de drum'bass com pegadas do Nordeste e embolada", explica Lamartine.
O jogo ainda não tem data de lançamento definida.
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Iê mãe Jah *
Iê mãe Seu filho não é mais um vagabundo Sentado na beira da praia Vendo o sol do novo mundo
Eu sinto dentro do peito Um sentimento profundo Eu sempre agradeço Todo seu apreço Não sei se eu mereço Só sei que reconheço Eu peço pela paz Que eu prezo cada vez mais Eu peço pel'aquilo Que vem e que vai
Ie mãe Eu vim foi mais depressa Só pra te encontrar Eu vim pedir a sua benção Na beira do mar Para poder seguir O rumo que eu quero Na minha reza Sempre peço Pra iluminar
Ie mãe Eu vi falar Que foi lá no estrangeiro Sua onda é tão forte Que balança o mundo inteiro Eu lhe reconheço E ofereço E cada vez mais Eu lhe peço paz
* Música escolhida para fazer parte da trilha sonora do game Copa do Mundo Fifa 2006, produzido pela Eletronic Arts. Clique AQUI para acessar o site da Eletronic Arts. |
Samba Souto
Esse samba É um samba muito Souto Ele é feito a fumaça Quando se espalha no ar
Já estou bamba Já estou ficando solto Esse samba muito louco Samba, bamba, balançar
Ó minha nega Samba, bamba muito louco Já estou ficandusouto Samba, bamba, balançar
É esse samba Ele é feito a fumaça Ele dança e balança Quando se espalha no ar
Lado de lá Abri uma janela Alguém cancela Eu estava do lado de lá
Abri outra janela Alguém cancela Eu estava do lado de cá
Eu estava do lado de lá Eu estava do lado de cá Estava parado, sentado Olhando abismado O mundo do lado de cá
Eu estava do lado de lá Eu estava do lado de cá olhando abismado O mundo do lado de lá |
Escute as músicas: Iê mãe Jah e Samba Souto.
Se você quer ver mais informações sobre a banda, acesse o site clicando AQUI.
Rafael Galvão, poeta
Este
poeta de 10 anos de idade, aluno do sexto ano do ensino fundamental do Colégio
Marista de Natal revela através do livro “Poemas da minha infância” uma
tendência que varia do lirismo, ao social e místico, o que demonstra a sua
capacidade de explorar diferentes temas.
Qualquer coisa é motivo de inspiração para o autor: o mar, a família, a guerra e até o mensalão.
O resultado deste súbito estalo criativo resultou no convite para participar na 19ª Bienal Internacional do Livro em São Paulo, um dos três maiores eventos editoriais do mundo em cartaz no pavilhão de eventos do Anhembi em março deste ano de 2006. A edição independente mostrou 25 poesias ilustradas pelo próprio autor, pois além da poesia, Rafael ocupa parte do seu tempo desenhando e já participou de duas exposições em eventos locais.
Dividido entre os compromissos de escola, onde foi eleito líder de sala pelo segundo ano consecutivo, atividades esportivas e sociais, o autor já planeja um outro livro, ainda neste ano.
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Professor
Vamos logo meus colegas Respondam-me, por favor, Qual é a profissão que trabalha por amor? A primeira que pensamos É no nosso professor
O bom mestre é paciente E não quer só ensinar Matemática, português, Ciências e religião A sua grande alegria É construir o cidadão
Por isso, nesse seu dia Queremos homenagear Aquele que tudo ensina Sem pensar no que vai ganhar Porque o seu grande prêmio É ver seu aluno brilhar
Meu céu maravilhoso
O céu é azul Da cor do manto da virgem Maria Daí toda sua magia
Nele vemos nuvens brancas Que parecem caminhar Destas nuvens cai a chuva Para a terra molhar
De dia temos o sol Para nos aquecer e iluminar Mas nada supera a beleza De uma noite de luar
Nas noites escuras Temos as estrelinhas a brilhar Parecem olhinhos piscando Convidando-nos a brincar
Além de toda a beleza O céu é casa de Deus Ali moram os anjos E também os filhos seus |
Armar ou amar?
No dia 23 de outubro Teremos que escolher O que fazer com as armas Que faz tanta gente sofrer
Alguns acham que é melhor As armas não vender Mas então os cidadãos Como vão se defender?
Outros preferem ter suas armas nas mãos Para enfrentar o bandido Buscando uma solução De acabar com a violência Com a força e a agressão
Se cada um brasileiro Cumprisse a sua missão Não faria diferença Ter uma arma na mão Pois o mais importante É ter amor no coração |
Lívio Oliveira, escritor e poeta
Advogado
e escritor, nascido em em Natal, em 16 de agosto de 1969, Lívio Oliveira começou
a escrever na
adolescência, inspirado pelas leituras de autores como Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Augusto dos
Anjos, Fernando Pessoa.
Daqui do Rio Grande do Norte, diz que o influenciaram nas primeiras letras Vicente Serejo, Marize Castro,
Américo de Oliveira Costa, Dorian Jorge Freire.
Lançou seu primeiro livro em 2002, "O Colecionador de Horas" (poesia), pela AS Editores. Foi também neste ano que lançou
uma pesquisa sobre livros e bibliófilos do nosso Estado, que intitulou "Bibliotecas Vivas do Rio Grande do Norte".
É também do mesmo ano "Telha Crua", livro de poesias vencedor do prêmio Othoniel Menezes que contém, também, os dez poemas vencedores do prêmio Luís Carlos Guimarães.
Além dos dois prêmios, recebeu duas menções honrosas no concurso Zila Mamede, de Parnamirim, e obteve um terceiro lugar no prêmio de poesia da Justiça Federal.
Foi membro da Comissão de análise do prêmio Othoniel Menezes do ano de 2005 e é o atual presidente aclamado para a diretoria provisória da União Brasileira de Escritores, seccional do RN.
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Poucos Hai-Kais para o Beco e sua Alma
I Beco virtual? Sonhei que era sincero meu cartão postal.
II Peço teu copo. Vi teu batom pintado, boca que toco.
III Se bebes ao mar, tens o rio esperando só pra te afogar.
IV Publicas livros. Para ler só tem quatro: os mais precisos.
V O Beco solto. Lá! Vê naquela mesa? Mora um louco.
VI És só famosa. Se não há quem o prove, foi tudo prosa.
VII Mais um amigo mergulha nas duas luas de teu umbigo.
VIII Posso penetrar? Já não é libertário esse teu lugar?
IX Sinto exagero. Não é dessa mocinha esse mal cheiro.
X Em muito assuntas. Mas eu quero perguntar: já és defunta? |
Chet
Sulcos na face. Palato em feridas. Tua cena, na madrugada, é o grito curtido do trumpete. Os acordes do instrumento enferrujado são golpes de gilete em garganta de meretriz. O comprimido se encrustra no olho que fecha no escuro. Silêncio pontua o som manso, e o éter é cuspido, pela derradeira vez, na noite. Serve-se o fel em tua mesa cercada de perfumes e vômitos. Não se vê, no ambiente, presença do esquisóide denunciante. O veneno é a oferta que sobra de tua platéia invisível.
O Rei, Dono do Beco
Pensava eu, ingênuo vate que o Beco Santo era pra todos. Pois, vejam só, num xeque-mate, perdeu-se o rei em meio ao lodo.
E os peões, bispos, cavalos, todas as peças do tabuleiro, até a dama, nua com calos, o rei traiu, golpe certeiro.
Mas, se ainda há um rei nas imediações, meu cavalo destinarei para que salve os corações.
Salve, rei livre, rei liberto, pois o que mais nos dói agora é julgo do rei mais esperto, o rei que expulsa e degola. |
No meio da tarde
No meio da tarde, resolveram voltar.
Vieram buscando o caminho antigo, após a bifurcação, atalhando o caminho em volta do açude. Parecia fácil.
A noite ia caindo. A pouca experiência dos meninos não aconselhava estender o tempo de pisada. A casa grande não ficava assim tão perto.
Na conversa dos imberbes surgiam os fantasmas guardados, os medos do escuro repentino. Cada fala era de um arauto de pavores infantis, presos interiores das almas dos infantes.
Suas pernas eram só tremores e a estrada se prolongava, crescendo, crescendo. O barro pisado, prolongando-se sinuosamente, inquietava mais.
A terra seca já não queimava sob as solas dos pés ingênuos. Pedras de fogo não se faziam mais sentir quando encaixavam entre os dedos descalços. O medo é que se agigantava. Perguntavam o porquê da incauta decisão. Meninos da cidade, não sabiam bem os segredos do sertão.
Surgiram dúvidas quanto ao roteiro mais acertado. Cadê o açude?
No meio da dúvida a Cruz de Miquilino, cravada à margem, arrodeada por uma coroa de flores plásticas, bizarra imagem. Miquilino tinha morrido ali mesmo, vítima de bala pequena de companheiro, caça imperita de avoantes. Acertou-lhe o frontal. A morte de Miquilino tinha abalado todo mundo, os moradores da fazenda, o povo da “rua”, como chamavam a cidade próxima, pequeno município de igreja só. Dona Inhana, sua mãe, quase enlouquecera de dor: – Por que fizeram isto com meu menino? Meu menino Miquilino? Doze anos, ai, ai, ai! Miquilino, ai, ai, ai!
Talvez o batráquio que atravessou longitudinalmente não tivesse tido a intenção, mas causou, causou mesmo, pânico e arrepios nos meninos, aqueles dois. Mais arrepios do que os que estavam acometendo aqueles corpos brancos e imberbes de filhos da cidade grande. Ah! Ali naquela terra, todo estranho bem nutrido e corado era rico, filho de rico, eleito por Deus. Principezinhos desta terra!
Não havia ainda sinal do açude, nem da porteira que terminasse a agonia dos dois moleques. Um choro baixo, nervoso, já tinha sido iniciado por um deles. O outro, ainda querendo mostrar um pingo de coragem, reclamava: – Faz isso não, Rodolfo, seja homem! A gente já chega!
Os passos apressados, atravessados pelo gemido de Rodolfo, na luta para encontrar o mundo pequeno da fazenda, apressavam os coraçõezinhos tensos, aos saltos, na esperança de encontrar o rumo da fazenda, da casa alva, da rede áspera, menos áspera que o cinto do pai bruto, ligeiro no golpe, marcas avermelhadas ardendo depois. Costas e bundas ressentidas no outro dia! Dor no espinhaço!
Prosseguiam no ritmo alucinante. Às vezes queriam correr. Pouco prudente. Melhor caminharmos juntos e evitarmos surpresas, ataques de alguma fera, medo de aparições vivas ou mortas!
Algum sinal surgiu. Da entrada da fazenda. Já eram mais de três horas de caminhada. Graças! Luz de lamparina lá longe, nos longes daquele tempo. O cheiro de esterco de gado, os ventos nas algarobas, a terra seca entrando nas narinas e sublinhando os lábios de poeira e mormaço. A audição perfeita do cancão de fogo. Tudo, toda dor, todo medo, já se abrandavam. À frente, a imagem do vestido branquinho da mulher jovem que ainda lavava no açude, quase escurecendo. Era Severina, Severina do Queijo, como era conhecida, pela sua atividade matinal de ajudar no coalho, no cozimento, no preparo do queijo, cujas raspas, com açúcar, faziam a felicidade da molecada toda.
Severina foi, então, o oásis mais feliz daqueles dois. A salvação, a volta para o seu mundo. Nenhuma fera nos venceu! Nenhum defunto apareceu, com nariz cheio de algodão e olhos arroxeados! Estamos com Severina, salvos de onça e de alma!
Recolheram os medos nos bisacos. Ainda dava tempo até para um banho no açude. Meteram-se na água fria, gelatinosa, do açude. E foi aí que, além da salvação de suas vidas, Severina, lá perto da canoa aportada, sem avistá-los, salvou também suas mais profundas sensações. Já não lavava a trouxa de roupas, à parte. Banhava, lindamente, seu corpo rijo e moreno, apertando mais uma vez, muito forte, o ritmo dos dois corações de testemunha.
Vingt-Un no Álbum da Memória
Desde muito cedo me acostumei a ouvir, nas melhores rodas, entre os mais autorizados formadores de opinião, o nome sonoro, de origem francesa: Vingt-Un. Minhas aulas na Aliança Francesa de Natal já me davam o simples sentido da tradução. Era o vigésimo primeiro. A família certamente era enorme. No entanto, somente passei a ter noção de que colossal era a figura mesma do homem que se chamava em francês, quando estabeleci meus primeiros contatos com a cultura de Mossoró e com a obra imensa que aquele homem construía com suas mãos abençoadas. A Coleção Mossoroense, as pesquisas paleontológicas, a construção do saber em escolas e, hoje, em Universidade, frutos e mais frutos de seu incansável labor.
Partiu, então, Vingt-Un. Partiu-se um coração ao sol posto de Mossoró e do Rio Grande do Norte. Sua importância atravessou todos os rincões, estradas, veredas deste Estado. Foi longe, nos longes do Brasil. Vingt-Un representou para todos o maior sinal de paixão pela sua terra, pelos seus conterrâneos, pela sua obra e batalha na vida cultural. Foi e será sempre um exemplo de que o coração pode parar de bater, mas o amor se perpetua nas pessoas e nos objetos amados.
Vingt-Un amava a humanidade, e, por amar a humanidade, amava as exemplares obras do gênio humano. Vingt-Un amava os livros.
Certa feita, nos poucos e recentes, porém inesquecíveis e frutíferos, encontros que tive com o Mestre Vingt-Un Rosado, ele chegou a me dizer: – Eu não sou um escritor. Sou um organizador de títulos. Organizei, mais ou menos, uns seiscentos e cinqüenta livros e folhetos. A minha impressão imediata era a de que ele estava sendo irônico quanto à primeira parte da assertiva. Ora, como não era escritor o homem que escrevera parte imensa da cultura de Mossoró e do RN? Como não era escritor o homem que amava as folhas dos livros e pouca importância dava ao papel moeda na sua vida apaixonada? Como não era escritor o homem que punha seu suor e seu sangue no bico da pena que preencheu tantas páginas?
Vingt-Un, na verdade não estava sendo irônico, até mesmo porque não era dado a temperar sua inteligência com a pouca gentileza dos pedantes. Na verdade, o que fazia o mestre era erguer a humanidade além do homem. A cultura além do cultor. Vingt-Un era uma espécie de Atlas a erguer o mundo da cultura sobre os ombros. Vingt-Un não cabia num livro, pois era uma enciclopédia, a maior do seu país de Mossoró e do nosso mundo. Tudo isto vi, presenciei, privei, nos poucos instantes que com ele estive. Enorme gentileza. Figura paternal e poética. Quanta saudade teremos todos? Quanta falta fará à família, à família da cultura mossoroense, potiguar? Quantos Vingt-Un no século que ainda está nos seus primórdios? Tão avançado era que, no século vinte, já era “vinte-e-um”. No século novo é um só. Aquele que nos deixa, deixando como legado o que um bom pai deixa aos seus filhos: os livros, o saber, a cultura, a educação e o amor.
Agora, vendo o meu álbum em que guardo como preciosidade uma foto ao lado do mestre, vem-me a vontade de falar, falar bem alto para o seu ouvido sensível: Guia-nos, Vingt-Un, imortal que tu és, no caminho da sabedoria e da cultura nesta terra! Faz-nos um caminho para o céu a partir de tua montanha de livros! Naquilo que tu dizias ser prioridade, Mossoró, Rio Grande do Norte, Brasil e Mundo, põe tua mão leve e terna! Abençoa-nos, Vingt-Un!
Márcio Dantas, poeta
O livro de poesias Para sair do dia, do professor, ensaísta, tradutor e poeta Márcio de Lima Dantas foi o vencedor do Prêmio Literário de Poesia Othoniel Menezes, da Fundação Capitania das Artes, divulgado na semana passada. Márcio Dantas já tinha experiência na participação no Prêmio da Funcarte, quando recebeu menção honrosa com o livro Metáfrase, em 1999, seu primeiro livro de poesia, que depois foi publicado pela Editora da UFRN. Pelo primeiro lugar no concurso literário de 2006, o poeta receberá R$ 3 mil.
Para sair do dia é dividido em três partes: Livro I: Palimpsestos Bíblicos, que são poemas curtos baseados na temática bíblica; Livro II: Poemas Assim, que trazem poemas cuja temática veio das tradições budistas e o Livro III, no qual ele faz um diálogo com a tradição greco-latina. Neste segundo livro, Márcio Dantas explica que utilizou-se de um exercício diferente do primeiro que escreveu: ‘‘Fiz poemas curtos, mais objetivos e despojados de imagens e de metáforas. Embora isso não tenha nada a ver com evolução da minha escrita, e sim o com o exercício em si’’. Trabalhando diretamente com a poesia alheia - Dantas é professor do Departamento de Letras da UFRN, em Literatura Portuguesa e ministra cursos cujo conteúdo se volta para a poesia na língua portuguesa - a ‘‘interseção’’ entre seu trabalho e o exercício de sua poesia, segundo mesmo explica, é o aprendizado das regras, leis e funcionamento da poética. ‘‘Tenho uma postura construtivista. Vejo a poesia como conhecimento de uma linguagem e não como uma inspiração. Eu não me sento e fico esperando que os deuses me inspirem’’, brinca, e continua: ‘‘O poeta não pode se fixar numa dicção sob pena de ficar copiando ele mesmo. A poesia tem de ter uma dinâmica em si’’.
Necessidade
E embora o poeta transpareça uma plena consciência do seu fazer poético e tenha produzido um livro baseado em tradições literárias, não há em absoluto, um quê professoral ou uma arrogância em seu discurso. Quando indagado sobre o porquê de ele fazer poemas, a resposta é rápida e inerente à condição de quem escreve, na maioria das vezes: ‘‘Faço uso das palavras de Rilke (Rainer Maria) e digo que escrevo por uma necessidade. Talvez para elaborar minhas experiências, minhas vicissitudes, minhas alegrias, minha vida’’. E segue entregando o ouro: ‘‘Trabalho com notas, apontamentos. Meus livros (os dos outros) todos são anotados, gosto dos livros que têm margens grandes, porque escrevo nelas. E às vezes, dessas notas surgem idéias. E dificilmente um poema meu vem feito, pronto. Gosto muito de refazer’’.
O olhar alheio
E, ao que parece também, essa ‘‘necessidade’’ prescinde de grandes ambições. ‘‘Francamente, não crio muita expectativa com o leitor, nem com a humanidade. A gente vive numa correria muito grande e as pessoas não têm muito tempo para parar e ler. (Porque para se ler uma poesia, é preciso tempo). Se tiver três ou quatro, ou 10 ou 15 leitores, estou satisfeito’’, diz sem amargura, complementando que sua escrita não ambiciona ganhar dinheiro ou ficar nacionalmente famoso: ‘‘Se ficar por aqui pelo Rio Grande do Norte, já está bom’’.
Bônus
Nada de estereótipos de grandeza. Para Márcio Dantas, o poeta é um homem normal como qualquer outro. Talvez a única diferença que ele traga é: ‘‘Uma familiaridade com a palavra’’. Ele é pai de Luis Gabriel, de cinco anos; fez doutorado na Universidade da Sorbonne, na França, em Ciências Sociais, e lá passou quatro anos. E jura que foi sua última viagem. ‘‘Não gosto de viajar. E gosto dos dias iguais’’. Como tradutor, apresentou a obra da escritora paulista, Orides Fontela, à França, com a tradução dos livros, Transposição; Helianto; Alba e Rosácea. Atualmente está traduzindo outro livro dela para o francês: Teia. E além de aguardar publicação de Para sair do dia, ele também já tem pronto outro livro inédito, O sétimo livro de Elegias.
(texto publicado no jornal DIÁRIO DE NATAL)
Márcio Dantas: O poeta não pode se fixar numa dicção sob pena de ficar copiando ele mesmo
Retratos e silêncios de Maria Boa
Que coisa é um corpo e que coisa a história da sua passagem no mundo? (Osman Lins)
Todo mundo sabe que Maria Boa, antiga cafetina e proprietária de um reputado bordel da cidade, “o Cabaré de Maria Boa”, não gostava de ser fotografada, tampouco dava entrevistas. Difundiu-se a informação que era um artifício para proteger sua família, sobretudo as netas, estudantes em colégios de classe média da cidade, bem como uma maneira de resguardar os nomes da sua importante clientela, constituída de homens “de boa família”. Mulher distinta e discreta, depois de ataviada pelas aias, nas antológicas noites licenciosas, a abadessa permanecia na sua cela. Quando tomava conhecimento de alguém importante no Salão, dirigia-se solenemente, e com grande polidez, reverenciava o visitante: político, industrial, fazendeiro.
Para além da atitude ética de proteger sua família, o que faz parecer um jogo com a hipocrisia da sociedade, penso que, na atitude de se manter reservada, se inscreve um outro aspecto digno de ser ressaltado. Falo do mito que entorna a personagem Maria Boa, de certa maneira, criado e ritualizado por ela mesma, dimensão de fantasia para além do empírico vivenciado. Aquilo que Roland Barthes se refere ao deliberado anonimato de Greta Garbo como necessidade de preservar uma imagem da decadência física, abandonando o cinema e a vida mundana, pois a atriz desejava seu rosto preservado numa “ordem conceptual”, ou seja, integrante da Idéia, não da substância, com a inexorável perecibilidade de tudo que é da ordem do material.
Nas fotos que permaneceram, tirada durante uma festa na casa de uma colega também proprietária de famoso bordel, a Francisquinha, sobrevivente, hoje, de uma época de fausto das casas de recursos, deixa entrever, pela configuração do seu opulento corpo – atributo servente para apelidar seu codinome – um majestático porte natural que poucas mulheres das nossas classes dominantes conseguem alcançar. A maneira de passar as grossas pernas uma sobre a outra sugere uma naturalidade na qual o corpo se encontrava em harmonia com a alma. Havia uma presença de discreta elegância e acentuado charme, semelhante ao daquelas pessoas um tanto saudáveis, encanto que recende por meio de uma aura na qual o corpo queda-se confortável com o temperamento que o habita. A pele delicada e sedosa deixava entrever a fartura de sua saúde psicossomática.
Ora, a famosa meretriz sabiamente já acumulara uma certa fortuna, podia dar-se ao luxo de manipular o arquétipo da mulher enigmática e de difícil alcance, fazendo vigorar somente seus caprichos de mulher-dama requintada e respeitada entre as classes dominantes da cidade. O pudor fazia parte do jogo no qual o mito se alimentava. Até no nome o mito instalara sua oficina de imagens dinâmicas (Gaston BACHELARD), suplantando as formas e permanecendo preso a determinadas estruturas do imaginário. Astuciosamente se fez conhecer por “Maria”, o antropônimo mais comum no universo feminino, genérico e pouco dado a divagações semióticas. Ironicamente é o nome da mãe de Jesus... Quem não tinha conhecimento no Estado de uma proprietária de um requintado lupanar, e que se chamava Maria, a Boa? O mito, da constituição do éter, era aspirado por todos, preenchendo necessidades, ocupando lugares no espírito, imprimindo fantasias nos adolescentes, despertando em jovens mulheres as aventuras da carne, engendrando adultérios imaginários. Integrava, assim, o patrimônio individual e coletivo. Era necessária a existência dessa cortesã, lacrada num paradoxal anonimato: todos sabiam da sua existência, entretanto, não era vista por quase ninguém. Consagrou-se, sem que fosse necessário conciliar-se em demasia com o modus vivendi, contrário à sua própria forma de ganhar a vida. Intuitivamente fez uso dos meandros por onde o mito escorre suas autônomas imagens. Sabia muito bem não ser necessário o factual para que o humano buscasse, mesmo sem vê-la, toda a lombra de uma imaginação das formas, suplantadas, de longe, pela supremacia da imaginação dinâmica.
Em suma, como responder a partir, de um dos mitos principais que compõem o imaginário da cidade do Natal, à pergunta feita na epígrafe deste artigo? Penso que o autor recifense da obra-prima, o romance A rainha dos cárceres da Grécia, nos dá a resposta: “O corpo é uma história: a do seu próprio curso”.
Leontino Filho: a saga e o segredo de urdir os restos do lirismo amoroso
Todo mundo sabe o quanto se tornou difícil, nos últimos tempos, o manuseio de textos artísticos que lancem seus vetores à tradição da literatura ocidental conhecida como lírica amorosa. As linhas de continuidade as quais se vinculam o discurso poético sobre o amor, pelo menos nos moldes como fomos acostumados a senti-lo/representá-lo, e também como é difundido pela mídia, parece ter atingido o seu fastígio com as transformações que o século XX ferrou nos relacionamentos interpessoais, coisa que me parece sem retorno e que também, de outra parte, não deve causar transtornos, malgrado o desvelamento de uma hipocrisia insistente produzida por um discurso advindo das classes dominantes eivado de Ideologia, possibilitador da reprodução do status quo favoráveis àqueles mesmos que desde sempre estiveram no poder.
O que eu quero dizer é que o poeta Leontino Filho, nascido em Aracati, antiga cidade do Ceará, vivendo desde muito na capitania do Rio Grande, ainda consegue retirar leite das pedras, dada sua capacidade de lidar com a linguagem, haja visto seu enorme talento de suplicar metáforas à Érato, sim, isso mesmo, uma rara faculdade de extrair delicadas epifanias sobre o amor e todos os afluentes temáticos que o entornam. Ou seja, ainda as possibilidades do que ficou conhecido e estabelecido, muita vez equivocadamente, com a rubrica lirismo amoroso. Reparemos um bom exemplo do que acima me refiro, encontrado no livro Sagrações ao meio (1993): antropofagicamente/reclamo as minhas sobras.
Com efeito, várias qualidades são encontradas na poesia de Leontino Filho, que se mostra, sóbria, madura, em rasgos de originalidade e lampejos semânticos, numa linguagem elíptica, elegante, manuseando discretamente o vocabulário regional, sobrepondo com habilidade os versos parataticamente uns sobre os outros, olvidando o enjambement, desprezando, porém deixando implícita, a gramática do vernáculo na consecução do signo poético. Bom mesmo é constatar o quanto o poeta se encontra em contemporânea vibração com os modos de sentir das gentes/mentes multifacetadas que perambulam nas vias do presente. Melhor ainda: saber – coisa tão sutil e complexa - articular através da palavra poética o empírico no qual estamos imersos, posto que, mesmo a gente sendo capaz de um distanciamento crítico, como pretendia o poeta Fernando Pessoa, não podemos nos esquivar dos discursos que proferimos, das representações que fazemos das coisas e sobretudo das que somos objetos. Enfim, para não se arrastar muito o que tanto a crítica tem buscado: o isomorfismo entre vida social e expressão estética.
Ora essa, tudo o aí dito só poderia se sustentar por meio de um discurso, no mínimo, diferenciado da prática poética démodé e em voga nas terras brasileiras, cuja palatabilidade ao poético nem sempre se encontra condizente com as formas de agir e sentir atuais. Era só o que faltava. Uma sociedade que detém em seu éthos apenas alguns vestígios do rural, visto que alguns teimam em se ligar ilusoriamente ao “torrão natal”, na qual pipocam fenômenos e gentes já com visão cosmopolita, gostos sofisticados no vestir e no se comportar, sexualidades cambiantes, cosmopolitismo expressado na indumentária e no comportamento, etc; mesmo que sejam uns poucos, permanecer atado a uma ruma de besteiras sobre formas de amar ou de representá-la é, antes de qualquer coisa, ridículo. A arte, como todo mundo sabe de cor e salteado, ao longo da história, sempre salpicou nos cacos encontrados nos monturos das vivências, individuais ou sociais, faces amplamente complexas e ambivalentes do real.
Falava mesmo de quê, eu? Sim, de forma. O poeta Leontino Filho não utiliza em seus versos a capitular maiúscula nem tampouco o ponto final, sugerindo uma dicção solta, moldada num ritmo bem particular. A sugestão que nos imprime é de certa liberdade de pensar, de sentir o seu desejo pelo objeto amado, sem censuras. De outra parte, o discurso poético de Leontino se instaura num registro lírico amoroso de natureza muitas vezes erótica, manifestando-se através de blocos alinhados, como sendo espécies de monólitos, gramaticalmente plasmados numa linguagem coloquial, e que contém qualquer coisa de oracular, tingindo a palavra poética com as forças atávicas de dizeres ressoando afirmações que muito o aproximam de uma vidência.
Na última sessão do livro, “Circulares” - temos a junção, a síntese de Sagrações ao meio, na medida em que as duas formas fixas manuseadas com elegância pelo autor, ao longo da obra, agora retornam numa única página, ou seja, a quintilha na parte superior e o terceto na parte inferior. Cinco e três: números cabalísticos. Os cinco sentidos para usufruir as benesses eróticas do corpo, expressas nos estádios naturais de toda e qualquer coisa: que nasce, que cresce, que morre: as cidades armam/vinganças quase perfeitas/resta o meu vôo.
Numa outra subdivisão do livro, “Vazantes”, avulta em contida dicção, um belo uso da linguagem regionalista, sem, contudo, fazer do seu uso uma espécie de orgulho por deter uma das variantes lingüísticas do português falado no Nordeste. É como se fosse assim uma coisa tão natural que o leitor nem se dá conta. Porém, ao se servir de um vocabulário inerente a uma região desde sempre representada no discurso oficial como algo a ser sempre, consciente ou não, depreciada, mesmo que seja apenas para aparecer diante do outro, num puro movimento de insegurança, ou seja, a tão batida história de perpetrar o contraste para escamotear o velho sentimento de inferioridade tão inerente à sociedade brasileira, sim, mas de tudo isso resta, o benfazejo serviço de decantar tal linguagem, obrigando os dicionários a codificar nos seus verbetes usos de um costume emanado de uma diferença. Todo mundo sabe o que Graciliano Ramos, ao fazer uso de palavras restritas a uma região, prestou ao vernáculo, enquanto sistema aberto, enriquecendo a língua ao manuseá-la na literatura, lugar já estabelecido como sendo o objeto de estudo de filólogos e interessados na linguagem.
Enfim, o tratamento literário dado pelo poeta Leontino Filho à temática do amor no livro Sagrações ao meio pode ser assim iconificado: despojamento lingüístico e profecia, a serviço de uma erótica refinada, bem de acordo com a maneira de vivenciar os relacionamentos interpessoais mais íntimos consoante as usanças nos últimos tempos.
Carlos Newton Júnior, poeta
Poeta
bem menos cerebral e filosófico que Fernando Mendes Viana, mas não menos intenso
e habilidoso, Carlos Newton Júnior, em Poeta em Londres (editora Bagaço), mantém
suas linhas de força próximas (apesar do lirismo algo bandeirano) na dicção de
João Cabral de Melo Neto e do cordel nordestino (as heranças ibéricas). Poeta de
qualidades incomuns, também ficcionista e ensaísta, ele se inscreve na tradição
com a simplicidade e a clareza de um clássico. Ritmicamente complexa, sua poesia
ainda é marcada por um contraponto entre o popular e o erudito. Assim, no mesmo
passo que explora a “estrofe sonora dos repentes”, realiza poemas em homenagens
a Rimbaud (“a vida é breve, breve é o poema / e todo o seu mistério, breve ainda
/ o som que se articula junto às rimas / e o valor ilusório dessas gemas // em
que puseste as mãos de ser maldito”) e a Eliot (“Na esquina dos poetas”, que sem
favor algum está entre os mais belos poemas brasileiros do nosso tempo), à
pintura de Canalleto e a uma alegoria de Bronzino, imagem que o remete a outras
imagens, azul que o remete a outros azuis, ou seja, ao soneto famoso de Carlos
Pena Filho.”
O Poema
O poema “Na Esquina dos Poetas” está no livro Poeta em Londres, editado pela Edições Bagaço, do Recife, em 2005, e lançado na Bienal Nacional do Livro de Natal do ano passado. É o oitavo livro (entre poesia, ficção e ensaio) de Carlos Newton, que tem apenas 40 anos de idade, é arquiteto, professor universitário (UFRN) com mestrado e doutorado em Literatura, citado em várias universidades do continente e com trabalhos publicados em revistas especializadas do Brasil e em antologias na Espanha e Portugal:
“Este,/cujos ossos estão sob os meus pés, / é T.S.Eliot, que foi poeta / nascido na América, londrino / de espírito, de corpo e coração. / Cantou como ninguém esta cidade / irreal, tão cinzenta, tão sem vida, / sob a fulva neblina da manhã. / Seus olhos, que deixaram o Mississipe, / já não existem sob a terra fria, / e assim os seus cabelos, os seus músculos / e tudo mais que nele se movia. / Foi mestre em seu ofício, mas aqui, / entre tumbas de reis e de rainhas, / onde as letras não valem mais que as armas, / restou-lhe tão-somente este pedaço / de chão para conter sua lembrança / e acomodar, quem sabe, os ossos gastos. // Aqui, / nesta chamada esquina dos poetas, / neste último sítio de encontros, / já não há mais intrigas literárias / e os poetas relaxam em sossego, / sem disputar os louros com seus versos. // Eis-me aqui, brasileiro neste inverno, // passando sob os arcos e vitrais, / sentindo frio entre essas pedras frias / (os ossos não transmitem mais calor) / enquanto espero que essa chuva passe. // Inda nem era abril, o mais cruel dos meses, / e a multidão fluía sobre a ponte: / entre tantos, os tantos japoneses / com suas filmadoras, suas câmeras, / querendo registrar o menor gesto, / o mais pequeno esgar de uma cidade / imóvel e habitada por fantasmas. // De um lado a outra dessa grande ponte / caminhavam, e eu também, sem pressa, / fluía a pensar em outros rios, / os rios de Recife e o Potengi. // Então eu ri pensando em Natal, / a Londres nordestina dos mitômanos, / em seus falsos poetas, seus jornais, / e ainda rindo eu fui até o metrô / e abandonei Westminster para sempre.”
(por André Siffrin in jornal Coluna de WM, do jornalista Woden Madruga, publicado no jornal TRIBUNA DO NORTE de domingo, 12 de março de 2006)
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Gato
Leveza, pulo um quase vôo mas porém sem as asas do que noutro instante comeu.
O sempre-alerta: estar e não estar mais. O lúcido instante entre o eterno e o fugaz.
esmo em grave momento de fome à beira do prato
bebe o leite à margem da fuga, do salto. |
Peixe
O peixe e sua inquietação de faca
no rio vivo corpo frágil que ele (já que viver é ferir) a todo instante ataca
o rio banhado de sol e seus reflexos minúsculos pontos de ouro e prata. |
Pantera
Jamais a vi verdadeira — o hálito quente e o frio olhar — para além das rijas barras que mundo nenhum retém:
encontrei-a nas palavras precisas, que são ferro e pedra, angue vivo, força oculta,
veludo quase matéria.
E eram tantas as panteras nas diversas traduções do mesmíssimo poema. Em todas, o vulto negro
num silêncio ditirambo com seus coturnos de seda. |
Isaías Ribeiro, artista plástico
Nasceu
no Rio de Janeiro/RJ em 1964 e veio para Natal muito novo. Uma de suas primeiras
incursões foi
pintar nus, trabalho ao qual se dedicou no final dos anos 80.
Hoje, investe na liberdade e na ironia determinada pela arte pop. Aqui, estamos no mundo da comunicação, da velocidade, da ironia, da história em quadrinhos, da segmentação de temas, objetos, situações e sentimentos.
O mundo, hoje, é um fragmento discursivo, um detalhamento tenso e poético onde o gráfico e o pictórico se complementam numa linguagem atual e instigante. Isaías fala de um mundo ainda sem forma, de uma idéia cuja concretude formal ainda não se estabelece.
Arruda Sales, artista plástico
José
Antônio Arruda Sales nasceu em São José do Mipibú. Autodidata, seu trabalho era
inspirado na literatura de Cordel. No início de sua carreira trabalhava com
tinta acrílica, dando aos seus quadros um colorido forte e vibrante. Atualmente
trabalha com cores chapadas e busca expressar em suas telas o sagrado e o
profano.
Arruda já participou de varias exposições, foi o único potiguar a participar do Dicionário de Art Nais, livro que foi lançado na Itália e traduzido para quatro idiomas. Uma de suas telas encontra-se no Museu Trembje, na antiga Iugoslávia, país que reconheceu o trabalho do artista, condecorando-lhe com uma comenda.
"Arruda Sales penetra, num mundo que a maioria dos espectadores conhece apenas superficialmente, mas que ele, arguto observador da condição humana, conhece muito bem os travestis, ou melhor, as "Drag Queens" que caricatamente nos transporta para o imaginário dos palcos, onde as luzes ofuscantes não podem esconder os dramas de cada um. Não que o pintor tende a a esconder isso, com sua pintura alegre mais dramática. Ao contrário, ele trata seus personagens como se fosse saltimbancos soltos no picadeiro da vida, exuberantes, provocativos, transmitindo toda a gama de ilusão, para ele e para nós, do artista que cada um é em potencial. Homem vestido de mulher? E dai ? Não é uma tradição milenar? Por que então não captá- los pela pintura como o faz corretamente Arruda Sales?"
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Carlos Alexandre, cantor e compositor
| Foto: Ana Amaral/DN |
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| Durante sua trajetória artística, Carlos Alexandre colecionou sucessos. Morreu no auge da carreira, num acidente automobilístico |
Distante do centro urbano natalense, há 40 anos nascia a Cidade da Esperança. Como o próprio nome guarda em seu significado, surgia um aglomerado populacional que trazia consigo a fé, o desejo do lar, até pelo fato de ser uma experiência pioneira do modelo de moradia para a população de baixa renda. Naquele momento Natal recebia de presente o primeiro conjunto habitacional da América Latina. Conjunto que abrigou e ainda acolhe nomes que fizeram e a continuam construindo a trajetória da capital potiguar. Entre eles está Pedro Soares Bezerra, nome pouco conhecido do grande público, já que na vida artística ele era batizado como Carlos Alexandre, cantor que morreu em um acidente de carro em 1989.
Ídolo popular, ninguém poderia representar melhor o bairro. Carlos Alexandre era um retrato das pessoas de Cidade da Esperança. Humilde, simples, mesmo depois que alcançou o sucesso e passou a ter remunerações mais expressivas não trocou Natal pelo Sudeste, centro da arte e cultura do país, muito menos deixou o bairro que o recebeu quando ele saiu do município paraibano de Jacaraú, onde morava com a família que o adotou aos 2 anos de idade, e veio para a capital potiguar que lhe presenteou com os caminhos da carreira musical. Durante 10 anos ele morou na Esperança, somente nos três últimos anos de vida fixou residência no Jardim América e depois na Zona Norte.
Sucesso
Nascido em Nova Cruz, ele
alcançou o sucesso aos 21 anos, talvez tenha sido um dos
norte-rio-grandenses que mais brilhou na música nacional. Deixou
200 composições gravadas em três compactos e 14 LPs (sendo
dois LPs e quatro CDs uma homenagem póstuma feita pela gravadora
RGE). Com esses trabalhos ganhou 15 discos de ouro e um de
platina. Para se ter uma idéia da dimensão de seu sucesso, a
viúva do cantor, Maria Solange de Melo Bezerra, 48 anos, até
hoje, 17 anos depois de sua morte, sobrevive com os recursos
provenientes dos direitos autorais que ainda recebe,
a música dele ainda é tocada e regravada. Em todo o
Brasil se escuta Carlos Alexandre. Recebo direitos autorais até
de rádios de Portugal.
Solange foi sua companheira durante toda a sua carreira e também a sua maior incentivadora. Eles se conheceram em 1976, quando Carlos Alexandre, aos 19 anos, veio para Natal fazer uma cirurgia e não mais voltou para Jacaraú, ficou morando e trabalhando com os irmãos de criação que eram comerciantes. a casa do irmão dele ficava na rua da casa da minha mãe, na Cidade da Esperança. Ele trabalhava como vendedor na padaria de um dos irmãos. Nessa época já gostava de cantar, seus ídolos eram Elvis Presley, Roberto Carlos e Evaldo Braga. A noite ele ia para frente da minha casa e ficava cantando e tocando violão. Juntava muita gente, recorda-se Solange.
Relacionamento
Nessa época ele já estava interessado em namorá-la, mas Solange tinha um outro namorado. Até que na virada do ano de 76 para 77 meu namorado não apareceu. No dia 1º de janeiro ele me disse que havia feito a música Arma de vingança para mim e nós começamos a namorar. Ela conta que aos poucos foi modificando as roupas, o cabelo e o jeito do namorado, como o intuito de levá-lo até a casa do então radialista Carlos Alberto de Sousa, aquele era um ano de campanha, Carlos Alberto ia ser candidato a vereador e gostava de ajudar muito aos pobres. Na primeira vez que fomos até a casa de carlos Alberto, Carlos Alexandre ficou nervoso. Insisti e fomos novamente até a Rádio Cabugi, onde Carlos Alberto tinha um programa. Lá ele cantou Canção de um paralítico e Arma de vingança. Carlos Alberto adorou e na hora já fizeram um trato, no qual Carlos Alexandre cantaria na campanha e se ele ganhasse, Carlos Alberto se comprometia a levar todos os artistas que o ajudaram para gravar um disco em São Paulo, afirma. Até então ele era conhecido como Pedrinho, passou a utilizar o nome artístico de Carlos Alexandre por sugestão de Solange, eu tinha um afilhado com esse nome e achava lindo. Fiz a sugestão e ele gostou.
A campanha foi vitoriosa e o trato foi cumprido. Em janeiro de 1978 Carlos Alexandre junto com Gilliard, Edson Oliveira, entre outros artistas embarcaram para São Paulo, para gravar seus discos pela RGE. Carlos Alexandre gravou um compacto que vendeu R$ 100 mil cópias. O cantor foi então chamado pela RGE para gravar seu primeiro LP, ainda em 1978, Feiticeira, que o consagrou vendendo R$ 250 mil cópias. Esse disco também foi gravado em castelhano. Carlos Alexandre viajou o país com seus sucessos, Feiticeira, A ciganinha, Vá pra cadeia, entre tantos outros. Em algumas viagens Solange, que casou-se com o artista em fevereiro de 78, o acompanhava, ia sempre quando ele ia gravar. Ele vinha para Natal para gastar o que ganhava fora. Dizia que Natal era a sua cidade, o lugar para descanso e para lazer, lembra.
Acidente
Para Solange o cantor era uma pessoa simples, amável, não guardava mágoa de ninguém e tinha muitos amigos. Ela ainda conta que o artista era um pouco namorador, mas logo justifica a atitude do marido, também bonito e gostoso como era. Além de companheira, Solange ainda era a responsável por confeccionar as roupas de seus shows. Juntos eles tiveram três filhos: Germina de Melo Bezerra (através do nome da filha ele homenageou a sua mãe de criação), 27 anos; Carlos Alexandre de Melo Bezerra, 24 anos; e Carlos Adriano de Melo Bezerra, 21 anos. Hoje o filho do meio, que é conhecido como Carlos Alexandre Júnior, está seguindo os passou do pai e vem fazendo diversos shows pelo interior do Nordeste.
O cantor morreu em 30 de janeiro de 1989 em um acidente de carro entre São José de Campestre e Tangará, quando voltava de um show em Pesqueira, em Pernambuco. O velório ocorreu no ginásio de esportes de Cidade da Esperança e o enterro, que reuniu milhares de fãs foi no cemitério de Bom Pastor, no dia 31 de janeiro. Segundo matérias publicadas na época, ele foi sepultado ao som da multidão cantando Feiticeira. Até hoje sinto muito a falta dele. Ainda guardo a camiseta suada que ele vestia antes de viajar. As últimas palavras que disse a ele foram: leve um pedaço do coração e deixe um pedaço do seu, recorda-se.
(texto publicado no jornal DIÁRIO DE NATAL em 12 de fevereiro de 2006, ocasião em que completou 17 anos da sua morte)
Principais músicas:
A Ciganinha
Arma de Vingança
Canção Do Paralítico
Cartão Postal
Encontro Por Telefone
Feiticeira
Final De Semana
Índia
Já Troquei Você Por Outra
Mulher Igual A Minha (Só Em Outra Geração)
Mulher Traiçoeira
Por Que Você Não Responde
Se Você Fosse Por Mim
Senhor Delegado
Sertaneja
Timidez
Vá Pra Cadeia
Letra da principal música de Carlos Alexandre.
Feiticeira
Feiticeira, feiticeira
Feiticeira é essa mulher
Que por ela gamei
Feiticeira, feiticeira
Eu não posso negar o feitiço
Que ela me fez
Eu vivia sozinho, sem ter um alguém
Para me consolar
Vivia sofrendo, tristonho da vida
Somente a chorar
Ela me apareceu
E com apenas um toque de sua magia
Acabou com a tristeza
Acabou com a tristeza
Me trazendo alegria
Feiticeira, feiticeira
Feiticeira é essa mulher
Que por ela gamei
Feiticeira, feiticeira
Eu não posso negar o feitiço
Que ela me fez.
Nadelson José Freire, fotógrafo
Nasceu em Natal em julho de 1936, estudou
no colégio Marista e depois no Atheneu. É engenheiro formado
pela Escola Politécnica da Universidade Católica de Pernambuco
e casado com a artista plástica Nilzete Moura Freire.
Após a conclusão do curso de engenharia, teve sua primeira atividade profissional integrando a assessoria técnica do CED - Conselho estadual de Desenvolvimento, em 1961.
No mesmo ano, foi admitido como engenheiro do DER, Departamento de Estradas de Rodagem do Rio Grande do Norte.
A partir daí, ocupou diversos cargos na área der planejamento rodoviário até sua aposentadoria.
Nos anos de 1964 e 1965 ministrou aulas de desenho topográfico na ETFRN, atual CEFET.
Em 1970, foi aprovado em concurso público para professor da UFRN - Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Iniciou-se em fotografia aos 12 anos de idade, ainda nos tempos de fotos em preto e branco. Amante da natureza, ainda adolescente, graças às férias em cidades, praias e engenhos do interior, vindo em seguida, as viagens ao alto sertão de pernambuco, a serviço do Departamento de Açudagem, bem como as viagens proporcionadas pelo DER, a todas as regiões do nosso Estado, teve a oportunidade de fotografar paisagens, nascer e por do sol, marinhas, salinas, vegetação do semi-árido nordestino, açudes, cerâmicas, carros de bois e a decadência dos engenhos de açúcar.
A tudo isso, a oportunidade de conhecer grande parte do Brasil, bem como países europeus, norte, centro e sul americanos, veio a somar a experiência na arte de fotografar.
A partir daí, dedicou-se à natureza, fixando-se em fotografar flores, frutos, folhagens, árvores floridas e secas, troncos e raízes, utilizando-se das técnicas da macrofotografia, para utilização como modelos para pintura à óleo e aquarela pela sua esposa e os alunos do ateliê de artes plásticas do Espaço Cultural Claude Monet.
Implantou o arquivo fotográfico e elaborou dezenas de edições de material gráfico com as principais obras executadas pelo DER/RN.
Fotografias publicadas em livros:
- Natal que eu vi, Lauro Pinto, 1971
- Mulheres do sertão, Maria Conceição de Góes, 2001
- Neblina na vidraça, Anna Maria Cascudo Barreto, 2005
Premiações em concursos:
- Jornal A Ordem/Fotocine Clube do Rio Grande do Norte
- Museu do Açúcar - Recife/PE, 1970
- Premio Luciano Carneiro/Diário de Natal, 1971
- Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte, 1972
- Diário de Natal/Fuji - Secretaria Municipal de Turismo de Natal, 1976
- Revela Brasil/Yazigi Internacional, 1996
- Espaço Cultural Cascudinho, 1998
Mostras:
- Restaurante Xique-Xique
- Justiça Federal do Rio Grande do Norte
- Cemitério Morada da Paz
- Amoarte - Natal Shopping
- Infraero/Aeroporto Augusto Severo - Natal/RN
- Núcleo de Arte e Cultura da UFRN - Galeria Conviv'Arte
Carlos Fialho, escritor
Publicitário e jovem
escritor, Carlos Fialho é o criador do projeto Jovens Escribas,
que está conseguindo com que os novos escritores publiquem suas
obras, discutam a entrada no mercado e viabilizem suas
produções.
Carlos Fialho e o projeto Jovens Escribas:
"Quando eu estava escrevendo meu primeiro livro, percebi que não havia muitos escritores jovens por essas bandas."
Resolvi então pesquisar pelo Rio Grande do Norte se havia outros da minha idade, produzindo literatura. Descobri então, diversos autores, todos muito talentosos e produzindo literatura de qualidade em diferentes estilos.
Convidei então outros 3 escritores além de mim e combinamos de lançar uma coleção composta por um romance, um livro de crônicas, um livro de poesias e um livro de contos. Além disso, ficamos de dar continuidade ao projeto e lançar uma edição com uma coletânea de autores locais, incentivar outros jovens a também publicarem e diversos outros projetos que pretendemos viabilizar.
Nascia assim, em 2004, o Projeto Jovens Escribas e o seu primeiro lançamento "Verão Veraneio - Crônicas de uma Cidade Ensolarada", foi o livro de estréia.
Agora, em 2006, dois anos depois, temos nosso projeto aprovado na Lei Djalma Maranhão e o patrocínio da Art&C. Com isso, está sendo possível a publicação de nossa coleção: Em janeiro, lançamos o romance "Lítio" de Patrício Júnior; em fevereiro sai "É Tudo Mentira! Histórias Inverídicas de um Autor Falso e Fingido.", crônicas de Carlos Fialho; em março é a vez dos "Contos Bregas" de Thiago de Góes; e em Abril, publicaremos "Escolha o Título" com as poesias de Daniel Minchoni.
É tudo mentira!
"É Tudo Mentira! - Histórias inverídicas de um autor falso e fingido".
Crônicas de humor cotidianas, divertidas e, em muitos momentos, hilariantes. "É Tudo Mentira!" narra as situações mais absurdamente inusitadas que se possa imaginar. Personagens loucos, desajustados, neuróticos, canalhas e inescrupilosos, capazes de tudo para divertir os leitores.
A orelha do livro Verão, Veraneio, é de Nei Leandro de Castro:
De repente, este verão
O cronista registra o seu tempo como um fotógrafo. E entre os dois há outra afinidade: o cronista, como o fotógrafo, corre o risco de ser injustiçado, de ser pouco lembrado pela posteridade.
Claro que há que fotógrafos que se imortalizam com suas câmeras, sua sensibilidade, seus registros de paisagens, rostos, acontecimentos. Mas o êxito de um Robert Capra, um Cartier-Bresson, um Sebastião Salgado deve equivaler ao esquecimento de milhares de bons profissionais.
Na literatura, cronistas como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, para citar apenas dois grandes exemplos, ainda são incluídos no nosso registro, fazem parte da nossa lembrança, mas com uma freqüência que vai rareando à medida que o tempo passa.
Por que então os cronistas ainda teimam em queimar neurônios para nos oferecer com mais ou menos brilho o resultado de sua ingrata tarefa? Claro que as publicações diárias ou semanais estimulam essa prática, assim como tornam obrigatória a profissão do fotógrafo.
E por que, pergunto, um
jovem autor resolve publicar suas crônicas que vêm sendo
escritas há alguns anos?
Carlos Fialho, respondendo ou não a minha pergunta, me
surpreende. Primeiro, por sua precocidade. Segundo, porque as
suas crônicas são bem escritas, docemente sacanas,
inteligentes, e nos dá a certeza de um escritor, que não há de
ficar nos limites da crônica.
Os textos deste livro têm a idade e a linguagem de um garotão bem resolvido com ele mesmo. Os temas gírias regionais, porres, rock, vídeo-game, paqueras, Natal, cinema, carnatais, carnavais, etc. são tratados com graça e ironia, leveza e fino senso de humor.
Ao fim da leitura de Verão veraneio, eu pensei: mais cedo ou mais tarde, Carlos vai tentar o romance. Em seguida, ele me confirmaria: nos seus planos há lugar para tentativas de ficção. Parodiando o mestre Guimarães Rosa, eu lembraria que escrever um romance é muito dificultoso. É preciso uma disciplina de monge com soldado prussiano. É preciso conviver com certos personagens que se rebelam e não vão para onde os seus criadores mandam. É preciso saber que mais difícil do que concluir um romance é encontrar uma boa editora. Mas, acima de tudo, é preciso tentar.
Carlos Fialho, cronista, precoce, publicitário, devorador de livros, autor das crônicas deliciosas deste Verão veraneio, vai chegar lá. Esse garoto vai longe.
Natal, julho de 2003.
Textos de Carlos Fialho:
Galado
Morar longe de Natal nos faz sentir saudades de muitas coisas. Saudades da família, das gatations, dos amigos( principalmente dos canalhas, patifes e vigaristas), das praias (Pirangi, Ponta Negra, Redinha, Pipa), da Ribeira, das cachaças e tudo mais. Porém, tem uma coisa da qual tenho saudades mais do que tudo. Tem um detalhezinho que nos faz uma falta imensa: falar galado.
Falar galado nos faz sentir
mais natalenses. É como se redescobríssemos nossas raízes cada
vez que dizemos tão nobre palavra do nosso vocabulário
regional. Aliás, galado é só nossa. Um natalense que nunca
falou galado não é digno de confiança. Não o chame para
almoçar na sua casa e, em hipótese alguma, deixe este enganador
sair com sua filha. Os cariocas não falam galado. Isto é, em
lugar nenhum do mundo além da grande Natal se fala galado. Se
você sair daí e cumprimentar alguém com um singelo e bem
intencionado Digaí, galado, invariavelmente ouvirá
um Como é que é rapá? como resposta. Eles
simplesmente não compreendem a beleza etimológica que define
nossa identidade de natalenses.
Aliás, na entrada de Natal deveria haver uma placa com os
dizeres Bem-vindos, Galados. Os grandes cidadãos
natalenses receberiam a condecoração da Ordem dos
Galados e os poetas potiguares escreveriam odes a este belo
vocábulo.
Muito antes de toda esta celeuma em torno de remédios genéricos, nós já tínhamos inventado a primeira palavra genérica da língua portuguesa com conotações positivas e negativas, agradáveis e desagradáveis. Galado combina com tudo:
Para dar parabéns.
-Ei, hoje é meu aniversário.
-Parabéns, galado.
Para definir algo ruim.
-Como é que foi o jogo de society?
-Foi a pelada mais galada que eu já joguei.
Para denunciar um canalha.
-Aquele cara é legal?
-Não. Na verdade é um galado.
Ou o contrário.
-Aquele cara é legal?
-É. Ele é muito engraçado. É um galado.
Grandes teses seriam escritas por historiadores locais sobre a importância da palavra galado na construção da sociedade num contexto geopolítico do pós-guerra. Os lingüistas potiguares abordariam todas as variantes do termo e o impacto sobre o nosso vocabulário.
Galado é uma dessas palavras que nos dá prazer de falar. É quase indescritível. Só sabe quem já falou. Ah, como é bom falar galado! É uma palavra tão... tão... Sei lá, tipo, galada mesmo.
Verão veraneio
Está chegando o Verão. A melhor época do ano. É tempo de ir à praia, de deixar de lado os afazeres, de tomar muita cerveja, de comer ginga com tapioca e de esquecer de como se liga um computador, deixando deliberadamente centenas de e-mails sem resposta. Você volta a praticar esportes de cujas regras já nem recorda direito, como frescobol ou comer caranguejo. É perto do Verão que você lembra daqueles seus amigos que estão prestando vestibular, pois não quer nem saber de ficar de fora do circuito de churrascos. O veraneio começa oficialmente com o reveillon, que todo mundo passa em Pipa, e só termina quando a população de Natal volta do carnaval de Olinda. É um período curto de mais ou menos dois meses, mas tanta coisa acontece nessa época que parece bem mais. É uma verdadeira instituição em nossa cidade. Um período sagrado como o Ramadã para os muçulmanos ou a greve para os professores universitários.
O ponto de partida para esta época do ano já revela seu caráter mais que insólito. A virada de ano já é por si só um acontecimento. Você não quer perder nada da curtição em Pipa, então aluga uma casa por 5 dias para poder aproveitar o antes, o durante, e o depois, com direito às noites na Calangos e a queima de fogos à beira mar. Contando assim parece uma maravilha, mas faltou dizer que a casa que você alugou não passa de um quarto pobremente equipado com cozinha e banheiro no qual mal cabem 6 pessoas, mas que você terá que dividir com outras 15, entre elas 5 mulheres com TPM que gritam o tempo todo. No banheiro falta água, a comida acaba no primeiro dia (inclusive os 273 pacotes de Miojo) e a única cama da casa fica em frente a um quadro de um homem nu pintado na Praia do amor e você, por motivos óbvios, se recusa a dormir nela. Com isso resta-lhe uma rede na área. Pelo menos é ventilado, você pensa. Só que a casa é tão escondida que o vento não consegue chegar. As muriçocas, no entanto, comparecem em peso e trabalham a noite toda. Elas trocam de turno com as moscas que pegam no batente de manhã bem cedo, transformando o rotineiro ato de dormir numa missão mais difícil que a Odisséia de Ulisses.
Ah, mas sempre tem a noite de Pipa. Delícias gastronômicas, muita bebida, agito e mulheres doidinhas para te dar. A comida fica caríssima nessa época, assim como a bebida e a entrada das boates. As mulheres são em sua maioria patrícias que não te darão a menor bola porque você não tem um Vitara com um super-som, não luta Jiu-Jitsu nem é diretor de bloco de Carnatal. Quando chegar a hora de ir embora você está uma pilha de nervos e tem a certeza de que nada pode piorar seu humor. É aí que você abre o porta-luvas do carro e lembra-se que trouxe dezenas de camisinhas mas acabou não usando nenhuma. Mesmo assim, no ano seguinte você será o primeiro a se entusiasmar em vir a Pipa no reveillon. Mas com a condição que aluguemos a mesma casa e com a mesma galera. Ano passado foi bom demais!
O veraneio é a melhor época para se paquerar. Por isso a maioria dos casais que termina seus namoros o faz antes ou durante o veraneio. São índices altíssimos comparados apenas aos obtidos às vésperas do Carnatal. Qualquer coisa é motivo para acabar o namoro.
- Amanda, não vou mais para o show do Falamansa com você. Vai ter Planet Hemp na Ribeira e é pra lá que eu vou.
- Tudo bem, não tem problema.
- Como assim não tem problema? Nós estamos combinando ir para o forró faz duas semanas. Eu não posso mudar os planos assim de uma hora para outra. Isso seria uma cafajestagem com você.
- Ah, mas não tem nada. Se você quer mesmo ir pro outro, vamos.
- Não. Não está certo. Eu não vou permitir que alguém aja com tanta desconsideração com você. Mesmo que esse alguém seja eu. Eu entendo que você queira acabar o nosso namoro.
- Mas, mas eu não...
- Eu vou sofrer, mas vou entender. Você está certíssima. Eu não mereço uma jóia como você. Não agindo dessa forma.
- Mas...
- Vou para a praia tentar me recuperar. Fui.
Todas as praias ficam cheias, se transformando no ambiente perfeito para conhecer as gatations. Sempre existem aqueles que, apesar de estarem veraneando em suas casas de praia, se recusam a chegar perto do mar por temerem que suas protuberantes barrigas de chope acabem com suas reputações, tirando deles qualquer chance com as gostosas da praia. Ah, as mulheres também têm problemas parecidos, mas no caso delas a grande vilã se chama celulite e não é causada pelos chopes, e sim, segundo os cientistas, pelas caipirinhas, tangeroskas e Kapetas.
Para esses grupos que não paqueram durante o dia há os shows que pipocam nesta época do ano, e os chamados points noturnos. Estes são barzinhos ou até sorveterias nas quais se pode encontrar lindas garotas de 12 anos, ficar puto e voltar pra casa revoltado com toda aquela pirralhada na sua praia. Porém nem tudo está perdido e o bom malandro sempre encontra as gatations e musas. Pois é, todo veraneio que se preze tem que ter uma musa. Existem certas exigências para a escolha. A musa tem que veranear na mesma praia que você e deve ser escolhida por uma comissão de amigos incumbidos da missão de fazer justiça à mais formosa e linda garota da área.
- Bem, vamos começar a votação. Eu voto na morena que tem a casa em frente ao cajueiro.
- Eu voto na galeguinha Shirley.
- Eu voto em Luanda.
- Essa não vale. Veraneia em Tabatinga.
- Mas está sempre por aqui.
- Não interessa. Escolhe outra.
- Tá bom. A galeguinha Shirley, então.
- Galeguinha Shirley.
- Galeguinha Shirley.
- Ok, Galeguinha Shirley escolhida a musa do Verão 2002 por 4 votos a 1.
Outra regra importante sobre as musas é que elas devem ser inacessíveis. Musas foram feitas para serem admiradas, não paqueradas. É proibido ser apresentado e inadmissível que se chegue junto de uma. Certa vez, o Aldenir quase foi expulso da turma por ter ficado com uma potencial musa. Seu argumento, porém, foi bastante convincente.
- Vocês votariam numa musa que tem coragem de ficar com um de nós?! Francamente!
Contudo, todo este clima de azaração não significa que você tenha que namorar a primeira gatation que caia na sua conversa mole. Começar um namoro em pleno veraneio é como ir a um aniversário e recusar-se a comer coxinha de camarão, casquinho de siri, brigadeiro e até mesmo o bolo, por manter-se fiel à empada. Não que isso seja pecado ou contra a lei, mas há os que sustentem que deveria ser. O governo poderia muito bem assinar um decreto proibindo o início de namoros do começo do ano até o carnaval. Apenas casais que já namorassem no mínimo dois meses anteriores a esse período poderiam continuar juntos. E mesmo assim receberiam incentivos para dar um tempo durante o veraneio. Medidas como essas impulsionariam o turismo no RN, pois, estando cheio de solteiros, o estado ficaria bem mais animado e a população mais disposta e saudável.
Bem, mas o fato é que as autoridades não tomaram nenhuma providência a esse respeito e você, idiota como é, resolve começar a namorar justamente agora. E para piorar a situação, a menina tem casa na mesma praia que você e vai fazer marcação cerrada. Vocês caminham juntos na praia à noite. Ela olha para cima admirando as estrelas. Você olha para baixo procurando um banco de areia qualquer para deitarem e se atracarem o quanto antes. Ela suspira e pensa como é ótimo estar com o amado à luz do luar naquele cenário maravilhoso. Você pensa nas camisinhas (as mesmas que não usou em Pipa) e se dá conta de que as esqueceu em casa. Neste momento passa uma estrela cadente no céu. Ela: - Que lindo! Você: - Que merda!
Casais de namorados durante o veraneio são adeptos das mais ousadas e insanas aventuras. Eles se juntam a um grupo de amigos e lançam-se em impensáveis desafios de War, Imagem e ação e Perfil. O War por exemplo, exige nervos de aço. São momentos de muita tensão e puro stress que têm início quando os participantes se desentendem a respeito das cores dos seus exércitos favoritos e prossegue com discussões coléricas nas quais os jogadores, com dedos em riste, acusam-se mutuamente de estarem roubando no jogo. Já ouvi falar de um rapaz que tentou estrangular um amigo de infância por causa de uma distração.
- Os dados amarelos são pra defender! Entendeu?! Pra defender, porra!
- Argh... Gasp... So... Socorro!
O jogo invariavelmente acaba quando um dos jogadores, furioso por estar perdendo, arremessa o tabuleiro pelos ares e acusa todos de estarem conspirando contra ele. Mas não sem antes que alguém deixe cair no chão a sua caixinha de exércitos, espalhando peçinhas coloridas por todo o ambiente e matando o Yorkshire Terrier da dona da casa que morrerá engasgado com uma peça de dez exércitos. Como se vê, os jogos de tabuleiros são os esportes mais radicais do verão.
Um pouco menos arriscadas, mas igualmente emocionantes são as peladas na praia. Sem trocadilho, por favor. Refiro-me às informais disputas de boleiros a beira mar. Toda praia tem dois times tradicionais. Um é composto por veranistas. Estes utilizam uma bola dente de leite, traves de madeira ou canos e seguem regras próprias em suas peladas como escanteios, faltas, impedimentos, tempo técnico, arremessos laterais e uniformes oficiais. O outro time é o dos pescadores. Eles preferem um estilo de futebol mais simples, sem faltas, com 4 cocos substituindo as traves e mais um no lugar da bola. Na equipe dos pescadores sempre tem um zagueiro chamado Pedrão que tem como função garantir que os adversários acabem sem pernas (literalmente) a partida. Quando os dois times se enfrentam o saldo é sempre o mesmo. Placar de 10 x 0 para os pescadores, 4 veranistas com hematomas nas pernas, 1 com uma estranha pegada roxa do Pedrão na altura das costelas e um outro com o pé fraturado por ter tentado chutar a bola. Os derrotados prometem revanche para a tarde seguinte, mas em geral não conseguem chegar perto de Pedrão e sua turma e passam o resto do veraneio escondidos atrás de seus Rai-bans ou dentro de suas Pajeros.
Mas o esporte mais popular do verão ainda é o levantamento de copo. Ele ocorre nos mais diversos ambientes e circunstâncias, desde as simples barracas na praia aos sofisticados e caros bares nas avenidas; dos churrascos festivos aos quais você não foi convidado mas comparece mesmo assim, aos luais com violões e tochas acesas em mansões perto do mar aos quais você também não foi convidado mas também comparece. As modalidades então, são inúmeras e atendem a todos os gostos. Cana quando se tem pouco dinheiro, uísque quando se consegue entrar num lual chique, e cerveja, muita cerveja. Heineken no Circo da Folia, Bohemia na Blackmonday e todas as marcas nos churrascos. A pratica desse esporte acompanhada da dieta adequada proporciona um grande desenvolvimento do pânceps e do búcheps.
É no veraneio que você costuma receber uma grande quantidade de parentes de segundo, terceiro e quarto graus. Gente que você nunca ouviu falar, mas que chega inconvenientemente para ocupar vários cômodos da sua casa. Uma família formada por um casal, quatro filhos buchudinhos e chorões, uma babá, um cunhado e um papagaio que fica o tempo todo assobiando o hino nacional. Eles insistem que você os acompanhe nos principais pontos turísticos da cidade. Querem conhecer de tudo. Fazem questão de ouvir as explicações de Tom do Cajueiro e seus comparsas sobre a ilustre árvore, passear de buggy nas dunas de Genipabu (com emoção), parar no mirante dos golfinhos até verem um (fato que pode demorar dias) e conhecer os agitos bacanas da cidade como o Zás-Trás e o Forró com Turista. É a morte.
Por fim chega o carnaval. É hora de partir para a convidativa e sossegada Olinda. Terra de um povo simpático como Seu Lunga e vizinha de Recife, onde os esgotos a céu aberto renderam-lhe a alcunha de Veneza brasileira. Olinda exige uma cuidadosa preparação. Você finalmente acaba o namoro que havia começado no veraneio, compra uma fantasia para sair às ruas e aluga uma casa na parte mais movimentada. É claro que você trouxe muitas camisinhas (aquelas de Pipa, lembra?) e espera finalmente usá-las depois de muito tentar. Porém, você acaba o carnaval exausto, queimado de Sol, sem dinheiro (foi assaltado), sem ter comido ninguém e ainda vê sua ex-namorada semi-nua sendo carregada por um homem-aranha, um Bin Laden e um smurf para dentro de uma casa aos gritos de Comida! Comida!. E olhe que ela não parecia exatamente contrariada.
Quando você se dá conta o veraneio finalmente acabou. Você já pode começar a trabalhar e cuidar dos afazeres deixados de lado. É tempo de abrir a caixa de e-mails, revelar as fotos e voltar a ter uma vida normal. Ginga com tapioca e caranguejos só muito de vez em quando. Luais, churrascos de vestibular, peladas com pescadores, visitas de parentes, jogos de War, shows no Circo da Folia ou Blackmonday, só no próximo verão. É ou não é a melhor estação do ano?
Karlos Koolidje, fotógrafo
Erasmo Xavier, cartunista
Então arte é
reproduzir servilmente o que vemos?
Desenhar é comparar?
Claro que não. Arte é agressão, é arrojo.
Erasmo Xavier, 1929.
Erasmo Xavier nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1904. Era filho do artífice Joaquim de Paula Filho e Alice Xavier de Paula. Ainda menino, após a separação dos pais, seguiu para o Rio de Janeiro. Aí viveu até voltar para sua terra natal para tratamento, após ser acometido de tuberculose.
Na juventude teve o privilégio de vivenciar a efervescência da Semana de Arte Moderna de 1922, movimento que marcou a ruptura do domínio estético europeu sobre a cultura brasileira. Erasmo teria começado suas atividades artístiticas profissionais como cenógrafo, no Atelier Raul de Castro, que funcionava no galpão do Teatro Recreio, fazendo cenários para a Companhia de Manoel Pinto.
Mas Erasmo desenvolvia várias outras atividades. Ele foi, além de cenógrafo, fotógrafo, chargista, ilustrador, caricaturista, cartazista e articulista.
Com o seu talento em
evidência logo Erasmo chegou a colaborar com as mais respeitadas
revistas da época, tais como: O Malho, Fon-Fon, Careta e
Tico-Tico, ao lado de gigantes da caricatura brasileira como J.
Carlos e Raul Pederneiras.
Fica evidente, por sinal, a
influência do estilo destes grandes mestres em sua obra. Traços
limpos e bem definidos, contrastes acentuados, e elegância na
composição do desenho.
A Cigarra
A Cigarra foi uma revista que, apesar de ter uma vida curta com seus cinco números publicados, marcou época na imprensa do Rio Grande do Norte, tratando de temas como literatura, música, cinema, esportes e sociedade. Nela, Erasmo teve a oportunidade de imprimir seu estilo modernista, como define Anchieta Fernandes, em Quadrinistas Potiguares (1973):
"Com Adriel Lopes ele viria a dar uma feição satisfatoriamente modernista à Cigarra, fazendo capas à la Tarsila do Amaral e caricaturas a la Di Cavalcanti, sem deixar de incorporar contribuições próprias de estilo à formação do coeficiente gráfico do traço caricatural na imprensa do nosso Estado. (...) Se salientar que, no meio das ilustrações daquele tempo, cheias de vinhetas ornamentais cercando até mesmo as fotografias, Erasmo se destacava pelas tonalidades fortes renovadoras, massas de contrastes do claro-escuro a marcarem os rostos caricaturado de personalidades conhecidas na cidade".
Na opinião abalizada de
Anchieta, Erasmo teria todas as condições de realizar
excelentes histórias em quadrinhos, dada a sua capacidade de
compor cenas, como pode ser visto em suas ilustrações:
"Uma sua ilustração para Poemas de Engenho - um poema
de Jayme Wanderley publicado no Nº 2 da Cigarra - dá bem a
idéia de como ele teria se tornado um ótimo criador de um clima
para histórias em quadrinizadas situadas no Nordeste, se
àquelas alturas a nossa imprensa ilustrada contasse com uma
equipe decidida como o GRUPEHQ (Grupo de Pesquisa de Histórias
em Quadrinhos). E se tomou para a primeira capa da Cigarra o tema
aeronáutico, teria tido também facilidade em seguir rumos de
narrativa quadrinizada se tivesse conhecido a série de
histórias em quadrinhos à que o impulso da aeronáutica deu
origem na Itália, ou sos heróis aviadores que nasceriam e se
multiplicariam nos anos seguintes, sempre baseados em heróis
verdadeiros de provas aviatórias reais".
Infelizmente Erasmo morreu muito jovem. A tuberculose, a temida "peste branca", ainda sem cura naquela época, interrompeu sua brilhante carreira. Erasmo morreu em 23 de abril de 1930, entretanto, sua obra está devidamente registrada, embora não plenamente reconhecida, e o seu pouco tempo de vida serve, contudo, para ressaltar a grandeza do seu talento que, nos seus quase 26 anos de existência, foi demonstrado de forma mais do que suficiente.
Textos publicados no site do chargista Ivan Cabral
A seguir, reportagem publicada na revista Preá por ocasião do centenário de nascimento de Erasmo Xavier.
O centenário de um precursor
Quinze anos depois de ter escrito Erasmo Xavier O elogio da loucura, pela Editora Clima, a jornalista Rejane Cardoso não tinha mais praticamente nenhuma esperança de recuperar alguma peça ou documento do acervo de Erasmo Xavier de Paula, artista plástico, cenógrafo, caricaturista, ilustrador e fotógrafo amador, que em outubro deste ano completará cem anos de nascimento.
Em agosto, quando já começara a pensar numa exposição em Natal, para marcar a passagem do centenário de Erasmo, o acaso colocou na sua frente, numa feirinha de antiguidades, na Praça Benedito Calixto, em São Paulo, a revista O Cruzeiro, nº 16, de 1933, cuja capa é assinada pelo artista plástico potiguar. Erasmo Xavier não pôde ver essa capa impressa. Estava morto desde abril de 1930. Viveu pouco, mas intensamente. E o seu legado não se perdeu graças à tenacidade e paixão da sobrinha Rejane Cardoso, que com ajuda de amigos e parentes recuperou não apenas parte do acervo, mas, principalmente, a história fascinante e trágica deste que pode ser considerado, na opinião do jornalista Vicente Serejo, o pioneiro da arte moderna no Rio Grande do Norte.
Segundo Rejane, a primeira pessoa que teve faro jornalístico para perceber a importância de Erasmo Xavier, foi o marido (Vicente Serejo). Ela conta que no início da década de 70, o tio Otacílio Cardoso descobriu alguns artigos assinados pelo artista plástico no jornal A República. Entusiasmada com a descoberta, começou a busca por originais de desenhos, fotos e manteve conversas com quem o conheceu.
Em 1986, foi ao Rio de Janeiro pesquisar na Biblioteca Nacional. Só na sexta-feira, último dia programado para a busca, depois de ter passado página por página (umas dez mil) das quatro revistas dos anos 28, 29 e 30, é que encontro duas charges assinadas claramente, na revista O Malho. Só não chorei com vergonha da bibliotecária! Junto com alguns desenhos encontrados na mala que vovó (a mãe de Erasmo, Alice Xavier de Paula) guardava debaixo da cama, começamos a ir montando o quebracabeça, relembra Rejane.
O quebra-cabeça montado resultaria no livro Erasmo Xavier O elogio do Delírio, relato instigante, recheado de substancial iconografi a, sobre a curta e aventurosa vida de Erasmo, um homem sempre bem humorado, elegante, irreverente e boêmio que só bebia leite.
Erasmo Xavier de Paula nasceu em 31 de outubro de 1904, na Av. Rio Branco, na Ribeira, filho de Joaquim de Paula Filho e Alice Xavier de Paula. Foi o primeiro de quatro filhos. Iniciou os estudos no Grupo Escolar Augusto Severo, onde foi contemporâneo do expresidente da República Café Filho. Por volta de 1917, partiu para o Rio de Janeiro, para estudar interno. Nos anos em que passa no Rio, trabalhou, em 1922, na grande exposição que comemorou os cem anos de independência; Encenou o préstito dos Pierrots da Caverna (sociedade carnavalesca); participou da encenação de Bonecas da Avenida, no Teatro Recreio; excursionou com a Companhia de Teatro e Teéris Tan-Tan; Colaborou nas revistas O Malho, onde publica charges de página inteira, Fon-Fon, Careta e Tico- Tico. Foi amigo do grande caricaturista J. Carlos, com quem trabalhou em O Malho.
Em 1928, chega em Natal para se cuidar de uma tendência para a tuberculose, por recomendação do doutor Clementino Fraga. Inicia colaboração para a revista A Cigarra, que seria lançada em novembro daquele ano por Adherbal França, mesmo mês e ano de lançamento de O Cruzeiro. A Cigarra durou apenas cinco números e tinha seus clichês feitos no Rio e em São Paulo. Ele fez as capas de todos os cincos números e a maior parte das ilustrações. Escreveu também artigos e um conto O Agente nº 192. Em 1929, ornamentou o Aero Clube de Natal para o carnaval, com o tema A caverna de mephistófeles.
Por coincidência, 1928 é o ano em que o escritor modernista paulista Mário de Andrade visita o Rio Grande do Norte, tendo como cicerone Luís da Câmara Cascudo. Tanto Rejane quanto Serejo acreditam que houve contatos entre Mário de Andrade e Erasmo Xavier. As fotos são uma evidência. O potiguar tira fotos de Mário na visita que este fez as ruínas do engenho de Cunhaú. Numa das fotos, Mário aparece ao lado do crítico Antônio Bento. Erasmo também faz um retrato de Mário, em nankin sobre papel, de 27,2x23,9 cm. Esse encontro, na opinião de Serejo, gerou uma influência na formação da personalidade artística de Erasmo, voltada para o Modernismo.
Erasmo Xavier é uma figura intrigante dentro do que poderíamos chamar um estado de espírito modernista, advindo das aspirações da Semana de 22, ressaltou o crítico Marcos Antônio de Moraes, em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, em fevereiro de 1991. Ainda segundo o crítico, a produção de Erasmo em O Malho, A Cigarra e no jornal A República, mostra um espectador crítico e interessado nas inovações que o teatro ia assimilando.
Espírito modernista esse entranhado tanto na obra quanto na vida cotidiana de Erasmo, como bem provam o uso do gramaphone e da máquina fotográfica, objetos que simbolizavam, no início do século passado, a modernidade por excelência.
Visionário, em artigo publicado em 1929, em A República, com o título Anúncio é dinheiro, destaca a importância do cartaz para a publicidade e decreta: Hoje, por assim dizer, a fórmula tempo é dinheiro podia ser substituída por esta outra: anúncio é dinheiro.
No Rio, também trabalhava para casas comerciais como a Mesbla, na época natalina, fazendo desenhos de Papai Noel. Para Vicente Serejo, Erasmo bem que poderia ser o patrono da publicidade potiguar. Outros artigos como Teatro é cenografia, Teatro nacional, A cenografia e o teatro moderno, mostram um artista antenado com a vanguarda. Arte é agressão, é arrojo, decreta em um dos seus textos.
O perfil que o irmão Genival Xavier traçou de Erasmo coincide com os relatos dos contemporâneos e as fotos deixadas pelo artista plástico: Erasmo era um tipo alto, moreno, de olhos negros, comunicativo. Vestia-se elegantemente (paletó e chapéu palheta) e torcia pelo Botafogo. No Rio tinha uma vitrola e gostava de música popular brasileira. Gostava de ser fotografado e de fotografar sua noiva Áurea e seus amigos. Tinha uma máquina caixão 6x6 e mais adiante uma kodak fole 33mm. No dia 25 de março de 1930, às 16 horas, o caricaturista partia do Rio de Janeiro para fazer sua última viagem para o Norte. Sua partida foi de navio, embarcou no armazém nº 12. Estavam presentes sua noiva Áurea, sua irmã Eymar com seu esposo Paulino Ribeiro, Raul de Castro, o poeta e escritor Olegário Mariano e eu. Foi uma partida triste. Suas últimas palavras foram: Breve eu volto. Deu um beijo na noiva e pouco depois o navio partia.
Jamais voltaria. Viria a falecer em Natal, de tuberculose, em 23 de abril de 1930, menos de um mês depois de ter deixado o Rio de Janeiro, aos 26 anos incompletos. Erasmo Xavier, que desapareceu tão prematuramente na madrugada de ontem, era uma das mais lindas esperanças da arte norte-rio-grandense, registrou nota publicada em A República, em 24 de abril de 1930. O que era absolutamente verdadeiro.
Em maio de 1948, Câmara Cascudo resgata, em uma de suas Acta Diurna, que publicamos na íntegra, a grande figura humana e artística que foi Erasmo Xavier.
Acta Diurna
Câmara Cascudo
(Especial para o Diário de Natal 4 de maio de 1948)
Há dezoito anos passados falecia nesta cidade do Natal um jovem desenhista de talento, Erasmo Xavier de Paula. Lembro muito desse desenhista de grandes olhos negros, vivaz, lépido, alegre como uma andorinha, cheio de sonhos e de planos, andando depressa, sempre armado com sua kodak, batendo instantâneos, encantado com a vida, com a luz, com a natureza.
Adherbal de França dirigia uma revista elegante, A Cigarra, que voou e cantou cinco vezes em 1929. Era cheia de fotografias, os contos e colaborações ilustradas. Cada número teve capa exterior com alegoria onde vivem elementos da paisagem ambiente, sugestiva, leve, original. Todos esses desenhos eram de Erasmo Xavier.
No Rio de Janeiro trabalhava para os jornais e revistas, tendo não apenas mercado para a sua produção, mas a simpatia e admiração e procura dos editores.
Tinha um traço fino, airoso, de suprema elegância, com um alto senso decorativo e ornamental. Era um sabedor de equilíbrio e da ciência da cor. Sabia colorir, combinando, ajustando os efeitos, contrastes, complementos, antagonismos.
Adoecendo, Erasmo veio para Natal, descansar, retemperar-se, trabalhar num ritmo menos vivo. Adherbal de França ensaiava A Cigarra. Erasmo ficou imediatamente solidário. Foi o ilustrador dessa linda revista, ilustrador dedicado, teimoso no auxílio enamorado da tarefa que escolhera.
Num Carnaval encarregou-se do salão do Aero Clube e encantou-o. Pela inspiração modernista, pelo arrojo das cores, pela disposição das massas, pelo inusitado do conjunto, o trabalho era magistral. Ninguém o superou. Mas o desenhista, decorador, viveu depressa. A reserva vital esgotava-se como um comburente precioso e rápido na queima orgânica para manter a chama mais alta e luminosa.
Na agonia Erasmo apenas via cores, movimentos, leis, princípios estéticos. Nunes Pereira dizia-me que o jovem desenhista falava, entrando para a morte: Este vermelho não arde como devia, é preciso um azul claro, doce, esses verdes estão desmaiados, esse amarelo deve ser ouro vivo... Devia estar diante de uma imensa tela, do tamanho do firmamento, riscando, marcando o quadro, tendo uma estrela em cada mão.Morreu a 23 de abril de 1930. Em outubro completaria vinte e seis anos...
Referências Bibliográficas:
Erasmo Xavier - O Elogio do Delírio, de Rejane Cardoso e Quadrinistas Potiguares, de Anchieta Fernandes
Manoel Dantas, escritor e pesquisador
Ah, que maravilha seria se dessem valor às
palavras dos visionários! As facilidades da chamada vida moderna
- que envelhece a cada instante - chegariam mais rápido e muitos
problemas poderiam ser evitados. Melhor que um visionário, só
mesmo um visionário bem humorado, desses futuristas, no sentido
mais casto da palavra. Nada de previsões catastróficas e
profecias assustadoras, mas soluções para as dificuldades
existentes e as que ainda estão por vir.
Manuel Gomes de Medeiros Dantas era assim. Para ser considerado normal deveria estar vivendo sua juventude agora e não no final do século XIX. Nascido a 26 de abril de 1867, em Caicó, interior do Rio Grande do Norte, Manoel - ou Manuel como você poderá achar em alguns textos - foi advogado, juiz, educador, jornalista, político e precursor dos estudos de folclore em seu estado.
No volume I de Patronos e Acadêmicos (referente à Academia Norte-Riograndense de Letras), Veríssimo de Melo diz que Manoel, na juventude, foi um revoluciário. Abolicionista e propagandista da República. Defendeu com ardor suas idéias na tribuna popular, fazendo conferências e divulgando seu pensamento na imprensa.
Algumas vezes utilizando-se das descrições de Juvenal Lamartine, que o conheceu de perto e muito o admirava, Veríssimo enfatiza o bom humor e a força de vontade fora do comum do caiocense. Ainda estudante, não podendo comprar O Direito das Cousas, de Lafaiete, resolveu o problema copiando à mão, os dois volumes da grande obra.
As breves descrições de Manoel Dantas como jornalista, jurista, educador e estudioso das tradições populares encontrados no livro de Veríssimo de Melo merecem ser lidas na íntegra: Como jornalista, - declara Lamartine, - foi a mais completa organização jornalística que o Rio Grande do Norte já possuiu. Dirigindo A República, tudo fazia, desde o editorial ao noticiário estrangeiro, muitas vezes inventando greves de padeiro em Madri, para suprir necessidades da paginação, nas oficinas. Deixou nesse aspecto, delicioso anedotário.
Depois de formado, no Recife, em 1891, foi promotor e logo juiz substituto seccional. Cedo, porém, procurou outros rumos, que mais se coadunavam com a sua personalidade. Exerce a advocacia com desembaraço, pois possuía cultura jurídica, gostava da tarefa e tinha a vocação de servir. Por isso, muitas vezes foi explorado pelos seus correligionários, que não lhe retribuíam os serviços profissionais.
Foi educador avançado para a época em que viveu. Durante vários anos, dirigiu a Instrução Pública no estado, introduzindo o ensino profissional agrícola. Foi o primeiro mestre a dar lições de lavoura mecânica, acrescentando as vantagens da adubação das terras, seleção de sementes, rotação e mecanização dos trabalhos do campo.
Pioneiro dos estudos das tradições populares no Rio Grande do Norte, foi o primeiro a recolher e valorizar, na imprensa, os contos, crenças, lendas, superstições, velhos costumes. Era conversador extraordinário de graça e repentes, contando coisas na voz do povo, imitando expressões, atitudes, gestos dos outros.
Fato marcante na vida de Manoel Dantas foi sua conferência no Salão de Honra no Palácio do Governo, a 21 de março de 1909. Cobrando ingresso dos espectadores, falou sobre Natal daqui a cinquenta anos. Muitas das então extraordinárias previsões se realizaram.
Publicou trabalhos jurídicos, Lições de Geografia, um estudo sobre a origem dos nomes dos municípios do Rio Grande do Norte e vários ensaios, reunidos depois de sua morte sob o título Homens de Outrora.
Faleceu em Natal, a 15 de junho de 1924.
(In Memória Viva)
Escreveu "O Rio Grande do Norte"; "Denominação dos Municípios", além de Três Ensaios sob a designação de "Homens de Outrora"; "Thomas de araújo" e "Padre Joaquim de Almeida castro - Frei Miguelinho, Traços Bibliográficos", conforme consta da Segunda Nota Explicativa, datada de junho de 2001, do autor, seu neto, Edgard ramalho Dantas; do livro "Homens de Outrora", editado pelo Sebo Vermelho, segunda ed., lançado pelo filho Dr. Osório Dantas, em Natal, agosto de 2001.
Todavia, a maior impressaõ de impacto do seu acervo cultural, foi sem dúvida a Conferência pronunciada no salão nobre do Palácio do Governo, em 1909, intitulada "Natal D'Aqui a 50 anos". Em tal palestra ele faz previsões maravilhosas e impressionantes em relação à evolução da Cidade-Presépio. O que mais impressionou foi de ter feito a previsão da telavisão - "em telinhas luminosas", em 1909, quando tal invenção do gênio humano começara a fazer as primeiras experiências em meados da década de 20, uns 15 anos adiante, conforme dados de Asimov, Isaac, 1993 - "Cronologia das Ciências e das Descobertas" e da Internet (doc. junto), duas fontes fidedignas.
Tal fato revela ter sido manuel dantas de um dom extraordinário o da Premonição!
Talvez o único da História do Rio Grande do Norte e raro em qualquer parte do planeta em possuir essa dádiva excepcional, o de ter revelado as maravilhas da Premonição.
O seu nome foi escolhido para patrono da cadeira n.26, da Academia Norte-riograndense de Letras.
Trecho da conferência "Natal D'Aqui a 50 anos":
"(..) Nos hotéis e cassinos, teatros ao ar livre, servido pelo telefone e a fotografia à distância, exibem telas luminosas, as óperas e outras peças de efeito que a esta mesma hora entusiasmam as casas de espetáculo de Paris, Londres e Nova York."
(In Os notáveis dos 500 anos, Jurandyr Navarro - Natal, 2002)
Rosa de Pedra, banda
Rosa de Pedra é o encontro
de universos musicais... traz em si as propostas rítmicas e
harmônicas de cada integrante, num espaço onde a música não
reside em Estados, limites continentais, mas em estados de
vida...
A leveza e o peso, o sacro e o profano, o concreto e o lúdico, o pós e o moderno, o vazio... O passear entre um e outro, a natureza, as contradições, o inusitado, a poesia...
O nome do grupo Rosa de Pedra remete ao primeiro livro de Zila Mamede editado em 1953, no movimento pós 45, tempo de rupturas e explosões interiores. A identificação com as passagens, o despir-se das formalidades, o olhar lançado ao que ainda pode ser visto, como síntese de respostas para ao que a humanidade representa nesse início de século. Como disse Carlos Pena Filho sobre este livro: Não falarei de coisas, mas de inventos e de pacientes buscas no esquisito. Além de outros significados: a própria rosa de pedra que (é parte do nosso meio natural) compõe a natureza humana e a dualidade dos substantivos rosa e pedra, que apresentados juntos nos possibilitam muitas reflexões.
Em julho de 2002, músicos de influências e referências mais diversas se encontraram, nasceu então uma nova proposta musical. Reuniões, pesquisa, ouvidos abertos, experimentos, inspiração e respiração geram as primeiras composições do grupo. Letras e canções do cotidiano, dos detalhes da vida, da inquietação humana, num grande caldeirão, temperados com maracatu, samba de roda, coco de roda, ciranda, partido alto, jazz, rock, sem que seja nenhum desses estilos... Ritmos e melodias que brotam de guitarras, percussão, baixo, vozes e violino, resultando numa sonoridade que entende o regional como universal. Depois de quase um ano trabalhando as canções num laboratório diário, em abril de 2003 acontece a primeira apresentação pública no evento Rua da Cultura, realizado pela UNP - Universidade Potiguar. A resposta e aprovação do público e da crítica local foram imediatas. Participando de eventos como CIENTEC 2003-UFRN (Natal), participação no show do grupo Jaguaribe Carne na Feira Nacional de Arte (João Pessoa-PB), Fórum Social Potiguar, apresentações pelo interior do RN, e outros palcos...
Na primeira edição do
Fórum Cultural Mundial, junho/2004, a banda Rosa de Pedra foi a
representante do Rio Grande do Norte na área da música. Um show
no pavilhão de eventos do Anhembi, SP, sede do evento, onde sua
música fez valer a ciranda potiguar com mãos do mundo todo.
As composições buscam caminhos entre suas poesias e novas sonoridades, com referências musicais como Chico Science, Jorge Benjor, Janis Joplin, Chico Antônio, Sarah Vaughan..., e referências poéticas como Fernando Pessoa, Iracema Macedo, Zila Mamede, Clarice Lispector, Nietzsche... e o que está no mundo dos músicos do grupo. No repertório de shows Rosa de Pedra apresenta ...do interior ao mar..., apresentado na Casa da Ribeira e no Teatro Alberto Maranhão no Circuito Cultural Banco do Brasil e FRAGMENTOS DO CAOS um dos 15 selecionados do COSERN MUSICAL 2005.
Os integrantes:
Ângela Castro voz e
guitarra
Bianca Maggi percussão
Betão baixo
Concita Alves percussão
Michelle Ferret percussão
Tiquinha Rodrigues violino
Um universo que não se compõe apenas de verso. Um verso sonoro, inverso do óbvio, do interior que não existe apenas no sertão, do mar que não se acaba na esquina do continente. Rosa de Pedra, um interior que se estende pelas fronteiras do mítico, um mar que transborda em poesia e sonoridade para traduzir o homem como ser universal, agente filosófico e lírico desse mundo moderno em que o céu não tem estrelas porque a cidade apagou...
Rosa de Pedra
Lírica combinada com batuques marcantes, resultando num som autoral e fora dos rótulos. ... O grupo conquista aqueles que gostam de som com personalidade, dançante e ao mesmo tempo com boas letras.
Ruy Rocha Jornal de Hoje Natal/RN
Contatos: rosadepedra@terra.com.b
Vingt-un Rosado, professor e escritor
Neste dezembro de 2005
Mossoró e o Rio Grande do Norte perderam um dos ícones da nossa
cultura popular. Fundador da Coleção Mossoroense com mais de 3
mil títulos lançados, Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, é
considerado um dos maiores, senão o maior de todos os
incentivadores de talento já vistos por aqui. Esse registro foi
a forma que encontramos de homenageá-lo pelo que representou.
Abaixo, trechos da biografia de Vingt-un publicados pelo jornal O MOSSOROENSE, um depoimento de Deífilo Gurgel e uma sinopse de uma entrevista feita com ele pelo jornal O ESTADO DE SÃO PAULO. Divirta-se e conheça o homem.
D'O Mossoroense:
Da infância à condição de homem da cultura
Nascido em Mossoró aos 25 de setembro de 1920, Jerônimo Vingt-un Rosado Maia teve uma vida dedicada ao desenvolvimento da cultura e da educação de sua terra natal.
Sua formação educacional começou em 1928, quando iniciou o primário estudando com Egídia Saldanha e Delourdes Leite, para depois concluí-lo no Colégio Diocesano Santa Luzia, em 1931.
Na mesma escola cursou o ginasial entre os anos de 1932 e 1936. Após essa fase iniciou o curso de pré-engenharia no Ginásio Osvaldo Cruz, em Recife, nos anos de 1937 a 1938.
Formou-se em Agronomia pela Escola Superior de Agricultura de Lavras (atual Universidade Federal de Lavras), Minas Gerais, em 1944.
Após a formatura, em 23 de janeiro de 1945, iniciou o sonho de trazer o ensino superior para Mossoró num projeto que resultaria na instalação da Escola Superior de Agricultura de Mossoró (Esam) Vingt-un foi reservista do Tiro de Guerra 42, Mossoró, em 1936, e soldado padioleiro pela Cia Escola de Engenharia, de 1944 a 1945, em Lavras.
De volta a Mossoró iniciou a luta para a criação daquela que viria a ser a Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), em 1967, hoje Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA).
Antes desse feito, iniciou um outro marco de sua vida com uma progressiva prioridade: a Coleção Mossoroense, que começou a funcionar em 1949 e se tornou uma das maiores editoras de títulos do país, com destaque para as mais de 700 obras que analisavam a temática da seca.
Na luta contra o maior flagelo do sertão nordestino, a seca, ele deu outras duas contribuições, uma delas a luta para a construção das adutoras que viriam a abastecer Mossoró e a descoberta do petróleo que ajudou no progresso da cidade.
No campo da educação, Vingt-un foi professor de matemática e estatística, tanto no ensino ginasial quanto no superior.
Laços familiares
Filho de Jerônimo Rosado, patriarca de uma família de políticos, irmão do ex-governador Dix-sept Rosado, do ex-deputado federal Vingt Rosado e do ex-prefeito Dix-huit Rosado, Vingt-un enveredou para o campo da ciência e da cultura erudita, com destaque para a educação.
O nome Vingt-un, 21 em francês, explica-se pelo fato de o pai dele haver numerado a maioria dos filhos.
Casado com a assistente social América Fernandes Rosado Maia, desde 1947, ele trouxe a esposa de Minas Gerais para morar em uma casa de taipa na pedreira de São Sebastião, atual Governador Dix-sept Rosado, uma cidade até então sem energia elétrica e nenhum conforto.
Com ela, Vingt-un teve cinco filhos, dos quais quatro ainda vivos: Maria Lúcia, Dix-sept Rosado Sobrinho, Lúcia Helena e Leila Rosado. O quinto filho, Vingt-un Júnior, morreu em 1950, uma semana após o nascimento.
Amor pela escrita surgiu nos anos 40
Em 1940, com apenas 20 anos, Vingt-un ingressou na carreira de escritor, publicando a primeira história de sua cidade. O trabalho recebeu o título de Mossoró com tiragem de 500 exemplares e custou pouco menos de três contos de réis a dona Izaura Rosado Maia, mãe do novo literato e futuro "feiticeiro das letras", como certa vez o chamou o médico e escritor Raimundo Nunes.
A literatura passara a circular em suas veias quatro anos antes da estréia. O garoto se impressionara com uma série de palestras ministradas pelo saudoso historiador Luís da Câmara Cascudo, durante a semana da pátria de 1936, no Colégio Diocesano Santa Luzia (CDSL). Cascudo ali estava a convite do padre Jorge O'Grady de Paiva, diretor do Diocesano.
No seu livro, o jovem historiador se reportou a uma das passagens mais importantes da história mossoroense, a libertação antecipada dos escravos, como sendo uma "conjuração tipicamente maçônica, gerada e tornada vitoriosa dentro dos muros sagrados da Loja Maçônica 24 de Junho.
Baseado nos fatos que apurou acerca da abolição, em 1953 Vingt-un pediu ao irmão Jerônimo Vingt Rosado Maia, então prefeito do País de Mossoró, que homenageasse a 24 de Junho com uma placa alusiva ao episódio. Vingt, sensível à importância da participação daquela loja no movimento libertário, presenteou-a com uma placa de bronze na qual está escrito: "Aqui nasceu a Abolição".
Além de inspirador, Câmara Cascudo foi também incentivador de Vingt-un. Certa feita, escreveu uma carta ao novo discípulo fazendo-lhe elogios e encorajando-o a vencer as dificuldades. Dizia Cascudo: Você está na obrigação de ser o primeiro mossoroense que levantará do olvido (tirará do esquecimento) as tradições de sua grande terra. Vá para diante e não desanime com as ironias dos pessimistas, espécies de lesmas que nem andam e nem admitem que outros andem.
"Vingt-un, além do intelectual importante que ele foi, principalmente pelo trabalho de valorização de nossa cultura com a Coleção Mossoroense, foi muito mais. Eu o considero um homem do maior valor pelo seu comportamento dentro da sociedade. Um homem simples, sem maiores vaidades literárias ou culturais, que, no entanto, produziu o trabalho que produziu. A Coleção Mossoroense é uma maravilhosa publicação de trabalhos de todo o mundo. Ele também escreveu livros importantíssimos para a História.
Eu tinha por ele a maior consideração porque nas minhas andanças pelo RN, fazendo minhas pesquisas sobre cultura popular, entre 1985 e 1995, sempre que eu precisei de alguma coisa, eu ia lá na Esam e ele me dava. Já me deu gasolina, pernoite do motorista que andava comigo. Foi uma pessoa de destaque em todas as áreas, não só na cultural"
Deífilo Gurgel, poeta e folclorista
D'O Estado de São Paulo
O que você diria de um homem que toma dinheiro emprestado de agiotas para editar livros que não vende, mas doa? Isso no Brasil, um país onde se vende por ano menos de um livro por habitante e que registra um índice de analfabetismo funcional pessoas incapazes de utilizar a leitura e a escrita para resolver situações do próprio cotidiano de 30,5%.
Jerônimo Vingt-Un Rosado Maia montou assim, com empréstimos de agiotas, colaborações de amigos e vez por outra doações oficiais, a Coleção Mossoroense, a maior do Brasil, com 3 mil títulos.
É um negócio de doido que começou em 1949, conta Rosado, hoje com 79 anos, morador ilustre de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Um homem de juízo não faria isso, brinca.
Dentre os 3 mil títulos da coleção, mais de mil são livros e mais de 700 dedicados à seca. A Coleção Mossoroense é responsável pela maior bibliografia do País sobre a grande praga do Nordeste. É a linha mais importante, explica o criador da coleção.
É uma verdadeira biblioteca sobre a seca, atesta o geógrafo Aziz Nacib AbSaber, professor da Universidade de São Paulo e amigo de Rosado. É quase impossível encontrar textos antigos, como sobre a seca no fim do século 19, mas a coleção do Vingt-Un tem.
Um dos destaques é O Livro das Secas, que reúne estudos antigos e os mais recentes sobre o tema, explica AbSaber.
Dinheirinho emprestado
Muitos dos autores que publicou, Rosado conheceu pessoalmente. Ele promoveu a estréia no prelo de mais de 260 escritores. Rosado conta que até professores universitários de São Paulo, que precisam publicar obras para manter o índice de produtividade, apelam para ele. Mas dinheiro, que seria bom, chega pouco.
Não recebo ajuda da Secretaria da Cultura ou do Ministério, afirma. Dinheiro para a cultura neste País é uma desgraça.
Para financiar suas edições em média de 300 exemplares por títulos , Rosado começa passando o chapéu entre os amigos. Eles doam R$ 10, R$ 20 cada, diz. São pessoas que respeitam a importância da coleção. Quando a verba é insuficiente, ele apela para o inimigo número 1 do brasileiro endividado. Tomo um dinheirinho emprestado de agiotas e dou um jeito.
Recentemente a Sudene doou R$ 18 mil para a Coleção Mossoroense. Com a verba, Rosado diz que pretende reeditar Sesmarias do Rio Grande do Norte.
Os livros não dão retorno comercial, já que são doados. Eles são distribuídos para estudiosos, diz Rosado. Só uma vez por ano, em 25 de setembro, data de seu aniversário, que foi transformada em Mossoró na Noite da Cultura, os exemplares são postos à venda, na loja maçônica Jerônimo Rosado, batizada em homenagem a seu pai.
Vinte e um
Vingt-Un Rosado é o filho mais novo de Jerônimo, um farmacêutico que a partir da sexta criança parece que ficou com preguiça de batizar a numerosa prole e passou a enumerar os descendentes, primeiro em português, depois em francês.
Quando seu Rosado começou a fazer gente tascou esses nomes, conta o caçula, 21 em francês.
Com os mais jovens, o pai nem variava mais o primeiro nome. A partir do 15.º, todos os homens foram chamados de Jerônimo seguido do número correspondente, até Vingt-Un. Cinco mulheres, antes de seu ordinal, receberam o nome da mãe, Isaura. Um dos homens, o nono, também foi chamado Isauro. A família teve ainda um Tércio, uma Maria, uma Vicência, Laurentinos três ao todo, só um deles numerado e uma Laurentina.
O nome nunca incomodou os Rosados. Na escola, a brincadeira era só na primeira semana, conta Vingt-Un. Depois os colegas se acostumavam.
Graças a Jerônimo e ao sucesso político de sua prole o Rio Grande do Norte tem um município hoje com o curioso nome de Dix-Sept Rosado, batizado em homenagem ao 17, que foi prefeito de Mossoró em 1948 e governador do Estado em 1950.
Os nomes ordinais foram passados às novas gerações e já circulam por Mossoró Dix-Sept, Vingt e Vingt-Un Neto.
Uma biblioteca
Vingt-Un Rosado conta que se apaixonou por livros depois de ouvir uma palestra em Mossoró de Luis da Câmara Cascudo. Ele envenenou todo mundo, lembra. Saímos todos apaixonados pela cultura.
Aos 20 anos, Rosado escreveu sua primeiro obra, Mossoró, contando a história do município. A edição foi paga pela mãe. Apesar da paixão pelas letras, o caçula dos Rosados resolveu estudar agronomia. Formou-se em Lavras, onde conheceu a mulher, a socióloga América, de 78 anos.
De volta a Mossoró, ele deu uma importante contribuição à cidade. Convenceu o irmão Dix-Sept, candidato a prefeito, a incluir em seu programa a construção de uma biblioteca.
Com cinco dias de empossado fez, lembra Rosado. Um homem que tinha só o primeiro grau. Segundo o irmão caçula, o prefeito passava todos os dias por lá. A obra foi batizada em homenagem a um sargento da Aeronáutica, Nei Pontes Duarte, que não morava em Mossoró, mas todo mês, assim que recebia a aposentadoria, comprava um livro e mandava para a biblioteca. Ele doou mais de 4 mil, diz o editor.
Seguindo a tradição da família, que já se havia empenhado pela instalação de escolas no município, o Rosado mais novo fundou a Escola Superior de Agronomia de Mossoró, em 1967. Também candidatou-se a prefeito, um ano depois, mas não se elegeu. Foi derrotado por 94 votos.
Não sei se a cidade perdeu, mas eu lucrei, brinca. Prometi na campanha fazer mil obras, eu ia me lascar. A derrota foi para o currículo: candidato derrotado à Prefeitura.
Dois anos depois o editor candidatou-se a vereador. Foi o mais votado da história de Mossoró. Acho que a cidade quis fazer reparação, diz. Exerceu seu mandato de 1973 a 1977.
Nessa época a Coleção Mossoroense entrava em sua segunda fase. Quando começou, em 1949, era patrocinada pela Prefeitura. Em 1974 passou a ser vinculada à escola de agronomia, até 1994, quando passou para a Fundação Vingt-Un, dirigida por um dos cinco filhos dele.
Autores regionais
Nos últimos cinco anos, a Coleção Mossoroense tem editado em média 205 títulos por ano. Quando a obra é importante a tiragem é maior. Algumas chegam a ter 3 mil exemplares, explica Rosado. A coleção alcançou a marca dos 3 mil títulos com Viagem às Raízes, obra de Almino Affonso.
Além da reedição de obras importantes, como os estudos de botânica de Philipp Von Luetzelburg, Rosado orgulha-se de ter dado oportunidade a autores regionais que dificilmente teriam conseguido publicar um livro nas grandes editoras brasileiras.
Ele é criticado porque não seleciona o que é publicado, diz Cid Augusto da Escóssia Rosado, de 28 anos, parente de Vingt-Un Rosado e considerado por ele como um dos expoentes da nova geração de escritores de Mossoró. Cid Augusto considera a crítica injusta. No Brasil não há espaço para novos talentos, diz. Bom ou ruim é relativo, em arte você pode dizer que gosta ou não.
Como exemplo da contribuição de Rosado, Cid Augusto cita a edição das obras de Raimundo Nonato da Silva, um nome que o editor da Coleção Mossoroense cita com a mesma emoção e admiração que o jovem escritor da família. Silva chegou a Mossoró como retirante em 1919. Analfabeto, começou como engraxate. Terminou a vida como juiz. Escreveu 30 títulos na série Minhas Memórias do Oeste Potiguar. Entre os favoritos de Rosado está Memórias de um Retirante, em que Silva conta sua história. Foi o maior memorialista de Mossoró, diz Rosado.
Pé de boi
O inventor da Coleção
Mossoroense mora em uma casa ampla, próxima à escola de
agronomia. Ali está instalada sua biblioteca. Com problemas
auditivos, não fala ao telefone, mas pessoalmente se comunica
sem problemas. É uma pessoa de cultura múltipa,
resume o professor AbSaber.
Em setembro de 1999, quando completou 79 anos, ganhou toda a edição de um jornal em sua homenagem. Empresas instaladas no município, como a Petrobrás e a concessionária da Volkswagen, e as prefeituras da região fizeram anúncios publicitários especiais para a publicação. Sua foto não está em todos porque alguns políticos resolveram aproveitar a ocasião para aparecer. Mas seu nome não faltou.
A criatividade de algumas propagandas é digna do pai de seu 21. A revendedora de automóveis chamou-o de veículo da cultura. Uma loja de materiais de construção descreveu-o como a chave do sucesso da cultura mossoroense. A Granja São Camilo declarou-o mossoroense da gema; a Câmara Municipal, o legislador de nossa cultura; e um posto de gasolina, o carro-chefe de nossa história Há 79 anos abastecendo de cultura os mossoroenses, movido pelo combustível da abnegação.
Famoso pelos generosos elogios que faz a terceiros, Rosado devolve com humildade a homenagem. Sempre teve muita gente inteligente em Mossoró, diz. Mas eu não estou nessa categoria, afirma. Sempre fui pé de boi.
Carlos Humberto Dantas, poeta
Navegar é preciso se nos resta fôlego prendemos o destino (como por rotina), nossas pegadas se repetiam, o princípio e o fim (nos envolviam) como uma noite e seu avesso." CHD.
Carlos Humberto Dantas nasceu em Acari, Rio
Grande do Norte, no dia 21 de dezembro de 1948, mas já aos nove
anos de idade está residindo em Natal, onde cursa o primeiro
grau no Instituto Americano Batista e Instituto Brasil. O segundo
grau é feito no Colégio Salesiano. Transferindo-se mais tarde
para o Recife, em 1968 entrou para a Faculdade de Ciências
Econômicas de Universidade Católica de Pernambuco. A
pós-graduação em Ciências Econômicas será feita na
Universidade Federal de Pernambuco.
A partir do final dos anos 1960 e início dos anos 1970, Carlos Humberto Dantas vai participar de movimentos alternativos de Literatura no seu estado natal e também em Pernambuco, quer através da edição de revistas ou integrando-se ao grupo de Teatro da Universidade Católica de Pernambuco (Tucap). De volta a Natal, continuará a sua militância na área da produção cultural, lançando na Universidade Federal do Rio Grande do Norte o jornal Letreiro e ainda fazendo parte do seu laboratório de criatividade literária.
E foi exatamente através de uma Antologia do Laboratório de Criatividade lançada em 1980, que Carlos Humberto Dantas publica seus poemas, vindo, mais tarde, a sua estréia em livro de poesia individual, Sete canções da terra e outros poemas: este livro, lançado em 1986, havia ganho o importante Prêmio Fundação José Augusto, em 1982.
O poeta, embora se empenhe pela publicação de livros de vários escritores de sua terra, através da editora que fundou em 1995, Lugar dos Argumentos, conserva pelo menos três livros de poesia inéditos, todos eles distinguidos com grandes prêmios locais: Palavra puxa palavra (prêmio Auta de Souza de 1984), A palavra acesa (Prêmio Otoniel Menezes de 1986) e Lumiares ou lugar dos limites (prêmio Auta de Souza de 1992).
Além de sua editora, Natal dos Argumentos, Carlos Humberto Dantas mantém o Jornal Livro, publicação mensal, onde publica textos dos escritores da terra. O número de setembro de 1996 traz peça do poeta e dramaturgo Racine Santos Á luz da lua os punhais, estreiada em Coimbra, Portugal.
Subindo rio acima em direção a uma república sem medo
1. O rio (sereia) e seu canto torto
feito de pedras e cascalhos (como cascavel)
No medo do rio (a sombra é lodo)
onde locas e musgos feito escamas
O rio (faca) e o seu pânico frio
de águas e correntes feito o mar
No rio (que fique eterno) tudo é emblema
como uma foto desbotada uma parede azul
2. Não passam, no rio, os tempos independentes
há sempre um encurtar no dia-a-dia
de caudaloso, hoje o rio, tem a lembrança,
estamos a perder o fio da meada como um todo
O rio só, como a cidade só, e ruas
noturnas, como sobras sobre nós
O rio em nós, como um farol,
ou uma sirene a percorrer entranhas
3. Quem no rio ou no seu leito seco,
navega, tirando da fibra o que lhe acrescenta?
O rio mede em nós (como um república)
o que o rio em nós tem de pátria ou de medo
E sendo o que não medra (como fonte) o rio seco
é lembrança (de um marlongínquo onde navegar)
O rio como fala, e sua retórica de sonhos
ou sua exterior paisagem de margens e cascalhos
4. Que rio é esse, se o ´país não esquece
sua face caudalosa, como um pranto?
Se o rio esconde o seu rosto desfeito,
como o que poderia ser sem ter sido?
De passo em passo, o rio tece sua, fisionomia,
de ilhas prósperas num geral deserto
Se navegar é preciso (nesse leito seco)
estamos a esperar próximos ventos
5. No rio que engravida com o mar
o amor não passa como sonho nem como fato
Somados, são tantos em nós os rios,
que suas margens se alargam (como enchentes)
O rio, no entanto, não vê a cor (da dor)
nem énosso esse espelho (de águas turvas)
Assim, como o rio, levamos nas correntes,
o que de aflição e medo nos contorna
6. O rio de sempre como oc mar (eterno)
onde nada se altera e se renova
O rio preso como currais de peixes,
feito de coisas noturnas e abismos
No rio que não há como uma república sem medo
se perde a estação da águas e o rumo
um rio só passado, como recordação,
ou uma republica velha, que persiste
7. O rio burocrata, ou fina malha,
uma trama só teia, como aranha
O porto rio, ou a estação das idas,
o rio que se despede como imigrantes
Eis o rio interior, ou rio de dentro
aquele que aflora só lembranças
No rio como nó, ou trava,
tudo se estanca como seca ou cólera
8. No rio diário, hoje, ou no rio estória,
já não cabem dúvidas ou senões
não é o rio infinito que nos nutre,
mais parece um rio minguado, como um fio
No rio sem vazantes, ainda estão,
as marcas do plantio e suas trilhas
O não rio, hoje nos absolve,
como desejo oculto ou sonho
9. O rio fúria, isto é, como foi-se,
pela raiz arranca e tudo leva
Não se mede o medo, em suas águas,
nas portas se fecham ou se guardam
medra do rio o que é pântano,
ou lodo, ou o que de mangue nos envolve
O rio acata o que é norma ou regra,
em suas águas se controla o que destoa
(Lumeares ou o lugar dos limites - inédito)
Poema sem título
E a pedra era
como toda pedra
a base da casa
e de outras coisas
que em torno da casa estavam.
A casa poderia ser o centro
como poderia ser o centro
a praça,
e tudo que era praça
e quase tudo que rodeava
era pedra.
Avelino de Araújo, poeta
Prazer - é com esta palavra que Avelino de
Araújo define a sua poesia: Sem prazer eu já teria
desistido. Desde o final da década de1970, entre saltos e
sobressaltos, o poeta se dedica à poesia visual. O início se
deu através da arte-postal. Desde então, Avelino publicou em
mais de duas centenas de revistas, jornais e livros de todos os
continentes, exceto a África. Entre essas publicações está a
Kaldron, revista norte-americana, uma espécie de bíblia da
poesia visual. Dezenas de sites abrigam os belos e instigantes
poemas visuais do poeta. Ao som do disco Sketches of Spain, de
Miles Davis, conversei com Avelino de Araújo, no seu
apartamento, no bairro de Petrópolis. Não conhecia pessoalmente
o poeta, mesmo admirando a sua talentosa produção.
Surpreendeu-me o seu amor e a sua dedicação à poesia.
Em tempos de apagão, após atravessar o corredor semi-escuro que me leva até o poeta, chego ao seu apartamento. Lá está Avelino, todo vestido de branco. Ele é médico, oftalmologista, acabou de chegar do consultório. Portanto, nada distante da poesia, se uma das missões de um verdadeiro poeta for contribuir para que as pessoas vejam com os olhos livres, sem doenças, sem preconceitos. Verdadeiramente. Sofás brancos ambientam a sala, sobre eles estão recortes de jornais, correspondências de vários lugares do mundo são convites para o poeta mostrar a sua poesia em exposições, antologias, revistas... Nas paredes estão, entre outros quadros, algumas reproduções de Miró, uma bela litogravura de Carlos Humberto Dantas, além de trabalhos do próprio Avelino. No coração desse poeta apaixonado pelas artes plásticas estão Van Gogh, Miró, Paul Klee e Jackson Pollock. Um quarteto inquestionável.
Na contramão da tradição, mesmo conhecendo-a profundamente é leitor de Edgar Allan Poe, Dostoievski e Carlos Drummond de Andrade -, Avelino de Araújo publica os seus livros do seu próprio bolso. Desde o primeiro trabalho Antropoemas, publicado em 1980, impresso na Oficina Viva, do artista gráfico Venâncio Pinheiro, o poeta faz questão de se auto-editar, sem pedir ajuda a qualquer instituição pública ou privada, ou seja, prefere ficar distante do poder político e econômico. Talvez seja a sua maneira de dizer não para a desigualdade e injustiças sociais que ele vem denunciando em toda a sua obra. Avelino, sem fazer uma poesia engajada nem panfletária, desnuda e revela a gravidade de um mundo onde a humanidade perdeu o respeito e o amor pelo planeta. O extermínio dos indígenas, o preconceito racial, a matança dos animais a miséria e pobreza dos homens do Terceiro Mundo e os atos irresponsáveis praticados contra o meio ambiente são alguns dos temas tratados com inteligência e sensibilidade pelo poeta. Segundo ele, a sua preocupação com o social se acentuou durante a sua estada, na década de 1980, em Icó, no alto sertão do Ceará: Ser médico no interior do Brasil ensina o que é realmente o Brasil, afirma.
Nascido a 6 de fevereiro de 1953, no sítio Bom Lugar, Município de Patu, filho de Beatriz Avelino de Araújo e Francisco Canuto de Araújo, o poeta, após uma temporada em Caicó, veio aos 7 anos de idade para Natal. Aqui, tornou-se um freqüentador assíduo de bibliotecas, lendo de tudo. A Biblioteca Câmara Cascudo, que estava sendo inaugurada naquela época, foi muito importante para mim. Foi lá que eu conheci os clássicos da literatura, como Os irmãos Karamázovi, de Dostoievski, relembra.
A primeira tentativa no terreno da criação literária foi o conto, sob a influência do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, enveredando depois por algo por ele mesmo chamado de literatura espontânea. Eu sentava diante da máquina de datilografia e as palavras que iam surgindo na minha cabeça eu ia colocando no papel. Parecia uma escrita de um maluco, mas às vezes saíam coisas interessantes..., diz o poeta.
Ex-aluno do Atheneu, Avelino de Araújo cursou a Faculdade de Medicina em Natal, indo, na década de 1980, para o Rio de Janeiro ser médico-residente em oftalmologia, na Santa Casa de Misericórdia. Em 1982, no Rio, projeta e organiza, a Mostra Internacional de Cultura Alternativa, no Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema: Foi um sucesso. Participaram 349 artistas de 34 países, diz o poeta-médico que trocou o Rio por Icó: Em Icó eu não tinha nem ventilador, nem geladeira, depois a minha mãe mandou uma que fazia um barulho terrível,diz rindo. Porém, lá em Icó, mesmo com todas as dificuldades, a poesia não foi esquecida, Avelino adquiriu uma pequena oficina de serigrafia e passou a reproduzir os seus próprios trabalhos. Imprimiu nessa oficina, em 1985, Oficina do Autor o seu segundo livro.
No final da década de1980, o poeta voltou a residir em Natal, onde em 1989 realizou a exposição Acrílicos e Seriográficos, na Galeria da Biblioteca Câmara Cascudo: Gosto muito de artes plásticas, mas a poesia visual é mais fácil conciliar com o meu trabalho de médico. As artes plásticas pedem mais tempo, mais dedicação na fabricação, ressalta Avelino.
Autor do belíssimo Livro de Sonetos, lançado em abril de 1994, único livro no mundo exclusivamente com sonetos visuais, o poeta é autor ainda dos livros O Olho Nu, publicado em 1995, Cellulose Overture, de 1996, e Absurdomudo, publicado em 1997. Avelino de Araújo editou também, de 1993 a 1995, o jornal Poezine, no qual publicava inúmeros poetas visuais.
Mesmo sendo o seu Livro de Sonetos objeto de estudo de tese de doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; mesmo a sua obra fazendo parte de uma tese escrita pelo húngaro Géza Perneczky, sobre os periódicos alternativos entre 1968 e 1988 um deles é a revista Kaldron que publicou em sua capa trabalhos de Avelino; mesmo sendo um dos poucos brasileiros a participar, ao lado de Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, do livro Os anos 90s, uma antologia, organizado e publicado na Rússia pelo intelectual russo Dmitry Bulatov; mesmo tendo sido elogiadíssimo, em público, na década de 1980, pelo poeta norte-americano Dick Higgins, do Fluxus group, o mesmo grupo que abrigou nomes como Yoko Ono e George Maciunas ; mesmo sendo admirado e incentivado por um dos maiores poetas visuais do mundo, o uruguaio Clemente Padín, o poeta Avelino de Araújo lamenta: Existe um preconceito no Brasil e, principalmente, em Natal, de que a poesia visual é uma poesia menor. Enquanto o mundo quase todo incentiva e admira o meu trabalho, aqui em Natal eu sou quase desconhecido como poeta. Talvez seja porque eu não faço lançamento dos meus livros, eu os arremessos, conclui, brincando, Avelino.
O poeta diz também abominar os bastidores da arte. Arte para mim é êxtase total. Sou capaz de passar horas apreciando uma obra de arte, lendo ou fazendo um poema..Mas odeio o marketing em torno de alguns nomes e de algumas obras, não gosto das conveniências literárias, das igrejinhas, dos grupinhos. Não que eu seja puro, mas eu acho que a arte é algo muito belo e bom e que não deve ser corrompido, diz, certeiro, Avelino de Araújo. Ainda sobre os bastidores da arte, prossegue o poeta: aqui em Natal, mesmo no meio dos que fazem poesia visual,há muito desunião, muito ciúme, muita inveja. O que é uma bobagem, porque não há nada mais subjetivo do que a poesia. Alguém pode não gostar do meu trabalho e gostar do de sicrano, e vice-versa, desabafa.
O poeta organizou ainda a Mostra Nacional de Poesia Visual, ao lado de Bianor Paulino, Falves Silva e J. Medeiros, realizada de 30 de maio a 14 de Julho de 1995, na Galeria Convivart da universidade Federal do Rio Grande do Norte. Participaram desse evento quase cem poetas visuais de todo o País.
Durante a nossa conversa- que se estendeu pela noite adentro - sempre ao som de Miles Davis, com Avelino me mostrando o seu acervo de poesia visual, composto por livros, revistas, jornais e cartazes, ficou muito claro que o poeta está chegando à sua maturidade mais agudo, mais claro, mais livre. Coisas que só a poesia e a solidão oferecem.
(Texto de Marize Castro - publicado no jornal TRIBUNA DO NORTE em 5 de agosto de 2001)
Opiniões sobre o poeta:
Marvin Sackner (USA)
Dono e fundador do "THE RUTH AND MARVIN SACKNER ARCHIVE OF VISUAL/EXPERIMENTAL POETRY" ( Miami ).
"Dear Avelino:
Thanks for sending me Abrapalabra. Your work is on the cutting edge of visual poetry. I liked your works in the book very much.
Congratulations on continuing to work at a superior level! "
February 4, 2002
Tarcísio Gurgel (RN)
Professor, contista e ensaísta
O campo da chamada poesia visual, é fértil na Literatura Potiguar, dando curso ao que há pouco clasificamos como tradição. E, as produções, quase sempre, de excelente qualidade. É o caso de, por exemplo, Avelino Araújo que realiza trabalho extremamente importante.
O seu Livro de Sonetos é uma pequena obra-prima, não havendo, aí, limites para as possibilidades de criação desse autor. E de forma mais nítida ressalta o seu talento, quando constatamos, no caso desse livro, que, na apropriação da forma poética consagrada por Petrarca, ele não procede movido por intenções parodísticas. O que ocorre, no incrível conjunto de sonetos visuais, onde as sugestões se originam de campos os mais diversos, ( dos grafismo ao Poema/Processo, daí ao recurso do enquadramento cinematográfico ) é uma recriação semântica dessa forma poética tão desafiadora e amada, que os parnasianos acabaram desgastando pelo uso exagerado. Mas, nem só de sonetos visuais vive a arte poética de Avelino Araújo. Igualmente extraordinária é a sua criatividade no volume intitulado Olho Nu, seleção de trabalhos de um autor, onde ressaltam colagens dentro de uma temática social. Desse poeta se pode dizer, sem temer o exagero, que o seu trabalho se inclui entre as mais importantes do Estado.
(In Informação da Literatura Potiguar - 2001)
Frederico Barbosa (SP)
Crítico literário, poeta ( ganhador do Jabuti ), escritor e ensaísta.
Caro Avelino:
Recebi o seu livro Abrapalabra e fiquei muito impressionado. Com a qualidade + inventividade/crítica dos seus poemas.
Esse e-mail vai para agradecer o presente e para (re)conhecer o poeta vigoroso que você é.
Um abraço grande,
Frederico Barbosa.
Ps.: Gostaria de colocar nas minhas páginas de links.
Dmitry Bulatov (Rússia)
Professor da Universidade de Kaliningrado, poeta, editor da antologia internacional "A point of view Visual Poetry: The 90's. An anthology"
Dear Avelino,
Thank you very much for wonderful works! Im glad to see high level quality works! You are a great poet! In my last letter I thanks for your book and wrote you that I will use your works and materials in our book. We are planing to pressent this book to russian spectator in nov-dec. 97. It will be a large anthology. I will inform you about our finishing steps.
My best regards,
Your Dmitry.
Carta datada de 27/dez/1996
Manoel Onofre Jr., escritor
O jornalista Alexandro
Gurgel, colunista do informativo eletrônico Natal Press, é quem nos apresenta
Manoel Onofre Jr., a quem se refere como "o desembargador
das Letras Potiguares. O texto foi produzido especialmente para o
informativo:
"Manoel Onofre Jr., nasceu a 20 de julho de 1943 em Santana do Matos - RN. Em sua vida escolar passou por Martins, Natal e Mossoró. Diplomou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Natal, em 1967.
Profissionalmente, foi professor de História, repórter e assessor jurídico. Ingressou na magistratura em 1970. Em 1989, foi promovido ao cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte. Aposentou-se três anos depois, em 1992. O chamado das Letras foi mais forte e seu lado de intelectual e escritor venceu o de magistrado.
Seu primeiro livro, Serra Nova, de contos e crônicas, foi editado em 1964. Seguiram-se quase vinte livros, alguns de fundamental importância para a História da Literatura do estado: Chão dos Simples, Ficcionistas do Rio Grande do Norte, Guia da Cidade do Natal, O Chamado das Letras, A Palavra e o Tempo, MPB Principalmente e Espírito de Clã.
Ex-juiz de Direito, aposentado como desembargador, Manoel Onofre Jr. dedica quase todo o seu tempo para a literatura. São 23 livros escritos, entre ficção e pesquisa. Alguns o escritor não mais escreveria, outros são motivos de orgulho, como Chão dos simples, composto por mini-contos nos quais \"o real e o imaginário se harmonizam de maneira perfeita\", como bem disse Veríssimo de Melo, na apresentação do livro. \"Embora eu me considere um ficcionista frustrado, eu acredito ter colocado o melhor de mim mesmo em Chão dos simples, é um livro que recupera a minha vivência de menino no sertão, disse Manoel Onofre numa entrevista à jornalista e escritora Marise de Castro.
Atualmente, Manoel Onofre Jr. é membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, ocupando a cadeira nº 05, cujo patrono foi Moreira Brandão e tendo seu 1º ocupante Edgar Barbosa. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e sócio correspondente da Academia Mossoroense de Letras.
Com o livro Estudos Norte-rio-grandenses recebeu o prêmio Câmara Cascudo, em 1975. Escolhido o Intelectual do ano, em 1975, por uma comissão designada pelo jornalista Roberto Guedes, do Diário de Natal, dentro da promoção Homem do Ano. Recebeu o Diploma de Personalidade Cultural da União Brasileira de Escritores, entregue em solenidade realizada em maio de 1997, no auditório do Centro Cultural da Academia Brasileira de Letras. É Cidadão Honorário das cidades de Natal, Martins e Umarizal.
Alguns trechos do bate-papo entre o jornalista e o escritor:
Alex - O senhor é natural de Santana do Matos, mas a cidade de Martins parece ser sua Pasárgada, inclusive o senhor escreveu o livro Martins A Cidade e a Serra. Como foi a vida em Martins? E até que ponto a cidade serrana é importante para o senhor?
Onofre Na verdade eu nasci em Santana, mas com um ano e alguns meses eu fui para Martins. Toda a minha família é de Martins. Os ascendentes dos meus pais, são martinenses, meus irmãos também, mas como meu pai era promotor de justiça em Santana do Matos, em julho de 1943 eu vim ao mundo naquela cidade e só voltei lá depois de adulto. De maneira que a minha ligação sentimental é muito maior com Martins, porque foi em Martins que eu me criei e lá eu aprendi a gostar dos livros. Em suma, toda aquela magia e encantamento da infância e da adolescência, tudo isso eu devo a Martins, que é uma cidade privilegiada pelos encantos naturais, etc. Na época da minha infância, ela tinha características muito especiais, porque era uma cidade em decadência. Naquela época, podia se considerar como sendo uma daquelas cidades mortas a que se refere Monteiro Lobato no livro com esse mesmo titulo. Por ela estar isolada no alto da serra as estradas eram muito precárias. No inverno com lamaçais, o transito interrompia-se totalmente, só subia-se e descia-se ou a cavalo e a pé e às vezes nem a cavalo. Então era uma cidade muito isolada. E por conta desse isolamento ela conservava muito de toda aquela riqueza que vinha dos portugueses, da cultura ibérica. Aquele sertão bem característico, com a coisa ainda da idade média. É uma cidade muito especial. Eu tive esse privilégio. Eu até me lembro que Gilberto Amado, nas suas memórias, disse que tinha pena de quem não tinha nascido num engenho de açúcar. Ele achava que um menino num engenho de açúcar era um paraíso, mas eu digo que não troco engenho nenhum pela minha serra de infância. Essa é que é a minha espécie de Pasárgada que ficou e que me acompanha e pra onde eu vou, eu levo Martins comigo.
Alex Inclusive, teve uma passagem de Mário de Andrade por Martins com Cascudo, que ele exclamou que Martins parecia com Teresópolis e Cascudo o advertiu: Não, é Teresópolis que parece com Martins.
Onofre Isso me foi dito por Cascudo numa entrevista que eu fiz com ele pra Tribuna do Norte. Em 1967, eu era repórter da Tribuna e fiz uma entrevista, bem longa, com o mestre Cascudo. E ele me falou esse episódio de Martins. Ele disse que Mário de Andrade extasiou-se com a beleza do panorama, com o clima, com as frutas e disse: Mas oh! Isso daqui é Teresópolis. E Cascudo rebateu em cima da bucha: Não! Teresópolis é que é Martins.
Alex O senhor morou em Mossoró ainda adolescente. Como foi essa época? Quais as memórias mossoroenses que o senhor guarda?
Onofre Foi um período importante na minha vida porque foi na adolescência. Minha adolescência foi a fase das perplexidades diante de um mundo que ia sendo descoberto, dos conflitos decorrentes disso mesmo. Eu que até então tinha vivido junto aos pais, em Martins, fui jogado no Colégio Santa Luzia, sozinho. Então, me senti como se tivesse cortado o cordão umbilical. Foi de certa maneira um trauma. Junta-se a isso, que o colégio interno, foi inicialmente a minha experiência lá, o colégio interno é uma espécie de prisão. Então você, adolescente, distante de seu mundo, dos pais, dos amigos, de todo seu mundo sentimental e sozinho, naquele ambiente recluso. De maneira que foi uma fase de muita solidão, isso no começo. Mas quando meus pais vieram morar em Mossoró eu passei a estudar externo e comecei a me entrosar na vida mossoroense. Posso dizer que somente quando eu deixei o internato é que eu vim a me tornar um mossoroense adotivo, participando ativamente da vida da cidade, admirando os seus jornalistas, freqüentando a Biblioteca Municipal e eu até posso lhe dizer que os primeiros livros que eu li de ficção séria, não aquela ficção infanto-juvenil, que eu conhecia de Martins, esses livros mais sérios, eu comecei a ler em Mossoró, freqüentando a Biblioteca Municipal. Cinema, Martins não tinha cinema e eu quase não perdia uma sessão no Pax ou no Caiçara de Mossoró.
Alex - O senhor chegou a escrever algum livro, nesse seu tempo em Mossoró?
Onofre Não! A primeira crônica que eu escrevi, meu primeiro texto, foi num jornalzinho que eu fundei no Colégio Diocesano Santa Luzia e o jornal se auto intitulava o Órgão da Quarta Série Ginasial do Colégio Diocesano Santa Luzia. Foi a primeira experiência. Esse jornalzinho, que eu ainda tenho uns exemplares, que eu guardo, circulou vários números e inclusive quando eu deixei Mossoró porque eu vim para Natal, ele continuou circulando, sob a direção de um colega, Ítalo Maciel e outros colegas como João Leôncio. Esse jornal me deu muita alegria porque me iniciou nas letras, me fez ver que havia outras pessoas do meu convívio que também eram entusiastas da literatura. Foi um estímulo muito forte, porque em Martins até então eu era, em termos de literatura, era sozinho. Menino lá em Martins, não sabia o que era isso, sabia o que era jogar bola e aquelas brincadeiras de rua, aquelas coisas folclóricas que sobreviviam na Martins da minha infância, mas em matéria de literatura só havia os livros do meu pai, na maior parte livros jurídicos, inclusive um livro de medicina legal que eu lia incessantemente e ficava curioso vendo as fotos.
Alex E desse tempo de Mossoró, você fez amizade? Guarda alguma amizade até hoje? Como é seu contato com Mossoró hoje?
Onofre No meu tempo de estudante tive grandes colegas. Me lembro aqui dos que eu já nomeie, Ítalo Maciel, tinha Francisco Dantas Pinto que é juiz de direito aposentado. Tinha o Carlos Fonseca, hoje é médico, em Natal. Tinha o João Leôncio Maia Pinto que também mora em Natal, escritor. Tinha o Dídimo Borges que era um intelectual também. Uma figura emblemática que era o Padre Sátiro Dantas que, se não me engano, era o vice-diretor, era o responsável pela disciplina no Colégio e eu, naquela época, olhava-o com uma certa distância, ele era muito enérgico, mas uma grande figura. Ele zelava pela qualidade do ensino, de forma que foi uma figura que me marcou. Ainda hoje é o diretor do Colégio Diocesano Santa Luzia. Outra figura, também dessa época, era o Cônego Sales, o seu perfil é diferente do Padre Sátiro. Ele era um bonachão, gostava de dizer piadas aos alunos com muito bom humor, era o professor de francês. Foi na verdade, a mola mestra da construção do novo colégio, inclusive quando eu cheguei em Mossoró, eu fiquei ainda no colégio velho, que ficava na Praça Antonio Joaquim, era um prédio bonito que foi criminosamente destruído e no meio do ano, se não me engano, foi em 1956, houve a mudança para o colégio novo, prédio novo que existe ainda hoje. O diretor do colégio nessa época era o Cônego Sales, uma figura humana, fazia sonetos, inclusive chegou a colaborar com o jornalzinho da quarta série e escreveu um livro sobre a história do Colégio Diocesano Santa Luzia.
Alex - Quando o Sr. Chegou a Natal, por volta de 1959, trabalhou como repórter e militava no movimento estudantil. Como foi essa turbulência jovial, em Natal?
Onofre Era um movimento muito tenso, porque havia uma efervescência, uma política especial, que era aquela política estudantil. Essa política é semelhante, em ponto menor, a política partidária mesmo. Os órgãos principais eram a Associação Potiguar de Estudantes APE -, que hoje, se não me engano é APES e o Centro Estudantil Potiguar. Como havia eleição para essas duas entidades, eram campanhas memoráveis. Havia também eleições para o Grêmio Estudantil do Atheneu. Além dessa atividade toda, sempre havia aquele movimento de estudantes para, por exemplo, obter redução no preço de passagem dos ônibus, redução no preço dos ingressos dos cinemas. Quando isso era negado, havia uma reação muito grande, passeatas. Tinha estudantes, embora não tendo uma liderança muito grande, do ponto de vista intelectual, mas eles tinham muito prestígio junto aos colegas. Era o caso, por exemplo de Manuel Filgueira Filho, Pecado, uma legenda entre os estudantes. Era uma pessoa muito simples, sem nenhuma instrução, mas um agitador nato. Não tinha nenhuma ideologia, mas fazia um movimento dentro da classe estudantil. Além dele havia outras grandes figuras, o Edmilson Felipe, como presidente da APE, hoje reside em Belo Horizonte. A gente participava de congressos da UBES e eu mesmo cheguei a participar de dois, um em Pelotas, outro em Goiânia. Estivemos na UBES para tratar de outros assuntos. A UBES que funcionava na sede da UNE, que depois a ditadura militar destruiu.
Alex - Quais as suas lembranças da vida intelectual natalense do tempo das Cocadas, no Grande Ponto natalense?
Onofre - As Cocadas, na verdade, foram uma verdadeira universidade, aqui vale dizer o clichê. Foi uma universidade realmente. Conheci grandes figuras, intelectuais nas Cocadas e ainda hoje são amigos meus e são nomes que se projetaram na vida intelectual do Rio Grande do Norte e tantos que não dá para mencionar. As Cocadas tIveram uma importância muito grande na minha formação.
Alex O senhor formou-se em direito e enveredou pela carreira jurídica. Quando foi que escutou o chamado das letras? Inclusive é título de um livro seu. Como surgiu o interesse pela literatura potiguar? E quando começou a pesquisar?
Onofre O chamado para literatura em geral foi na adolescência, mas especificamente, a literatura potiguar isso me preocupou desde os primeiros momentos, aqui em Natal. Eu fui como que apresentado à literatura norte-riograndense quando vim para Natal, que daqui eu podia ter uma visão mais geral. Eu sempre tive um senso de justiça apurado, talvez isso me tenha levado para a carreira jurídica, e esse senso de justiça me fez ver uma coisa gritante: o fato que nós tínhamos valores, grandes valores aqui no Estado, mas que a literatura nacional desconhecia inteiramente. Naquela época, os grandes nomes eram Zila Mamede e todos aqueles do começo dos anos sessenta, Sanderson Negreiros, Augusto Severo Neto, Luis Carlos Guimarães, Deífilo Gurgel, Dorian Gray, todos eles. E eu vi todos esses nomes aqui, da maior importância, como que soterrados na província. Aquilo talvez tenha sido a semente que fez com que eu passasse a me identificar, a divulgar a literatura do Estado. Através de levantamentos e de estudos, que não sendo propriamente estudos críticos na acepção mais rigorosa que se possa ter da crítica literária, mas que são estudos que ao meu ver podem ter contribuído para divulgar nossa literatura, não só aqui dentro, mas além fronteiras. Foi nessa época que surgiu o pesquisador. O primeiro livro é o resultado desse interesse. Por esses temas surgiu o livro Estudos Norte-riograndenses, que ganhou o premio Câmara Cascudo em 1975.
Alex - O senhor entrou na literatura escrevendo um livro de ficção, mas faz tempo que o senhor não publica uma obra ficcionista. O senhor parou de escrever ficção?
Onofre - Na verdade, o que eu mais gosto é da ficção, inclusive eu acho que setenta por cento dos livros que eu leio, são livros de ficção, romances, contos, novelas. A produção ficcional escolhida, depois foi reunida no livro Chão dos Simples. Eu confesso que passei a ter um interesse maior pela pesquisa, talvez motivado, até mesmo pelas funções que eu exercia, como juiz, que me levavam à pesquisa, pesquisa de jurisprudência, de doutrina para as sentenças e que terminaram me desviando também para a pesquisa literária. E é fato que eu acho que entrei por esse caminho, onde perdi o caminho da ficção e talvez pra mim fosse o mais importante. Essa é a explicação que eu me dou, mas não sei se realmente é a verdadeira, são coisas imponderáveis que a gente não pesca. Pode ser até também, essa coisa de deixar a ficção, tenha sido um bloqueio, uma espécie de inibição por achar que a ficção é uma coisa muito séria. A ficção e a poesia em literatura só se deve publicar se a coisa estiver realmente madura, for impossível deixar de publicar, porque uma pesquisa, do ponto de vista literário não tendo muita importância, ela sempre vai seu útil, ela trás uma grande soma de informações, dados, que alguém pode aproveitar, independentemente da qualidade literária. A poesia e a ficção têm que ser de primeira, têm que ser arte. É a pura arte. Tem que ser boa. Nada mais lastimável que sub-literatura. Isso me criou uma inibição, um certo receio, mas eu espero, anseio voltar à ficção.
Alex No seu livro Literatura e Província o senhor afirma que seria temerário falar sobre a existência de uma literatura do Rio Grande do Norte, mas assim, uma literatura no Estado do Rio Grande do Norte, notadamente nas cidades de Natal e Mossoró. Afinal até que ponto se estende a literatura potiguar?
Onofre - Essa foi uma afirmação polêmica que até na reedição desse texto, aproveitado em Salvados, na segunda edição, eu suprimi esse enfoque. Eu achava que isso se prestava a muita polêmica e interpretações que não coincidiam com o que realmente eu queria dizer. O que eu quis dizer é que a literatura, toda e qualquer literatura, é um fenômeno nacional e só uma nação, um povo consegue ter sua própria literatura. Portanto, eu acho que a simples divisão administrativa federativa, de cada Estado, não dá todas aquelas características que pudessem refletir numa literatura, porque em essência, lato sensu, a literatura do Rio Grande do Norte é a mesma da Paraíba, do Ceará. Eu até admitiria se falássemos de uma literatura do Nordeste, porque já há uma diferenciação do restante do país. Agora, na verdade, há uma literatura no Estado, ela não é do Rio Grande do Norte porque o Rio Grande do Norte não é uma nação, nem tem aspirações de ser uma nação, como por exemplo, a Catalunha, os Bascos, que se orgulham de ter uma literatura própria, porque culturalmente aquele conjunto de características se reflete na literatura. Eu acho que no Rio Grande do Norte, não. Em essência o norte-riograndense é o paraibano, é o cearense, o pernambucano, a diferença é muito pequena. Aqui, nós temos, sob vários aspectos, uma literatura feita com valores daqui e que deve ser prestigiada, porque o eixo cultural Rio-São Paulo nos ignora, eles sempre adotaram essa posição de olimpicamente ignorar o que se faz no Nordeste, especialmente.
Alex - De acordo com o professor e escrito Tarcísio Gurgel, o livro Chão dos Simples conta causos de sertanejos onde ressalta a esperteza do matuto e um certo encantamento propiciado pela natureza. Até que ponto esse encantamento acontece no livro?
Onofre Chão dos Simples é o livro de que eu mais gosto e ali está o meu sertão, através do meu sertão a minha visão do mundo que passa do regional para o universal. Eu só discordo de Tarcísio quanto à designação de causos. Aparentemente, são causos, eu sempre gostei muito de histórias ou como dizia Cascudo estórias com e. Mas os meus contos sempre vão além do causo. Tem algum sentido ali, uma outra leitura, uma leitura subjacente.
Alex Numa entrevista à Tribuna do Norte, o senhor disse que mostrou um poema de sua autoria à Zila Mamede e ela não deu muita importância àquela poesia. Será que ela o desencorajou?
Onofre É verdade. Zila me fez um grande favor. Na verdade, eu não tenho o dom da poesia. Tentei de uma maneira muito canhestra fazer um poema, em que usava, inclusive, o termo embalsamado. Quando Zila viu esta palavra, ela se horrorizou (eu deduzi pela expressão fisionômica dela), e me entregou o papel com o poema de volta e não disse mais nada. A partir daí, nunca mais poesia. Mas sempre tem um porém. Certo dia, escrevi uma coisa sobre Recife e mostrei a Jarbas Martins, meu ex-colega de faculdade, excelente pessoa e Jarbas disse: Olha, isso aqui você poderia colocar em forma de poema. E então graças a Jarbas, eu cometi um poema que foi publicado, num jornal de Recife, e me parece também que no jornal A República, de Natal. Além desse poema, eu ainda fiz outro, ainda me aventurei a isso, mas felizmente parei; desde então, mais nada.
O também escritor Veríssimo de Melo, escrevendo sobre Manoel, diz que adaptando material folclórico em algumas de suas histórias curtas, o autor norte-rio-grandense parece também recriar o produto de sua vivência na Serra do Martins. (...) Manoel Onofre Jr. é escritor enxuto, de saborosa narração popular.
Suas histórias ou mini-contos divertem pelo toque de humor espontâneo. Como agradam igualmente pelo sentido humano e até dramático das situações que apresentam.
Alguns livros de Manoel
Onofre Jr.:
- Chão dos Simples, edição do autor, 107 páginas, 1998
- Guia da Cidade do Natal, Editora da UFRN, 138 páginas, 1998
- Literatura & Província, Editora da UFRN, 201 páginas, 1997
- O Chamado das Letras, edição do autor, 167 páginas, 1998
E uma poesia:
No Recife
Uma ponte desfere seu salto
sobre o dorso do rio que dorme.
Aquele edifício
paredão cinza e aço
decapitou as torres da Madre de Deus,
as sombrias torres barrocas da Madre de Deus,
dois chapéus eclesiásticos pendurados no azul
junto com as nuvens.
(poema de 1986)
Magnólia Revoredo, artista plástica
Como a própria artista define, a vida de
Magnólia Revoredo é um verdadeiro arco-íris. Nascida em Nova
Cruz-RN, com 24 dias de vida foi morar em Natal, Capital do
Estado, passando toda a infância junto às aquarelas e tendo
desenvolvido muito cedo o amor pelo desenho e pelas artes
plásticas.
Ainda pequena era comum vê-la tentando reproduzir os grandes nomes da pintura como Leonardo da Vinci, Renoir, Monet entre outros. Aos sete anos iniciou sua escalada no caminho das artes, obtendo diplomação entre colégios da cidade. Aos quinze anos foi crescendo mais a paixão pelos pincéis e tintas, continuou a reprodução de maneira extremamente acadêmica, devorando tudo que via de enciclopédias e revistas sobre as artes e suas escolas.
Direcionou-se para outra profissão, formando-se pela UFRN no curso de nutrição. Após o término do curso praticou a profissão, porém reiniciou outro curso na UFRN, o de fisioterapia, que fez até o terceiro ano e trancou a matrícula.
Retomou aos antigos ideais, as cores, tintas e os pincéis, com os quais diz ter realmente se encontrado, iniciando um processo de crescimento contínuo que, ela afirma, jamais poderá ceder ao acomodamento, pois agora sua busca é pelo novo, belo e o ousado da arte. Como não fez faculdade de artes plásticas, resolveu trazer a escola para o seu mundo familiar e há mais de um ano tem aulas de história da arte com o professor universitário italiano Franco Gracile.
Fez cursos com professores de porte internacional, pois até então era autodidata. Seu estilo artístico é extremamente eclético. Magnólia diz que seu casamento com as cores e muito agradável. "Uso muito as cores alegres, pois sou uma festa", diz ela em gargalhada. O destaque fica também para as cores fortes (vermelho de cádmio, verde inglês, amarelo de cádmio, azul cobalto, branco de titânio etc).
A artista trabalha com técnica mista, indo de figuras abstratas, regionais, natureza morta, figuras humanas, marinhas etc. Em 2002 participou do salão da Marinha Naval, classificando-se pela Capitania das Artes do Rio Grande do Norte. Fez exposições coletivas e individuais no Natal Shopping, Amoarte, Atelier Claude Monet, Aero Clube de Natal, Artkasa e filiadas, stand do Biarritz e Feira Internacional de Artesanato Centro de Convenções do RN, entre outras.
Sonho recente da prefeita
Edinólia Melo, a Escola de Música Márcia Pires já é uma
realidade. Inaugurada há quatro meses, no dia 10 de junho deste
ano, ela foi o berço da Orquestra de Ceará-Mirim.
A estréia da Orquestra aconteceu no último dia 10 de novembro no Clube Unisesp, em Ceará-Mirim, onde também aconteceram recitais dos jovens músicos matriculados na Escola. São 360 atualmente. Todos estudantes da rede de ensino municipal do município.
Além de se constituir numa grande atração cultural da cidade, a Orquestra, que funciona paralelamente à Escola, está proporcionando conhecimento e formação musical a meninos e meninas de sete a 17 anos.
Talento não é nato é treinado e desenvolvido, diz Shinichi Suzuki, criador do método utilizado na Escola, que tem como destaque a rapidez na apreensão da habilidade pelos alunos.
Em sua primeira apresentação, a Orquestra apresentou músicas de vários estilos musicais. Sempre de forma irreverente, ao estilo da maestrina e idealizadora do projeto, Márcia Pires.
Repertório:
The Wall, de Pink Floyd, Anna Júlia, de Marcelo Camelo, La Bamba, de Rithie Valens, Perpetual Montion, Twinkle,Twinkle, Litlle Star e Allegreto, de Shinishi Suzuki, e Song Of the Voina, de Folk Song.
Os componentes:
Violinos: Maria
Eduarda Miranda da Cruz; Késia da Costa Celestino; Talita da
Costa Celestino; Robson Roque Fernandes da Silva; Manoel Paulo
dos Santos Neto; Mayse da Silva Oliveira; Cibele Maria de Freitas
Cabral; Giuliano Silva Pessoa; Denise da Silva Nunes; Franciele
Amanda de O. Justino; Amanda Cibele Pinheiro Lima; Lourena
Kallahan S. Pequeno; Widany Karla Pereira de Lima; Mariana Ramos
da Silva Araújo; Wydlene Pereira de Lima; Maria Lima de Souza;
Lorena Enedino Maçal; Edivanda Maria Olavier; Moisés Veloso dos
Santos; Wagner Henrique S. da Silva; Anselmo Moura de Carvalho
Jr.; Vivian Kynara Gomes; Edilene Souza da Silva; Eulália
Wilyane dos Santos; Rafael Paulino da Silva.
Violoncellos: Anny
Caroline; Beatriz Xouza; Kefferson Tarciano; Malena Barbosa;
Mariana Coeli; Maria Gabriela; Fabiana Priscila; Raquel da Costa;
Daniele Santos; Amélia Catarina; Amanda Araújo.
Teclado: Josemar Rodrigues
Bateria: Joymax Andrade; Paulo Neto.
Baixo: Davi da Costa Celestino; José Luciano Souza.
Guitarras: Alan Bezerra da C. Barbosa; João Maria de S. Henrique, Rayninson Pereira do Nascimento
Violão: Daniele Nascimento; Emanuel Nascimento
Coordenação Artística e Regência: Profª Márcia Pires
Bosco Lopes, poeta
Bosco Lopes não tem biografia ele é poeta
é poeta é poeta é poeta é poeta é poeta.
É.
PO!
É.
TÁ?
Do poeta Celso da Silveira, que acrescenta:
"breve nome de poeta de longo curso
marinheiro solitário e sem bússola
desse triângulo das bermudas
que é sua vida de poeta
embarcadiço de nau fantasma
mareando mares
maramando marias."
Outro contemporâneo de Bosco, o poeta Dailor Varela, complementa:
"Bosco é um doce anarquista, poeta mais por vivência do que por texto (...) Já tomamos muitos porres e cometemos muitas aventuras culturais (poema/processo, happeninngs e outras mumunhas) juntos."
O livro 400 nomes de Natal apresenta Bosco assim:
Funcionário público, "mais público do que funcionário", como costumava dizer, seu primeiro e único emprego foi na Fundação José Augusto. Mas o que realmente optou por ser na vida foi poeta, condição que o popularizou nas rodas boêmias do Centro da cidade, especialmente nos bares do conhecido "Beco da Lama", (rua Dr. José Ivo), famoso pela presença diária de boêmios e intelectuais.
Participou do movimento de vanguarda Poema/Processo em Natal, juntamente com Anchieta Fernandes, Falves Silva, Franklin capistrano e alguns outros.
Em 1973, lançou o "Projeto Zero", dentro da estética do Poema/Processo. Em 1987, lançou o livro "Corpo de Pedra" pela Fundação José Augusto, em que retorna ao poema verbal, alternando poemas de conteúdo social com o romantismo inspirado em musas reais ou ideais.
Era um personagem muito querido nos círculos intelectuais e boêmios que frequentava, onde o tratavam habitualmente como "poetinha".
Nos últimos anos, foi se tornando cada vez mais dependente do álcool, resultando disso que escrevere, para ele, tornou-se uma atividade esporádica, e mesmo a frequência a bares transformou-se numa rotina penosa em decorrência dos problemas físicos de que padecia.
Isto, apesar dos cuidados que lhe devotavam a mãe e uma tia, ambas anciãs, lutando inutilmente para afastá-lo da bebida que findaria por abreviar seus dias de vida.
Ao participar da antologia de crônicas "Nossa Cidade Natal", finalizou dizendo:
"Eu, também etilírico poeta, de pé no chão, aprendi o ofício da poesia para te dizer: muito obrigado, Natal, pelas dádivas que de ti recebo há 33 anos."
(Deífilo Gurgel, Nélson Patriota e Rejane Cardoso)
| Poema para o Natal o menino jesus vai renascer em um dos muitos bairros favelados da cidade pelos velhos e mutilados por todos os marginalizados pela falta de justiça na justiça pelos olhos do menino jesus vai surgir no céu uma estrela talvez seja a estrela que bandeira buscava no poema ou uma estrela que brilhava no céu da américa e outros contientes um homem coberto de amor um corpo coberto de bala mais uma grande estrela nesta noite de trovões relâmpagos e cantos gregorianos amigo, somente o final do poema colorido estrelado maneira única de lhe dizer feliz natal |
Riogrande RIO GRANDE DA MORTE RIO GRANDE SEM SORTE RIO GRANDE SEM FORTE RIO GRANDE DO NORTE RIO PEQUENO DO NORTE RIO FINITO DO CORTE RIO SECO DE SORTE RIO GRANDE DO NORTE RIO SEM CAIS SEM PORTO RIO VOCÊ JÁ FOI MORTO RIO DE LEITO TORTO RIO CHORANDO DE FOME RIO TRISTE SEM FOME RIO CANSADO QUE SOME (ambos os textos foram publicados no livro Corpo de Pedra - 1987) |
Nilzete Moura Freire, artista plástica
Nilzete Moura Freire nasceu
em Natal onde realizou seus estudos secundários, universitários
e pós-graduação.
Graduada em Letras em 1970, formou-se em Pedagogia em 1980. Logo depois, em 82, concluiu pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira.
Foi também na Universidade Federal do Rio Grande do Norte que Milzete fez carreira. Sempre em áreas ligadas à Pedagogia, à Cultura e à pesquisa, tendo se aposentado em 1989.
Logo depois, fundou uma oficina de artes no Clube da Melhor Idade de Natal.
Depois, em 1996, fundou o Espaço Cultural Claude Monet, onde exerce a coordenação de cursos.
Desde 1997, tem participado de inúmeros cursos de pintura estudando diferentes técnicas e estilos.
Embora eclético, seu estilo é preferencialmente acedêmico, utilizando óleo sobre tela com destaque para os termas ligados à Natureza.
Desde 97, Nilzete já participou de mais de 100 exposições coletivas e individuias em galerias de arte, hotéis, shopping centers e feiras.
As mais importantes foram as individuais que promovei na Capitania das Artes, Fundação José Augusto, Teatro Alberto Maranhão, Espaço Cultural Claude Monet e Núcleo de Artes da UFRN, todas em Natal.
Elaine Valença, artista plástica
Artista plástica na área
de pintura em tela, madeira e texturas especiais, utilizando
óleo e acrílico em suas obras. Realiza também trabalhos em
esculturas de aço e vidro.
Adepta dos estilos figurativo e abstrato, participou de vários cursos de aperfeiçoamento o que tornou seu trabalho requisitado por arquitetos e decoradores de nossa região, estando expostos em várias lojas de decoração e exposições regulares.
A partir de 1999, suas obras vêem sendo adquiridas por colecionadores de arte das cidades de Natal, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e Aracaju, como também dos países da Espanha, Portugal, Austrália, Itália e Suécia.
Atualmente suas peças podem ser encontradas na Gold Stone (Midway Mall) e Tutti-Belle.
Atividades Artísticas Natal-RN
1976-1998 - Trabalhos em pintura em óleo sobre tela de caráter particular e por diletantismo;
1999 - Exposição com escultura de aço e vidro na Espaço Design Mostra de Arquitetura e Arte;
1999-2000 - Exposição com escultura de aço e vidro no show-room de produtos cerâmicos Eliane no Armazém Pará;
2000-2001 - Exposição de pintura em técnica mista e acrílico sobre tela no espaço cultural AMOARTE no Natal Shopping Center;
2000 - Exposição de pintura em técnica mista e acrílico sobre tela no Projeto Cultural Alvará das Artes na Justiça Federal;
2000 - Exposição de pintura em técnica mista e acrílico sobre tela no Espaço Cultural Claude Monet no Praia Shopping;
2001 - Coletiva in Maio: Trabalho em técnica mista e acrílico sobre tela realizada na Capitania das Artes da Prefeitura Municipal do Natal;
2000-2005 - Exposição Permanente: Trabalho em técnica mista e acrílico sobre tela em exposição permanente nas Lojas: Santorini Presentes; Tutti-Belle, decorações; Ornamento; Sofá Designe; Golden Stone; SCA móvei; e no Shopping do Artesanato.
Carmen Vasconcelos, poeta
Carmen Sylvia Alves de
Vasconcelos nasceu em Angicos, no Rio Grande do Norte, em 21 de
junho de 1965. Aos 14 anos, transferiu-se para Natal, para
estudar no Instituto Maria Auxiliadora, uma tradicional escola da
cidade. É formada em Serviço Social e Direito, pela
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e trabalha no
Tribunal Regional do Trabalho, em Natal. Tem publicado
regularmente seus poemas em jornais e revistas literárias do
Nordeste, obtendo grande repercussão entre os leitores. Seu
livro de poemas, intitulado Chuva ácida, mereceu uma
crítica muito elogiosa e inúmeros comentários que ressaltavam
o impacto dos versos e a diversidade de seus temas.
Seus primeiros poemas foram publicados no jornal O Galo, da Fundação José Augusto, de Natal. Ela também foi colaboradora da revista Augusta, de João Pessoa/PB.
A respeito dela, afirmou o poeta Luís Carlos Guimarães na orelha do livro Chuva Ácida:
O espaço é pequeno demais para uma avaliação de quanto é surpreendente e instigante a poesia de Carmen Vasconcelos, uma das mais promissoras revelações de poeta dos últimos anos.
Chuva Ácida tem apresentação do multi-artista Dorian Gray Caldas que enaltece o cristal incandescente da poesia de Carmen Vasconcelos: ... louvemos a poeta no brilho dos seus jovens anos. Como uma vestal, uma luz, um milagre pela dádiva que a poesia permite.
Sobre seu último livro, Destempo,
o escritor Cunha de Leiradella, escreveu:
Não há como duvidar.
A poesia de Destempo é uma poesia de verdadeiro impacto. Sem qualquer aviso e sem qualquer gradação, o leitor é colocado diante de poemas que se lhe grudam na pele e lhe desfibram a sensibilidade, seja pela força extraordinária com que gritam desesperos e angústias, seja pelo lirismo com que penetram no âmago da mais cristalina simplicidade.
Carmen Vasconcelos conhece bem o terreno onde semeia os versos de seus poemas. E sabe, como poucos, manter intacta a linha divisória entre arte e cultura, transfiguração e figuração, interpretação e cópia, significado e significante. E é, justamente, este equilíbrio, esse conhecer profundo do fazer poético, que faz o leitor mergular na essência da poesia em seu estado mais puro. Ler Carmen Vasconcelos não é só ler Carmen Vasconcelos, é olhar nossa própria imagem refletida no espelho das suas mais íntimas e contundentes intenções. No âmago, sou eu comigo mesmo, guiado por outro eu.
A consciência dos limites do ser, mesmo quando contraposta à morfia dos limites do estar, não se intimida.
Mas também não concebe. Pelo contrário, exige. Mas (e é aqui que Carmen mergulha no mais profundo do seu ser) exige concedendo, e é neste aparente jogo de contradições também aparentes que a realidade dos poemas de Destempo grita desesperos e angústias na mais cristalina simplicidade:
"Só chego às pessoas
para me render
às suas profundidades.
(...) Dentro de ti eu tenho sombras
praiadas nos meus olhos.
E não há nada além."
Tudo parece fácil, tudo parece simples, tudo parece ser.
E, o que é mais importante, é.
É. E é porque estamos diante de uma pessoa sem vãos e sem vazios. Completa. Mas é, acima de tudo e também, porque estamos diante de um ser que se mostra por inteiro, sem medos e sem pudores.
Totalmente completo.
Por isso, Carmen Vasconcelos é só poeta. É uma grande poeta. Das maiores da novíssima poesia brasileira.
Plenitude Às vezes me irrigam nudezes e exibo esta alegria escancarada dependurada nos meus varais; amolecida, estendida, extensa, pingando água feito apetite. Às vezes se adensa a doidice que me eriça de ardores em despudores me acentua. É feitiço, carícia, predição e me emprenha de alardes, em mim se congestiona e de mim mesmo se insinua feito o mundo vir à tona. Não posso assim ser desamor tão mimada com alquimias, e pululada de luzes Raiz do poema Escutai... Vibra a pele da terra tocada pelo balbucio da serpente de água... Escutai o lascivo percurso corrente do corpo delgado parindo relva e arbusto e árvore e roçado. À margem, menino sorridente e sua pandorga voam à origem. Eu não vôo nem mergulho. Nem guelra nem asa. Escrevo. Escavo. Procuro raiz. Dúvidas Escolho pântanos porque não me quero plantar reciso ter os pés bailando na lama tenho de desfrutar a terra para pensar pénsamentos do céu. Meu corpo é suor e ênfases minha dança amassa a palavra a matéria do homem. Eu brinco de fermentar dúvidas. Terceira cantiga de abril Agora te conheço, amor perdido, Macerando meu corpo animado e morto. Agora te conheço, amor perdido, Planando numa dessas folhas de vida. Agora te conheço, amor perdido, Súbito reverso dos meus ossos. Agora te conheço, amor perdido, Cinza de alumínio, câncer amarelecido,. No entanto, padeço de liberdade. |
Um Bonde Chamado Destempo A encosta de capins invisíveis desvela os desvarios dos meus antes A morte já não é futuro, minha aldeia noutra aldeia se desvela, eu me desvelo, pouca e escura. Tornei-me antiga como antigo é todo esgar desse rio esgotado dessas casas tornadas demasiado sérias. Tornei-me ida, meu tempo se desvela escorrido no rosto dos parceiros de infância. Tornei-me santa, o deus imenso agora se desvela na minha porção de amor, por que o amei humanamente e jamais neguei meu corpo a essa adoração. Minha outra aldeia fica. Sou eu a passagem. Flor da vida Acorda de susto com a força da pedrada na janela. A violência tem uma linguagem eremita. Recolhe o vidro ensangüentado a serpente emplumada, cria asas, sai buscando a cova rasa sobre a qual estão efervescendo vermes. Todo o jardim é um estudo em vermelho, relva com molho sangrento, flores pendendo num bordado púrpura. A serpente emplumada penetra na cova onde dorme a menina triste. É verme, é fada minúscula, trançando os fios da sua sobrancelha. A menina decomposta sorri, goza o afago da vida na morte. E aflora, aflora do corpo da serpente emplumada a flora. A flora da vida: frida. Um lance de dados (com nova licença do poeta) Fosse origem estelar... Malarmé Sedento vampiro é o acaso, fazendo pender do galho, sem polpa, a drupa ofendida. Também eu, pendente da vida, permaneço atada à intempestiva poesia, indagação irrompida. É o ofício de poeta engraxar emoções, mas não disfarço a alma desbotada. Meus olhos dragam de céu enormes camadas, ávidos, e o acaso desaba subitamente fico imersa na dor silenciada |
Jean Sartief, a arte sem limites
Jean Sartief é natalense e vem se destacando
no cenário literário e artístico, regional e nacional com
energia. Seu novo livro de poesias NA BOCA DAS TUAS PALAVRAS, e a
exposição colagens - AOS TEUS OLHOS, a serem lançados no TCP
- Teatro de Cultura Popular, 18 de outubro, às 19h,
é uma mostra do amadurecimento de seus escritos desde a
publicação de Eclipse, em 2001 e do primeiro livro do bardo,
Entre o Sol e a Lua, em 1997.
Sua estréia oficial nas artes visuais se deu em 1992 numa exposição coletiva a partir de um curso com o artista plástico Luís Anísio, na Fundação José Augusto. 14 anos depois, Sartief mostra o resultado de um dedicado e laborioso trabalho tanto na literatura como nas artes visuais.
Literatura
A temática que o motiva, tanto na
literatura como nas artes visuais - fotografias, colagens,
objetos, instalações e intervenções urbanas - tem como foco
principal o emocional-afetivo.
Sartief percorre os amores e dores e todo o universo de nuances contido nesses extremos, mas inova ao transgredir o formato comum de versos, quadras, estrofes ou qualquer métrica utilizada o que já é perceptível tanto pela concepção gráfica como pela diagramação feitas pelo próprio artista. Ele segue uma linguagem contemporânea, onde a emoção prevalece sem cair no comum. Mas é justamente essa possibilidade de atingir o novo através do simples que o diferencia.
Sua obra literária inclui um livro infantil e um de contos, ambos inéditos, que pretende publicar em um futuro próximo.
Premiações
Trazendo em sua bagagem o primeiro lugar no Concurso Zila Mamede - 2004, bem como a menção honrosa nesse mesmo ano e em 2005 pelo Prêmio Luís Carlos Guimarães, Jean Sartief mostra que seu caminho é próspero na literatura potiguar.
Nas artes visuais, ele tem se destacado nacionalmente e internacionalmente.
Em fevereiro foi convidado a participar em São Paulo, da Bienal da UNE, com três trabalhos selecionados. Em maio, o artista participou do Salão 8 de maio na pinacoteca e na Capitania das Artes, em Natal, Rio Grande do Norte. Em junho, foi selecionado para representar o Rio Grande do Norte no Salão de Maio, promovido pelo Grupo de Intervenção Ambiental - GIA, em Salvador, Bahia, e, ainda no mês de junho, teve três fotografias digitais escolhidas para o VII Salão de Arte Digital de Cuba, ficando em exibição até julho. Nos meses de julho, agosto e setembro teve duas obras expostas no concorrido Memefest - evento de comunicação e arte que acontece simultaneamente na Alemanha, Estados Unidos e em diversos outros países, inclusive o Brasil.
Exposição
A exposição AOS TEUS OLHOS, que o artista apresenta junto com o lançamento do livro é resultado de suas experiências visuais com colagens - técnica que o fascina pela possibilidade múltipla de intervenção e experimentação. Nesta exposição segue uma linha simples, clean, mas subvertida pelas imagens e interferências. Sem grandes arroubos, performances ou estardalhaço, Sartief mostra em 13 obras colagens sobre madeira - 80 x 60 cm - a sutileza e a poética visual.
Programação do lançamento
A programação começa com a primeira edição do Projeto Bendita Poesia, do TCP. Nessa primeira edição, Jean Sartief estará interpretando algumas de suas poesias, seguido de um bate-papo com o público. Em seguida, o cantor Luiz Gadelha estará cantando algumas de suas composições e poesias do livro NA BOCA DAS TUAS PALAVRAS
Haverá exibição de vídeoarte do artista visual Manu, cujos vídeos são inspirados na poética de Sartief. Finalmente, será feito o lançamento do site do livro.
(O Teatro de Cultura Popular está localizado na rua Jundiaí, 641, sendo cobrado o preço de R$ 20 por pessoa. Para contatos com o artista pode ser utilizado o telefone (84) 32015397 ou o e-mail sartief@ig.com.br
Pelas tuas mãos.
Voltei sem os meus olhos,
Com as mãos vermelhas.
Cheio de pés,
Cheio de pólvora,
Cheio de vazio.
Não é mais a nossa hora
E vou implodindo
Tudo o que achei
Ser riso,
Doçura e
Esperança.
Quebrando todo
Esse edifício
De mil andares.
Agora,
Ando descalço,
Bem perto do chão...
Desse cômodo buraco
Cavado com as tuas mãos.
João Luiz Miranda, artista plástico
O artista plástico João
Luiz Miranda, carioca radicado no Rio Grande do Norte, vem se
destacando cada vez mais no cenário das artes plásticas.
Desde criança revelava forte interesse pelo desenho e a pintura. Na adolescência começou a criar as suas primeiras talhas como autodidata.
Realizou sua primeira exposição individual em 1999, no centro de turismo de Natal, durante um congresso de arquitetura. Irrequieto, produz de tudo um pouco, utilizando uma grande diversidade de materiais em suas obras, executadas em madeira, metais, resina, telas. Os seus trabalhos, depois de passarem por um estilo tradicional, exprimem hoje forte característica abstracionista. Seja em suas esculturas, nas talhas ou pinturas em acrílico sobre telas, o artista revela o seu fascínio por formas e cores, que compõe e combina com forte personalidade.
João já participou de varias exposições coletivas e individuais.
No ano de 2002, participou do VIII Salão de Arte Contemporânea do Rio de Janeiro, onde foi premiado pela Academia Brasileira de Belas Artes com o terceiro lugar, recebendo diploma e medalha de bronze, premiação idêntica à que obteve no VI Brasil Arte do Rio de Janeiro, também promovido pela Academia Brasileira de Belas Artes e pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Neste mês de outubro, João Luiz de Miranda está com uma exposição de telas abstratas no restaurante Maturí que permanecerá aberta até o dia 25.
Referências
Alie-se à aquisição do nosso artista, a qualidade excepcional dos temas e das técnicas exercidas no pleno domínio do prazer artístico"
"Acredito na sua arte, e por acreditar na sua arte sei que o homem e o artista haverão de atingir as metas prometidas e a consagração definitivas. (Dorian Gray Caldas, artista plástico).
"A obra de João Luiz Miranda é uma prova de que o tradicional e a criatividade porem se misturar". (Hayssa Pachêco, jornalista, DIÁRIO DE NATAL)
"João, você resolveu abrir as asas, voe, voe alto, firme e livre na sua arte, pois disposição, criatividade e talento não lhe faltam" (Ulisses Leopoldo, marcheteiro).
Fotos
1. As quatro imagens apresentadas na primeira linha abaixo são esculturas. As duas primeiras em chapa de ferro com pintura automotiva e as duas últimas em madeira (umburana); 2. As peças da linha seguinte são trabalhos em acrílico sobre tela; 3. Na linha inferior estão apresentadas quatro talhas, uma em cerejeira e as demais em mogno, duas delas com incrustações uma em cerâmica e outra em metais.
Antônio Bento, escritor e crítico de arte
Antônio Bento (de Araújo Lima) nasceu em
Araruna, Paraíba, em outubro de 1902. Faleceu no Rio em outubro
de 1988. Viveu sua infância no engenho e fazenda Bom Jardim, no
litoral do Rio Grande do Norte, sendo bisneto, neto e filho de
senhores de engenho. Fez estudos ginasiais em Natal Iniciou o
curso de Direito em 1920, no Recife, quando morou numa república
de estudantes de Olinda, tendo como companheiros José Lins do
Rego e Raul Bopp.
0 primeiro artista moderno que conheceu foi Vicente do Rego Monteiro. Transferiu-se em 1923 para a Faculdade de Direito do Catete, no Rio, formando-se em 1925. Conheceu Portinari em 1924 e Ismael Nery e DiCavalcanti em 1925. Em São Paulo, em 1926, trabalhou ao lado de Mario Pedrosa no Diário da Noite, como cronista musical Participou de pesquisas folclóricas com Mario de Andrade, fornecendo-Ihe temas nordestinos, inclusive as canções do Bumba-meu-boi. Para Macunaíma" cedeu os cantos da dança dramática e conseguiu que Pixinguinha lhe fornecesse a macumba da Tia Ciata. Mario de Andrade colocou Antônio Bento e outros amigos, entre os quais Blaise Cendras, Manuel Bandeira, Jayme Ovale e Raul Bopp numa cena de magia negra, no Rio.
Desse modo Antônio Bento foi transformado em personagem de Macunaíma". Alias, o próprio autor dessa rapsódia confessou que devia muito a Antônio Bento e a Mario Pedrosa o estímulo e a compreensão que o levaram a escrever essa obra-prima da literatura de vanguarda no modernismo brasileiro. Voltou para o Rio em 1927, ano em que foi eleito deputado estadual pelo Rio Grande do Norte. Participou da elaboração da lei pioneira que concedeu no Brasil o voto feminino. Foi reeleito para um segundo mandato, deixando de exercê-lo em face da revolução de 1930. Foi um dos redatores a participar da fundação do Diário de Noticias em 1930, onde trabalhou ate 1932, quando foi nomeado, graças a Lindolfo Collor, para o Ministério do Trabalho, juntamente com Olegário Mariano. Casou-se em 1932. Em 1940, foi nomeado Procurador Regional do Trabalho e mais tarde Procurador de 1a Categoria do Ministério Público da União. Trabalhou no Diário Carioca, de 1934 ate o seu fechamento em 1965, onde foi redator político e comentarista da segunda Grande Guerra.
A partir de 1945, assinou no mesmo órgão de imprensa apenas uma coluna diária de critica musical e de artes visuais. Manteve depois essa coluna no jornal Ultima Hora, de 1966 a 1970. A convite da UNESCO, participou em 1948 do Congresso de Críticos de Arte, realizado em Paris, preparatório da criação da AICA. Viajou novamente para a Franca em 1949, tornando-se um dos sócios fundadores da Associação Internacional de Críticos de Arte. Tomou parte em vários de seus congressos e assembléias. Foi eleito e reeleito duas vezes Presidente da Seção Brasileira da AICA, e durante muitos anos seu Presidente de Honra. Foi membro da Comissão Artística e Diretor do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, entre 1960 e 1962. Sócio fundador do MAM do Rio, participou de três Bienais de Paris, como comissário e delegado. Integrou os júris nacionais e internacionais das Bienais de São Paulo e de Veneza. Visitou a Documenta de Kassel de 1972. Foi membro de vários júris do Salão Nacional de Arte Moderna e integrante da Comissão Nacional de Artes Plásticas da FUNARTE - 1978 e 1980. Com inúmeros trabalhos de analise e interpretação estética, consagrou-se como um dos maiores divulgadores da arte moderna em nosso país. 0 autor de Manet no Brasil, Ismael Nery, Abstração na Arte dos Índios Brasileiros e Milton Dacosta apresenta-nos agora o magnífico texto deste livro definitivo: Portinari.
Na segunda capa do livro Portinari, escrito por Antônio Bento, o escritor Mario de Andrade, escreveu:
"...um sentido possante, uma lógica viral de criação, um significado poético muito intenso, que lhe derivam de sua vibrante compreensão humana da vida, principalmente do seu nacionalismo..."
No livro 400 nomes de Natal, a jornalista Rejane Cardoso comenta a importância de Antônio Bento para o escritor Mário de Andrade:
"Mário de Andrade se confessou seu devedor, e em contribuição por tudo que aprendeu com esse neto e filho de senhores do engenho Bom Jardim, litoral do Rio Grande do Norte, imortalizou-o como um dos protagonistas de seu Macunaíma."
Neste ano de 2005, o jornal Tribuna do Norte publicou uma reportagem sobre a implantação do Instituto Antônio Bento, que foi inaugurado no mês de julho.
Os principais trechos da reportagem:
"... a família Araújo Lima está criando o Instituto Antônio Bento, que será instalado na sua querida Fazenda Bom Jardim, situada em Goianinha, onde ele viveu a infância.
O Instituto será composto pela bibligrafia do escritor, 12 livros, todos de análise e interpretação estética de artes plásticas, com exceção de "Poesias, Ponteios, Toadas e Cordel", e "Contos Hiper-Realistas"; retratos, pintados por artistas renomados, documentos, fotografias, e outros objetos que recontam a vida do escritor. O visitante ficará bem informado sobre a vida e obra de um dos maiores divulgadores da arte moderna brasileira. "O artista pernambucano Cícero Dias me disse, certa vez, que a pessoa mais informada sobre a arte brasileira chamava-se Antônio Bento", ougulha-se Lima. O trabalho de Bento sobre Cícero Dias (que no alto dos seus 92 anos, ainda reside em Paris), foi o que conferiu maior notoriedade ao crítico de arte, na França.
Resgatar a memória de Antônio Bento é somente uma das funçôes do Instituto. Como ele era uma pessoa bastante inteirada com as manifestações folclóricas - foi o mediador, por exemplo, do encontro entre o escritor Mário de Andrade e o cantador de coco Chico Antônio, que deslumbrou o modernista em sua visita à fazenda Bom Jardim em meados da década de 20 -, a instituição será sobretudo um Centro de Pesquisas das Manifestações da Arte Popular. Segundo Lima, ele descobriu o talento do cantador, e o levou para Bom Jardim, deixando-o bem à vontade para compor e cantar seus versos."
Maria do Santíssimo, pintora primitivista
Pintora primitivista que
jamais compreendeu a importância e o alcance de sua obra, Maria
Antônia do Santíssimo nasceu em São Vicente, RN, em 1890, e
faleceu no mesmo município da região seridoense, em 1974.
Pobre, de hábitos simples, era voltada para as prendas domésticas, sem vislumbrar para o seu futuro nada além da cerca-viva, de paisagem de xique-xiques, dos açudes castigados pela estiagem. Pintava desde criança, inspirando-se na fauna e na flora da região. Fabricava seus pincéis a partir de palitos da folha do coqueiro e pintava com anilina sobre cartões simples. Os temas brotavam de vivências e lembranças recriadas por sua imaginação, em traços simples e de muita pureza.
São galos, pavões, pequenos animais domésticos, cajueiros, flores e frutos do sertão, tudo com um toque mágico de sua arte.
Em 1962, sem jamais sair de sua terra natal, Maria do Santíssimo viu sua carreira ganhar um grande impulso, graças ao pintor Iaponi Araújo. Até então, os quadros da pintora estavam restritos a pequenos oratórios, a velhos baús, e mesmo a paredes da sala de alguns coronéis da região.
O seu marchand, tão primitivo quanto ela, era o marido João Inácio.
Com o apoio de Iaponi Araújo, artista sensível e também seridoense, os principais centros de arte do País começaram a conhecer a obra de Maria do santíssimo.
A partir dos 72 anos de idade, Santíssima saiu do anonimato para ter sua arte vista, elogiada, consagrada como uma das melhores do País. Seus trabalhos foram exibidos em grandes museus brasileiros e na Trienal da Pintura primitiva de Bratislava, Tchecoslováquia.
Tem abras no acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo, no Museu do Folclore do Rio de Janeiro, no Palácio do Itamarati, em Brasília, e no Museu de Pintura Primitiva de Assis, em São Paulo.
Faz parte do Dicionário de Pintores Brasileiros, com verbete escrito pelo crítico Clarival de Prado Valladares, que ressalta: "Artista genuína que transfigura rosas, cajus, aves e cravos em elementos abstratos, com a versatilidade e o deslumbramanro de um caleidoscópio."
Maria do santíssimo, imortalizada por sua arte primitiva e bela deixou de opintar aos 83 anos de idade, um ano antes de morrer.
Maria do Santíssimo recusou o papel cançon e a tinta guache que lhe ofereceram, porque, para ela, todo o sentido dos seus trabalhos, das formas dos galos, cajus, pavões e roseiras, somente se fixaria na anilina e no papel mais simples.
De suas pinturas emergiam a vida e seu cotidiano. "Os burros eram lembranças dos cavalinhos de carrossel, ingenuamente amarrados pelos arreios aos troncos das espirradeiras. Os melindres, pequenos galhos de uma plantinha doméstica criada em vasos, chamada alfinete, colocados nos cantos dos desenhos para complementar o equilíbrio das composições, pareciam penas-de-escrever, brilhando em verde. Sua temática floral registrava o conhecimento de sua flora de canto de muro: cravinas, cravos, malvões, espirradeiras, boas-noites e dessas flores de papel para enfeite dos santos nos altares, oratórios ou nas procissões de festas", registra Iaperi Araújo.
Em sua homenagem, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN e a Fundação José Augusto criaram os prêmios de pintura "Maria do Santíssimo", hoje, desativados. A Prefeitura Municipal de São Vicente deu seu nome à Biblioteca Pública da cidade.
A pintora consta como verbete dos seguintes livros: Aspectos de Pintura Primitiva Brasileira, de Flávio Aquino (Spala, Rio, 1978); Dicionário dos Artistas Plásticos do Brasil, de Carlos Cavalcanti (Ed. MEC/FUNARTE, Rio); Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, de Roberto Pontual (Ed. Civilização Brasileira, Rio, 1971); Enciclopédia Delta Larousse; Festas Brasileiras por seus artistas, de Geraldo Edson de Andrade (Spala, Rio, 1980); e Maria do Santíssimo - uma pintora popular, de Iaperi Araújo (Ed. Gráfica Manimbu, 1966 e Editora Universitária, 2ª edição, 1981).
· Exposição Individual na Galeria Villa-Flor, em Natal (1968)
· Exposição Individual na Galeria Renascença, em Natal (1970)
· Exposição na Galeria Goeldi, no Rio de Janeiro (1970)
· Trienal de Pintura Primitiva, em Bratislava, na Tchecoslováquia (1973)
· Salão de Verão do Jornal do Brasil, no MAM/RIO (1974)
· Exposição na Galeria Rodrigo Melo Franco, na FUNARTE/Rio (1979)
Ricardo Junqueira, fotógrafo
Ricardo Junqueira nasceu em
Brasília, no dia 21 de maio de 1965, onde viveu até os 22 anos.
Começou a fotografar em 1979 e tornou-se profissional em 1984,
preocupado, desde o começo da carreira, em pesquisar e atingir
resultados em que não só a técnica estivesse presente, mas
também onde a expressão artística e a capacidade de criação
tivessem voz.
Buscando aprimoramento profissional, em agosto de 1988, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou em diversos estúdios com fotógrafos de publicidade sem com isso deixar de se preocupar com o lado artístico da fotografia, tanto que sempre procurou conciliar as duas vertentes de seu trabalho, seja empregando técnicas de pesquisa e métodos pouco convencionais em seu trabalho comercial, ou, sempre que conseguiu, usando os proventos deste trabalho comercial para subsídio do trabalho de expressão que se resume em algumas exposições e publicações.
De janeiro a agosto de 1991 coordenou o núcleo de pesquisa e montagem de portfólios e exposições da galeria Collectors em São Paulo.
Em 1992, deixou de ser assistente e conquistou sua fatia de mercado no disputado mercado da fotografia profissional de São Paulo onde publicou ensaios em diversos jornais e revistas, além dos trabalhos publicitários com agências como JW Thonpson, DPZ, Grottera, Parra, Stalimir, Great entre outras.
De 1993 a 1994 foi professor de fotografia na Escola Panamericana de Arte em São Paulo.
Em 1996, mudou-se para Natal, no Rio Grande do Norte, em busca de qualidade de vida e de conquistar novos espaços, é em Natal que reside e trabalha atualmente.
É filiado à Abrafoto Associação Brasileira de Fotógrafos de Publicidade desde 1999.
Ricardo tem formação em Comunicação Social (Publicidade) pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília/CEUB.
Já foi assistente dos fotógrafos Roberto Donaire, Guy Weber, Oswaldo Forster, Erwin Brehn, Duda Oliveira, Ângelo Pastorello e, como free-lancer, de Tuca Reinés.
Principais Cursos e Workshops:
V Semana da fotografia - Composição em fotografia - Ivan Lima -Curitiba - PR - ago. 1986
VI Semana da fotografia - Montagem de Portfólio - Rosely Nakagawa - Ouro Preto - MG - ago. 1987
VI Semana da fotografia - Mídia Impressa Capa de disco - Felipe Taborda - Ouro Preto - MG-ago. 1987
Colóquio Latino Americano de Fotografia - Fotografia Urbana - Cristiano Mascaro - Oficinas Três Rios - São Paulo - out. 1990
Oficina Collectors - Nú na fotografia - Lucien Clergue - São Paulo - mai. 1991
Oficina Collectors - Obtenção de fine art prints - Luiz Simões - São Paulo - abr. 1991
I Seminário Internacional Fotografia Kodak - Fotografia comercial - John C. Stanton - São Paulo - abr. 1992
Mês Internacional da Fotografia - Fotografia de Autor - Joel-Peter Witkin - São Paulo - mai. 1993
II Seminário internacional Fotografia Kodak - Fotografia publicitária - Dean Collins - São Paulo - abr.1993
Semana da imagem - Senac/SP - Prod. gráfica - Mário Carramilo - Gráfica Burti - São Paulo - jul.1994
Semana da imagem - Senac/SP - Processos alternativos - Kenji Otta - São Paulo - jul.1994
Semana da imagem - Senac/SP - Qualidade Total - Marcos Ribeiro - São Paulo - jul.1994
III Seminário internacional fotografia Kodak - fotografia Digital - Dean Collins - São Paulo - abr. 1994
Marketing cultural Sebrae/RJ - Mário Margutti - Natal - nov. 1998 e mai. 1999
Exposições Coletivas:
Expoarte - Universidade de Brasília - Outubro 1985
''Rock Brasiliensis'' - Galeria Funarte/ Brasília - Jun/Jul 1986
Homenagem aos 10 anos da morte de JK Museu de Arte de Brasília - Set/Out 1986
Levante Centro-Oeste - Fundação Cultural do Distrito Federal - Mai 1987
Dois Fotógrafos Contemporâneos de Brasília - Galeria Funarte/Curitiba - Out/Nov 1987
Iconógrafos - 16 Fotógrafos Hoje - Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro - Abr 1990
Iconógrafos - 14 Fotógrafos Hoje - Museu de Arte Moderna de São Paulo - Jul/Ago 1990
XXI Bienal de São Paulo - Fundação Bienal de São Paulo - Out/Dez 1991
Língua em Babel - Mezanino da Sala Villa Lobos - Teatro Nacional de Brasília - Jun/Jul 1992
Ciclo Clic Clube de Criação de São Paulo - Out/Nov 1992
Outros Suportes - Mês Internacional da Fotografia - Galeria Documenta - São Paulo - Mai 1993
Panorama da Fotografia Contemporânea Brasileira 50 a 90 - Mês Internacional da Fotografia - Sesc Pompéia São Paulo - Mai 1993
Um Olhar Sobre Josef Beuys - Museu de Arte de Brasília - Fev 1994
Exposições Individuais:
Atopos - Eliana Carneiro - Sala Martins Penna - Teatro Nacional de Brasília - Ago 1987
Provisoriamente Paixões - Um Processo de Montagem - Galeria Le Corbusier Brasília - Abr 1989
Provisoriamente Paixões - Fundação Cultural do Distrito Federal - Mai/Jun 1989
Provisoriamente Paixões - Sala de Exposições da Aliança Francesa São Paulo - Ago 1990
Macbeth Mauser - Cenas de uma Tragédia - Sala Villa Lobos - Teatro Nacional Brasília - Abr 1991
Retrospectiva Teatro e Dança - Jogos de Cena - Teatro Sesc Garagem Brasília - Set 1990
Macbeth Ainda Mauser - Sala Martins Penna - Teatro Nacional de Brasília - Abr 1991
Herbarium - Li Photogallery São Paulo - Mar 1996
Herbarium - Espaço Cultural 508 - Galeria Rubem Valentim Brasília - Set 1996
Herbarium - Espaço Cultural Idea Haus - Natal Ago 1997
A Cara da Casa - Casa da Ribeira Natal - Jul. 1999
VIP - Espaço Emporium Cadeiras Natal - Out. 1999
Casa da Ribeira - Um Espaço e seus Passos Natal - Mar-2001
Contato: contato@ricardojunqueira.com.br
Kalliane Sibelli, poeta
Kalliane Sibelli de Amorim
nasceu em Umarizal (RN), em 1982, e reside em Mossoró desde a
infância. Aos 14 anos, começou a publicar poemas no jornal O
Mossoroense, atividade que realiza até hoje. Graduou-se em
Letras pela UERN em 2002 e, no ano seguinte, editou seu primeiro
livro de poemas Outonos pela Coleção
Mossoroense. É autora de três livros inéditos O
Espelho Avesso, Desenho Breve e Exercício de
Silêncio além de crônicas e artigos literários
publicados no site da editora Queima-Bucha, no informativo
cultural A Voz e no já extinto Jornal Literário
Clandestino, de cuja fundação participou. Recebeu Menção
Honrosa nas edições II e IV do Concurso de Poesia Luís Carlos
Guimarães, promovido pela Fundação José Augusto, e, na V
edição, obteve o primeiro lugar. Os poemas abaixo, que integram
sua obra inédita, foram classificados nas edições II, IV e V
do concurso.
Logo depois de vencer o V Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães, concedeu entrevista ao poeta Mário Gérson, do jornal Gazeta do Oeste, de Mossoró.
A íntegra:
Kalliane Sibelli de Amorim é primeiro lugar no V concurso Luís Carlos Guimarães de Poesia
Nascida em Umarizal, Kalliane Sibelli de Amorim é mossoroense por adoção, formada em Letras pela Uern, com habilitação em Língua Portuguesa. Desde muito jovem, reside na cidade com a família. Em 2002, lançou seu único trabalho em forma de livro, Outonos, pela Coleção Mossoroense. No mesmo período, participou, ativamente, do cenário literário da cidade, através do Clandestino, jornal cultural mensal. Em 2002, foi menção honrosa pela primeira vez no Concurso Luís Carlos Guimarães de Poesia e, em 2004, repetiu o feito. Hoje, é primeiro lugar no concurso que já se torna tradicional. Com projetos para o futuro, como a edição de dois novos livros de poemas, Espelho Avesso e Exercício de Silêncio, o último que terá o prefácio do poeta e crítico literário Raimundo Leontino Filho, Kalliane Sibelli comenta sobre sua poesia, o reconhecimento literário, dentre outros assuntos.
Gazeta do Oeste - Como foi ter ganhado o Luís Carlos Guimarães de Poesia?
Kalliane Sibelli - Em primeiro lugar, nem pensava em mandar os poemas. Este ano estava sem nada tão bom, pelo menos que achasse tão bom, porque sempre nos cobramos muito. Mandei e nem esperava ganhar. No sábado, dia 3, recebi a notícia através de um telefonema de Leontino Filho. Foi a mesma emoção de quando passei no vestibular. Muito bom. É um reconhecimento, de qualquer forma. Mas sempre temos de melhorar.
GO Isso é inerente a todo artista?
KS Do verdadeiro artista. Qualquer tipo de arte, seja qual for, estamos sempre buscando o melhor. Uma pessoa que se indaga nunca está completamente satisfeita, por melhor que escreva, estará buscando alguma coisa.
GO Como foi o seu início com a poesia?
KS Comecei através de um incentivo de uma professora minha, quando eu fazia a 8ª série. Produzi um poema pequeno e apresentei à professora. Então, ela me disse: continue. Às vezes, a palavra de um professor muda a nossa vida. Depois comecei a escrever coisas mui românticas, piegas. Com o tempo, a gente acaba melhorando. Há algumas pessoas que acham que só se deve escrever sob inspiração. Não é só isso. Precisa-se de leitura, de técnica.
GO Sua poesia é mais inspiração ou transpiração?
KS Pode-se dizer que hoje é mais transpiração. Mas acredito que temos de ser mais observadores. Quando sento para escrever, vem uma idéia, mas será que o som ficará bom, essa figura de linguagem enriquece o texto? Às vezes, há versos que escrevemos e ficam guardados, para depois serem re-visitados.
GO E se dar o luxo de usar muita técnica e perder a sensibilidade...
KS Não. Vi muitas pessoas criticarem o que escrevo, dizendo que era muito lirismo, muito romantismo, às vezes. Isso é uma característica minha. Não sei ser de outro jeito. Não consigo escrever para agradar a leitor fulano nem sicrano. Quem quiser me ler, terá de o fazer do jeito que sou.
GO E qual o seu jeito?
KS (Risos) Gosto das coisas cotidianas. Se me esforçasse, daria mais para a crônica. A poesia está mais dentro de mim do que fora. Às vezes, sou contraditória, mas dizem que isso é mau-de-mulher...
GO De homem também...
KS (Risos) O ser humano em si é um poço de contradições...
GO Como foi sua experiência no jornal Clandestino?
KS Foi muito positiva. Um período de produção. Conheci várias pessoas. Acho até que acabou produzindo muitos frutos. A Graciele está aí com o jornal A Voz. Eu fico incentivando meus alunos. O que eles escrevem, mando para o site da Pedagogia. E você, hoje escrevendo na GAZETA.
(Mário Gerson - Gazeta do Oeste)
Poética Afeiçoei-me ao silêncio como quem talha figuras no ar. As palavras se resguardam se entreolham em minha voz. Espera... Escrever é ensaiar passos de fumaça sobre a luz. Estrelas Nas noites de São João os meninos costuravam a rua exibindo chumbinhos, rojões e busca-pés só para aquarelar o céu de muitas fumaças breves. Como eu sofria sentada à beira da calçada! Mas aí meu pai punha fogo num pedaço de bombril e girava girava girava e a mim parecia que o céu estava caindo (porque o céu ainda não era o que dizem essa coisa vaga) e que as estrelas eram amigas de quem se sentia só. Lição de amor Numa caixa de sapatos jazem sobrepostos os meus inúmeros corpos: um cartão de aniversário datado, um missal de amigo em memória datado, uma fitinha de São Francisco, conchinhas roubadas na praia (mania feia de amor falso), uma flor de papel e arame, desenhos inacabados e, num envelope amarelado, num último envelope, três cartas de amor datadas um rapaz que se perdeu um rapaz que se casou um rapaz que se encantou. Duma caixa de sapatos brotam meus habitantes. Minhas tardes se comovem, chegam mesmo a sorrir, e eu oferto minha ternura sem que ninguém desconfie. |
Canção da chegada Quando tu vieres letra sobre a folha em branco e choveres teu silêncio sobre a estante acesa... Quando tu vieres firme, de fome aos pedaços, e pisares com teus lábios esta fonte aberta... Quando tu vieres valsa velejando o vento, escondendo teus acordes sob os meus cabelos... Quando me colheres, rosa estranha entre os dentes, e embeberes os teus sonhos na seiva latente... Amanhecerei poemas de palavras mudas ou o espelho onde ocultes tua face nua... Chamado Diante de mim o mar se derrama em longas palavras de espumas de além. Os dedos do mar são frias navalhas que ao corte convidam, são sonhos profanos de estar e não ser. Os mortos o mar embala e me chama: ó mar, mar azul contido nas conchas, Eu quero te ser... Sons de lira À memória de minha avó, Eulira Gurgel Ainda não era noite quando ouviste minha voz, sozinha, rezar teu nome. Ainda não era noite quando te encontrei dispersa, na janela emoldurada, fitando os campos da infância. Não sabia em que pensavas, mas nas linhas do teu rosto estavam também as minhas... Agora a noite me vem e eu não sei por onde andam os teus olhos, lagos serenos, nem em que lugar longínquo os levaste a apascentar... Nunca mais tive notícias das tuas mãos de pastora que me ensinaram o ofício de guardar tudo que passa... Só teu nome sopra as águas que escorrem dos meus olhos, entoando sons de lira, docemente, pela noite. |
Manoca Barreto, guitarrista
Desenvolvendo sua
musicalidade na área do Jazz Fusion, Música Instrumental e
arredores Manoca Barreto, conceituado guitarrista potiguar,
nasceu em Natal/RN, em 12 de abril de 1964. Estudou inicialmente
violão, optando logo em seguida pela guitarra elétrica.
Na década de oitenta, integrou a banda hard progressiva Fluidos com a qual gravou um disco compacto no Studio da Sonoviso (RJ).
Em 1987 passou a morar no Rio de Janeiro onde permaneceu durante dois anos e meio estudando Guitarra e Harmonia Funcional e Improvisação na Rio Música e Teoria e Percepção na Uni-Rio, além de atuar como instrumentista em shows e gravações.
Em 1989, de volta à Natal, passa a desenvolver seu trabalho como guitarrista em grupos instrumentais como Trio Al-Mustafa, Banda Be Pop, Quartetoque e o Manoca Barreto Trio.
Foi professor de Guitarra e Harmonia da Fundação Hélio Galvão, do Instituto de Música Waldemar de Almeida e da Toque - Escola Livre de Música e, desde 1998, é professor de Guitarra Elétrica e Harmonia Funcional e Improvisação da Escola de Música da UFRN, além de ministrar oficinas e cursos como professor convidado em diversos eventos.
Em 2002 concluiu Mestrado em Música pela Unicamp, onde desenvolveu pesquisa na área do seu instrumento.
No seu tão esperado álbum de estréia Boa Nova Manoca destila a sua musicalidade em 10 faixas acompanhado por um time escalado com alguns feras da região e comenta
"Aprendi a cultivar a paciência como uma das virtudes mais importantes para atingir objetivos. Tive que trilhar pacientemente os vários caminhos de uma vida musical tardia, enfrentando todas as dificuldades e desafios surgidos. Resisti e segui, nos graves e agudos dessa jornada. A opção me conduziu, por um lado, para a carreira acadêmica, com dedicação ao ensino às novas gerações, e, por outro, para a árdua missão de continuar, como músico, o aperfeiçoamento profissional. Trabalhar com a música e para a música é tarefa das mais difíceis, mas foi este o norte que decidi seguir, razão de ser do que de mais sagrado descobri em mim.
Durante anos sonhei e esperei pelo momento em que tivesse maturidade e tempo suficientes para realizar este projeto. Posso dizer que aqui está a síntese das minhas várias idades, dos locais e períodos por que passei, e, também, de tudo o que aprendi. Vê-lo concretizado é uma enorme felicidade para mim."
Bom Sinal
Guitarrista dos mais
conceituados da região nordeste do Brasil, o potiguar Manoca
Barreto faz o seu aguardado debut solo com o álbum "Bom
Sinal", onde destila a sua musicalidade refinada em 10
faixas imersas no Jazz Fusion, temas instrumentais, brasilidades
e arredores.
Faixas do álbum Bom Sinal
2. Brincando no quintal
3. Bom sinal
4. Um lugar chamado Mangueira
5. Imagens
6. Serra do Martins
7. A dois meses de distância
8. Sambança (homenagem à Miltança)
9. Mudando o rumo
10. Minha Terra
Contatos para Shows e Cursos: m.barreto@digi.com.br ou Mudernage Diskos
Gutemberg Costa, escritor
Pesquisador, escritor, historiador,
folclorista e conferencista. Estas são algumas facetas de
Gutenberg Costa, nascido em Natal, no dia 8 de agosto de 1959.
Sua paixão pela cultura popular remonta à infância, quando
manteve os primeiros contatos com emboladores de coco e
cantadores de viola, nos períodos de férias, em Pendências/RN.
Hoje, atua como sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, da Academia Mossoroense de Letras/RN, da Comissão Paulista de Folclore/SP, do Instituto Memória de Canindé e do Instituto Marrocos de Estudos Sócio-Culturais/CE. Integra o corpo de estudiosos da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC).
O escritor é membro de várias instituições científicas nacionais: Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), Associação Estadual de Poetas Populares - Seção Natal e a Comissão Norte-rio-grandense de Folclore (CNF).
Possui 19 obras publicadas, dentre elas: "Natal: Personagens e Populares" - Edição Especial comemorativa ao 4º Centenário da Cidade do Natal; "A Presença de Frei Damião na Literatura de Cordel" - Homenagem ao Ano do Centenário de Nascimento de Frei Damião; e, a mais recente, "Presença do Folclorista Câmara Cascudo na Literatura de Cordel", que mereceu a Menção Honrosa no Concurso Nacional Câmara Cascudo.
Os próximos livros a serem publicados são: "Dicionário do Papa-Jerimum - Apelidos e pseudônimos do Século XVII ao XXI" e "Frei Damião: Algumas referências bibliográficas" (Em parceria com Mário Souto Maior).
Prêmios literários:
- 1º lugar no Prêmio Manoel Ferreira Nobre, 1998. Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
- Menção Honrosa no Prêmio Nacional Câmara Cascudo, 1998. Fundação Capitania das Artes.
- Troféu Caju pelo conjunto de sua obra referente à cultura popular, 1998. Promotor cultural Lula Belmont.
- Prêmio Direitos Humanos na Área de Folclore, 1998. CDHMP.
Sobre Gutemberg Costa:
Aluízio Mathias, poeta e escritor
Falar do escritor e pesquisador Gutenberg Costa é contar a sua trajetória incansável pela Cultura Potiguar. Gutenberg Costa trilha pelos caminhos da Literatura de Cordel, do Cangaço, da História das Lutas Populares do Nordeste, do Folclore e da Religiosidade Popular. Publicou inúmeros artigos em vários jornais e revistas especializadas sobre esses temas. Proferiu palestras em vários Seminários e Encontros Culturais, a convite de instituições do país afora. Criou, em 1994, juntamente com o Prof. Adrovandro Claro, o Projeto "Mandacaru" - edições de poesias de cordéis. Quando esteve na Fundação José Augusto, em 1995, idealizou o Projeto "Chico Traíra", criando condições para a publicação de trabalhos inéditos de cordelistas potiguares. Ainda em 1995, foi eleito Conselheiro Municipal de Cultura, em Natal. Foi consultor do Projeto "Poesia Circular II", indicando poetas populares e trovadores para aquela fase de edição do projeto em 1996.
Ático Vilas-Boas da Mota, presidente da Comissão Nacional de Folclore
Gutenberg pertence à geração dos novos expoentes potiguares dispostos a darem continuidade à obra dos seus coestaduanos - ilustres e prodigiosos - no afã de não deixarem no limbo do esquecimento o legado de nossa cultura popular, o qual, sem o cuidadoso zelo de sua parte e dos seus pares, estaria totalmente condenado à poeira do tempo.
Dorian Gray Caldas, artista plástico e poeta
São inúmeros os estudiosos do cordel em nosso país, principalmente, os jovens das universidades desenvolvendo teses e estudos comparativos das abrangências do cordel das mais diversas especificidades. Destaco, em nosso Estado, estudos da importância dos de Gutenberg Costa. Ressaltamos, também, a contribuição de Veríssimo de Melo... e não esquecendo nunca a contribuição maior de Câmara Cascudo na abrangência de seus "Cinco Livros do Povo" e do "Dicionário do Folclore", obra maior da nossa formação étnica e antropológica."
Alguns livros:
| Presença do Folclorista Câmara Cascudo na Literatura de Cordel (2000) | A presença de Frei Damião na literatura de corde(1998) | A Influência do cangaço na música popular brasiileira(1998) |
Gutemberg Costa, além de inúmeros artigos publicados em revistas e jornais, já publicou, na área do Folclore, Gota de sangue num mar de lama (1992), Profetas do Nordeste (1994), Zumbi 300 anos depois (1995), O cangaceiro Antônio Silvino e sua presença no Rio Grande do Norte (1996), O riso da batina anedotário histórico, folclórico e religioso da terra potiguar (1996), A presença de Lampião na literatura de cordel (1997), A presença de Frei Damião na literatura de cordel (1998), Santa Luzia e os olhos na religiosidade do Folclore (1998), A influência do cangaço na música popular brasileira (1998), Santo forte e lembrado, povo curado (1999) e Padre João Maria o santo de Natal na literatura de cordel (1999).
Carlos Sérgio Borges, cenógrafo e artista plástico
Construir cenários, criar
figurinos, pintar, moldar, costurar, esculpir, transformar um
amontoado de espuma, ferro, tecido e madeira em arte. Esse é o
desafio diário do artista plástico, cenógrafo e figurinista
Carlos Sérgio Borges, potiguar de 42 anos responsável por boa
parte do que vemos nos palcos do Rio Grande do Norte. Envolvido
principalmente com a área da dança, Borges cria cenários e
figurinos para espetáculos montados pela Escola de Dança do
Teatro Alberto Maranhão, Ballet da Cidade, Studio Corpo de Baile
e grupo Parafolclórico da UFRN, entre outros.
Com mais de 20 anos de experiência, Carlos Sérgio Borges apresenta suas crias para o período carnavalesco: a Troça do Sebastião, bloco tradicional que circula nas ruas da praia de Pirangi, será escoltada pelos bonecos gigantes Rei Sebastião, Rainha Sebastiana e o Pescador. Mais ao sul do litoral, em Tabatinga, a prévia Aratu no Facho abre alas com um grande caranguejo de espuma, também criação dele. Para ajudar no cotidiano da profissão, ele ainda lança mão de conhecimentos em artes plásticas.
Pensar em cenografia é imaginar o espaço, a ambientação e o roteiro que envolverá o ato cênico. Tudo tem que entrar em sintonia para o espetáculo funcionar, encantar e conquistar o público.
Usando todo tipo de material para construir cenários e confeccionar figurinos, Borges lembra que o cenógrafo deve pensar em detalhes como saber se o cenário vai viajar, quais as condições de transporte e em quais locais a peça, ou show, será apresentado. Geralmente o trabalho de criação é executado a partir de um roteiro. Se a concepção do diretor prevê uma caverna no palco, o cenógrafo tem milhões de possibilidades para construir uma - pode ser moderna, antiga ou estilizada, de papel, tecido ou isopor - por isso o trabalho deve ser feito em conjunto, garante. Borges, que trabalha com o auxílio de uma equipe formada por costureiras, marceneiros, ferreiros e assistentes, disse que sua primeira missão é saber o que funciona e o que não funciona em cima do palco. Algumas pessoas acham que temos uma varinha de condão. Precisamos de tempo para viabilizar um trabalho bem feito.
Tudo começou em 1977, no ateliê de arte da ETFRN (hoje Cefet). Foi lá que desenvolveu sua aptidão para gravuras e passou a dedicar-se a uma linha mais surrealista. Tomou gosto e acabou formando-se em Educação Artística pela UFRN. Em 1983, comecei a trabalhar com cenários para shows de música, depois passei a atender espetáculos de dança e teatro. Até que em 1989 mergulhei de cabeça no carnaval. Fui responsável por 3 anos consecutivos da concepção visual da Escola de Samba Imperatriz Alecrinense, ganhamos em 1989 e 1990, inclusive Babal era um grande parceiro da época, lembrou.
Depois de uma grande decepção, em 1991, quando perdeu injustamente o título para uma escola que não tinha alegorias, decidiu se afastar do carnaval e hoje prefere trabalhar sob encomenda.
Seu envolvimento com a folia de Momo foi além e Carlos assinou por dez anos a ambientação do Baile das Kengas até 2003.
(Yuno Silva, jornalista)
Tradição popular em múltiplas cores
As danças, as tradições,
os repentistas e todas as manifestações culturais populares que
compõem o folclore estão presentes nos trabalhos em acrílico
sobre tela do artista plástico, cenógrafo, figurinista,
aderecista e roteirista de espetáculos de dança Carlos Sérgio
Borges. Em sua última produção, apresenta ao público uma nova
faceta de sua arte, deixando de lado os elementos decorativos, as
cores, as formas para resgatar a cultura popular na exposição
As Cores do Folclore, apresentada em agosto de 2005.
Acostumado em transmitir para as telas os traços do abstracionismo, essa exposição figurativista começou a surgir menos de um mês antes da abertura da mostra, quando o artista plástico recebeu a encomenda para pintar um boi, Deste boi fiz 25 quadros, entre eles cinco bois, rendeiras, manifestações como o caboclinho, ararura, pastoril e outras danças folclóricas. Assim resolvi fazer uma homenagem ao Folclore. Tudo ficou pronto em 20 dias, afirma.
A exposição ele dedica a nomes potiguares como o folclorista Deífilo Gurgel, a fotógrafa Candinha Bezerra, o presidente da Capitania das Artes Dácio Galvão, o coreógrafo Dimas Carlos, o músico Jorge Negão e a Coordenadora do Centro de Promoções Culturais da Fundação José Augusto Isaura Amélia Rosado. São pessoas que sempre lutaram e trabalharam para manter viva essa coisa tão bonita que é o folclore, através de lançamento de CDs, livros, produzindo folhetos, fazendo música, resgatando as danças e estudando o folclore.
À medida que o artista ia pintando as obras ele afirma que aquele universo o remetia a sua infância. Eu tinha uns 10 anos e a praia de Pirangi era uma aldeia de pescadores, meu pai era um dos poucos que tinha casa no local e não era pescador. Lá tive um grande contado com a nossa cultura, ajudava os pescadores a puxar a rede, corria atrás do boi e queria me esconder embaixo, tinha tribos de índio que durante o veraneio faziam os famosos assaltos aos veranistas, que era uma espécie de festa na qual o dono da casa oferecia comida e bebida. Eu saia atrás deles até Búzios, só voltava de noite para casa, conta.
Além do contato durante a infância com elementos do folclore, Carlos Sérgio durante toda a sua carreira como figurinista criou figurinos e acessórios para grupos folclóricos. Este ano o Grupo Parafolclórico da UFRN viajou para um Encontro Internacional de Folclore, na Espanha, com figurinos criados por ele. As suas obras abstratas também já traziam cores muito utilizadas pelo folclore nordestino. Todas essas referências o ajudaram a criar a exposição que tem 25 telas.
(Texto publicado no caderno MUITO do jornal DIÁRIO DE NATAL em agosto de 2005)
O Grupo Parafolclórico da
UFRN foi criado há 14 anos com o objetivo de pesquisar as
manifestações folclóricas do Brasil e expressá-las através
da linguagem cênica da dança popular. Embora caracterizado como
um Projeto de Extensão Universitária, o grupo tem desenvolvido
pesquisas e orientações de Estágio Supervisionado, articulando
assim, ensino, pesquisa e extensão.
O termo Parafolclórico indica que as danças folclóricas deixam de ser expressões espontâneas das vidas de seus praticantes para serem reelaboradas em ensaios, visando serem apresentadas em palcos ou outros espaços cênicos por artistas não necessariamente populares (1).
Não se trata de uma falsificação do popular, mas sim de uma possibilidade de criação de novas estéticas, através das quais a cultura do povo é reelaborada em novos contextos. Acredita-se que a contemporaneidade não destrói o tradicional, mas lhe resignifica, combinando-o com novas informações, haja vista que a tradicionalidade sempre se renova (2).
E nesse sentido o Grupo Parafolclórico da UFRN tem sensibilizado seu público, especialmente os jovens, para as manifestações do Folclore e das Artes Tradicionais, entendendo que na contemporaneidade permitir a apreciação da estética popular torna-se indispensável para que as manifestações tradicionais sejam revalorizadas e pensadas como elementos da cultura essenciais para a contextualização de novas produções dessa mesma cultura.
Atualmente o Grupo Parafolclórico da UFRN busca ampliar o intercâmbio com outros grupos, nacionais e internacionais, visando solidificar seus objetivos de revitalização da cultura popular através da dança. Para tanto, tem na montagem e apresentação de espetáculos e coreografias a possibilidade mais significativa de divulgação do seu trabalho, a partir dos quais é possível perceber a concretização do elo entre ensino, pesquisa e extensão a partir do movimento do corpo dançante que torna-se comunicação direta com o público.
Constituindo-se de 30 componentes (em média), integra alunos, professores e funcionários da UFRN, além da comunidade em geral, que envolve-se e reveza-se nos trabalhos de pesquisa, apoio científico, direção artística, montagem coreográfica, ensaios, aulas de dança, administração de recursos, dentre outras funções.
A dinamicidade do grupo provém dessa opção de abertura, e até mesmo de uma certa rotatividade dos seus componentes, o que permite renovar-se, sem alterar a essência de suas propostas. Na sua trajetória, o grupo estreou dez (10) espetáculos assim entitulados: Recordações(1992); Calendário(1993); Nossa Cor(1995); Afro-Brasil(1996); Canguleiro(1998); É popular!(2000); Folguedos(2000); Folheando(2001); Guarnicê(2003) e Flor do Lírio(2004).
Com estes referenciais interpretamos as manifestações tradicionais e as expressamos através da projeção artística da dança, da música e do teatro promovendo, assim, a difusão destes conhecimentos entre a comunidade em geral. Nesses anos de existência o grupo tem produzido espetáculos e participado de eventos importantes como: Festivais Internacionais de Folclore na Alemanha, I Congresso Latino-Americano de Educação Motora em Foz do Iguaçu/PR, 50ª Reunião Anual da SBPC/RN, Festival Internacional de Folclore de Olímpia/SP, Festivais de Folclore em São Paulo, Rio Claro, Paulínea, Marília, São José do Rio Preto, Piraciaba/SP além de apresentar-se em Teatros, Escolas e Praças em Natal, no Rio Grande do Norte e em outros estados brasileiros. E como reconhecimento a nossa contribuição ao resgate da cultura popular a ABRASFESTFOLK Associação Brasileira de Festivais de Folclore durante o Festival de Folclore de Nova Prata/RS em agosto deste nos agraciou com um troféu de honra ao mérito.
Composto por 22 componentes, entre bailarinos, direção e músicos, o grupo apresenta em sua proposta coreográfica atual uma releitura do universo dramático que constitue o pastoril e várias outras manifestações do período natalino.
Suas coreografias são Pastoril Profano, Lapinha, Brincantes do Reisado e Jornada Pastoris.
O Grupo Parafolclórico da UFRN tem tematizado em suas danças o universo da arte do povo através de processos de elaboração cênica do universo dramático e da gestualidade dos mais distintos folguedos da cultura brasileira: jogos, teatro de bonecos, danças, cortejos, entre outros. A cada espetáculo, observamos, revemos e acrescentamos informações aos códigos estéticos visualizados nas artes tradicionais. É importante dizer que esses códigos não são apenas locais, mas universais à medida que comunicam uma história social e um universo de beleza contido em nuanças possíveis de serem observadas em várias culturas, como os cortejos de coroação dos reis do Congo, os autos de boi, as danças de roda, os rituais indígenas e as jornadas pastoris.
Uma arte que se combina com as informações de seu tempo e se refaz, no registro da oralidade, na memória de seus artistas e no corpo dos que viram ou ouviram as mais diversas narrativas. Uma arte que se faz também com as leituras de outros códigos estéticos, aproximando-se do imaginário de outros artistas que se apaixonam e se encantam com essa linguagem e assim compõem outros cenários. Os artistas da arte da rua e os artistas da arte do palco encontram-se no desejo de co-habitar em um universo capaz de transformar o prosaico em um mundo povoado por mitos, lendas, cores e gestos poéticos.
Flor do Lírio surge da emoção e das lembranças de quando dancei pastoril na porta da Igreja, das canções do velho Faceta que ouvia na infância, da magia da noite de Natal e do dia de reis, com o colorido de fitas e espelhos que jamais esqueci. Flor do Lírio é dedicado aos artistas e a arte popular.
(Petrucia Nóbrega - Coreógrafa)
Mais do Grupo Parafolclórico da UFRN em www.grupoparafolclorico.cjb.net
TaniaN, artista plástica
Nasci no sertão
nordestino, em Alexandria, no Rio Grande do Norte, Brasil, em 12
de agosto de 1948. Aos 3 anos minha família mudou-se para a
vizinha cidade de José da Penha, voltando a residir em
Alexandria quando eu tinha 7 anos. Aos 11 ,fui estudar em
Mossoró, também no Rio Grande do Norte.
Em 1966 conclui o colegial em Fortaleza e no ano seguinte entrei na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, concluindo o curso em 1972.
Mudei-me para São Paulo em 1973, onde me especializei em Saúde Pública, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Trabalhei na Prefeitura de São Paulo, como médica sanitarista.
Fazer Artes Plásticas era um sonho que somente mais tarde decidi encarar. Na minha infância e adolescência admirava o artesanato colorido do nordeste brasileiro: bonecas de pano, tapetes e colchas de retalhos, objetos de barro, bordados, santos e oratórios em madeira... Essa paixão pelas cores me levou à pintura. Em Arte sempre fui fascinada por pintura, especialmente pela pintura moderna e contemporânea.
Dividida entre Arte e Saúde Pública, decidi entrar no curso de Artes Plásticas da Panamericana Escola de Arte e Design de São Paulo, em 1999, concluindo o curso em 2001. Foram meus professores, Ingres Speltri, artista plástico paulista, e Nino Patrone, arquiteto e artista plástico uruguaio, residente em São Paulo, discípulo de Joaquin Torres Garcia.
São também meus professores de pintura o artista plástico paulista Antônio Peticov, do NAC (Núcleo de Arte Contemporânea de São Paulo), Osmar Pinheiro, arquiteto e artista plástico paraense, e Marco Giannotti, artista plástico paulistano. Osmar Pinheiro e Marco Giannotti dão aulas na Oficina Virgílio, em São Paulo.
Escrever sobre minha pintura é muito angustiante. Ela não é racional. Qualquer texto me parece artificial e distante. Mas aceito o desafio.
Pintar é uma necessidade, um desejo de muitos anos. Não entendo porque só me permiti realiza-lo após tanto tempo! O que sei é que após iniciar-me na pintura, com orientação profissional, foi um caminho sem volta. Tenho uma compulsão: a pintura. O que quero fazer com ela? É o que tento descobrir diante da melhor angústia de minha vida.
Acho que a minha pintura é barroca como eu também sou barroca, como o Brasil é barroco. Se aceitarmos que a pintura é barroca ou clássica, já sou barroca por exclusão. Não sou clássica. Meu barroquismo é envolto em mantilha medieval. Vejo-me desconfiada, de cabeça encoberta em mantilha de renda preta, entrando na Igreja, como na minha adolescência. Até encantar-me com explicações da ciência sobre a origem da vida e abandonar a religião.
Em minha pintura há fortes elementos do expressionismo. É instintiva e expressa meus sentimentos. Sempre tive grande curiosidade pelo que se esconde nas cabeças e uma grande atração pelo que extravasa da cabeça quando não há nenhum espaço em seu interior. Queria fazer Psiquiatria quando cursava a Faculdade de Medicina.
E mais, minha pintura é Arte informal, imaginativa, gestual e espontânea. Quando finalmente decidi fazer Artes Plásticas era um momento de crise com a Saúde Pública. Eu era apaixonada por Saúde Pública. Quando decidi parar com Medicina estava apaixonada pela pintura. Gosto de pintar simplesmente entregando-me ao ato de pintar. Sem regras ou qualquer tipo de bloqueio.
Quando começo a pintar uma tela quero a intimidade. Não sei o que será a pintura, mas em cada tela tenho uma viagem. Até identifico as paradas, como numa viagem de trem...Quando eu ia de Alexandria para Mossoró, no trem que já não existe mais, eu sabia que o ponto de chegada era lá, mas nunca sabia o que aconteceria... porque era um ponto de chegada transitório. Acho que em minha pintura o ponto de chegada será sempre transitório. Sempre quero mais até não poder mais. É que a vida é bem maior do que eu e eu queria ser do tamanho da vida. E é nessa diferença que está o meu desejo.
O lirismo e a provocação estão em minha poética, fruto da experiência de vida na caatinga do sertão nordestino, meu ninho, e na grande metrópole, onde vivo desde os 24 anos.
Caatinga e metrópole se confundem no jogo de linhas e sombras, de cores fortes, onde às vezes abuso do amarelo e outras do cinza, e sempre dos vermelhos e preto. Galhos secos, entrecruzados, ou traçados urbanos complexos e confusos são imagens recorrentes que se fundem. Essas paisagens me tragam e me envolvem, e fico pequena em seu emaranhado, que assusta e também promete encanto, magia e aventura. Tudo isso e ainda um labirinto de encontros e desencontros da mente humana? Embora em minhas pinturas não haja figuras humanas, elas estão presentes, de uma maneira bem pessoal.
A composição cromática de minhas pinturas é influenciada pela minha origem nordestina. Diz-se que a arte nordestina é multicolorida para se contrapor à paisagem árida e quase monocromática. São imagens coloridas das bonecas de pano, dos tapetes e colchas de retalhos de tecidos, do artesanato de barro e dos bordados feitos à mão ou mecânicamente, bandeirinhas de festas juninas e vestuário de danças populares e folclóricas. O solo tropical, de sol ardente, me leva à utilização excessiva de rosa, púrpura, laranja, amarelos e vermelhos. Eles representam, em minha pintura, o lirismo da aurora e do crepúsculo, e o temível sol de meio dia.
Da grande metrópole influenciam minha pintura o mar de cabeças de uma rua do centro da cidade em qualquer hora de um dia normal de semana, os lares improvisados embaixo de viadutos, os corpos dormentes envoltos em cobertores e papelão, aos montes, nas calçadas, a negligência com a exploração de menores nos faróis, a beleza da mistura racial, o encanto das edificações de diferentes épocas e estilos, a ousadia dos arranha-céus, os longos congestionamentos de trânsito, as luzes coloridas que piscam de placas luminosas e outdoors, convidando as pessoas para embarcarem em sonhos, e a multiplicidade de opções de sonhos...
No sertão nordestino ou na grande metrópole, tudo existe em excesso. Há excesso de vida e excessos na falta de viver. Esse excesso transborda em minha pintura, também envolta em pesquisa. Nos estudos de minha origem, tento compensar minha ausência do ninho, e busco inspiração nas mulheres indígenas e africanas escravas, de nomes ignorados, ausentes de nossa História oficial. Tenho necessidade de me apropriar de um conhecimento de minha história, da história de minha família e do lugar em que nasci, tentando reconstruir uma identidade que incorpore elementos submersos em uma colonização baseada na supremacia do colonizador. É o meu lado racional a serviço do imaginário. Essa busca é o que move minha pesquisa na pintura e incorpora uma obsessão no meu trabalho, que se manifesta na minha poética de cores.
Diálogo colorido
Há quem tenha a falsa idéia de que um artista plástico se volta para a arte abstrata porque não domina o desenho. Afinal, acredita-se que fazer borrões em uma tela seja mais fácil do que pintar um detalhado retrato. Nesse sentido, a resposta pode até ser afirmativa, mas, na verdade, a questão é outra.
Diante de uma obra abstrata, o espectador tem a oportunidade de tecer as considerações que bem entender. Muitas vezes é capaz de ver o que nem o autor viu, ou pensou, enquanto criava. A arte abstrata é, por isso, um convite à liberdade do fruidor, que vai observar, imaginar, relacionar, enfim, criar uma ligação com o trabalho do artista.
Uma das regras que o artista abstracionista deve seguir é, justamente, lidar com elementos que não estão presentes na natureza. Por isso, a pintora TaniaN não reproduz o que estamos acostumados a ver. Suas telas trazem um incessante diálogo que ela mantém com símbolos abstratos e seu trabalho tem revelado uma proposta de um relacionamento com a cor.
Inquieta, traz para a tela o microcosmo do processo de cores que se mesclam e induzem os olhos do observador a exposições sutis de luzes e sombras, de tons e meios tons, que se misturam e se multiplicam ao longo de sua obra.
TaniaN guarda a característica solar do nordeste brasileiro. Por isso, suas cores são vivas e vibrantes, mas não incomodam. Ao contrário. Estimulam o olhar. Convidam a participar desse jogo íntimo. Observador e artista.
Luiz Fernando Câmara Vitral, jornalista
Principais exposições
2005
Chapel Art Show 2005
27 de setembro a 2 de outubro de 2005
Escola Maria Imaculada (Chapel School) Rua Vigário João de Pontes, 537 Santo Amaro - São Paulo - SP/ Telefone (11) 5687-7455.
I Salão Nacional G. Matteo de Arte
12 e 13 de julho de 2005
Casa de Portugal Av. da Liberdade, 602 Liberdade São Paulo - SP / Telefone (11) 3342-2104.
Exposição coletiva da Cooperativa de Artistas Visuais do Brasil de 01/10 a 31/12 de 2005.
Local: Domaine de l´Amirauté - Deauville/ França
Exposição individual
17 a 29 de outubro de 2005.
Local: Bita Art Lofts - São Paulo/ SP.
2004
I Salão Aberto Paralelo a XXVI Bienal Internacional de São Paulo - Cooperativa de Artistas Visuais do Brasil/ Casa das Retortas - São Paulo-SP
2003
Masp Centro - São Paulo-SP
2002
Brazilian Euphoria, Latinarte Gallery, Miami - USA
2001
Patrimônio Paulista Recuperado, Associação Brasileira dos Artistas Plásticos de Colagem /Theatro São Pedro, São Paulo-SP
"Alguns são mestres, outros são amigos, com quem vivenciamos experiências, muitos são admiráveis e fazem minha cabeça..."
Antônio Peticov, Dorian Gray, Flávio Freitas, Gilberto Salvador, Ingres Speltri, Ju Corte Real, Márcia Vinhas Fernandes, Osmar Pinheiro, Rô Simões
Mais sobre TâniaN em www.tanian.com.br
Hanna Lauria, artista plástica
Hanna nasceu em Natal/RN,
em 17 de setembro de 1986. Desde os quatro anos de idade já
esboçava suas bonecas e iniciou seu aprendizado de pintura aos
14 anos. Recebeu menção honrosa nos I e II Salão Jovem de
Artes Plásticas da Cidade do Natal na Capitania das Artes.
Em nossas aulas de pintura, descobri uma artista nata, revelando seu mundo interior, criativo, de traços firmes, seguros, expressivos, livres de rigores acadêmicos.
O prazer de pintar, combinado com a garra de vencer barreiras, vêm confirmando a presença de Hanna no espaço artístico.
Cabe a nós, espectadores do seu talento visual, entender a singeleza da sua obra e reconhecer nela a sua prórpia identidade.
Ana Rique, artista plástica e professora de artes
Bonecas Vivas
Põe-se ao observador pelo menos duas vias para a abordagem dos novos desenhos de Hanna: vê-los como obras de um artista que se firma e cresce ou de uma criança que se firma e cresce. Eu não faço opção: vejo-os sob os dois prismas e me encontro diante de imagens literalmente encantadoras.
Como uma criança, Hanna discorre sobre seu cotidiano, fala sobre sua família, animais de estimação e de um ambiente ora organicamente prazeroso, ora rigidamente organizado para conter. Só que, nos dois casos, a imaginação flui, sem contenção.
Como artista, ela experimenta materiais e retira deles efeitos surpreendentes, como nos casos de aquarela e do desenho a pincel; mantém um registro gráfico personalíssimo, criando bonecas-personagens inconfundíveis, muito longe das influências que qualquer artista de sua idade poderia absorver de imagens televisivas, ou, como qualquer artista em formação, reter dos modos e cacoetes dos professores.
Uma artista, Hanna é ela mesma.
Vicente Vitoriano, mestre em Educação do Departamento de Artes da UFRN
Folcore, banda
Com uma nova proposta
sonora, a banda FOLCORE sintetiza as novas tendências da música
popular brasileira misturando tradicionais ritmos e sonoridades
nordestinas com batidas eletrônicas, baixos e guitarras
influenciadas pelo rock e hard core. O FOLCORE é a combinação
da raiz poética nordestina com a sonoridade da música
contemporânea.
É na atitude do rock, que os integrantes da banda passeiam em suas composições no primeiro CD intitulado Folcore. São 20 músicas que entre emboladas, batidas eletrônicas e hardcores, trazem letras inteligentes e fortes influenciadas nas melodias do embolador potiguar Chico Antônio - reverenciado pelo historiador Câmara Cascudo e pelo escritor Mário de Andrade.
Com o objetivo de divulgar esse trabalho em larga escala, o FOLCORE trocou de endereço: saiu de Natal (RN), há seis meses, e se instalou de mala e cuia no Rio de Janeiro. Com um CD, demo clipe, site e um clipping sobre shows feitos no nordeste em mãos, era hora de botar a cara à tapa.
O tempo parece pouco, mas nesses seis meses que está no Rio de Janeiro, a banda já contabiliza algumas vitórias: a estréia do clipe da música Ollie Air na MTV e no canal Multishow, uma participação ao vivo no programa Atitude.com, na TVE, além da ótima aceitação do público e da imprensa carioca. O FOLCORE já tocou em diversos lugares, do underground à zona sul carioca.
Mesmo morando no Rio de Janeiro, o FOLCORE não foi esquecido em sua terra. Nesse meio tempo, a banda foi eleita Banda Revelação de 2003 e levou os prêmios de Instrumentista Revelação e Melhor Vocalista (os três escolhidos pelo público) no Prêmio de Música Hangar 2003 (RN).
O Folcore é um projeto musical formado em Fevereiro de 2003, conta com Franklin (voz e pandeiro), Wilder (voz e ganzá), David (baixo), Riva (guitarra) e Victor (bateria).
Opiniões sobre a banda:
Revista Laboratório Pop
Hard Coco
De Natal vem o Folcore, um dos mais interessantes trabalhos pop do Nordeste.
Jornal O Dia
Vem do Rio Grande do Norte uma das mais gratas revelações do pop nacional.
Folcore é um quinteto arretado que traduz já no seu nome (uma fusão de 'folclore' com 'hardcore') a sua intenção de apimentar o rock pesado com ritmos nordestinos (embolada e coco, sobretudo) e com linguagem eletrônica.
A mistura não chega a ser novidade e está sendo feita há pelo menos dez anos pelos seguidores de Chico Science, mas o primeiro álbum da banda potiguar surpreende positivamente pela qualidade das músicas e pelo instrumental azeitado.
O talento dos rapazes atenua o tom caseiro da produção.
São 19 faixas de beats acelerados, com destaque para Briga dos Estilos (o maior trunfo do CD), Essa Turma É Muito Louca e Drum'n'Base Mau Criado. O clipe de Ollie Air já roda na MTV.
Revista Laboratório Pop
O Folcore é o melhor do pacote. Guitarras hardcore, emboladas de quem entende do assunto e muito humor nas letras. Os natalenses merecem um disco mais bem produzido. As sacadas são excelentes, como o hilário Drumn Base mau criado [sic] e o coco ABC x América, em que eles mostram o humor nada inocente dos cantadores de feira. Outro destaque é o coco-hardcore Briga dos estilos, com a guitarra emulando uma viola sertaneja, e a pesada Velhice, de execução acima da média.
Zine Core - www.zinecore.blogger.com.br
E o despojamento do
quinteto Folcore está de volta em seu primeiro full lenght
oficial, lançado de forma independente com 20 músicas, sendo
que uma está na faixa escondida ("O encontro de Bush com
Saddan Hussein").
Do primeiro mCD "A rockocada" vieram algumas músicas
("Pirataria", "Essa turma é muito louca",
"Cadê o dinheiro" e "Reiôsse, lascôsse,
vôte"), agora um tantinho melhores na gravação, e vale
ressaltar que utilizaram um estúdio de garagem sem modernices,
mas como eles mesmos dizem, a custa de muito suor, sangue e
paciência.
Das faixas novas, a mistura de música pesada, as vezes totalmente hardcore, com elementos regionais como: côco, embolada e repentes, ainda é o forte deles. A musicalidade continua solta com muito vigor e poesia rudimentar.
O que mais atrai no Folcore é a criatividade das letras invocadas, que falam de temas dos mais diversos, de fuleragens bem sacadas a problemas do cotidiano, e também a forma irreverente com que transmitem tudo isso.
Este é um CD que tem
destaques até demais, na verdade cada música é
única."Takanika Nakaneka", por exemplo, é uma bem
construída sátira com o idioma japonês; "ABC x
América" é uma espécie peleja entre os dois times mais
tradicionais do Rio Grande do Norte, estado do grupo; "Ollie
air" é outra sátira, desta vez com as manobras dos
esportes radicais que são em inglês; e pelo título de
"Ilhado em SP", creio que dá pra perceber que ela fala
da vida louca de São Paulo. Isto sem falar das críticas sociais
já vistas nas canções que estavam no trabalho anterior e
também das letras que não puderam estar no encarte por falta de
espaço (nem tudo é perfeito!).
O grupo é bem novo, foi formado no início de 2003, e hoje está no Rio de Janeiro tentando mostrar toda essa originalidade por outros ares.
Muita sorte pra eles...
Jornal O Globo
O grupo potiguar FOLCORE faz uma mistura interessante de rock, db e embolada no seu primeiro e homônimo CD.
Jornal do Brasil
Embolada, coco e repente turbinado por furiosas ''gritarras'' e letras no talo. (...). Eles debutam no CD homônimo, num inovador roteiro entre Briga dos estilos, Relôsse, lascôsse, vôte, Cadê o dinheiro, Ilhado em SP, Pirataria.
Tárik de Souza
Ouça as músicas do Folcore no site da banda
Sousa, poeta e contista
José de Sousa Xavier
(Sousa) nasceu em Macau na rua Baixa Verde no dia4 de agosto do
ano de 1963. Filho de José Arinete Xavier e Salete de Sousa
Xavier, passou boa parte da infância no bairro do Porto do
Roçado, onde começou os estudos na saudosa escola Joana
Sampaio. Foi no Porto que se deparou por duas vezes com a
irremediável de todos nós: a tão falada Moça de
Branco citada nos versos de Manuel Bandeira. Perdeu o avô
que partiu silenciosamente no meio da noite sem se despedir e
certamente, pelas qualidades de homem bom que tinha, foi ao lugar
que merecia. Perdeu também um irmão para a difteria, na sua
forma mais grave e conhecida como GRUPE.
Depois morou o restante da infância e adolescência na rua São José e estudou na Escola Ressurreição. Foi naquela época em que começou a se interessar por Literatura, embora de modo tímido. Sempre se dedicou aos estudos e nunca esqueceu o que aprendeu com alguns professores. Em português, Oscarina; em matemática, Luís Alves, e em ciências, Eunice (foi com esta que seu desejo de ser médico, já cultivado desde a época em que o avô era vivo, aumentou).
No ano de 1980 veio morar em Natal para estudar na ETFRN (atual CEFET). Neste mesmo ano, antes dos 17 anos, começou de fato a se dedicar à Literatura, sendo classificado em dois concursos de contos (2º colocado e menção honrosa) na ETFRN. Concluiu o curso de Edificações, mas, com o forte desejo de ser escritor e estudar Letras, além da indecisão por Engenharia Civil, resolveu seguir o coração e a orientação dos pais e do avô: fez vestibular para Medicina, conseguindo aprovação no primeiro ano. No período da ETFRN, escreveu muitas poesias e contos, mas por infelicidade, e por um longo tempo afastado da Literatura, perdeu todos os seus textos.
Formou-se em Medicina e especializou-se em Cirurgia Geral, profissão em que atua no Serviço Público e Privado. Depois de um grande silêncio, e estimulado por um concurso de poesia local em 2003, voltou a escrever. Nesse curto espaço, dividido entre a profissão e a Literatura, tem produzido muitos textos, sendo em sua maioria poesias. Muitos desses textos lhe deram algumas classificações importantes em concursos locais, nacionais e internacionais.
Alguns resultados expressivos:
1. I Concurso Literário Histórias de Natal - 2003. Promovido pelo Movimento de Vida Cristã/Petrópolis/RJ - A poesia Histórias de Natal foi classificada em segundo lugar na categoria adulto;
2. XII Concurso Internacional de Primavera - 2003. Promovido pelas Edições Arnaldo Giraldo/São Paulo/SP - A poesia Morte de um poeta foi classificada em sexto lugar. Participação na antologia Idiossincrasias. Categoria poesia;
3. Concurso Nacional de Poesia dição Cruz e Sousa - 2004. Promovido pelo Clube Brasileiro dos Escritores e Poetas Profissionais e Amadores/São Paulo/SP. A poesia Passar, com média 86,5, foi a décima quinta colocada. Incluída na antologia;
4. XXI Março Mulher II medalha dra. Áurea Maria de Jesus - 2004. Promovido pelo Departamento de Cultura da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Guaratinguetá/SP. O conto A esquina foi o quinto colocado da modalidade na categoria B adulto;
5. Primeiro concurso Zila Mamede - 2004. Promovido pelo jornal Potiguar Notícias de Parnamirim/RN - O grupo de poesias Elegia a Zila Mamede, A rosa chinesa, Revoluções, Segredos domésticos e Impressões foi escolhido entre as 12 menções honrosas;
6. IV Prêmio Brito Broca de Literatura de Guaratinguetá - 2004. Promovido pelo Departamento de Cultura da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Guaratinguetá/SP. A poesia Vocação foi classificada em quinto lugar na categoria B adulto;
7. IV Concurso Internacional de Poetrix - 2004. Promovido pelo Movimento Internacional de Poetrix/Salvador/BA. O poetrix Desmatamento foi classificado em quinto lugar;
8. IV Concurso Literário Cleber Onias Guimarães - 2004. Promovido pelo Conselho Comunitário de São Paulo Tatuapé/SP - A poesia Sem viço foi classificada em terceiro lugar na categoria adulto nacional;
9. II Prêmio Literário A Gazeta - 2004. Promovido pelo Editora Jornalística A Gazeta dos Sinos/Campo Bom/RS. O conto Presságio, com nota 8,7, foi o primeiro colocado, e o conto Última memória, com nota 7,39, foi escolhido entre as 10 menções honrosas categoria conto;
10. XIV Concurso Internacional Literário de Primavera - 2004. Promovido pelas Edições Arnaldo Giraldo/São Paulo/SP. O conto Virtualidades foi o quarto colocado na sua categoria;
11. I Concurso Internacional de Poesia Moderna. Prêmio Oswaldo Névoa Filho - 2005. Promovido pelo Congresso da Sociedade de Cultura Latina seção Brasil/Mogi das Cruzes/SP. A poesia Prece de um soldado foi a sexta colocada.
Além disso, tem participação em mais de trinta antologias nacionais e internacionais conseguidas por processos seletivos. Só na Câmara Brasileira de Novos Escritores, acumula mais de 15 participações. Na Internet, além do site pessoal, tem trabalhos publicados nos sites:
1. http://www.camarabrasileira.com/jsxavier.htm
2. http://www.camarabrasileira.com/cs05.htm
3. http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_poesia.php?id_autor=1571&flag=nacional
4. http://www.clubeletras.net/837.html
Já teve, também, trabalhos publicados nos jornais O Mossoroense e Diário de Natal.
Em maio de 2005, lançou seu primeiro livro solo (produção independente), com o título de Assim é o cotidiano. Filiou-se à Sociedade de Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte, onde costuma dizer que teve um encontro real com a poesia, pois foi lá que viu carne no corpo da poesia. Atua, ainda, no Movimento Internacional de Poetrix através do Grupo Poetrix no site Yahoo.
Elegia a Zila Mamede Eu quero condenar aquele mar que tentou carregar a minha diva para aprisioná-la, ainda viva, com todo seu poema secular no mais profundo abismo colossal, e quis o conteúdo do seu verso, em imprudente intento mineral, retê-lo para sempre e sem reverso. Ele tramou levar da potiguar mais que o cotidiano privilégio de ter o braço amado, forte e régio daquela que na vida soube dar a plena devoção sobre o papel, e fez a tradução que um escultor faz com a sua mão e seu cinzel para ritmar a voz de um orador. Ao ver no vento o verde feito Apolo ou ora tal qual onda esplendorosa se espraiando a agitar a gloriosa superfície da cana presa ao solo, a nova palmeirense perguntou: Meu pai, isso é o mar? E um pronto: Não, é um canavial, lhe reportou. Porém, não lhe causou desilusão. Ela fundia ao corpo o azul imenso, cantava da maré toda pujança e, junto com seu mundo de criança, dava também ao campo amor intenso. Daquele dualismo de paixão, a Netuno mais perto quis estar, mas sem nunca esperar qualquer traição qual foi a ingratidão de lhe ceifar. Eu quero condenar aquele mar e não posso prendê-lo. Sou pequeno. Mas o que me consola o meu cantar é poder relembrar que aquele aceno só deixou solidão ao seu algoz, que não tem mais nas tardes sua musa, pois Zila com seu verso em minha voz sempre em mim viverá mesmo reclusa. Sem Já vivi a vida demais. Não me deixa agora: sem sal, sem saúde, sem saída, sem sexo, sem folia, sem festa, sem fantasia, sem futebol, sem vida, sem viver, sem voar, sem vadiar, sem verde, sem te ver, sem amar, sem sonhar, sem paixão, sem coração, sem comida, sem gordura, sem guarida, sem bebida, sem doce, sem açúcar, sem Marta, sem Maria, sem Mara, sem Mulher. Sem tudo isso, não respiro, só arquejo, não acordo, só palpito, e o remédio, meu tédio de morrer com nada. Sem tudo, sou nada que nada em nada e nada serei, de tudo que fui, se morrer com nada. Recortes Todos os pedaços da vida, cortados pelas tesouras do tempo, podem em minutos seculares reduzir seus tesouros preciosos a fios de linhas tracejadas antes que você possa guardá-los. |
Histórias de Natal Os sinos das catedrais irão bater e ecoarão, os seus sons, em canções, que sepultarão o clamor dos canhões; as gargantas dos soldados a correr, (aos seus algozes ou às suas vítimas), se ouvirão as vozes dos embates, em harmonia livre e legítima, ecoando pelos campos de combates. os letreiros das cidades sitiadas se acenderão e, ao redor das casas, todos cantarão; esquecerão que estiveram em guerra, disputando ideologia, paz ou terra. Ascenderão, uníssonos, os cantos em sinfonia que enxugará os seus prantos. As mães vestirão roupas brancas em seus soldados, estraçalharão seus uniformes como vidros estilhaçados, e os jogarão no mesmo mar de tantas pelejas. Os meninos com suas vestes brancas, livres de seus líderes (e sob a materna liderança), reviverão os piscares das luzes na lembrança e soltarão, dos fuzis rumo ao espaço, as trancas em artifício de fogo para iluminar o céu até que a munição descanse ao léu, bem longe e distante dos infantes. Os sinos irão bater em suas mentes, e as luzes, que se acenderão em seus corações, trarão recordações natalinas. De repente todos ouvirão os risos dos homens brincalhões, esperando o papai (Noel) que estava na trincheira, e também resolveu entrar na brincadeira. E do silêncio, antes sepulcral, das zonas de batalhas, os meninos (agora livres de suas mortalhas e numa fraternidade sem precedente) esquecerão, (até nunca mais), os gritos de horror e de dor que maltrataram a todos, e até mesmo de quem do incidente foi o autor se ouvirá as mensagens de amor, determinando que hoje não haverá discórdia. E todos escutarão de Deus a misericórdia que será contada nas histórias de Natal. Reminiscência Francamente me falaram os teus olhos, brevemente me olhou tua voz, eternamente te ouviu minha pele e tristemente te sentiram meus ouvidos quando do teu silêncio, após ua ausência ter ficado no ar (ao partir, esvaziando em mim todos os recantos de minhalma, que, solitária, preenchia meu corpo), a saudade ficou aqui em cada canto tão caótico de nossa casa triste, e tão vazia, que nem sente, nem vê, nem fala, nem ouve, nem tem vida. |
Mad Dogs, banda
Com aproximadamente dez anos de existência
e um trabalho calcado na fusão do blues/rock com ritmos
brasileiros, o Mad Dogs é uma banda que se caracteriza pelo bom
humor e pela irreverência.
Referência no cenário musical norte-rio-grandense, o grupo é um veterano do Prêmio Hangar de Música, onde por três vezes seguidas foi eleita melhor banda, além de ter faturado os troféus de melhor vocalista, melhor instrumentista de percussão, melhor instrumentista de cordas e melhor show.
Em 2000, a banda lançou seu primeiro CD, Mad Dogs, gravado em alguns dos melhores estúdios do Rio de Janeiro e São Paulo. O disco conta com a participação especial de grandes músicos norte-riograndenses, além da guitarra de Roberto Frejat (Barão Vermelho) na faixa O Blues da Sala.
Mestres na arte de rir de si mesmos, os cachorros loucos potiguares colocam be-bop no samba, chamam o tio Sam pro tamborim, misturam inglês com português, trocam o bourbom pela cachaça e reinventam o som tradicional do sul dos Estados Unidos, divertindo-se com essas possibilidades. A formação atual conta com CBI/vocais; Paulo Sarkis/baixo; Marco França/teclado; Carlinhos Suassuna/guitarra; Neemias Lopes/sax e Fernando Suassuna/bateria.
Em agosto de 2003, o Mad Dogs teve a honra de representar o Brasil na 20ª International Beatle Week, realizada na Inglaterra, em Liverpool. Primeira banda do norte-nordeste a participar desse evento, o grupo também foi considerado revelação do festival. Ainda em 2003, coroando a boa fase do grupo, o Mad Dogs foi um dos vencedores do Projeto Cosern Musical, um festival de importância relevante no cenário local, obtendo a mais expressiva votação dentre os premiados.
Em Junho de 2004, o Mad Dogs lançou o seu
segundo CD, cujo título é Bar doce Lar. Com
músicas de autoria própria e letras marcadas pelo humor, o novo
CD também apresenta novidades tecnológicas como o uso de
samplers, além de influências que vão do Pop ao Rock, do Brega
ao Blues e do Jazz à musica Latina.
Em agosto de 2004, o Mad
Dogs viajou novamente a Liverpool como uma das atrações da 21ª
edição da International Beatle Week. Suas performances em solo
inglês chamaram a atenção do público e da organização do
festival mais uma vez. Um grande show realizado no Canecão, Rio
de Janeiro, celebrou a partida das bandas brasileiras convidadas
para a Beatle Week 2004.
Em Setembro, o Mad Dogs lançou seu terceiro CD, Mad Dogs Interpreta The Beatles. Gravado ao vivo, este disco mostra uma forma bem original de interpretar as músicas do grupo inglês, misturando ritmos brasileiros como baião e bossa nova com muitos outros elementos musicais inusitados.
Como resultado da boa campanha realizada na Inglaterra, a banda foi convidada a participar da 4ª Semana Beatle latino-americana, realizada no mês de novembro em Buenos Aires, Argentina. Assim como em Liverpool, a energia dos Dogs encantou nossos amigos hermanos com suas versões próprias de músicas dos Beatles. Na bagagem, além de boas lembranças, novas amizades e o carinho com que foram recebidos, trazem também o convite oficial para participar da próxima edição do festival, que será realizado em 2005.
Em 2004 o Mad Dogs participou do projeto Oi Blues by Night, onde a banda teve a oportunidade de acompanhar grandes músicos do gênero como Dominic Nichillo (USA ex-Santana e Buddy Guy), Kenny Bronw (USA), Danny Vincent (Argentina), além de ter aberto shows de Phill Guy (USA) e Peter Mad Cat (USA).
Mais do Mad Dogs em www.maddogs.com.br.
Músicas:
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Forró do Canindé Blues da Sala Trem das Onze Vida Dura Inútil O Bode Meu Sangue Ferve por Você Blues In My Soul What a Shame Hard Woman No Way To Love |
Tá Faltando Você Pocchi Ma Buoni Só Às Vezes El Diablo Tudo Pode Los Pampas A Conta Upside Down Desenhar Sem Uma Borracha O Sete Insônia Dois A |
Henrique José, fotógrafo e artista multimídia
Henrique José Cocentino Fernandes nasceu
em Aracati, no Ceará, mas foi criado em Natal.
Trabalha na DHnet desde seus primeiros passos, sendo responsável pela manutenção do sitio, concepção visual e arte final (Design Gráfico e HTML).
É sócio fundador da primeira entidade de fotografia do estado dedicada ao fotojornalismo, documentação, banco de imagens, eventos e cursos de fotografia desde maio de 1994.
Participa da coordenação executiva do Fórum Engenho de Sonhos e desenvolve atividades de educação popular, através das oficinas de fotografia e identidade para jovens e adolescentes da periferia de Natal.
E acumula até hoje as funções de repórter-fotográfico, educador popular e designer e desenvolvedor de sites para Internet.
Exposições individuais
- Colagens (lançamento do livro de Henrique José)
- Bar Pão & Circo Praia de Areia Preta - Natal, agosto 1995
- IV Semana Sergipana de Fotografia - Aracaju/SE, setembro 1995
- Feira do Livro e Semana de Humanidades da UFRN - Natal Novembro de 1995
- Ovo de Eva (itinerante)
- Capitania das Artes - Natal, setembro 1995
- IV Semana Sergipana de Fotografia - Aracaju/SE, setembro 1995
- Lançamento Virtual (disquete e BBS) - novembro 1995
- Projeto lambe-lambe - João Pessoa/PB, agosto 1996
- Projeto Intercambio -Convento Sao Francisco - João Pessoa/PB, outubro 1996
- Maratona Fotográfica - Natal, abril 1997
- Epidemídia 9.7 Curso Comunicação/UFRN - Teatro Alberto Maranhão 1997
- Impressões Potiguares - UFRN/50 Reunião da SBPC - 1998
Mais sobre Henrique José em www.dhnet.org.br/henrique
Chico Antônio, embolador, coqueiro e cantador
Francisco Antônio Moreira. Embolador.
Coqueiro. Cantador. Nasceu em Cortes, nas cercanias de Pedro
Velho, cidade que fica a sudeste do Rio Grande do Norte, na
fronteira com a Paraíba no começo do século. Há
controvérsias quanto a sua real idade. Na certidão de
casamento, consta o ano de 1904 e numa carteira de trabalho,
tirada no Rio de Janeiro, consta o ano de 1908. Assim como os
pais, sempre trabalhou na roça. Embora tenha freqüentado seis
anos de escola, acabou não se alfabetizando. Começou a cantar
com cerca de 12 anos.
Foi descoberto em 1929, pelo pesquisador e escritor Mário de Andrade que o transportou para os livros. Em 1979, foi redescoberto pelo poeta e folclorista Deífilo Gurgel. Gravou um disco em 1982 pela Funarte/UFRN/FJA. Cantava os seus cocos acompanhando de um ganzá e de seu companheiro de dupla Paulírio. O seu mais famoso trabalho foi o coco "Boi Tungão".
Chico Antonio é personagem lendário. Foi para Mário de Andrade, em suas pesquisas musicais, o que o vaqueiro Manuelzão representou para Guimarães Rosa na elaboração de Grande Sertão: Veredas. Ouvindo este cantador de coco, anônima figura do interior nordestino, o esteta Mário escreveu: "Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida".
Redescoberto por Deílfilo Gurgel e Aloísio Magalhães, em 1979, o velho Chico, então com 80 anos de idade, gravou o que pôde. A voz cansada é ainda expressiva, embora já não arrebate com os improvisos que deslumbraram Mário no final dos anos 20. De qualquer modo, tem-se no disco um grande momento da história cultural do Brasil. Chico Antônio faleceu em 15 de outubro de 1993.
Ainda jovem e contrariando a vontade do pai, que não o achava bom cantor, foi prosseguindo na lida de embolador. Passa a vencer desafios com famosos cantadores de coco de sua região como Zé Fulô, Mané Matias, Cícero Matias, Antônio Matias, o preto João Perigoso, Domingos Gregório e outros. Seu trabalho passa a ser então uma referência para outros cantadores.
Em janeiro de 1929 estava trabalhando no Engenho Bom Jardim, quando foi levado a cantar para o poeta e escritor modernista Mário de Andrade, que estava de visita naquele lugar. O encontro entre os dois foi registrado por Mário de Andrade no livro "O turista aprendiz".
Anos mais tarde, Chico
Antônio foi tentar a vida no Rio de Janeiro, onde trabalhou em
Bonsucesso, Botafogo e Jacarepaguá. Em seguida, retornou, para
sua cidade natal, voltando a trabalhar na roça e a cantar cocos
nos finais de semana. Embora sua arte continuasse a ser apreciada
em sua região, caiu no esquecimento do resto do país.
Em 1979, o estudioso do folclore brasileiro Deífilo Gurgel, em viagem pelo interior do Estado, em pesquisa para a Fundação José Augusto, tomou conhecimento da existência de um cantador de cocos que parecia ser o lendário Chico Antônio, registrado por Mário de Andrade. Foi então até Porto Velho e confirmou a informação. Levou então o cantador para Natal, onde este se apresentou em congressos e festivais, além de conceder entrevistas para diversos jornalistas e estudiosos.
Em 1982, um convênio entre o Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro e a Funarte, possibilitou a gravação do único registro fonográfico do mestre coqueiro. A gravação ocorreu nos dias 26 e 28 de agosto daquele mesmo ano, na casa de Chico Antônio e na do seu filho. Foram registradas nove composições, todas de autoria de Chico Antônio e Paulírio, entre as quais "Boi tungão", "Onde vais, Helena", "Curió da beira-mar" e "Vou no mar".
Em 1983 apresentou-se no programa "Som Brasil", da TV Globo, apresentado por Rolando Boldrin. Um dos mais ilustres representantes do coco foi o único que recebeu um estudo pormenorizado de sua obra, chegando a ser personagem de dois textos ficcionais de Mário de Andrade.
Em 1995 teve o coco "Usina (tango no mango)", parceria com Paulírio, gravado pelo grupo pernambucano Mestre Ambrósio.
Em 1997 foi homenageado pelo cantor e compositor pernambucano Antônio Nóbrega no show "Na pancada do ganzá".
Em 1999, o Acervo Funarte lançou o CD "No balanço do ganzá", com interpretações de Chico Antônio feitas 54 anos depois de seu encontro com Mário de Andrade.
No mesmo ano, teve a música "Eu vou, você não vai", foi gravado no CD "Nação Potiguar", lançado em homenagem aos 400 anos da cidade de Natal.
Também foi homenageado
pela banda FOLCORE no ano de seu centenário de nascimento, que
gravou um single com 5 músicas do embolador (Luquinha da lagoa,
Boi Tungão, Usina, Tinguelê e Helena).
Obra
Boi tungão (c/ Paulírio)
Curió da beira-mar (c/ Paulírio)
É Luquinha da lagoa (c/ Paulírio)
É tinguê-lê
Eu vou, você não vai
Onde vais, Helena (c/ Paulírio)
Pinto pelado (c/ Paulírio)
Serrador, bota o pau na serra (c/ Paulírio)
Usina (c/ Paulírio)
Vou no mar (c/ Paulírio)
Fonte: site da banda Folcore - www.folcore.com
Eloísa Faria, ceramista
Eloísa Maria de Faria nasceu em Caicó, no
ano de 1964. Graduou-se em História e Educação Artística -
Artes Plásticas. pela UFRN.
Ceramista, sua expressão artística dá-se por meio do trabalho com a argila. Ao optar, na pintura de suas peças, pelo uso de pigmentos coloridos retirados das argilas, procura manter na sua produção artística o teor da terra.
Se formas abstratas, suas esculturas têm uma linguagem vinda da flora, seja essa do sertão ou do mar, è também um traço do seu trabalho a procura das diversas texturas que a argila possibilita que dela se extraia, o que enriquece a superfície da peça.
Exposições realizadas
* Salão de Artes de Natal - Fundação José Augusto, 1995
* Atelier Regina Guedes, 1996
* Artistas Etfernianos - CEFET-RN, 1997
* Artifície - Natal Shopping, 1999
* Cerâmicas - Eloísa Faria e Henrique Araújo. Espaço Cultural da CBTU, 1999
* Cerâmicas II - VI Encontro da LIRNE, 2000, no Pirâmide Palace Hotel. stico/UFRN - 1998
* Vestes e Arreios Pinacoteca do Estado / Palácio da Cultura, 2005
Sua última exposição, Vestes e Arreios, derivou de sua monografia Vaquejada uma extensão do trabalho do vaqueiro do Seridó, especificamente do capítulo que discorre sobre as vestimentas e arreios do vaqueiro, fundamentado no livro Encouramento e Arreios do Vaqueiro do Seridó do escritor norte-riograndense Oswaldo Lamartine de Faria, na então finalização do curso de História Licenciatura e Bacharelado/UFRN.
A exposição é concebida em quinze trabalhos, sendo sete esculturas de centro e o restante concebidos para a parede, trazendo desenhos de Oswaldo Lamartine contidos no já referido livro. A cerâmica, neste caso, alia a arte a um dado cultural especifico do sertanejo do seridó: o cotidiano do vaqueiro no lidar com o gado.
Ao optar por uma cerâmica não vitrificada e pigmentada com argilas coloridas ressalta-se o meio ambiente do vaqueiro - a terra. Esta opção parte do desejo de querer a permanência do teor da terra nos trabalhos finalizados, visto que, a cerâmica vidrada por ser envolvida com uma película de vidro perde parte da percepção da sua matéria constituinte, a argila.
Sobre o trabalho, o jornal TRIBUNA DO NORTE escreveu em sua edição do dia 15 de junho de 2005, a reportagem intitulada "Cultura de vaqueiro em argila". O texto está abaixo:
Partindo do valor cultural e histórico que o vaqueiro do Seridó representa, a ceramista Eloísa Faria montou a exposição Veste e Arreios, em cartaz a partir de amanhã no Palácio Potengi da Cultura/ Pinacoteca do Estado. Os trabalhos foram inspirados e fundamentados no livro Encoura-mento e Arreios do Vaqueiro do Seridó, do escritor potiguar Oswaldo Lamartine de Faria.
A artista optou por um trabalho com cerâmicas não vitrificadas: Fiz essa escolha para preservar o teor da terra nas obras finalizadas, uma vez que a cerâmica vidrada perde parte da percepção da sua matéria constituinte, a argila. Esse detalhe aproxima as peças (15 ao todo) do objeto de estudo, explicou Eloísa, que utilizou pigmentos naturais para preparar o engobe (tinta usada para pintar cerâmica).
O interesse da ceramista pela cultura do vaqueiro vem desde a infância, quando passava férias com no sítio da família no Seridó potiguar. Tenho toda uma relação com o campo, e percebi que a vaquejada de hoje preservou muito pouco as tradições que a originaram. Antes, o gado era todo solto nos pastos, não existiam cercas, e a identificação era toda feita através das marcas dos brasões. Quando os vaqueiros iam buscar o gado, brincavam disputando para ver quem derrubava mais animais.
Encarando a cerâmica como arte, Eloísa diz que existe um certo preconceito no Rio Grande do Norte em relação aos trabalhos com argila: As pessoas logo relacionam a argila ao artesanato de uma forma pejorativa. São esferas diferentes e, em nenhum momento, podem ser consideradas superior ou inferior em relação a outra. Gosto de trabalhar com argila porque ela proporciona uma gama de possibilidades de texturas quase infinita. Moldada com as mãos, a cerâmica imprime e expressa sensações e sentimentos, além de servir como um receptáculo da cultura.
Eloísa Faria trabalha com cerâmica desde 1995 e faz suas peças em casa, em um forno que atinge a temperatura de 1 mil graus Celsius. Ela explicou que a cerâmica tem quatro momentos: o ponto de modelar; o ponto de couro (momento onde são trabalhadas as texturas e incisões sem problema de quebra); o ponto de osso (seca em temperatura ambiente e pronta para ir ao forno); e o ponto de biscoito (já cerâmica).
Picolé de manga espada no calor do sertão
Eloísa nos chega como um picolé de manga espada no calor do sertão, servido entre um galope e outro para refrescar as cabeças dormentes pelo peso da argila enquanto barro primordial. Segue adiante forte e obstinada como os vaqueiros destemidos, retratando suas formas harmônicas, relevos, texturas e cores terrenas, se apossando da história/cultura, barro, pigmentos e calor que permeiam o solo ressecado das terras quentes do Seridó transformando-os em obras de Arte, escreveu a ceramista e professora aposentada do Departamento de Artes da UFRN, Regina Guedes, sobre a exposição da ex-aluna.
Além de formada em artes plásticas, Eloísa Faria também é historiadora formada pela UFRN; justamente o curso cuja monografia Vaquejada uma extensão do trabalho do vaqueiro no Seridó culminou com a exposição.
João Natal, artista plástico
Iniciado na arte a partir da implantação
pela Fundação José Augusto de uma oficina de gravuras,
comandada pelo mestre gravurista Rossini Perez, João Natal
nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 15 de agosto de 1960.
Sobre João Natal muito se vai falar ainda. Este registro tenta fixar no artista alguns aspectos da dimensão da sua capacidade criativa. As suas gravuras são o exercício de um tema maior sobre o mangue e seus habitantes. Caranguejos estilizados tomam aspectos fantásticos de inusitadas formas, redescobertas soluções, onde o grafismo está a serviço da criação, eliminada a narrativa subjetiva, mas sempre presente pela abordagem pura e simples do tema.
Da mesma família de uma Renina Katz ou de um Oswaldo Goeldi no Brasil, ou de um Grosz Kokoschka, só para citar alguns exemplos clássicos, o artista gravador João Natal possui a mesma atmosfera, a mesma dramaticidade, os mesmos propósitos desses mestres consagrados. É no mangue que ele exercita seus temas, numa estilização que difere do expressionismo
exaltado de acentuada tendência sentimental e literária.
João Natal parece conhecer os limites da narrativa e onde se inicia a criação propriamente dita. Seus cancerianos-símbolos estão dotados de uma inequívoca força criativa.
Diz José Roberto Teixeira Leite, no seu livro "A Gravura brasileira contemporânea", que "o ponto culminante a que atingiu no Brasil a arte da gravura, representa-o a obra de Oswaldo Goeldi". Franklin Jorge diz de João Natal, com muita propriedade, "que ele vai acordando os monstros abissais que nas profundezas do pesadelo velam os sonhos do ser humano".
Para Sussanne Langer, "o artista formula esse aspecto esquivo da realidade que comumente é considerado amorfo e caótico, quer dizer, objetiva a esfera subjetiva".
(Dorian Gray Caldas in Artes Plásticas do Rio Grande do Norte - Natal, 1989)
Luiz Rabelo, poeta e escritor
Nasceu em Natal em 4 de março de 1921 e
morreu também em Natal no dia 29 de novembro de 1996.
"Uma vida simples, consagrada à poesia." Com esta frase, o crítico literário Manoel Onofre Jr. resaltou o papel que a poesia exerceu no curso de toda a vida de Luiz Rabelo. Sua estréia nas letras se dá em 1944, com o livro de poemas Meditações. Os próximos anos assistiram ao lançamento de outros títulos de poesia, com uma única exceção: O Vigário do Conto, volume bisexto na obra do poeta, e que o revela como prosador entre o satírico e o anedótico.
Nos últimos anos, dedicou especial atenção à trova, revelando grandes dotes para esse gênero poético ligeiro.
Luiz Rabelo estudou no Ateneu Norte-rio-grandense até a quarta série ginasial. Deixou os estudos ´para ingressar na Polícia MIlitar do Estado como soldado radiotelegrafista. Seu último emprego foi o de funcionário da Fundação José Augusto, onde exerceu o cargo de diretor do Museu de Arte e História, depois Museu Casa Café Filho, ficando, em seguida, à disposição do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
Pertenceu à Academia Norte-rio-grandense de Letras, ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, à Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, à União Brasileira de Trovadores, e deixou vários inéditos.
Ninguém melhor do que Dorian Gray Caldas definiria o poeta Luiz Rabelo no prefácio de Poemas, publicado pelo Departamento de Imprensa em 1999: "É que o poeta Rabelo por formação, absorveu outras fontes no que de melhor sentiu nos bardos castelhanos e portugueses, nos poetas clássicos, nos cantos de Os Lusíadas, nos rigores dos poetas das Arcádia, na filigrana dos parnasianos, no arrebatamento dos românticos; nas metáforas dos simbolistas. Rabelo foi o navegante de toda a extensão desse rio, como um barco (não ébrio) lúcido em busca do verdadeiro caminho ou da luz que acena (irreal) aos navegantes." E, logo adiante: "Escreveu em todas as modalidades do fazer poético; dos decassílabos aos alexandrinos, das oitavas às sextilhas, das décimas às glosas e às trovas, versos brancos livres e versos rimados metrificados. Foi e é em sua poesia um esteta."
(Deífilo Gurgel in 400 Nomes de Natal - Natal, 2000)
Obras:
Meditações - Caicó/RN, 1944
Último Canto - natal/RN, 1950
Rumos - Natal/RN 1953
Caminho dos Mortos - Natal/RN, 1961
Trovas que a Vida me Deu - Natal/RN, 1968
Os Símbolos Inúteis - Natal/RN, 1970
Troval Potiguar - Natal/RN, 1970
Antologia Poética - Natal/RN, 1982
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| O círculo
(Espaço concretista, 1966) |
Cid Augusto, poeta e escritor
Cid Augusto da Escóssia
Rosado, 33, jornalista, mestrando em Lingüística Aplicada pela
UFRN, repórter do jornal O Mossoroense, colunista da revista
Coragem, integrante de instituições como Instituto Histórico e
Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), Instituto Cultural do
Oeste Potiguar (ICOP), Sociedade Brasileira de Estudos do
Cangaço (SBEC), Comissão Mossoroense de Folclore e Associação
Brasileira de Jornalismo Científico, autor dos seguintes é
poeta e escritor. Mais sobre Cid Augusto você vê em: www.cidaugusto.blog-se.com.br.
Obra:
Monografia: A arte xilográfica de João da Escóssia em O Mossoroense (1902 a 1906), 2003.
Livros:
Estados do Verso, Coleção Mossoroense/Sebo Vermelho, 2002 (poemas).
Escóssia, Coleção Mossoroense, 2000 (História).
Daltonismo, Coleção Mossoroense, 1997 (poesia).
Introspecçãocrônicas e contos não-selecionados, Coleção Mossoroense, 1996.
Cordéis:
A peleja da bufa estrategista, edição do autor, 2001.
Justiça, Coleção Mossoroense, 1999.
O Padre Cangaceiro, Coleção Mossoroense, 1999.
Desejos da cidade Mansa, no fim da tarde, a menina passa. Os olhos maliciosos da rua vão despindo, Em delírio profano, aquele corpo lindo, Cujo esplendor derrete a mais firme argamassa. A visão da esquina de mente devassa Arrasta-se um facho de gozo luzindo E as curvas do dorso no ar vai seguindo Para ver se, o cetim do vestido, traspassa. O vento assobia dedilhando uma lira, Mostrando sua platônica paixão sonora No ardente compasso em que se inspira. A calçada, em delírio, sua... quase desmaia Contemplando, faminta, a negra aurora Que resplandece pela abertura da saia. Espelho de mel Não queira alimentar dos meus olhos a fome Com o dourado mel dos seus olhos brilhantes, Pois a fome dos meus olhos sempre distantes É uma fome infinita e que a tudo consome. A fome que devora os meus olhos não cala, É funda, geme, grita e não se satisfaz. Aplacá-la? ninguém nunca seria capaz, Ela é fome de carne ardente e não se abala. Esse espelho de mel dos seus olhos, doçura, Em vez de ser porção lenitiva de cura, Inunda mais os meus olhos já um tanto pasmos. Perdão, se assim falando eu pareço atrevido: Quero beber o mel que se encontra escondido, Aquele mel que só se colhe nos orgasmos. O Silêncio O silêncio é o abismo mais profundo Que se constrói no espaço entre duas bocas Com detalhes em linhas neobarrocas Para afastar um mundo de outro mundo. Nesse fosso dos diabos não há ponte, Nessa tumba onde o verso morre mudo Sem metáfora de aço como escudo Nem barco que atravesse o horizonte. Há somente um varal, uma visagem Com verdades de fogo estendidas Interligando os muros da voragem. Eu mesmo escorreguei no olho do abismo, Morri em conseqüência das feridas Fazendo da arte um gesto de heroísmo. Dores e amores Não conheço palavra que não corte Como o fio de uma velha faca cega Dilacerando a parte em que se esfrega Quando o amor se depara com a morte. Não conheço verdade que não minta Nem gelo que não queime como fogo Quando o amor, apesar do nosso rogo, Nas cores da traição escolhe a tinta. Não conheço esperança que resista À descrença de um sonho destruído, Aquele que, de alegre e colorido, Ganha a funesta cor da ametista. Mas calculo a tristeza interior De quem não sofreu, pois não teve amor. |
Gatos pardos Por favor, não me beije nesta hora, Desperdiçando um beijo tão sublime... Poderia o sol mostrar o nosso crime Ao mundo que em seus olhos nos devora. Espere! o fim do dia não se demora! Deixemos cair a noite que redime... Quando passar o cruel solar regime, Ninguém nos verá como nos vê agora. Ao sol, seríamos réus no tribunal, Nosso querer, um gesto imoral, E assim, sumariamente condenados. À noite, nós seremos como tantos Gatos pardos que pulam pelos cantos E se amam como loucos nos telhados. Deusa materializada Para a deusa ser carne um só momento, É preciso que o homem seja fera, Um louco a encontrar a primavera Nas folhas que o outono lança ao vento. E vê-la assim em pêlo, não se espera, Nua e crua entre a paz e o movimento, É ver as faces mil do encantamento, É gozar nos espasmos da pantera. Venha a mim, deusa-mãe da tempestade, Filha do vento, irmã da claridade, Bendizer essa ardente insensatez. Venha logo, tangendo a velha chama, Receber oferendas sobre a cama, Fazer-se carne ao menos uma vez. Dores e amores Não conheço palavra que não corte Como o fio de uma velha faca cega Dilacerando a parte em que se esfrega Quando o amor se depara com a morte. Não conheço verdade que não minta Nem gelo que não queime como fogo Quando o amor, apesar do nosso rogo, Nas cores da traição escolhe a tinta. Não conheço esperança que resista À descrença de um sonho destruído, Aquele que, de alegre e colorido, Ganha a funesta cor da ametista. Mas calculo a tristeza interior De quem não sofreu, pois não teve amor. Os olhos dos punhais A faca que me corta não tem aço Aço que acende os olhos dos punhais Os punhais me devoram de cansaço O cansaço dos velhos samurais Samurais quase mortos de tristeza Tristeza que não passa de um enfado Enfado de quem nunca tem certeza A certeza de estar acostumado Acostumado a ver tanta cegueira Cegueira dos tinhosos mal-amados Mal-amados queimando na fogueira Fogueira que tem aço e tem formatos Formatos de punhais longos, afiados Afiados como a língua dos ingratos. |
Marcelo Fernandes, artista plástico
Marcelo Fernandes Pinheiro,
nascido em Natal-RN no dia 17 de fevereiro de 1957, filho de seu
Valdilon Pinheiro de Melo e dona Terezinha Fernandes Pinheiro,
desde a infância já demonstrava seu interesse pelos lápis,
pincéis e pelo mundo abstrato.
Criou artesanalmente seu próprio instrumento de trabalho, um lápis de giz de cera multicolorido com formas diversas. A partir dessa criação, desenvolveu uma nova técnica que enriqueceu o seu trabalho como artista plástico.
Trabalhou na TV Universitária. Participou do programa Despertar da FUNDAC, realizando oficinas de arte de giz de cera;
Fez teatro, participando do grupo NUVEM VERDE encenou as peças: Execução, e Regras de Fuzis da Senhora Carrar;
Viajou a Europa, visitando 6 países e participando de exposições e oficinas em Paris;
Criou junto a outros artistas o Atelier UNIR, onde eram administradas oficinas e restaurações;
Em Pernambuco, seu trabalho foi selecionado entre os dez melhores do Nordeste;
No 1º Salão de Artes Plásticas de Natal em 1998, ganhou o 1º lugar na exposição de telas. Em 1992 o 2º lugar com a capa para a LISTEL.
Marcelo Fernandes criou e patentiou a substância que deu origem ao giz multicor, seu instrumento de trabalho.
Marcelo Fernandes pinta para o futuro, suas telas vem à ser uma fotografia abstrata do mundo, está sempre subordinado a obediência das leis do universo.
Sem nenhum excesso de vaidade e sim com uma necessidade interior, imperiosa de dar cor e forma aos seus sentimentos, Marcelo torna-se plural como o universo.
Poucos artistas têm a lucidez de si próprio, Marcelo Fernandes através do seu profundo autoconhecimento eleva e eterniza a arte através de suas obras.
"Acompanho Marcelo Fernandes de perto; sempre perplexo pela beleza que ele transmite, o sortilégio que anima os verdadeiros vocacionados, usando materiais inusitados à base de ceras concentradas em bastão, Marcelo Fernandes reanima texturas, compatibiliza manchas, faz nascer formas nunca antes experimentadas, pelo uso arbitrário, provocador e decisivo da própria dinâmica do fazer.
Não procura, encontra. Não estabelece nasce. Há uma dictomia perfeita do autor com a arte, que produz o milagre da sua verdade, setas agudas para os céus;manchas texturadas, como veios da terra agreste; largos horizontes expectantes entre fagulhas crespulares e remotos vulcões extintos.
Marcelo Fernandes, faz-se mago de uma visão dionisíaca esplendores de uma terra de frutas e folhas do paraíso. onde encontrar na arte antiga ou na natureza apreendida estas supresas da criação? Da inventiva o instrumento do seu trabalho participa de sua arte influindo-a da direção da emoção de uma nova natureza. A arte de Marcelo Fernandes ainda será objeto de estudo comparativo e de louvores que certamente a colocarão entre artistas que difinitivamente contribuiram para uma linguagem nova rica de aventura."
Dorian Gray Caldas
Encontre mais informações sobre Marcelo Fernandes no site do artista: www.mfemabstrato.z6.com.br
Antônio Francisco, poeta
O poeta Antonio Francisco,
de Mossoró, é a prova viva de que a poesia popular não está
morta, nem precisa ser resgatada de lugar nenhum.
Antonio Francisco é um poeta cuja história é peculiar, uma vez que, apesar de ter mais de cinquenta anos de idade, começou a publicar folhetos de cordel há pouco tempo, embora tenha se criado no meio da poesia. Ele conta como, quando menino, lia folhetos de cordel para aqueles que não sabiam ler, e durante a leitura incluía versos que ele próprio fazia, ainda criança.
Curiosamente, resolveu assumir oficialmente a condição de poeta há poucos anos, e é como se uma represa de inspiração, há tanto tempo armazenada, de repente se rompesse sob o impacto de um poderoso cataclisma.
A poesia que jorra da mente desse homem simples, divertido e simpático é algo que merece análise, estudo e reflexão por parte dos que constroem o saber acadêmico acerca da cultura popular.
Poesia pura, prá ninguém botar defeito!
Clotilde Tavares
| Toda a Fruta do Nordeste Tem o Retrato da Gente Nosso melão tem na casca As cores do sol nascente, As rugas do nosso rosto Riscadas pelo sol quente E na carne dele o gosto Do doce da nossa gente! Na casca do abacaxi Tem o retrato estampado Do nosso solo sedento Pela seca castigado, Mas a carne tem o gosto Do nosso solo irrigado. A castanha do caju Tem gosto da humildade, E o caju tem o gosto Do rosto da amizade Do nordestino que ainda Não perdeu a identidade. A casca da manga tem A cor do sangue da gente, Fervendo dentro das veias Nas pancadas do sol quente, Mas a carne tem o gosto Das águas da última enchente. Enfim, todo fruto nosso Tem o sabor do sertão E toda sinceridade Do nosso aperto de mão! No Meu Sertão No meu sertão, Quando o céu abre a janela O sol vem passa por ela Com seus raios cobre o chão. O sabiá abre o bico nesta hora Compondo a trilha sonora Do cinema do sertão. O nambú canta Dando viva a luz do sol; O pequeno rouxinol Também faz sua canção. Os seus acordes Se fundem com a luz do dia Dando brilho a melodia Da garganta do sertão. Entre os serrotes Passa um riacho correndo, Murmurando, se torcendo, Se arrastando pelo chão, Levando areia, Pedra, pau, barro e raiz, Deixando uma cicatriz Na face do meu sertão. As nuvens descem, Cobrem a serra com seu véu, Se mistura terra e céu Na mais completa união. E nesse instante De beleza, paz, magia, Sopra o vento e nasce o dia Nas quebradas do sertão. |
Os sete constituintes ou os animais têm razão Quem já passou no sertão E viu o solo rachado A caatinga cor de cinza Duvido não ter parado Pra ficar olhando o verde Do juazeiro copado. sair dali pensando como pode a natureza Num clima tão quente e seco Numa terra indefesa Com tanta adversidade Criar tamanha beleza. os seus galhos se agasalham Do periquito ao cancão É o hotel do retirante Que anda de pé no chão O general da caatinga E o vigia do sertão. Na Beira do Mar Na beira do mar, um pouco apressado, O tênis esquerdo caiu do meu pé. Parei pra calçá-lo, aí eu dei fé Das coisas que antes não tinha notado; O meu coração bateu apressado, Pedindo a mim mesmo pra me perdoar Por não ter parado nunca pra olhar As coisas que tem no mar pra se vê. Não fiz outra coisa somente escrever As coisas que tem na beira do mar. Na beira do mar tem fonte que chora, Dunas de areias com ventos uivantes, Marés ritmadas com ondas gigantes, Coqueiros, palmeiras que formam a flora... Tem peixe que pula da água pra fora, Tem outros que sabem até mesmo voar, Golfinhos que dão cambalhotas no ar, Na crista da onda, quando ela se agita, Tem vento que canta, gaivota que grita, Brincando de tique na beira do mar. Na beira do mar eu parei um segundo Para observar um grande coqueiro, Mas parecia um velho guerreiro Em fim de carreira cansado e corcundo: Raízes de fora, quase moribundo, Pedindo pro vento vir lhe derrubar, Que antes a morte do que recordar Que toda a sua vida, suaves marés Vinham de manhã lamber os seus pés, Com a língua gelada da boca do mar. Na beira do mar, um pouco sisudo, Chapéu na cabeça, cobrindo o semblante, E me perguntando qual fabricante Que se lembrou de fazer isso tudo? Qual engenheiro que tem tanto estudo? A cabeça fervia de tanto pensar. Mas disse-me o vento, no seu linguajar: Esfria a cabeça e tira o chapéu, Quem fez isso tudo reside no céu... Só deixou as pegadas na beira do mar. |
Naírton da Silva, artista plástico e poeta
Artista plástico e poeta,
Naírton da Silva nasceu no dia 2 de janeiro de 1962, em Natal,
capital do Rio Grande do Norte. No entanto, passou a maior parte
de sua infância com os avós maternos na praia de Tibau,
desfrutando das belezas naturais do lugar. O convívio no
dia-a-dia com aquele povo lhe rendeu grande parte da inspiração
de seus trabalhos, onde a sua imaginação voa com as diversas
cenas de pescadores puxando as redes e os peixes malhados; os
barcos indo e voltando da pesca; até o repouso das jangadas na
praia. A vida do homem no campo também é fonte de inspiração
em alguns de seus trabalhos.
A arte surgiu na vida de Naírton aos 9 anos de idade, época em que fazia desenhos e esculturas na areia da praia em maré baixa, chamando a atenção de todos que ali passavam. Alguns diziam: "esse menino tem futuro". Ele conta que na escola não prestava muita atenção as aulas e que enquanto o professor falava, ia desenhando nas páginas de seu caderno. Em casa, a sua mãe (dona Maria do Carmo Segunda, já falecida) perguntava pelos deveres. Todo orgulhoso, mostrava os desenhos que tinha feito e ela dizia: menino, essa escola só te ensina a desenhar? "Não, mãe, na escola também faço os deveres, mas só guardo os desenhos porque são mais bonitos", respondia sempre.
Naírton ressalta que não se prende a nenhum estilo ou técnica específica (até porque nunca fez curso na área das artes plásticas) bem como não usa ferramentas convencionais, como pincéis, espátulas e etc., preferindo o que há de mais simples: cotonetes, pedaços de algodão, palitos de dente, esponjas, dedos, pequenas lâminas de alumínio ou plástico. Os traços de hoje, embora mais aperfeiçoados, "é uma continuação dos desenhos que fazia na infância, nas areias da praia". Revela que o seu primeiro trabalho vendido ocorreu quando completou 20 anos e que não liga muito prá saber se seu estilo é clássico, moderno, abstrato ou surrealista. Também não está preocupado em ganhar muito dinheiro, quer apenas divulgar o seu nome e os seus trabalhos. "O que importa é que as pessoas olhem e gostem do meu trabalho, cujos desenhos procuro sempre dar um toque de vida, alegrando o ambiente com muita luz, cor e energia positiva".
Em 1985 e 1986, Naírton ganhou dois concursos de arte (categoria amador), realizados no Colégio Estadual Walfredo Gurgel, numa promoção do Jornal A República. Ainda em 86, no mesmo colégio, expôs os seus trabalhos na Semana da Cultura . Anos depois, participou de exposição realizada pela Coordenadoria de Atividades Culturais do Município e de um concurso para catálogo da Telern. De 22 a 25 de novembro de 1995, participou de exposição promovida pelo Salão de Artes Plásticas da Fundação José Augusto, no Centro de Convenções. E, em 1999, de 22 de abril a 5 maio, aconteceu a sua primeira individual, na Capitania das Artes, exposição essa que superou a expectativa do artista, que além de vender 18 dos 30 quadros expostos, recebeu um grande número de público. Hoje, Naírton está com uma exposição virtual pela Internet.
Dos críticos de arte locais, que analisaram alguns de seus trabalhos, recebeu os seguintes comentários: "Naírton faz refletir em todas as suas vertentes, as suas alegorias de vida, seus personagens e sua visão mágica de mundo. Ele sabe adequar as cores aos seus trabalhos, fazendo dos seus trabalhos um universo inacabado de espantos e descobertas que evidenciam nos espectadores a certeza de que o artista, como criador, busca a perfeição na imitação da natureza". (Iaperi Araújo). "Naírton pratica uma pintura intuitiva, onde transborda de si para as figurações que espelha na tela, a anatomia identificadora da sua consciência artística. Através de janelas anatômicas, faz rolar do mundo mágico de menino de interior, sonhos de navegações em redor do exterior de si mesmo". (Celso da Silveira).
Como artista plástico, Naírton diz que hoje já domina com segurança os traços e a forma simples e mágica de pintar. Na sua opinião, a arte e o amor representam o encontro do homem com o que ele tem de melhor, na sua beleza imortal, na sua sabedoria, no seu mundo de inspirações. A sua arte é o seu desabafo, criando traços, definindo a natureza morta ou viva. E como poeta, acredita que a arte é luz, vida ou simplesmente uma pequena fantasia.
(Ana de Fátima Silva de Siqueira, jornalista, in Potiguarte - www.potiguarte.com.br)
Jussara Santos, artista plástica
Natural de Caicó/RN,
iniciou seus estudos de pintura no Rio de Janeiro, tendo feito o
curso de iniciação à pintura no Parque Lajes.
Trabalhou na Gênesis - Oficina de Cenografia, em São Paulo, onde também fez parte do grupo de montagem natalina para a empresa Cipolatti.
Bisneta do carpinteiro e artista plástico "Velho Zé Quinino" (como era conhecido na cidade de Caicó), que fazia instrumentos musicais para orquestras de outras capitais do país, além de peças para igrejas (o altar da igreja do Colégio Santa Terezinha foi uma delas). É irmã do artista plástico Mano, que já realizou várias exposições em Natal. "Jussara, é uma artista de múltipla atividade, ela pode estar organizando um evento ou cuidando da restauração de uma imagem. Fazendo uma vitrine ou pintando um quadro. Em suas ocupações, age sempre com grande força intuitiva", afirma Mano.
Seus trabalhos foram apresentados pela primeira vez em 1999, numa exposição apenas para amigos.
Em sua 2ª exposição, desta vez aberta ao público, a artista apresentou experimentações em tela, reunindo diversas técnicas, com ênfase para a papietagem (trabalhos feitos a partir de celulose e pigmentos naturais).
Inpirando-se em inúmeras formas de expressões artísticas da humanidade, faz dessas expressões - pintura rupestre, arte egípcia, arte grega, festas religiosas da cultura popular brasileira - tema da produção.
Um estilo que dá forma e movimento à cor da sensibilidade de Jussara Santos.
Folguedos pernambucanos, o nome da última mostra, é de origem afro-brasileira. Como as congadas, inspira-se nas coroações de reis negros. Num cortejo real, os blocos saem pelas ruas nos dias de Carnaval, divididos em alas que representam nações africanas.
Edinor Avelino, poeta
Edinor Avelino é uma dessas realidades fascinantes puras de vocação, profundas de inteligência, altas de espírito. Os poemas de Edinor Avelino batem asas na mesma altura dos melhores.
(Luis da Câmara Cascudo)
Cascudo foi o autor da apresentação do único livro de poesias de Edinor Avelino, Sínteses, publicado no Rio de Janeiro em 1968, mas o poeta deixou inúmeros poemas inéditos e outro tanto publicado em jornais de Mossoró, Natal e Rio, além das colaborações na Folha Nova, de Macau, sua terra natal. Na então capital da República, teve destaque na Ilustração Brasileira, no A Manhã e na Seleta.
Da geração literária que unirá os dois séculos, XIX e XX, algo tardiamente, pois a sua estréia em livro se dá em pleno apogeu da correntes modernistas, Edinor Avelino se reserva o direito, curial em realção à província, de ainda se ligar aos sonetistas romanticos-parnasianos, ou ao poema mais longo, de corte neoclássico, que também resumaria naquela fase de indecisão e vertentes estéticas que se atropelavam.
José Edinor Pinheiro Avelino nasceu em Macau no dia 14 de julho de 1898. Os primeiros estudos foram feitos na terra natal, no colégio Aurora e no externato Pax. Mais tarde se transfere para Natal, frequentando o Atheneu Norte-rio-grandense, aí "concluindo seus estudos". Rômulo C. Wanderley (Panorama da poesia norte-rio-grandense) faz referência a um primeiro livro de versos de Edinor Avelino, Divagações, livro "da mocidade".
Após publicar seus poemas em jornais de Macau, Assu, algumas produções suas terão destaque no A República, no O Opinião e O Democrata, todos de Natal, quando recebeu de manoel Rodrigues de Melo o seguinte eleogio: "Burilador do verso, alma de esteta, mágico da rima, feiticeiro da forma, joalheiro in9mitável da poesia, Edinor Avelino é, sem exagero, um dos maiores poetas do Rio Grande do Norte".
Da geração de João Lins Caldas, Palmyra Wanderley e Othoniel Menezes, este, já em 1923, referia-se a Edinor Avelino "a mais bela afirmação entre os novos". Um de seus poemas mais conhecidos, Macau, se tornaria popular ao ser musicado por Fernando Almeida, sendo tido por muitos como "o hino oficial da terra das salinas". Aposentando-se como funcionário autárqueico, o poeta volta à terra natal. Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, atualmente seu filho, Gilberto Avelino, o substitui na Academia.
(Assis Brasil in A Poesia Norte-Rio-Grandense no Século XX - Natal, 1998)
De Macau, Edinor Avelino, jornalista, colaborou em diversos jornais da capital ("A Imprensa", "A República", "A Opinião" e "Democrata") e em outros do interior: "Folha Nova" (Macau), "A Cidade" (Açu), "O mossoroense" (Mossoró).
No poema Macau, considerado como sendo sua obra-prima, escreveu:
"A minha terra, calma e boa, trago-a
nas cismas de saudade em que ando atento,
contemplando-a com os olhos cheios d'água.
nos grandes vôos do meu pensamento.
É das mais ricas terras pequeninas.
Apraz-me repetir, quando converso;
possui alvas e esplêndidas salinas,
as melhores salinas do universo"...
Jornada lírica
É solitária a estrada que palmilho.
Ferem-me os cardos, o percurso enfada,
sigo, apesar da dor e do empecilho,
sempre cantando pela minha estrada
Diante do pôr sol, da madrugada,
da fonte azul, das árvores, do brilho,
da luz pela amplidão disseminada,
diante do que Deus fez, me maravilho.
Divinas emoções experimento,
cismas profundas, êxtases diversos,
dentro do universal deslumbramento.
Louvo o som, louvo o aroma, louvo as cores.
Hei de viver dizendo nos meus versos,
a harmonia das coisas superiores.
(Sinteses, 1968)
Marize Castro, poeta
Marize Castro publicou o seu terceiro livro
de poesia em 1996, Poço, festim, mosaico, tendo antes
editado Marrons, crepons, marfins, em 1984, e Rito,
de 1993. A sua vida cultural está ligada a dois órgãos
culturais de grande importância para o Rio Grande do Norte e
Brasil de modo geral: a revista/jornal O Galo, onde divulgou
muitos poetas nacionais e estrangeiros de 1988 a 1990, e a
revista Odisséia, onde reparte a editoração com Ilza Matias de
Souza, atualmente.
O primeiro órgão deu-lhe o prêmio de repercussão nacional, ou seja, o Prêmio Incentivo à Cultura da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebido na Academia Brasileira de Letras em 1989. Como poetisa, Marize Castro recebeu o prêmio de Poesia da Fundação José Augusto, em 1983, pelo seu primeiro livro, Marrons, crepons, marfins. Figurou na importante coletânea de Olga Savary, Antologia da nova poesia brasileira, de 1992, e recentemente (1996) apareceu na coletâneua de Aluízio Mathias, Poesia circular/Por uma leitura pública e gratuita.
Nas biografias esconsas das antologias e dos seus próprios livros, sabe-se apenas que Marize Castro nasceu em Natal em dezembro de 1962 e aí fez todos os seus estudos, graduando-se em Comunicação Social e Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Ainda no setor cultural, tem também prestado seu trabalho ao setor de Difusão Cultural da Capitania das Artes.
"O perigo é/ ser anônima"... A poesia de Marize Castro se conserva numa linhagem a que chamamos de "tradição da imagem", quando revolve a norma culta da língua para se revelar lírica e contundente. Esta linhagem vem de Marly de Oliveira e desemboca em Lélia Coelho Frota. Martin Heigger situa bem esse tipo de poesia que tem convivido, tranquila e altaneiramente, ao lado das vanguardas e dos experimentalismos os mais radicais, quer com a palavra, o espaço neutro da página ou consígnos de linguagens plásticas: "A poesia não é propriamente, não é nuNca somente um modo mais alto da linguagem cotidiana. Ao contrário, é antes o discurso de todos os dias que é um poema escapado e por esta razão um poema exaurido da usura, do qual aindfa se faz ouvir um apelo".
(Assis Brasil in A Poesia Norte-Rio-Grandense no Século XX - Natal, 1998)
Uma poeta de qualidade quase ignorada no sul é Marize Castro, autora do surpreendente Marrons, crepons, marfins.
(Haroldo de Campos)
A poeta Marize Castro teve recentemente o seu poema "Vinho", traduzido por Steven F. White, para a revista The American Voice:
"Se o queres seco
para molhar a garganta
eu o quero suave
para reinventar
essa chama
se o queres branco
para velar a virgem
eu o quero
vermelho
do porto
para aportar
as paixões
que me dividem".
Ouros textos de Marize Castro
Desbunde Não sou mais de cetim, A geometria das paixões desbundou as minhas acetinadas emoções. Neste mundo manco neste mundo manco clamo pelo milagre das loucas por um rei a quem eu beije as pálpebras e me revele o mistério sagrado que ninguém menciona. já fui a noiva do amor. o dilúvio destruiu os meus trajes e a minha fidelidade. desde então sou moça e rapaz e choro nesta cela a perda da alegria neste mundo manco clamo por espadas harpas. liras. redomas. por tudo que agoniza e canta. estou nos braços de um jardim de flores aladas. e ainda amo inevitáveis garças e solitários cisnes. neste mundo manco clamo. Para beijar os seus lábios para beijar os seus lábios eu surgi do lodo ele me deu água enviou-me ao hospício dentro de suas vestes encontrei segredos medievais. árias, anjos, musas. as flores do mal. eu quase fui sua falávamos em eternidade e as escamas da morte se aproximavam. consultei o i ching. e lá estava: forte viga amparada por paredes frágeis. O deserto assombra quem não ama o deserto assombra. a humanidade, afogada em litanias, cospe sangue, medo e fé. vísceras sob círios. conchas guardam a lua e suas fases. desesperado náufrago se aproxima. não é homem. nem mulher. é fúria. Hino salitre. queda. este caminho é o das palavras e armadilhas. silenciosa torre que enlaça. silábica província que aprisiona e liberta. não é veneno o que ofereço. é gozo e ternura. a metáfora do perdão se ergue. ainda te vejo: frágil espelho que o destino, pontiagudo, tocou. secreta tempestade que o amor revela às damas de abismo e ritos. até que tudo passe: fome. sono. desfiladeiros. mortes. Nadamos juntas nadamos juntas. deixamos resíduos para os navegantes. salve-me, ela pede. da ambigüidade? da loucura? pergunto-lhe. da falta de sentido. ela sussurra. revejo cidades: coríntio, tebas, colona. desenterro guirlandas. espere-me. ela implora. tem fome e me desconhece. lágrimas de outros séculos passeiam no meu rosto. oculto-me em ametista e ritmo. nenhum remorso. |
Caindo nas madrugadas ouço jambos caindo nas madrugadas. uma grande solidão encontra algumas mulheres com livros nas mãos. são senhoras que lêem rosa. meninas que lêem nietzsche. fêmeas que lêem dostoiévski. como ser outro se jamais se sabe o que se é? além da névoa e da noite, o que existe? a um ciúme amendoado estamos presas. o que faz de nós porcelana e estrume/ ímã e tarântula? qual homem ainda amar? aquele que é veludo e não adaga? algumas mulheres já nasceram grutas. por isso escrevem, maternais e cúmplices, nas tardes de carnaval. o que uma mulher procura em outra, além da ternura? antigos medos se enfileiram. hálitos e árias se confundem. a felicidade é um pássaro de asas curtas e desejos molhados. o que nos faz diabólicas, ísis, helenas, electras, medusas, medéias? inocentada pela delicadeza, uma fina chuva cai. enumero coisas perdidas: serpentinas. ciladas e armadilhas. e a lágrima primeira. quase esquecida. Pronta para transbordar há uma represa pronta para transbordar. nunca saberemos o que realmente somos. a hipocrisia continua alerta. acendo o lume e desprezo as rédeas. o que esperar numa província, além de regressos? como ser numa metrópole onde a inquietude é lustre, força curadora, teofania, deserto? tomo conta de mim e me protejo. sou minha filha e minha mãe. as labaredas da infância estão queimando. não tenho o dom de esquecer, por isso reinvento. a morte me beija os lábios. e passa. mansamente. nasci meio calipso. meio circe. meio penélope. finjo que teço. finjo que finjo. finjo. estamos no limiar e a delicadeza é inevitável. ainda me lembro do meu cheiro quando me descobri mulher: fêmea arrebatada por jovens aedos. blandiciosa. estrangeira. que toda nau nos leve a ítaca todo filho seja telêmaco, todo homem, ulisses. toda ama, euricléia. kórax era um homem e não uma ave. uma ave é uma ave, e não um homem. o teto é branco. o tejo é vasto. o tâmisa é triste. o potengi é ícone. e eu permaneço oblíqua. aconchegada em penhascos. rodeada de mar de hexâmetros. viver é lento. mas querer é urgente. Estou possuída estou possuída por profundidades. a boca do mundo, aberta, pergunta: - no que você acredita? - no que devora. - o esquecimento? - o esquecimento. a delicadeza. o desejo. - qual o caminho deste amor? - treva e seta. abismo e cegueira. aceito o meu destino: consagro-me a constelações distantes. quase roço o céu. |
Aécio Emerenciano, pintor
Aécio Augusto Emerenciano nasceu em
Ceará-Mirim/RN, em 22 de junho de 1935.
A pintura de Aécio se evidencia pela reorganização do espaço fugurado. À maneira de Kandinski, Aécio recria o espaço funcional de sua pintura. E o teoriza, em função da obra representada. Sua arte é principalmente recriação. Uma flor pode ser um pássaro. Um pássaro, um peixe; a folha, num fruto. Aécio não tem compromisso com a verdade imediata e nem sempre definidora para as razões do artista. Assim ele prefere a surpresa do novo, a descoberta do verde, a forma inusitada do nu ou do fruto no momento de surpreende-los. Eis o seu segredo, a sua magia, o toque de imprevista beleza dos seus quadros.
P. Klee também nos dá essa sensação do novo, do surpreendente. Até hoje suas pinturas possuem mistério, intrigam e encantam. Uma pintura para se pensar, descobrir, ficar definitivamente.
A pintura de Aécio tem da pintura de P. Klee esta alegria do novo. Descomprometido com as regras ortodoxas, sua pintura é uma festa para os sentidos, uma proposta para a sensibilidade, uma surpresa para o olho menos acostumado, a inventiva dos jovens.
Aécio com sua liberdade criadora, muito semelhante à dos mestres acima mencionados (mas não necessariamente pesquisados), livre do naturalismo caboclo, ou das soluções já superadas na pintura pseudoprimitiva, faz do seu tropicalismo uma festa de cor e luz numa comunicação feérica indiscutivelmente inteligente. Diz Ernest Fischer que "existe uma necessidade da Arte". Esta necessidade é para Aécio o seu compromisso vital, a sua generosa e inequívoca fantasia.
(Dorian Gray Caldas in Artes Plástica do Rio Grande do Norte - Natal, 1989)
Nos peixes e gatos é sensível a maciez e leveza dos trabalhos. Em alguns, o grafismo alcança a beleza de um rendilhado. E nas variações submarinas não esconde o pescador-amador que reforça no pintor exatidão maravilhosa das áreas de luz e mistério junto aos peixes e algas.
Assim, a realidade da sua pintura. Sem pretensões nem rasgos de excentricidades. Um aluno da beleza do mundo que ele descobriu na infância e se amplia na realidade de sua fé e da sua humildade. Um trabalho de amor e dedicação e, portanto, como queria Pancetti, "tudo feito com amor fica bem feito".
(Newton navarro in Artes Plástica do Rio Grande do Norte - Natal, 1989)
Abaixo, além de trabalhos de Aécio, a resposta de Carlos Drumond de Andrade, de próprio punho, agradecendo a fixação de uma poesia sua junto a uma das pinturas feitas pelo artista em Natal.
Cônego Monte, escritor
Luiz Gonzaga do Monte, sacerdote e
escritor, nasceu em Vitória de Santo Antão, a 3 de janeiro de
1905. Foi pioneiro dos estudos de mineralogia no Rio Grande do
Norte e autor de vários trabalhos científicos. Membro-fundador
da Academia Norte-Riograndense de Letras. Morreu em Natal, Rio
Grande do Norte, a 28 de fevereiro de 1944.
Cônego Monte foi ainda professor, orador e cientista e se notabilizou por descobrir a scheelita no Rio Grande do Norte.
Ele ocupou lugar de destaque na história da cultura regional, como um dos intelectuais mais inteligentes do Rio Grande do Norte, em todos os tempos. Mas, além de sábio, era santo - dizem todos os seus biógrafos.
Aluno do Seminário São Pedro, de Natal, obteve distinção na totalidade das matérias, sendo ordenado por d. José Pereira Alves a 18 de setembro de 1927. Logo iniciou o seu profícuo apostolado. Foi secretário do bispado, capelão de igrejas e colégios, atividades que conciliava com o exercício do magistério. Professor de diversos estabelecimentos de ensino de Natal, lecionou latim, matemática, física, química, biologia e filosofia.
Apesar da modéstia que o caracterizava, Pe. Monte não tardou a projetar-se no meio cultural natalense, pela sua erudição prodigiosa. Sabia tudo ou quase tudo. Sem dúvidas, ele tinha a dimensão de um intelectual da Renascença, na desenvoltura com que trilhava os mais diversos campos do saber - das matemáticas à filosofoa, da biologia à psicologia, da geografia à teologia, sendo também versado em outras ciências, como a física, a química, a paleontologia, a astrofísica, a história, a antropologia e a sociologia. Além disso, era latinista, helenista, e hebraista, lia e traduzia as línguas neolatinas, assim como o inglês e o alemão.
"Instalou Pe. Monte no seminário, onde lecionava, pequeno laboratório para suas pesquisas de biologia e mineralogia. Lá descobriu a scheelita no Rio Grande do Norte. Foi em 1941, examinando amostras de minérios provenientes de Caicó (...) Fez mais de 2 mil análises de minérios do Rio Grande do Norte."
(Veríssimo de Melo)
No dizer dos seus biógrafos foi mais orador do que escritor.
(Manoel Onofre Júnior in 400 Nomes de Natal - Natal, 2000)
Luzia Dantas, escultora
Luzia Dantas - a maior
escultora popular do Rio Grande do Norte - é jovem, risonha,
simples, humilde. Nasceu em Rio Cachoeira, município de São
Vicente, região do Seridó, no Rio Grande do Norte a 27 de
fevereiro de 1937, aí recebendo instrução primária.
Menina ainda, aos 10 anos de idade, já talhava bonequinhas de madeira para brincar. Suas experiências foram despertando interesse dos parentes e Luzia passou a fazê-las para as amigas dos sítios vizinhos.
Morando numa fazenda, alguns quilometros distantes da pequena cidade de São Vicente, Luzia não sofreu influência de qualquer outro artista popular. Começou a talhar na madeira o que gostava e para que outras pessoas apreciassem o seu trabalho - nos confessou. Das bonecas, já mocinha, evoluiu para fazer santos e tipos populares do Nordeste, carros de boi, cavalos, outros animais, cenas de casas de farinha e retirantes.
De início, vendia suas peças a dez tostões, cada. Hoje, seu preço varia entre Cr$ 90,00 e Cr$ 100,00, conforme as dimensões. A peça mais cara que já fez foi uma moldura trabalhada por Cr$ 350,00. E a maior que já talhou foi uma Nossa Senhora dos Navegantes de 1,10m, encomenda do professor Oswaldo de Souza, para a capela do Marco de Touros.
Entre as madeiras, prefere
a umburana para trabalhar. Seu instrumental se resume no
canivete, sovela, escopo, serrote, lixa, facão e faca.
Suas peças são sempre bem-acabadas, lixadas, sem pintura e com dimensões quase perfeitas. Prefere os motivos regionais, mas já assina suas peças o que denota influência de colecionadores e valorização da própria Arte.
Raramente consegue guardar uma peça contou-nos - pois constantemente é visitada por pessoas de toda parte que desejam adquiri-las.
Luzia não sabe bem para onde vão os seus trabalhos, mas acredita, conforme nos declarou, que estão espalhadas "por todos os países".
Uma das peças mais interessantes de Luzia Dantas, reproduzida várias vezes e que pode ser vista nas coleções de Arte Popular, em Natal, é a de um São Jorge e o Dragão, medindo aproximadamente 30x20 centímetros. Os detalhes do planejamento, o bom acabamento, as proporções das figuras, tudo impressiona à primeira vista ao observador. Também outro conjunto bastante apreciado é o dos Retirantes, com o trabalhador do campo à frente, a enxada no ombro, a mulher grávida, as crianças, o jumento, o cachorro magro, o papagaio e o macaco.
Luzia Dantas reside atualmente na cidade de Currais Novos, Rio Grande do Norte, onde se casou a 6 de janeiro de 1974.
(Dorian Gray Caldas in Artes Plásticas do Rio Grande do Norte, 1989)
Franco Maria Jasiello, poeta
Os poemas de Franco Jasiello como todos os poemas que procuram novas soluções de linguagem para pensar o mundo, aferecem projetos de leituras com alternativas de múltiplas possibilidades.
Dirce Côrtes Riedel
Nascido em Roma
(Colleferro), Itália, no dia 6 de dexembro de 1932, Franco Maria
Jasiello naturalizou-se brasileiro em março de 1977, mas desde
1974 residiu em Natal, onde publicou o primeiro livro de poesia,
Os amigos do sangue noturno (1976) e teve ativa participação
cultural, passando pela presidência da Fundação José Augusto,
pela direção do Núcleo de Arte e Cultura da UFRN e pelo
Conselho Estadual de Cultura, onde permaneceu por 12 anos.
Os estudos básicos de Franco Jasiello foram feitos em Milão (curso primário e ginasial, respectivamente no Colégio Leonardo Da Vincci e Colégio Giuseppe Parini), com pasagem por Roma, Colégio Tito Livio e Colégio Giambatistta Vico. Em Roma fez ainda o clássico, no Colégio Giulio Cesare.
Também em Roma bacharela-se em Letras Clássicas e Filosofia. Estava pronto para o Brasil, em São Paulo a partir de 1956.
Antes de aventurar-se ao Rio Grande do Norte, Franco Maria Jasiello trabalhou na capital paulista primeiro como chefe do departamento de cálculos da SAIB (editora Abril) e depois como diretor técnico-sócio proprietário da Rowis Indústria Metalúrgica de São Paulo. De mudança para Natal desde a década de 1970, começa assessorando o jornal Diário de Natal e entra para a Universidade Federal do Rio Grande do Norte como professor de História da Arte por "notório saber".
Presente em várias antologias poéticas, Franco Maria Jasiello publica mais quatro livros de poesia, um em 1979, Sobrevivência da memória, e os demias na década de 80: As estações náufragas (1981), Itinerário do imprevisto (1983) e Correspondência atrasada (1985), tendo ainda títulos inéditos.
Quem melhor situou a sua poesia foi o professor e escritor Tarcísio Gurgel: "Apoiando-se em três signos fundamentais que, no meu entender estruturam o seu trabalho poético, Franco Jasiello nos faz percorrer suas vias telúrica, erótica que, por assim dizer, convergem para a humanística, espécie de via central de sua poesia".
Sobre o livro Anatomia da ausência, o site da livraria AS Livros diz:
Uma experiência poética
de cópulas e espelhos. Nessa nova obra de Franco Jasiello, o que
está em questão é esta descontinuidade, esta ruptura, que faz
surgir uma ausência: o enigma da feminilidade. A linguagem
Jaselliana abre-se, através dos sucessivos cortes imaginários,
para o espaço infinito, para o campo do gozo que está ligado ao
semblante. A poesia faz-se experiência de cópulas e
espelhos.Anatomia da Ausência atualiza e manifesta as moções
amorosas da poesia lírica, sepultadas e esquecidas. O sujeito
poético mira a falta que os espelhos refletem.
Ininterruptus O navegar primeiro em nossa pele. A preamar das línguas o remanso dos dedos. O veleiro depois em nosso porto. A maresia da espera o entardecer da água. A hora lenta de ancorar-me é essa, contra a lua nascente penetro teu corpo decrescente aumento em teu respiro sou onda em teu gemido. As palavras se quebram, se repartem. Em ti refluo. Em mim flutuas. (As estações náufragas, Achiamé, 1981, RJ) |
Decreto Seja o silêncio lento saliente a boca o ventre atento a mão paciente a noite sem lua sem sombra o dia sem passo a rua sem barco a proa breve a partida travado o dente a voz contida a dor traçada. (As estações náufragas, Achiamé, 1981, RJ) |
Rotina A manhã te conhece insólita. A tarde te analisa incerta. A noite te penetra ilícita A semana te absorve explícita. O mês te conserva aberta. O ano te devolve implícita. (As estações náufragas, Achiamé, 1981, RJ) |
Quem anda em noites de vaga-lumes Quem anda em noites de vaga-lumes traz sempre um cheiro de estrela que quase caiu e, se puder cantar ou chorar, se souber de sohos e de dias, sobe numa colina, longe de todos e espera até que nasçam flores entre os lábios e em seus cabelos folhas. (Os amigos do sangue noturno, 1976) |
Abraham Palatnik, artista plástico
Arte cinética, tecnologia,
invenção e experimentalismo: estas palavras não definem por
completo o artista, mas podem ajudar-nos a compreendê-lo. Homem
urbano e industrial, foi o engenheiro das artes plásticas nos
anos cinqüenta, o que o ligou às reflexões em torno da arte
concreta.
Nascido em Natal, filho de imigrantes russos judeus, transferiu-se ainda jovem para Israel, em Tel-Aviv, em 1932, onde se especializou em motores de explosão. De 1943 a 1947 estudou pintura e história da arte no ateliê de Aron Avni, escultura com Sternshus, estética com Shor, e pintura, desenho e história da arte no Instituto Municipal de arte de Tel Aviv. Produziu neste período pinturas de paisagens, retratos e naturezas-mortas. Voltou ao Brasil em 1948, ano em que o crítico Mário Pedrosa escrevia sua tese sobre a teoria da Gestalt. Palatnik, assim como Ivan Serpa e Almir Mavignier, reuniu-se à Pedrosa em suas pesquisas por uma nova arte. Ao mesmo tempo, estudava arte concreta, e freqüentava o Engenho de Dentro, onde a Dra. Nise da Silveira fazia da arte uma experiência terapêutica com pacientes manicomiais. "O impacto das visitas ao Engenho de Dentro e as conversações com Mário Pedrosa demoliram minhas convicções em relação à arte", declarou Palatnik (In: MORAIS, Frederico; Itaú Cultural; 1999).Destas duas experiências surgiriam algumas pinturas concretas e suas pesquisas com luzes e movimento que culminariam nos seus aparelhos cinecromáticos.
Por um lado, os aparelhos possuem uma reflexão diretamente ligada à arte concreta, como a relação com a sociedade industrial - os motores de explosão -, e à criação de uma quarta dimensão na obra de arte, sem precisar relacioná-la com a representação do mundo real, que é o tempo (que surge aqui como movimento). Por outro, a obra não perde o componente lúdico dado pelo uso das cores, quebrando com a rigidez concreta. Seu primeiro Aparelho Cinecromático foi exposto na I Bienal de São Paulo, em 1951, obtendo menção especial do júri internacional, apesar de ter sido inicialmente recusado pelo júri nacional, por não se enquadrar em nenhuma categoria regulamentada. O artista foi um dos pioneiros no mundo a trabalhar com arte cinética.
As reuniões com Pedrosa, Serpa e Mavignier geraram o grupo que ficou chamado como Frente, o qual fundou e atuou de 1954 a 1956. Trabalhou também diretamente no universo industrial, como projetista e desenhista de produção. É inventor de máquinas e jogos de percepção, a partir dos anos sessenta. Para inventar alguma coisa é preciso possuir um comportamento anticonvencional. Eu acho que as indústrias deveriam convocar artistas plásticos porque eles possuem um potencial perceptivo que pode resolver muitos problemas, falou o artista (In: MORAIS, Frederico; Itaú Cultural; 1999).
Em 1964, realizou seus Objetos Cinéticos. Eram formas coloridas que se moviam por motores, eletroímãs e fios de metal (que ficavam expostos: a máquina era para ser vista em funcionamento). Era como um móbile de Calder, só que movido a motor e com movimentos regulares e planejados. Produziu ainda os Relevos Progressivos, em que utilizou os relevos e sulcos naturais da madeira, em superfícies bidimensionais, sob composição serial, de modo a criar ritmos, continuando assim suas pesquisas no campo do cinetismo visual.
(Tatiana Rysevas Guerra [bolsista FAPESP] e Profa. Dra. Daisy Peccinini [orientadora])
Abraham Palatnik por ele mesmo - 1977
A evolução do ser humano está ligada diretamente à adoção da tecnologia e da informação, e sem dúvida faz parte de um projeto. Acredito em cultura dinâmica na qual por intermédio de uma tecnologia adequada, utilizamos nosso potencial adquirido para evoluir e se ajustar constantemente ao mundo que nos cerca. O homem, que é um organismo vivo imerso num dado ambiente, só pode perceber através de seus órgãos sensoriais.Estas informações são coordenadas através do sistema de nervos e cérebro, sofrendo um processo de armazenamento, comparação, e seleção. Finalmente emergem para atuar no mundo exterior por intermédio de órgãos estruturais excepcionalmente planejados como, entre outros, músculos e articulações. Ocorrem reações que se combinam com informações já acumuladas para assegurar um comportamento futuro mais adequado. A validade da informação está no nosso ajustamento constante ao mundo exterior enquanto fazemos sentir nossa atuação nele, diretamente ou por intermédio de nossas extensões e tecnologias. Uma espécie de "permuta". Só assim se justifica nossa presença. é evidente que a tecnologia tem que ser adquirida a duras penas em contraste com a tecnologia da sociedade animal. A aranha prepara uma armadilha eficiente e econômica com uma matéria prima fabricada por ela mesma e muito sofisticada em viscosidade e elasticidade. Imobiliza sua vítima com habilidade. Faz manutenção e reparos. Sua arquitetura é planejada na rota da caça, etc... No entanto a aranha nunca aprende nada, já nasce com os "circuitos impressos". A formiga, do mesmo modo, também tem tarefas rígidas, limitadas e moldadas na sua estrutura, cujas condições fisiológicas se comparam aos "artigos baratos" produzidos em massa na nossa sociedade. O ser humano representa um grande investimento em estudo e aprendizagem ao longo de dezenas de anos. Desprezar esta vantagem seria uma degradação da própria natureza do homem e um desperdício de suas potencialidades. Estas potencialidades devem ser conservadas e ativadas pelo estímulo à percepção e à criatividade, diversificando nossas extensões, implantando nelas nossa sabedoria e habilidade e assumindo comando projetista. Uma espécie de antirotina, contrariando assim o ritmo lento da evolução espontânea. Sem percepção e criatividade, a aprendizagem através da informação codificada pode trair-nos. O volume das informações esta aumentando, e suas características se modificando, estando ligadas cada vez mais aos veículos de divulgação em massa e em linguagem codificada. O acesso a todas essas informações é atordoante e impossível. A seleção se faz necessária. Surgem os especialistas que sabem cada vez mais sobre menos; um dia saberão tudo sobre nada. Nos meus trabalhos procuro os princípios que geram informações, ou seja, o princípio da ordem e da essência. As informações no universo estão geralmente ocultas, disfarçadas em meio a desordem. É necessário o mecanismo da percepção e da intuição para que estas se manifestem "de repente". É a esta "surpresa" que tenho o maior interesse e fascínio, Inicia-se o processo da "permuta" e por meio de tecnologia adequada procuro disciplinar as informações. Também acho que a forma de alguma coisa não é apenas o seu contorno mas principalmente a sua essência. Alcançar essa essência é realmente intrigante. é a origem de todas as manifestações estéticas manipuladas pelos artistas. A sensibilidade é posta a prova, o mecanismo da improvisação desabrocha, e o ludismo se apresenta reaproximando o homem de sua condição de participação e integração.
A trajetória do artista:
1928 Nasce em Natal, Rio Grande do Norte.
1932 Transfere-se com a família para Israel.
1942/1945 Curso de especialização em motores de explosão, Tel-Aviv, Israel.
1943/1947 Estuda pintura, desenho, história da arte e estética no Instituto Municipal de Arte, em Tel-Aviv.
1948 Participa, com pinturas figurativas do Salão Nacional de Belas Artes, divisão moderna, RJ. Retorna ao Brasil, fixando-se no Rio de Janeiro.
1949 Inicia pesquisas no campo da luz e do movimento.
1954 Integra o Grupo Frente, RJ.
1962 Inventa o jogo de percepção, "O quadrado perfeito", e obtém copyright.
1988 Os protótipos foram expostos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, RJ.
Aos 76 anos de idade, o artista, um dos pioneiros da arte cinética, continua produzindo e expondo amplamente. Entre 1999 e 2004, Palatnik esteve presente em cerca de 30 mostras individuais e coletivas no Brasil, América Latina, Europa e Estados Unidos.
Abraham Palatnik, contemporâneo de Lígia Clark, participou da 1ª Bienal Internacional de São Paulo, além das exposições percursoras da arte cinética na Europa. Por exemplo, tomou parte, na Galeria de Arte Denisé René em Paris, em 1955, da exposição intitulada "Le Mouvement". Ele faz parte do gráfico criado por Frank Popper, em seu livro A origem da Arte cinética, como um dos pioneiros na pesquisa da luz e movimento.
Ele também aguçava os espectadores com seus objetos "cinecromáticos". Em suas mostras, todos os visitantes ficavam curiosos pelos detalhes das maquininhas de pintura em movimento, mas poucos, além do próprio Palatinik, conseguiam explicar direito o mecanismo e o princípio delas. Na época, o objeto cinecromático sintetizava novas possibilidades na atividade artística, abrindo para o universo da arte tradicional outros caminhos. Proporcionava a realização concreta da exploração do problema do espaço, do tempo, do movimento e do dinamismo. Para o artista, o movimento de cada elemento da seqüência é definido e obedece a um plano. O dinamismo de cada momento da seqüência é decidido pela natureza imediata posterior e condicionado pela concepção total da sequência. O espaço é o limite das projeções da luz (ao tamanho do aparelho) e o tempo no cinecromático é o que possibilita a evolução dos elementos na seqüência.
Abraham Palatinik busca em suas obras os princípios que geram informações, ou seja, o príncipio da ordem e da essência. O artista considera que, no universo, as informações estão geralmente ocultas, disfarçadas em meio a desordem, sendo necessário o mecanismo da percepção e da intuição para que elas se manifestem "de repente". É por esta "surpresa" que ele tem o maior interesse e fascínio. Por meio de tecnologia adequada, ele procura disciplinar as informações.
Palatinik acha que a forma de alguma coisa é principalmente a sua essência e não apenas o seu contorno. Mas alcançar tal essência é o que se torna realmente intrigante. É a origem das manifestações estéticas manipuladas pelo artista. Quando sua sensibilidade é posta a prova é que o mecanismo da improvisação desabrocha e o lúdico se apresenta reaproximando o homem da participação e da integração.
Os jogos criados pelo artista são exemplos dessa integração. Os objetos foram criados com a intenção de propor a seus filhos um desenvolvimento da percepção visual. No Quadrado perfeito, o jogador tem que visualizar um quadrado dentro de um tabuleiro. A forma pode ser composta por quatro peças, desafiando os jogadores, pelas regras, a formar primeiro o tal quadrado.
Do ponto de vista da história da arte cinética, Palatinik é uma referência de âmbito mundial. Não só é importante salientar sua importância, como podemos também reconhecê-lo como um dos pioneiros desta corrente.
Exposições Individuais
2002 Individual, Pioneer Palatnik Painting Machines and Decelerating Machines, Instituto Itaú Cultural, São Paulo
Individual, Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro
2000 Individual, Galeria Nara Roesler, SP.
1998 Abraham Palatnik: Retrospectiva 1942
1981 Individual, Galeria do Instituto dos Arquitetos do Brasil, RJ.
1977 Individual, Galeria Bonino, RJ.
1971 Individual, Galeria Barcinski, RJ.
1966 Individual, Casa do Brasil, Roma, Itália.
1965 Individual, Galeria Hella Nebelung, Dusseldorf, Alemanha.
Individual, Petite Galerie, RJ.
Individual, União Pan-Americana, Washington, DC, Estados Unidos.
Individual, Galeria Howard Wise, Nova York, Estados Unidos.
1964 Individual, Galeria Studio F, Ulm, Alemanha.
Individual, Hochschule Museum, Saint Gallen, Suíça.
Exposições Coletivas
2004 Inverted Utopias Avant Garde Art in Latin América, Museum of Fine Arts, Houston
Arte BA, Galeria Nara Roesler, Buenos Aires, Argentina
Hiper>Relações eletro // digitais, curadoria Daniela Bousso, Espaço Santander Cultural, Porto Alegre, RS
ARCO, Galeria Nara Roesler, Madrid
Arte Abstrata nas Coleções MAM e Gilberto Chateaubriand, MAM, Rio de Janeiro
2003 10 Year Celebration, Centro Cultural Correios, Rio de Janeiro
Cuasi-Corpos: Arte Concreto y Neo Concreto de Brasil, Museo Tamayo Arte Contemporaneo, Mexico
Abstração e Construtivismo, Pinacoteca Do Rio Grande do Norte, Mossoró
Interfaces Contemporâneas, MAC, São Paulo
Fiat Lux A Luz na Arte, Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro
Museo de Arte Contemporaneo, Monterrey, Mexico
2002 A Forma e a Imagem Técnicas na Arte do Rio de Janeiro, Paço das Artes, São Paulo
A Imagem do Som do Rock-Pop Brasileiro, Paço Imperial, Rio de Janeiro e Novo Museu, Curitiba
Caminhos do Contemporâneo, Paço Imperial, Rio de Janeiro
Coleção Sergio Fadel, Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo
Geométricos e Cinéticos, Gabinete de Arte Raquel Arnaud, São Paulo
2001 Aquarela Brasileira, Centro Cultural Light, Rio de Janeiro
Constellation, MAM, Rio de Janeiro e Bogotá
Art Chicago, Galeria Nara Roesler, Navy Pier, Chicago
Trajetória da Luz na Arte Brasileira, Instituto Itaú Cultural, São Paulo
Quando o Brasil era Moderno, Paço Imperial, Rio de Janeiro
Coletiva, Artistas na Art Chicago, Galeria Nara Roesler, São Paulo
2000 Coleção Pirelli, MAM, São Paulo
Galeria de Arte do IBEU, Rio de Janeiro
Heterótopos Médio Siglo Sin Lugar 1918-1968, Centro de Arte Reyna Sofia, Madrid, Espanha.
Brasil 500 Anos Artes Visuais, Fundação Bienal de São Paulo, SP.
1999 Museu de Arte Contemporânea de Niterói, RJ
1998 Máquinas de Arte, Instituto Itaú Cultural, SP
Arte Construtiva no Brasil: Coleção Adolpho Leirner, Museu de Arte Moderna de São Paulo, SP.
Uma Visão da Arte Contemporânea, Museu Nacional de Belas Artes, RJ.
Arte e Tecnologia, Museu Nacional de Belas Artes, RJ
Art Construtif, Art cinétique d'Amérique Latine, Galeria Denise René, Paris
1997 Tridimensionalidade, Instituto Itaú Cultural, SP.
I Bienal de Artes Visuais do Mercosul, Porto Alegre, RS.
1996 Lumière et Mouvement, Galeria Denise René, Paris, França.
Quimeras Poliméricas ou o Plástico na Arte do Século XX, Museu de Arte Moderna de Nice, França.
Tendências Construtivas no Acervo do MAC/USP, Centro Cultural Banco do Brasil, RJ.
1991 Mário Pedrosa, Arte, Revolução, Reflexão, Centro Cultural Banco do Brasil, RJ.
1989 Os Ritmos e as Formas Arte Brasileira Contemporânea
1988 Modernidade Arte Brasileira do Século XX, Museu de Arte Moderna de São Paulo, SP.
1987 Modernidade Art Brésilien du XXe Siécle, Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris, França
1986 A Nova Dimensão do Objeto, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, SP.
Panorama de Arte Atual Brasileira, Museu de Arte Moderna de São Paulo, SP: Prêmio de Aquisição.
1983 Arte Programmata e Cinética 1953-1963, Palazzo Reale, Milão, Itália.
1980 Homenagem a Mário Pedrosa, Galeria Jean Boghici, RJ.
1978 Objeto na Arte Brasil Anos 60, Fundação Armando Álvares Penteado, SP.
1977 Projeto Construtivo Brasileiro em Arte 1950-1962 Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro/ RJ e Pinacoteca do Estado, SP.
1972 X Resumo de Arte Jornal do Brasil, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, RJ: Primeiro Prêmio.
Arte Brasil Hoje 50 Anos Depois, Galeria Collectio, SP.
1971 I Salão Luz e Movimento Sala especial, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
1969 X Bienal de São Paulo, SP Prêmio Itamaraty de Aquisição.
1967 Light and Motion, Worcester Art Museum, Massachussets, Estados Unidos.
Light Motion Space, Milwaukee Art Center, Chicago, e Walker Art Center, Minneapolis, Estados Unidos.
Lights in Orbit, Howard Wise Galerie, Nova York, Estados Unidos.
IX Bienal de São Paulo, SP.
1966 Artistas Brasileiros Contemporâneos, Museu de Arte Moderna de Buenos Aires, Argentina e Museu de Arte Moderna de Montevideu, Uruguai.
Kinetic Art, Museu de São Francisco, São Francisco, Estados Unidos.
Kunst Licht Kunst Stedelijk van Abbemuseum, Eindoven, Holanda.
III Bienal de Córdoba, Argentina: Terceiro Prêmio.
V Resumo de Arte Jornal do Brasil, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro: Prêmio Galeria Bonino.
1965 Art turned on, Institute of Contemporary Art, Boston, Estados Unidos.
Propostas 65, Fundação Armando Alvares Penteado, SP.
VIII Bienal de São Paulo, SP.
Salão Comparaison, Paris, França.
Art of Brazil, Royal College of Art, Londres, Inglaterra.
Lumiére, Mouvement et Optique, Palais de Beaux-Arts, Bruxelas, Bélgica.
Licht und Bewegung, Staatliche Kunsthalle, Baden-Baden, Alemanha e Kunsthalle, Berna, Suíça.
1964 Mouvement 2, Galeria Denise René, Paris.
XXXII Bienal de Veneza.
1961 VI Bienal de São Paulo.
1960 IX Salão Nacional de Arte Moderna, RJ.
Brasilianische Kunst der gegenwart, Museu Morsbroich, Leverkusen, Alemanha.
Expõe aparelho cinecromático no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
1959 V Bienal de São Paulo.
Modern Kunst Brasiliens, Casa de Arte, Munique, Alemanha.
47 artistas, Galeria de Arte das Folhas, SP.
Brasilianischer Kunstler, Academia de Arte. Viena, Áustria.
1958 Galeria de Arte das Folhas, SP.
1956 Mostras do Grupo Frente em Resende e Volta Redonda, RJ.
1955 III Bienal de São Paulo
Projeta móveis modernos, com os quais participa da II mostra do Grupo Frente, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
1953 Participa da I Exposição Nacional de Arte Abstrata, Hotel Quitandinha, Petrópolis.
II Bienal de São Paulo.
1951 I Bienal de São Paulo
Maco México Arte Contemporâneo , Galeria Nara Roesler, Cidade do México
Coleções Públicas
Enersis Collection
Galerie Howard Wise, Nova York
Galerie Denise René, Paris
Indústrias Kaiser, Cordoba, Argentina
Instituto Itaú Cultural, São Paulo
William Keiser Museum, Krefeld, Alemanha
Museu de Arte Contemporânea de Niterói
Museu de Arte Contemporânea de Brasília
Museu de Arte Contemporânea de Curitiba
Museu de Arte Contemporânea da USP, SP
Museu de Arte Moderna de São Paulo
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Américo de Oliveira Costa, escritor
Nasceu em Macau em 22 de agosto de 1910.
Morreu em Natal no dia 1º de julho de 1996.
Colaborador da Resistência Francesa na Segunda Guerra Mundial, feito que o distinguiu mais tarde com condecorações de Cavalheiro e Oficial das Palmas Acadêmicas e Cavalheiro e Oficial da ordem Nacional do Mérito, do Governo Francês, além de consul honorário da França, em Natal, a vida intelectual de Américo de Oliveira Costa se dividiu entre a paixão pela cultura francesa e a dedicação à cultura de nossa terra.
É prova dessa segunda paixão seus livros Viagem ao Universo de Câmara Cascudo, vencedor do Prêmio Nacional Luís da Câmara Cascudo da Fundação José Augusto, de 1969, e a Seleta de Luís da Câmara Cascudo (organização, estudos e notas).
Um dos fundadores da Aliança Francesa em Natal, seu amor à cultura francesa se expressa nas compilações que fez na sua vasta biblioteca, e que reuniu nos livros A Biblioteca e seus Habitantes e o Comércio das Palavras, (em quatro volumes) onde predominam citações de autores clássicos, sobretudo franceses.
Formado em Direito pela Faculdade do Recife, em 1935, foi prefeito eleito do município de Bebedouro, atual Agrestina, em Pernambuco, de 1935 a 1937, cassado pelo Estado Novo. Em Natal, foi chefe de gabinete do governo de Rafael Fernandes, promotor de Justiça em Currais Novos e em Mossoró, diretor do Departamento de Estatística e secretário-geral do Estado nos governos de Dix-Sept Rosado Maia e Sylvio Pedroza. Foi procurador do Estado e por duas vezes juíz do Tribunal Eleitoral, professor do Colégio Diocesano de Mossoró, do Ginásio Sete de Setembro, da Escola Doméstica, da Escola Normal, da Faculdade de Jornalismo Elóy de Souza e da Faculdade de Direito (titular e emérito) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
No jornalismo, escreveu em "O Mossoroense", de Mossoró, em "O Festeiro", do Recife, em "A Notícia", no "Diário da Manhã" e no "Diário de Pernambuco". Foi secretário dos Diários Associados de Natal e colaborou em outros jornais da cidade, como "Tribuna do Norte".
Foi o primeiro jornalista a manter uma crônica diária na Rádio Poti, intitulada "Gazeta Sonora".
Foi membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras,- onde ocupou a cadeira cujo patrono era o seu conterrâneo Aurélio Pinheiro; do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte; do Conselho de Cultura do Estado do Rio Grande do Norte e membro correspondente do Pen-Club do Brasil.
(Nélson Patriota in 400 Nomes de Natal, Natal, 2000)
Obras:
Viagem ao Universo de
Câmara Cascudo "Tentativa de Ensaio Bibliográfico";
A Biblioteca e seus Habitantes - Imprensa Universitária, Natal, 1970;
Seleta Luís da Câmara cascudo (organização, estudos e notas), Rio, 1982;
Comércio das Palavras (textos e montagens), Rio, 1989.
Sobre o escritor:
"A Biblioteca e seus Habitantes, de leitura tão aliciente e de interesse tão vivo para os amigos das letras - comunidade que se vê irmanada nessas anotações de leitor, feitas com apurado gosto.
Ciro dos Anjos
"Não lhe direi nada de novo assinalando a visível originalidade de seu trabalho A Biblioteca e seus Habitantes, que não escapará de nenhum leitor. Seu livro encerra um mundo de leituras e idéias, em notável concentração."
Carlos Drummond de Andrade
Cleudo Freire, músico
Foto: Evaldo Gomes
Cleudo Freire iniciou sua
carreira artística, no começo dos anos 80, participando de
festivais de música e eventos em Natal. Nesta mesma época, em
busca de seu aperfeiçoamento profissional, partiu para São
Paulo e por dois anos dedicou-se ao estudo da história da
música, guitarra e harmonia. De volta a Natal, atua no cenário
musical como compositor, cantor e instrumentista de reconhecido
valor e originalidade.
Cleudo Freire possui
trabalho fundamentado em pesquisa de sons, ritmos, folclore,
costumes e linguajar peculiar de nosso povo. Ritmos regionais
como o zambê, o bambelô, o coco, entre outros, são misturados
com equilíbrio aos sons do reggae, soul, funk, rock e MPB,
resultando numa música de qualidade e identidade própria. Este
trabalho o leva além das fronteiras potiguares, tendo
representado nosso Estado e País em eventos nacionais e
internacional.
Em outubro de 1999, em São Paulo, representou nosso Estado na realização do projeto Nordestes, uma iniciativa da Fundação Joaquim Nabuco, SESC Pompéia/SP e do Ministério da Cultura, ajudando a reafirmar a riqueza e diversidade cultural de nossa região. Além dos shows e outras manifestações culturais, o projeto resultou na edição de um catálogo como forma de celebração dos 50 anos da Fundação Joaquim Nabuco.
Em Viena, Áustria, participou do projeto Brasil 2000: do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte com a mostra Arte da Esquina do Brasil, realizado por WUK - Werkstätten und Kulturhaus (Casa de Oficinas e Cultura) e Verein for Art (Sociedade para a Arte). A realização da mostra aconteceu num espaço cultural integrante da Trans Europe Halles, rede de centros culturais, onde a tradição da cultura clássica vienense mistura-se a atitudes e expressões culturais do mundo inteiro. Além de representar o Brasil com a cultura potiguar, através de seus elementos rítmicos, participou da coordenação de música da mostra.
Atualmente, empenha-se na evolução de sua carreira no projeto para gravação do cd Zambê Crossover II.
Trechos de músicas:
Estrela do mar & Aponto pro futuro
Dione Medeiros, artista plástica
Dione Medeiros nasceu em
Natal-RN. Desde cedo, mostrou tendências para trabalhos
artísticos.
Há alguns anos, estimulada por um curso de mosaico oferecido pela UFRN, deu início ao desenvolvimento do seu dom artístico. A partir de então, vem fazendo painéis, mesas, vasos e murais.
Seu estilo é figurativo, porém aberto a sugestões e exigências dos clientes.
Exposições realizadas
Alvará das Artes (Justiça Federal)
Casa de Apoio a Criança com Câncer
Feira de Artes de Antiguidades (Natal Shopping)
Mostra de Arquitetura e Decoração (Espaço Design 1999)
Nos últimos tempos, Dione vem se dedicando ao Projeto Nossa Cidade - Nossa Casa. Esse projeto, tem como proposta inserir crianças e adolescentes do município de Cajueiro, na Paraíba, em um trabalho lúdico, divertido, através da criação de mosaicos. O objetivo é divulgar a cultura , humanizar a cidade através da "Arte que acalma e ocupa a mente", além de deixar registrada a historia de seu povo. Podemos recordar neste trabalho, de uma linda canção de nossa infância que continua à ecoar de geração á geração e retrata o desejo puro e maravilhoso de um mundo infantil de amor e beleza....
Se esta rua, se esta rua fosse
minha, eu mandava, eu mandava
ladrilhar, com pedrinhas, com
pedrinhas de brilhante...
Mano, artista plástico
Marcos Estevam de Medeiros
Santos, nascido em 1959, é natural de Caicó, no Rio Grande do
Norte, proveniente de uma família de artistas. A começar pelo
bisavô materno, seu José Quinino de Medeiros, que afinava
instrumentos musicais e construía peças de madeira em
miniatura, como carros de boi, jumentos, etc. As irmãs Jussara e
Gláucia Santos são, respectivamente, artista plástica e
violinista da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte. Os
demais irmãos tocam violino.
A música é sua companheira inseparável de trabalho. "Pinto à base de música. Gosto de Chico Science, Mestre Ambrósio... Tenho um gosto diversificado", admite. Sua vocação para as artes plásticas se revelou desde quando freqüentava a escola, no 1º e 2º graus. "Gastava as folhas dos cadernos desenhando com caneta esferográfica", conta.
Daí em diante, começou a fase das experimentações: pintura a óleo, com grafite, com nanquim a base d'água e acrílica sob papel. Mas seu forte mesmo é misturar os materiais na busca do inusitado. Define seu estilo pela falta de estilo. "Gosto de fazer experimentações, de criar visões diferentes para quebrar a rotina da vida". Participa de exposições desde 1988.
Tem preferência por temas regionalistas, abstrações, paisagens, figuras humanas, etc. Só evita o urbano atual. "Dizem que todo artista é louco, desorganizado. Mas, hoje, já consigo separar a parte emocional do lado racional do trabalho", depõe.
Exposições realizadas
Individuais
Biblioteca Câmara Cascudo, 1988
Biblioteca Câmara Cascudo, 1990
Solar Bela Vista (SESI), 1993
Restaurante do SESC, 1999
Café Com Arte, 2000
Livraria A.S. Book Shop, 2000 Rua da Casa, 2000
Coletivas
Mês da Cutura da Caixa (CEF), 1988
Salão Arte - Verão,1989
Arte em Natal, 1993
Verão com Poesia, 1988
Mês de Mario (Homenagem à Mario de Andrade), 1993
Cartões Telefônicos (Ilustrações)
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Dailor Varela, poeta
O cotidiano é sua matéria-prima, carrega as tensões sociais para o indivíduo e este, solitário, bloqueado, não consegue impor sua presença como ser-falante.
(Anchella Monte Fernandes)
Dailor Pinto Varela, um dos
lançadores do poema/processo em Natal, em 1967, ao lado de
Anchieta Fernandes, Moacy Cirne, Nei leandro de Castro, Sanderson
Negreiros, Falves Silva, entre outros, nasceu em Anápolis,
Goiás, no dia 10 de junho de 1945, mas já aos três anos de
idade sua família, originária do Rio Grande do Norte, está de
volta a Natal. Aí, esse potiguar "de coração e vivência
familiar", começa seus estudos.
Fez o primário na antiga escola da dona Mousinha; o ginásio no colégio Marista, colégio Municipal e Atheneu Norte-rio-grandense, onde termina o clássico.
É dessa fase, "péssimo aluno de ciências exatas e excelente aluno de Redação", que começa sua paixão pela Literatura, já tendo escrito os primeiros versos aos 16 anos de idade, muito influenciado pelo romantismo de Castro Alves.
Mas dailor Varela vai atualizar suas leituras, passando a apreciar João Cabral de Melo Neto, já num período em que também milita na carreira jornalista.
Trabalhou na Tribuna do Norte, onde fundou um suplemento literário com Nei leandro de Castro, Moacy Cirne, Sanderson Negreiros, um suplemento revolucionário na época, onde foram publicados poemas concretos e experiências visuais.
Os livros de poesia de Dailor Varela começam a sair desde a década de 1970, estreando com Babel (poema/processo), de 1976. Daí em diante, sua poesia que passara significativamente pela área dos signos visuais, tende também para a área dos signos verbais, onde produz a maioria de seus livros, em destaque A louça suja da convivência (1984), Escrevivências (1992), Do meu caderno amarelo (1994), passando por uma antologia de suas obras, Travessia (1990) e pelo poema/processo de Cantilena diabólica (1993).
Desde 1975, dailor varela está em São Paulo, onde, sempre ao lado da poesia e atuação cultural, tem trabalho em revistas e jornais. Em São José dos campos foi editor dos jornais Agora, Valeparaibano. Atualmente trabalha em O Diário. Em 1977, quando o poema/processo completa 30 anos, pretende publicar toda a sua obra visual. O poeta mora hoje em Monteiro Lobato, pequena cidade do Vale, na serra da Mantiqueira.
Entrevista publicada no jornal TRIBUNA DO NORTE em 18 de dezembro de 2001
Poema/Processo
Signo
"Moro em
Possibilidade/ Melhor Casa do que a Prosa". São esses
versos de Emily Dickinson que ressoam na minha cabeça quando, ao
entrar na A. S. Bookshop, vejo o poeta lá em cima, no mezanino
da livraria. Não o via há dez anos. Mudamos. Eu e ele. Mas
vejo-me em seus olhos. Olhos inquietíssimos, mas tão
fragilmente verdadeiros que me dão a certeza de estar diante de
um poeta. Ele é tímido. Muito tímido. É também de muita
delicadeza. Ama Natal como nenhum outro. Mora, da forma mais
poética possível, há vários anos na Serra da Mantiqueira, em
São Paulo, numa "aldeia" chamada Monteiro Lobato, numa
casa com telhado aparente, dormindo numa rede nordestiníssima,
pedalando uma bicicleta azul. E escrevendo. Lendo. Delirando.
Liricamente. A maturidade o levou para mais próximo da
inocência. Inocência que só a poesia propicia, com os seus
anátemas, sortilégios, salvações. Sim, a poesia é um ato de
amor. Dailor bem o sabe. Morar em Possibilidade: eis o que todo
poeta ou todo ser? deseja.
"Sou um ser assumidamente passional", ele afirma em algum momento do nosso encontro mas não era necessário, quem o olha sabe que ali está um homem apaixonado. "Nada de grande se fez sem paixão", disse-nos Hegel certa vez. Dailor Varela é todo paixão. Vestido com uma camiseta branca que mostra numa mesma colagem ele mesmo, Teresa Maciel, a mulher amada uma antiga paixão natalense, reencontrada após 20 anos, que deu um novo sopro à vida do poeta , e o roqueiro inglês Mick Jagger com seus lendários lábios. Escrita sobre a colagem está a famosa frase de Jomard Muniz de Britto, um grande amigo e cúmplice de Dailor: "Natal é a Londres Nordestina". Antes de viajar, Dailor mandou fazer várias camisetas tendo Natal como tema. A Natal que o emociona: com os seus poetas e a sua luminosidade singular.
Dailor Varela saiu de Natal na década de 1970. Já saiu poeta. Amigo de outros poetas dos processos e dos líricos. Já saiu animador cultural com Paulo de Tarso Correia de Melo, organizava a programação da Praça da Cultura, na administração de Djalma Maranhão. Já saiu jornalista "a TRIBUNA DO NORTE foi o meu berço. Eu editava com Nei Leandro de Castro o suplemento de cultura da TN".
O poeta foi para São Paulo, trabalhar na revista Veja, convidado pelo jornalista Talvane Guedes: "Para mim foi fantástico conviver com mitos como Mino Carta e outros mitos da imprensa do Brasil. Depois trabalhei na Folha de São Paulo e em alguns jornais alternativos como Movimento e Opinião. Foi uma experiência fantástica em termos culturais e existenciais. Até que cansei de São Paulo", conta.
O poeta, então, decide morar no interior do Estado, em São José dos Campos, onde se torna editor do jornal Diário de São José, desistindo de permanecer no topo do jornalismo e de viver na cobiçada metrópole. Anos depois, São José dos Campos fica muito grande para o poeta e ele procura um lugar menor para se "abrigar" Monteiro Lobato é a escolhida. A "fama jornalística" não o interessava, não o interessa. Como poderia interessar a alguém que aos 54 anos pedala uma bicicleta azul pelas montanhas de Monteiro de Lobato? "Eu troco receitas com o meu vizinho e ele me dá feijão e bolo por cima do muro. Ainda escrevo diariamente uma coluna no Diário de São José e tenho um tablóide alternativo chamado Gente da Gente. No último número eu dei o Diógenes da Cunha Lima como capa. Ele até ficou surpreso e falou só você para me fazer conhecido em Monteiro Lobato", diz sorrindo o poeta.
Viver poeticamente é a bússola desse homem que está com o seu nome inscrito na antologia Os cem melhores poetas brasileiros do século, organizada pelo escritor e jornalista José Neumanne Pinto: "Tenho o maior respeito pelo trabalho do Neumanne. A antologia me abriu as portas para eu editar Delírico, esse livro que eu vim lançar em Natal. É bom ser reconhecido. Mas poeta não se mede. Não existe melhor, pior, grande ou pequeno poeta. O poeta é ou não é", afirma Dailor numa clara manhã de dezembro. Ao seu lado está Caio, o seu filho caçula, que o acompanha nesse retorno a essa Ítaca potiguar.
O filho dos norte-rio-grandenses Raul de França Varela e Floripes Pinto Varela, nasceu em 10 de junho de 1945, em terra goiana. Anápolis. "Nasci em Goiás por acaso, meu pai era funcionário do IBGE e foi transferido para Anápolis. Cheguei a Natal de navio, aos três anos de idade, todo vestido de branco, para a família conhecer o garoto" . Não deu certo: no final da viagem o poeta manchou toda a roupa de óleo, brincando nos tonéis do navio. "Sou potiguar, nunca me senti goiano". Sim, Natal é a origem de Dailor. É a cidade que o emociona e o chama. Sempre. Ficar dez anos sem vir a Natal, nada significa. Dailor está em contato permanente com a cidade. Atento a tudo que aqui se faz. "Eu nunca saí de Natal. A minha alma está em Natal. O Jomard Muniz uma vez comentou que eu sou o potiguar mais potiguar que existe, sem morar em Natal. Eu amo Natal em todos os sentidos. É uma paixão declarada. Por tudo, pela cidade, pelos meus amigos, pela vivência cultural que eu tive aqui, que tenho aqui, pelo respeito ao meu trabalho... Então eu acho que nunca saí de Natal. Nessa volta, depois de tanto tempo, eu vi que a cidade mudou muito, está mais metropolitana, as distâncias estão mais metropolitanas, mas esse aconchego das pessoas continua. Hoje, em Natal se produz a melhor poesia do Brasil, se alguns dos nossos poetas fossem publicados por grandes editoras, seriam reconhecidos em todo o País", diz com vigor uma resposta inquestionável para as "almas de rapina" que teimam em ignorar o valor dessa poesia e se perdem em polêmicas amarguradas nos jornais da cidade.
Morador da rua Felipe Camarão, ex-estudante do Marista e do Atheneu, a única disciplina que interessava a Dailor era Português. As outras disciplinas o poeta rejeitava e "matava" as aulas passando horas infindas na Confeitaria Atheneu. Ele e a sua timidez: "Os meus escritos foram resultados da minha própria timidez. Eu sempre fui um adolescente muito tímido, cercado por livros. Sanderson Negreiros, Berilo Wanderley e Newton Navarro foram para mim os primeiros versos. O livro do Sanderson, Fábula Fábula, foi um livro essencial para mim, para que eu escrevesse. Eu tenho uma profunda admiração pela poesia dessa geração, um pouco anterior à minha, que fez muito a minha cabeça", revela o poeta.
"Eu levo a poesia muito a sério. Talvez mais a sério do que o jornalismo. No jornalismo se usa muita máscara para se conseguir sobreviver. Na poesia, não. Eu sou o que eu sou. No Brasil há milhares de poetas. Mas ter um livro publicado não quer dizer nada. O poeta é outra essência, muito maior do que um livro publicado. Um amigo meu fala que um livro pode ser apenas um acidente tipográfico. Um livro publicado não quer dizer nada, pode ser uma simples vaidade. O Moacy Cirne, um velho dinossauro, companheiro meu de longas batalhas, fala que os meus livros de poesia são livros de um poeta, isso me estimulou muito a continuar escrevendo. Quando eu deixei a Editora Abril, todo mundo achou estranho eu não fui demitido, eu deixei por livre e espontânea vontade , mas aquilo estava me massacrando muito, eu vi que a minha essência estava muito longe daquilo. A minha primeira ex-mulher nunca entendeu isso, e foi um dos motivos da nossa separação: eu estar deixando uma brilhante carreira de jornalismo e estar indo para o interior. Hoje eu vivo poeticamente e pretendo cada vez mais me desligar desse jornalismo como emprego", diz corajosamente.
Pergunto ao poeta o que mudou de Babel, o primeiro livro publicado, a Delírico, a sua mais recente publicação: "Cada livro é um caminho. O que me alimenta é o cotidiano. Cada livro é uma trajetória, uma história. Nessa história, no auge do poema processo, eu tinha um certo preconceito com a palavra eu só fazia poemas visuais. Foi um radicalismo necessário naquele momento. Eu vi, depois que passou a "guerrilha", que, no fundo, eu sou um lírico. É até perigoso falar que você é lírico, porque o lirismo virou uma babaquice tão grande! Eu até concordo com João Cabral de Melo Neto que declarou numa entrevista que Fernando Pessoa fez um grande mal à poesia. Tem muito sub-fernando pessoa por aí...", afirma Dailor.
Peço-lhe para que fale um pouco sobre a sua experiência no Poema Processo: "Essa experiência começou em 1968. Foi uma conseqüência mesmo de 68, um ano em que o Brasil todo estava explodindo em movimentos culturais: o Cinema Novo, o Tropicalismo... E essa vanguarda chegou aqui através de um grupo que tinha o Anchieta Fernandes, o Alexis Gurgel... Foi uma experiência fantástica. Acho que nunca nenhum movimento cultural balançou tanto o coreto, as estruturas de Natal quanto o Poema Processo. Eu cheguei, na época, a ser chamado pelo secretário de Segurança Pública para explicar o que diabo era Poema Processo e por que iríamos queimar livros em praça pública. Sempre em qualquer movimento tem muito equívoco: espalhou-se que a gente iria "queimar" o Câmara Cascudo. Mas explicamos para as autoridades que não tinha nem sentido queimar Cascudo, o que estávamos contestando era a poesia clássica, e Cascudo nem era poeta. Sempre tive o maior respeito e admiração por Câmara Cascudo. Estou lendo, inclusive vim lendo no avião, um romance de Cascudo chamado Canto de Muro. A primeira pessoa que me falou sobre esse romance foi João Gualberto. Enrolando os seus cabelos encaracolados, ele me disse: Cara, você precisa ler Canto de Muro. Que coisa mais bonita e surrealista!. Estou lendo agora, anos depois, e Gualberto estava certo, é fantástico", conclui o poeta.
Despeço-me de Dailor Varela com a certeza de ter estado diante de um homem que pedala sonhos. Que aprendeu muito com épocas de dor.
(Marize Castro)
Opiniões de Dailor sobre o livro de poesias "Delírico":
O título do volume se refere a fusão das palavras: "lírico" e " delírio", algo que poderia definir o tom de seus poemas, se não fosse as outras qualidades que diz perseguir. Se dizendo um leitor de João Cabral de Melo Neto, ele acredita na concisão e no poder de "enxugamento" da palavra, algo que pode ser explicado pela influência que o poeta e jornalista recebeu nos anos 60 e 70, quando participou de correntes literárias voltadas para o estudo e criação da poesia visual. Já faz algum tempo, contudo, que ele deixou as imagens de lado e retornou ao verso escrito:
"Eu sempre fui muito ligado à palavra. Sempre tive a preocupação de burilar o que escrevo. Acho que os poemas visuais foram importantes para à época, mas hoje vejo as coisas de uma maneira diferente", afirma Dailor.
Lembrando os atributos que persegue em seu trabalho poético, comenta que diferente das outras modalidades de textos a poesia teria um compromisso com a linguagem: "Acho que a forma final de um poema deve ser o resultado final de um trabalho com a linguagem.", lembrando que a precisão e a concisão de um texto "enxuto" também pode ser encontrado na prosa, embora este formato não lhe agrade.
"Eu guardo poemas na cabeça por meses e depois eles vêm à tona."
"A crônica é um exercício, mas os contos e romances eu não gosto. Mas vejo, contudo, que cada um tem seu caminho. Nem ler romances, leio. A não ser que seja obrigatório, como é o caso dos clássicos."
"Da mesma maneira que Caetano Veloso não poderia ser Tropicalista a vida toda, as vertentes poéticas também não puderam ficar nos movimentos de vanguarda do passado."
"Eu tenho a preocupação de que a minha poesia seja lida, não escrever para mim mesmo.", diz Varela lembrando que alguns poetas são criticados por causa desse aparente "hermetismo".
Dailor busca uma espécie de "texto mínimo", a maioria das poesias têm apenas uma estrofe, de três ou quatro versos. A influência dos textos curtos com temas ligados à natureza a exemplo dos haicais podem ser vistos no poema
Manhã
Azuis de outono/ tingem manhãs da Mantiqueira/ onde pedalo sonhos.
A influência de correntes como a Poesia Concreta também se faz presente, onde os conectivos somem dando lugar apenas aos verbos, substantivos e, por ventura, adjetivos, como no poema
Fábrica
Crachá/ Abstração/ que identifica/ Concreta Solidão
Livros publicados:
Babel, 1974
Jaula aberta, 1979
Recados para Maíra, 1981
Bem-aventurados os bêbados, 1983
Máscaras de papel, 1987
A louça suja da convivência, 1989
Travessia, 1990
Escrevivências, 1992
Crônicas lobatenses, 1992
Cantilena diabólica, 1993
Do meu caderno amarelo, 1994
Delírico, 2001
A louça suja A louça suja da convivência não se lava na água das manhãs quando enxugamos o rosto despindo a máscara das angústias noturnas.
Atrás dos óculos escuros em lentes da solidão Meço a fraca memória dos nossos atos diários Expondo nossa vivência em densas cortinas de medo
Quero esquecer o tempo e deitar o cansaço dos meus músculos sobre teu corpo Exercício de sobrevivência Salto de um trapezista no circo doméstico.
(A louça suja da conveniência - 1984) |
Pesadelo O torturado cospe sangue nas estrelas da bandeira A língua do povo grita Constelação de pânico nas pracinhas da morte Cadáveres enterrados nas guerrilhas do Araguaia se fazem rios de dor A pátria chora crianças sem memória Ferrugem de baionetas rasgando o ventre materno (Escrevivências - 1992) No hospital Morrer é como esquecer o horário de verão à mesa. Perder os sentidos enquanto lá fora há um rosto de criança exposto ao sol. Um suicida pondo vírgulas no bilhete. (in Do meu caderno amarelo. Natal: Ed. Universitária UFRN, 1994.) |
João Gualberto Aguiar, escritor e poeta
Marize Castro entrevista o poeta
No alto do quarto andar do
edifício Jacumã, às margens da BR 101, mora o poeta. Fui
encontrá-lo numa manhã de muito calor. Há muito que eu não o
via. Ele ficou surpreso com o meu telefonema, "uma supresa
boa", disse-me o poeta. Certa vez, na década de 1980,
caminhando com o escritor Franklin Jorge à beira-mar, eu vi
Gualberto entrando no mar da Redinha - aquele homem forte,
grande, quase um deus, impressionou-me. Essa é uma das imagens
que me acompanham. Naquela época, João Gualberto ainda não
tinha os cabelos grisalhos, mas para mim ele já era um senhor -
um senhor poeta. Os seus versos já eram publicados e ressoavam
pelos quatro cantos da cidade. Quem estava iniciando na poesia,
tinha o compromisso de conhecê-lo. Ler João Gualberto foi
escola para muita gente. Conhecer João Gualberto, o poeta,
trovador, escritor, jornalista, é um desafio e uma necessidade.
Sempre tomando a sua Heinenken, o poeta me recebeu no seu apartamento. No lado de dentro da porta de entrada, um desenho coloridíssimo de Gualberto; desenhado sobre a parede da sala, "um Francisco de Assis", de autoria do amigo Assis Marinho. Nos únicos móveis da sala - uma mesa, algumas cadeiras, a mesinha do computador - vários papéis, livros, cadernos. Aqui, o caos dá a ordem.
João Gualberto, aos 54 anos de idade, permanece fazendo o que sempre fez a vida toda: escrever. No início da nossa conversa, perguntei-lhe quando a literatura, o ato de escrever bateu à sua porta. A resposta foi imediata: "Desde sempre, desde que eu me entendo por gente que eu sempre estou escrevendo alguma coisa. Quando eu era menino eu ficava sozinho, no oitão lá em casa, sonhando".
Filho do escritor e professor José Nazareno Moreira de Aguiar e sobrinho de um outro poeta, Reinaldo Aguiar, João Gualberto cresceu ouvindo o pai e o tio discursando, cantando e recitando durante as reuniões de família. "Eu adorava, sempre tinha seresta, sempre tinha declamação", conta o poeta com o seu vozeirão. Gualberto diz ainda ouvir o barulho da máquina de datilografia do pai. Nessa mesma máquina, da marca 'Torpedo', hoje completamente pintada e "decorada" pelo poeta com a ajuda do amigo pintor Fernando Gurgel, Gualberto escreveu vários versos, vários livros.
O poeta nasceu enlaçado - e não é metáfora. O cordão umbilical ao redor do pescoço, quase o matou, "será que é por isso que eu sou louco?", brinca Gualberto. O segundo filho dos onze filhos de Maria do Carmo Cunha de Aguiar - carinhosamente chamada de Nom - e José Nazareno, nasceu em Natal, em casa, a 5 de março de 1947, em plena Cidade Alta, na rua Voluntários da Pátria. O parto foi feita pela avó, Alzira Cunha, "foi ela que me salvou, cortando o cordão", diz, lembrando com muito carinho da avó .
Gualberto é um daqueles seres mísseis. Pode alcançar alturas e depois se estilhaçar na mais nobre ou na mais banal das quedas. Desde rapazinho que ele optou pelos bares. Aqui, salvação e perdição se confundem: "Ainda lembro do Bar Alabama e do Bar da Tripa, na Ribeira, eu tinha uns 15 ou 16 anos". O primeiro porre foi tomado na Copa do Mundo de Futebol, em 1958. O poeta diz ainda lembrar do gol de Pelé contra o País de Gales. Ele era um menino na época, mas já estava marcado, como marcado está todo ser que muda o trilho, recusa estações, conformidades, escolhendo a ruptura no lugar da tradição.
Aos 17 anos, cursando o clássico no Atheneu, atleta do time de basquete do América Futebol Clube, por influência da família, Gualberto faz concurso para o Banco do Brasil, e passa. Ao completar 18 anos, é convocado para trabalhar na agência de Mossoró. Torna-se o caçula do banco, mas o poeta não aguenta e dois anos depois está de volta a Natal. Uma decisão desaprovada pela família, porém o poeta se manteve firme. Decisão certeira. Quem conhece Gualberto, tem dificuldade de imaginá-lo dentro de um banco, trabalhando, com os pés "amarrados na terra".
Antes do Banco do Brasil, o poeta trabalhou no jornal A Ordem: "Foi de 1959 a 1960. Eu era o auxiliar de revisor de Paulo Firmino, falecido há pouco tempo. Eu lia os originais e Paulo Firmino lia as provas tipográficas. Foi a grande escola da minha vida, porque eu passava a tarde lendo. Era o tempo de Arlindo Freire, Nei Lopes de Sousa, Renira Mota, Jardelino Lucena..." , relembra Gualberto.
A década de 1970 foi a década de João Gualberto. Nessa década ele casou, teve o seu único filho, trabalhou em alguns jornais de Natal, foi assessor de imprensa e chefe de gabinete do BDRN, mas, orientado por sua intuição e inquietação, arrumou as malas, deixando para trás uma vida pequeno-burguesa, razoavelmente organizada, e atendeu ao chamado de um outro poeta, jornalista e amigo, Dailor Varela, que já estava na capital paulista, trabalhando no jornal Folha de São Paulo, "Era a primeira vez que eu andava de avião, quem viajou ao meu lado foi Odaíres, cheguei de porre em São Paulo, no aeroporto estavam Dailor e Talvane Guedes, que era um chefão da Editora Abril, num Mercedes branco, e continuamos a farra", narra o poeta. No dia seguinte, Gualberto já era funcionário da Folha, com direito a uma pauta em plena São Paulo, cidade completamente desconhecida para ele. Resultado: o talento do jornalista aflorou ainda mais e o seu texto saiu publicado e assinado, o que acontecia raramente naquele jornal.
Da Folha de São Paulo, Gualberto se transfere, ganhando o triplo do salário que recebia no jornal, para a Revista Escola, da Editora Abril. O redator-chefe era ninguém menos do que Dorian Jorge Freire: "Dorian me mandou falar com o diretor e fui aceito em seguida para ser editor de textos. Foi outra experiência fantástica." .
Com a vida financeira estabilizada, Gualberto leva a mulher e o filho para São Paulo, ambos haviam ficado em Natal, esperando dias melhores. Porém, depois de dois anos a insatisfação bate novamente à porta do poeta. Agora o desejo era ir para o Rio de Janeiro, trabalhar em O Jornal, com os amigos cariocas Tasso de Castro e Luís Carlos Maciel. Demite-se da Editora Abril e ruma para o Rio com a mulher e o filho. O Jornal abre falência e ele fica desempregado. O também poeta Nei Leandro de Castro, que já morava no Rio de Janeiro há alguns anos, consegue alguns "bicos" para o poeta, em algumas agências cariocas de publicidade: "Dessa forma eu ganhava uns trocados. Foi nessa época que eu escrevi Máquina de lavar poemas e mandei para o concurso Othoniel Meneses". Como era final de ano, a família resolve fechar o apartamento e vir para Natal para retornar em março, quando Gualberto faria um estágio para ingressar numa grande agência carioca, a Mauro Salles. Mas o destino havia reservado outros caminhos para o poeta: Eu fiquei na Redinha e foi lá, em janeiro de 1974, que eu soube eu havia recebido o prêmio Othoniel Meneses. Quem me deu a notícia foi Celso da Silveira. Daí Carlos Lima me chamou para eu trabalhar na revista Caderno do Rio Grande do Norte, e também fui convidado para trabalhar na Trinuna do Norte. Eu disse, então, para mim mesmo: 'sabe de uma coisa, eu vou ficar é por aqui mesmo', não vou voltar mais não". Sendo assim, a Mauro Salles nunca viu Gualberto.
Recebido o prêmio em dinheiro, sem direito a publicação, João Gualberto resolve se auto-publicar em mimeógrafo, sem ter a menor consciência do movimento da Poesia Mimeógrafo, por isso não se sente muito à vontade quando o incluem na Geração Mimeógrafo. Máquina de lavar poemas foi rodado em 1974, na Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Natal, onde Gualberto também trabalhava, chefiado por Celso da Silveira : "Sem a ajuda de Djalma, que rodava o mimemógrado, e a permisão de Celso, eu jamais teria rodado o livro. Passamos umas duas noites gravando estêncil. Era papel, papel ... De manhã, o pessoal chegando para o expediente e aquela papelada nos birôs ... Corri para a casa de papai, peguei o carro, pedi a chave da casa da Redinha, entupi o carro de papel e fui para a praia encadernar e grampear os exemplares ", relembra João Gualberto.
Mas ainda na década de 1970, já descasado, o poeta volta para São Paulo, desta vez com direito a uma parada em São José dos Campos, onde Dailor Varela estava morando e trabalhando no jornal Agora. Gualberto não vai mais para a capital, permanecendo em São José, também trabalhando no Agora: " Era um pique, um pique.. eu tomava 3 comprimidos de Reativan para segurar a onda, a gente dava furo na Folha, no Globo, no Estadão", orgulha-se o poeta. Porém, insatisfeito com o salário, volta para Natal no ano de 1978 e vai trabalhar no jornal A República, "Antonio Melo era o diretor e Talvane Guedes era o chefe de reportagem".
No final de 1978, após algumas atribulações em A República, o poeta já está em Brasília, também ao lado de Talvane Guedes, trabalhando no Correio Brasiliense. Até que a saudade de Natal aperta e ele novamente retorna: "Sempre que eu saía de Natal me batia um banzo", confessa.
Gualberto volta definitivamente em 1980. No entanto, a década de 1980, ao contrário da de 70, não dá muitas oportunidades ao poeta que só voltou a trabalhar em 1985, quando Marcos Formiga, que na época era prefeito de Natal, e com quem Gualberto já havia trabalhado, oferece-lhe um emprego na antiga Fenat. Ainda hoje o poeta é funcionário da prefeitura de Natal.
Pergunto-lhe se ele sente saudade, "Sim, de muita gente", responde. Pergunto-lhe sobre um poeta. Ele relembra Jaime dos Guimarães Wanderley na varanda da sua casa na Campos Sales - rua na qual Gualberto morou grande parte da sua vida - sempre escrevendo, escrevendo ... Sobre Natal, ele diz que não vive mais a cidade e reclama do barulho intenso dos carros na BR 101. Pergunto-lhe ainda sobre João Ernesto, o seu único filho, falecido no Rio de Janeiro, onde morava, aos 24 anos de idade, vítima da violência urbana. Ele abre o computador e mostra os poemas escritos por João: "Eu pedi a ele para ficar em Natal. Ele me disse que adorava Natal, adorava Ipanema, mas disse que estava partindo para o exterior. Eu não pensei que o exterior fosse tão longe!", diz, lembrando os últimos dias do filho que era músico e pretendia fazer carreira fora do País.
São inúmeros os livros escritos pelo poeta, aguardando publicação. Estão todos na memória de um velho computador - um presente da família para o poeta que ainda escrevia na velha 'Torpedo'.
Saio no final da manhã do apartamento do poeta, deixando-o com uma Heinenken em uma das mãos. O poeta celebra e pede aos céus: "Fazei de mim uma paixão infinda". Gualberto já é patrimônio da literatura potiguar e merece um olhar mais atento dos que incentivam as artes e a cultura do Rio Grande do Norte. Nesses sertões de légua e língua, Gualberto está naquele time: Jorge, Itajubá, Zila, Luís Carlos Guimarães... E quem há de negar?
(reportagem de Marize Castro, publicada no jornal TRIBUNA DO NORTE em 4 de novembro de 2001)
Livros publicados
Máquina de lavar poemas, 1976
Napalm, 1976
Teco-teleco-teco,: máquina de escrever, 1979
Exposição de motivos, 1981
Lendas e mitos, 1987
Nuvempoema, 1990
Na piscina azul do mar, 1992
De manhãzinha Às vezes, manhãzinha, vou chegando em casa, após uma noite de orgia Ouço das árvores a sinfonia o canto dos pássaros, gotejando Sinto não-sei-o-que, uma alegria uma espécie de paz vai me tomando pois os pardais e os bentevis, em bando são a eterna presença da poesia Em casa, dou alpista aos canários de coloridos gorteios, multivários e durmo, ouvindo-os, em sono profundo Eles dormem à noite, os passarinhos eu, boêmio, navego bares e vinhos para viver em paz com o meu mundo (Natal, 1985) |
O poeta está nu O poeta está nu, ente consciente em meu canto. A solidão dos oceanos quintais algum dia será resolvida por acordes de gestos humanos plurais e multiplicados por milhões de nós seremos de mãos dadas ao encontro de uma coisa prestes a nascer no universo da poesia, universo do ser. (nuvempoema, 1990) |
Marcelus Bob, artista plástico
Com incentivo da mãe, que morava com o
filho no morro de Mãe Luiza, e um dia, apontando para o Forte
dos Reis Magos e a vista da praia dos Artistas, lhe disse que
nunca perdesse aquela visão e sempre a registrasse, que Marcelus
Bob diz ter sido jogado na mundo da criação.
Hoje, cores bem definidas e pinceladas precisas fazem de Marcelus Bob um artista em constante evolução. Ao continuar trabalhando em séries criadas ao longo de sua carreira, ele demonstra amadurecimento artístico ao mesmo tempo em que define sua marca. Em 2001, ele iniciou nova série, Inverno no Forte, e prossegue com os Humanóides, os Repentistas, as Estradas e os Nus Femininos.
O Inverno no Forte foi inspirado nas torrenciais chuvas de 2000. De seu observatório, já morando na Redinha, o artista percebeu a beleza da nebulosidade que se formava e no céu cor de chumbo resultado das precipitações. "Pensei em apresentar o Forte da maneira mais simples possível. Qualquer pessoa percebe se tratar do Forte ao mesmo tempo em que o livrei daquela imagem aérea, tão explorada, seja em fotografia ou artes plásticas", explica.
A NOVIDADE está na série Inverno no Forte, mostrando a beleza do céu de chumbo
Os personagens não são estáticos,
interagem nos trabalhos do artista conforme o contexto. Os
Humanóides (criados em 1980, e que estamparam muros de Natal e
Mossoró) também participam das cenas vivenciadas por violeiros
repentistas, que estão com traços melhor definidos, e não são
representados apenas com contornos.
Os ambientes urbanos retratados são na sua maioria sórdidos, e foram inspirados do cotidiano vivido pelo artista, como os botecos do bairro de Mãe Luíza. De sua passagem por Redinha, onde reside há cinco anos, nasceram as sinuosas estradas, em que o azul do céu contrasta imensamente com a clareza das dunas. "Há uma tendência do artista em guardar na memória os fatos de sua vida", diz.
Os nus femininos são
trabalhos que exigem constantes explicações do artista. Segundo
ele, muitas pessoas o questionam sobre os contornos ousados para
o corpo da mulher. "Respondo sempre que eu faço artes
plásticas e não fotografia. Não dá para comparar",
responde.
Todos a produção 2001 foi trabalhada em óleo sobre tela. Ele está preparando uma leva de quadros em nanquim com tinta acrílica sobre papel canson. O artista também está em vias de reconstituir, na companhia do colega Marcelo Fernandes, os grafites da rua Chile e da lateral da biblioteca Central Zila Mamede, da UFRN.
Mais um fruto da série Humanóides, do artista plástico Marcelus Bob, ganha notoriedade
Nos anos 80, e início da década de 90, o
artista ficou conhecido por seus desenhos nos muros da cidade.
Talvez alguns ainda persistam por aí. Pois bem, Bob acaba de
faturar o primeiro lugar no IV Salão de Artes Plásticas da
Capitania das Artes.
(Trechos de entrevistas no jornal TRIBUNA DO NORTE)
Nei Leandro de Castro, poeta e escritor
Nei Leandro de Castro nasceu em Caicó, Rio
Grande do Norte, em 1940. Em 1968, passou a morar no Rio de
Janeiro. Colaborou para o "Pasquim", entre os anos de
1970 e 1974, com crônicas assinadas sob o pseudônimo de Neil de
Castro. Redator de propaganda, trabalhou em algumas das
principais agências de propaganda do Rio de Janeiro. Publicou os
seguintes livros de poesia: O pastor e a flauta, Voz geral,
Romance da cidade de Natal, Canto contra canto, Feira livre, Musa
de verão, Zona erógena, Era uma vez Eros, 50 sonetos de forno e
fogão (de parceria com Celso Japiassu) e Diário íntimo da
palavra. Publicou dois romances, O dia das moscas e As pelejas de
Ojuara, este último premiado pela União Brasileira de
Escritores e com os direitos de adaptação para o cinema
adquiridos pela produtora de Luiz Carlos Barreto.
Em 1996 foi premiado pela revista Playboy com o conto "Nossa semelhança com os deuses".
O seu último livro, As Dunas Vermelhas, mereceu crítica do escritor e teórico de histórias-em-quadrinhos Moacy Cirne:
Nei Leandro de Castro (...)
muito provavelmente é o maior escritor contemporâneo do Rio
Grande do Norte. (...). Nei Leandro, embora pouco conhecido no
Sul do país, é um nome modelar para se compreender a literatura
brasileira da segunda metade do século passado. Um nome que, em
pleno século XXI, continua produzindo com fulgor criativo.
Haja vista o seu mais novo romance: As dunas vermelhas [Natal: A.S. Editores, 2004, 232p.]. Sua escrita, carregada de modernidade, contém todos os elementos que fazem do seu texto um convite aberto à leitura prazerosa, seja pela tessitura romanesca, seja pela construção dos personagens, seja pelo humor envolvente em vários momentos, seja pela própria História que alimenta a narrativa. E não se trata de uma história qualquer. Afinal, a rebelião comunista de Natal, em novembro de 1935, faz parte da saga política natalense do século XX, com seus muitos erros (apesar do idealismo que a gerou), a começar por um fato sintomático: seus líderes mal conheciam as teorias do socialismo revolucionário.
E o que dizer da Natal da época? Com seus (aproximadamente) 36/38 mil habitantes, era uma cidade bastante provinciana. Mas o romance de Nei Leandro não se detém na História enquanto tal, mesmo quando essa mesma História é um elemento significativo para a compreensão de seus meandros romanceados. O livro do autor potiguar, em sendo marcado pela contextualização histórica, existe como um relato fluente, otimamente estruturado e muito bem articulado em suas funções romanescas, quase "cinematográficas" através de capítulos curtos que "animam" e "movimentam" a leitura. A ação se passa antes, durante e depois do já citado levante de Natal em 1935, com suas elevadas taxas conteudísticas de política e humor, política e romance, política e mentiraiadas. No melhor estilo de Nei Leandro.
São muitos os personagens
que formam a trama de As dunas vermelhas, alguns reais, outros
imaginários, outros pressentidos. São muitas as tensões
dramáticas que alimentam o livro, formando um mosaico narrativo
que, extrapolando o que seria um romance histórico, abre-se para
situações temáticas centradas em afetos, paixões, dúvidas,
questionamentos, traições. A rigor, na tessitura do enredo,
não há conclusões (ou, ao menos, não há conclusões
simples): o próprio destino de alguns personagens passa pela
imaginação do leitor. Decerto, muitos natalenses ligados à
geografia humana da cidade, poderão descobrir fatos, pessoas e
desdobramentos históricos que poderão enriquecer o imaginário
construído a partir do livro.
Mas a verdade é que um romance bem elaborado não se constrói
fácil, assim como não se constrói fácil a boa poesia. Exige
rigor, exige dedicação, exige disciplina. A propósito, as
palavras do romancista americano William Faulkner, em célebre
entrevista concedida em 1956 a Paris Review, cabem perfeitamente
aqui: "Um escritor precisa de três coisas, experiência,
observação e imaginação, sendo que duas dessas, às vezes
até mesmo uma, podem suprir a falta das outras". Se bem
que, no caso específico de As dunas vermelhas, pode-se dizer
que, além da disciplina, Nei Leandro trabalhou com três níveis
de elaboração: experiência, pesquisa e imaginação. Sim, a
pesquisa histórica terminou sendo da maior relevância para o
livro de Nei Leandro de Castro - um livro que já nasceu com as
marcas fundantes da grande Literatura.
Canção para minha mãe, no dia do seu aniversário Tua face são caminhos de mil noites por onde lágrimas desceram e formaram rios subterrâneos. Teu peito é rio afluente desses olhos que fecundam terras ressequidas de silêncio. As roupas encurtaram depois de usadas, mas vejo-me sempre pequenino, em ti. E os meus olhos - herdados de um sonho teu - são, em ver-te, da criança que fui. Poema para tua partida Se digo o teu nome, cem pássaros verdes, todos verdes, se perdem no espaço de solstício. Um pássaro disperso talvez pouse no oásis rubro de teus lábios e se alimente de beijos esquecidos. As águias das manhãs devoram tua presença que constrói ninhos em meus ombros, com fios de noites. Nas amplidões noturnas, os astros te inventam. Desces liqüefeita de espaços e inundas, num dilúvio, o pensamento. Há um pássaro, olhos de sal, plumagem de brumas, que cortando a distância do teu céu será minha solidão. Canções Montou em barco de infância feito de jornais de maio que anunciavam preto e branco o azul azul da manhã. Sonho e ânsia liqüefeitos, se foi por águas e brumas vestindo rubras sereias nos ombros enlarguecidos. Em seus cabelos salgados o sol aí fez um ninho em que a brisa ciúme e peixe atirava mil pedradas. Agosto, cheio de escamas, nasceu longe, em maralto. O mar-tanque da infância cresceu e enfureceu-se como espadarte suicida. Soprou forte o vento escuro e despedaçou-lhe o ninho nos cabelos sol e sal. Em seus ombros as sereias cantaram canções de náufragos. Dois peixes de vidro brincam de distantes caracóis nos olhos frios do morto. As meninas da 25 de Dezembro A maresia corroeu a inocência das meninas da Rua 25 de Dezembro. Penetrou por suas saias curtas e pobres, fez remoinho em seus sexos, subiu até a altura dos seios pequenos onde a alma e a delicadeza tentaram esboçar uma reação. Em vão. As meninas da Rua 25 de Dezembro, expostas ao odor e à fúria da maresia, expõem seus corpos em plantão permanente. Não querem piedade. Querem foda. Querem vinte, trinta dinheiros, em troca do corpo infantil que a maresia está corroendo até a morte prematura. Um amor em Natal Um amor que me lesse poemas quando meus olhos glaucomatosos exigissem minutos de silêncio. Um amor que me levasse às falésias de sol e lá de cima, tonto de anticrespúsculo, me pedisse carícias duras. Um amor que me escrevesse trinta e uma vezes e mais trinta toda vez que eu fugisse dos seus braços para cumprir a penitência dos malditos. Um amor que acompanhasse revoadas de santos sobre a fortaleza, sobre o Potengi, sobre o meu peito, a partir do santuário do seu sexo. |
O Potengi Esse rio é uma loucura, esse rio é um assombro, já fiz amor no seu leito, com água pelos meus ombros, tendo ao lado doze botos me fazendo companhia, rindo seus risos de boto sob o sol do meio-dia. Esse rio não existe, é ilusão, pura magia. Um dia levei num barco a paixão de Margarida, o Potengi ficou doido, lambeu a mulher querida e quase que ele me afoga em treze redemoinhos, cuspiu lodo nos meus olhos, fez ondas, fez burburinho. Esse rio é tão bonito que perdôo sua loucura. Afoga meu pôr-do-sol e corre à minha procura. Elegia para o poeta Luís Carlos Guimarães Todas as elegias são inúteis como uma lareira sob o vendaval, como um pacto de amor no sonho que se esvai, como uma dor que não eleva, apenas dói. Uma elegia, amigo, não devolve o essencial do teu olhar sobre as coisas líricas, o gesto que enlaçava a poesia como um abraço, o calor humano que emanava de ti e queimava qualquer possibilidade de desencontro, de desencanto, de desamor. A elegia que teima em surgir como uma convidada vestida em roupas soturnas não recompõe teus passos numa tarde de Natal, numa segunda-feira de bares fechados e amigos abertos ao teu lirismo congênito. Não, a elegia não traz de volta a tua voz saudando poetas e vinhos, elegendo poemas, tocando na última esquina os peitos dormidos de uma casada infiel. A elegia traz lembranças e as lembranças são belas mas doem como um soco, um espasmo que conduz ao infarto do miocárdio. As lembranças me conduzem, prisioneiro de mãos atadas, aos primeiros poemas, aos porres inaugurais, ao vinho bebido, quase pela última vez, numa calçada do Porto, junto à beleza melancólica dos poetas portugueses. A elegia não refaz a amizade, não responderá semanalmente as minhas cartas. Não atende telefone. Uma elegia, meu amigo Luís Carlos Guimarães, é uma forma de dor que não quero mais para mim. Melhor é me ferir no gume delicado dos teus versos. Encontro com Lorca no Granada Era um pedaço da Espanha na Avenida Rio Branco. Don Morquecho comandava a noite e seus saltimbancos. Dois conhaques apagavam a luz do comedimento do adolescente pobre que sonhava com poesia. Uma noite, quando a lua numa procissão de nardos trouxe Lorca até o bar, o adolescente gritou: - Estive contigo, Lorca, no fogo-fátuo da América. Tu procuravas garotos, eu sonhava com as lésbicas. Eu vinha da Professor Zuza e tu vinhas de Granada Ah, tu sorrias por tudo, e me abraçavas por nada. Ai, Lorca nos meus sentidos, ai, gitano enlouquecido. Um amor na zona da Ribeira Um amor de prostituta nos quatro cantos do quarto, é uma tragédia grega em decadente teatro. Segunda-feira, ela banha o sol e a lua com mel, na terça, oferece a bunda, trancelim, relógio, anel. Na quarta, sente ciúmes, maldiz a vida e a sorte. Na quinta, volta o ciúme agora muito mais forte. Na sexta, toma um pileque rasga a roupa, desgrenhada. No sábado, você foge, e não quer vê-la por nada. No domingo, ela se rasga com gilete enferrujada. |
Dunga, Eduardo Alexandre Garcia, pintor, desenhista e escritor
Do povo faz Galeria
Alexandre grande bardo
Com seu prenome Eduardo
de renomada mestria
das artes faz alegria
com o seu quadro no ar
onde posso pendurar
a mais fina abstração
com as tintas da emoção
na piscina azul do mar
João Gualberto Aguiar
Portais de Trevas e Luzes
Criador da Galeria do Povo, movimento de arte surgido na Praia dos Artistas (Natal), em 1977, e que durante mais de 10 anos se fez presente todos os finais de semana no local, Eduardo Alexandre já realizou mais de 500 exposições de rua, sendo esta a sua primeira exposição individual em espaço oficial.
Antes, realizou 2 individuais de pintura em espaços alternativos.
Com 28 anos de atividades no campo da pintura, desde o princípio, optou pela pintura abstrata. Foi presidente da Associação dos Artistas Plásticos do RN, diretor da Pinacoteca da Fundação José Augusto - FJA e administrador da extinta Casa do Produtor Cultural, também da FJA.
É também poeta, jornalista, e, em 2002, organizou a antologia Cantões, Cocadas, Grande Ponto Djalma Maranhão, que vem se consolidando como leitura obrigatória para os que querem conhecer a história da cidade do Natal.
No momento, Eduardo é um dos gestores do Projeto Câmara Cultural poeta Luís Carlos Guimarães, da Câmara Municipal, que se prepara para inaugurar espaço próprio para atividades artísticas, com palco, mural e tela para projeção de imagens.
A galeria do espaço cultural da Câmara será coberta, constituindo-se no primeiro espaço próprio de um legislativo, assemelhando-se à Galeria do Povo.
Eduardo Alexandre, como poeta, publicou os livros Batman & Robin, um poema concreto da abstração vivencial, em 1982, em parceria com Carlos Gurgel, e Clip One, editado pela Clima Edições, em 1992.
Lídia Quaresma, artista plástica
Lídia de Freitas Quaresma é casada, tem
três filhos, nasceu no dia 24 abril de 1963, no Rio de Janeiro.
Fez o primeiro curso de pintura em tecido aos 10 anos. Aos 14 anos fez curso de pintura em porcelana.
Aos 18 anos fez curso de desenho, aquarela e pastel pela Fundação José Augusto e aos 18 anos entrou na UFRN, para cursar Educação Artistica. Neste mesmo ano, fez sua primeira exposição de quadros.
Tem no currículo mais de dez exposições individuais e diversas coletivas.
Ministrou cursos no Solar Bela Vista e LBA.
Ministrou curso de Desenho e pintura durante 5 anos.
Atualmente se dedica à pintura em tecido para decoração, pintura em roupas, quadros, porcelanas e faianças.
Afonso Ligório Bezerra
nasceu no dia 9 de junho de 1907, em Carapebas, que depois de
elevada a município, recebeu o seu nome. Ele faleceu em Natal,
em 1930.
Escritor e jornalista dos mais promissores de nossa geração, morreu precocemente, não tendo tido tempo de realizar a obra que a sua inteligência prenunciava.
Tinha apenas 16 anos quando a revista "O Beija-Flôr", do Rio de Janeiro, publicou um conto de sua autoria - "O Orvalho". Foi a sua estréia na imprensa e nas letras.
Dentro em breve se tornaria um dos mais atuantes jornalistas potiguares. Colaborou nos jornais "A Imprensa"; "Diário de Natal", órgão da Diocese, "Letras Novas"; "A República"; na revista "Cigara", todas de Natal; "Jornal do Recife", "A Tribuna", "Ilustração", "Maria", "Gazeta Acadêmica", "Diário da Manhã", do Recife; "O Momento", "Pelo Brasil", "Vida Nova", "A Cruz" e "Excelsior", do Rio. No jornalista revelavam-se o crítico literário, o cronista, o historiador e, principalmente, o doutrinador católico.
Em 1928, o jovem Afonso Bezerra ingressou na Faculdade de Direito do Recife. Ano seguinte, matriculou-se como "aluno gratuito", na referida Faculdade, "por ter obtido as melhores aprovações nos exames do primeiro ano". Contraindo tuberculose, teve que regressar a Carapebas, de onde veio para Natal, na esperança de curar-se, e aqui viveu seus últimos dias.
Como escritor, deixou contos sertanejos, na linhagem de Afonso Arinos, alguns destes considerados peças antológicas. Sua obra foi enfeixada em livro, sob o título "Ensaios, Contos e Crônicas" (editora Pongetti, Rio, 1967) graças ao escritor Manoel Rodrigues de Melo.
(Manoel Onofre Júnior in 400 Nomes de Natal - Natal, 2000)
No Rancho dos Bentinhos
O comboio alcançara, já tarde, o rancho dos Bentinhos, uma velha quixabeira centenária que, implantada em sítio aprazível, à margem do caminho, dava abrigo, desde tempos velhos, a quanto matuto que por ali passava, rumo do sertão rio-grandense.
O sol posto, em toda a fisionomia da natureza, começavam a aparecer os primeiros sintomas de sua languidez noturna. Apenas para as bandas do ocidente se debuxavam parcamente os últimos visos de um crepúsculo fugace.
Chegado todo o comboio, os matutos foram descarregando as tropas com insofreguidão, despondo em pilhas as cangalhas e amontoando os costais, em volta do grosso tronco da árvore-estalagem.
Era uma partida de cereais que os freteiros do capitão Antero de Lima levavam de baixo para a serra de Luis Gomes.
Lavados e peados os animais, para irem babujando por ali mesmo até o sair da estrela, quando continuariam a viagem, o pessoal armou as tipóias e foi empalhando o tempo com conversas, enquanto tomava umas fervuras o cladeirão de ferro, recheado de feijão e carne de sol comprada na feira de Santana.
O velho Higino Barros, decano da tropa e lugar-tenente do patrão, comentava com outro camarada, enchendo o pito sarroso de bom fumo do Brejo:
- Tu reparaste Jerome na pacholice do cardãozinho?
Compadre Antero passou foi uma taboca danada naquele moço de Araruna. Um bicho novato desse em segunda muda, carregado a 10 arrobas e nem como coisa ...Pareceia um quartau serviçado.
E o outro acrescentava, prazenteiro:
- Seu capitão mesmo só tendo pauta com o demo p'ra negócio . Se foi na troca daquela burra melada de meu coice, em outubro do ano passado, na vila do Cuité, só faltou mesmo foi deixar o pobre da miçangueiro com os trens na cabeça.
E a prosa resvalava em assuntos diversos. Analisavam-se as dificuldades da viagem: uma carga rolada, uma atoleiro, um animal estropiado. O garbo de um cargueiro. As qualidades da patrão. E dizia-se:
- Ah! Aquilo é que é homem de sim, sim: não, não. Prometeu, tá prometido; também negou, negou mesmo. Nem afunegue mais.
E a coisa foi neste pé, até cair no terreno das próprias façanhas.
Foi logo o Jerônimo, mestição corpulente e de má fisionomia, metido a valentão, que começou o novo assunto:
- O caso acontecera, há coisa de dois anos e meio, na entrevéspera do Natal.
O narrador acendeu com um isqueiro, um cigarro de palha de milho e continuou:
- Eu viajava da cidade, já escuro de tudo, num bichinho alazão-tostado com um dinheiro do major Malaquias. Os senhores sabem que eu fiz muito mandado dele. Pois bem, no meio da estrada, naquele picadão esquisito, e, além disso, com quatro contos de réis alheios no bolso, quando olhei p'ra trás, lá vinha um freguês a pé, quase de choto, e com uma espingarda no ombro. Escostou-se a mim, regulou a marcha pela de meu animal, e continuou emparelhado, sem dizer uma palavra. Aí, já fui logo cismando, que sempre achei uma desfeita o sujeito passar por outro e não lhe dar as horas.
Mas, virei-me p'ra ele e disse com voz firme: Boa noite, amigo. Nada: foi mesmo que ter falado com uma pedra. Outra vez: amigo, boa noite. A mesma coisa. Não me tornou resposta. Quis me afobar, mas calculei comigo: espera lá meu diabo, que tu estás muito enganado. Nós anda juntos, daqui até o dia de são nunca, mas parte de fraco é que eu não hei de dar. E assim tocamos p'ra frente. Mas o alazãozinho não furava mais nada. Só marchava, como lá diz, à vara e a remo. Na barriga, não restava mais cabelo. Saíra todo nas rosetas das esporas de ferreiro.
- Os senhores conhecem bem aquele pereirão do fim da picada, perto da Esperança, não é?
Higino adiantou-se logo:
- Ora se ... Lá mesmo de uma feita por um nadinha não espatifei o quengo de um. O cabra quis me intimidar, mas não me faltou repente: sua vida é como a minha, meu duro, e, se quiser, vamos ver qual estraga mais: a ponta de sua faca ou a boca da minha pistola.
Jerônimo, já meio impaciente, retomou a narrativa:
- Bem, como ia dizendo, ali naquele pereiro, o cavalinho em tempo de botar o coração pela boca de estrisiado, resolvi ficar até demanhãzinha. E pensei: por certo este fantasma agora passa. Mas qual nada. Quando acabei de pear o peste do trangola, já o sujeito estava sentado e a meia-coronha encostada no tronco do pereiro.
Viram-me à mente não sei quantos pensamentos ruins. E maginei logo: por certo aquele sujeito viu quando eu recebi o dinheiro e quer me fazer uma traição fora de hora. Só decifando essa charada, mas é já. Fui e falei outra vez:
- Amigo, qual é a sua graça, que mal pergunto?
Nada. O infeliz nem olhou p'ra mim. Olhem, os senhores me acreditem que eu não fiquei em mim de raiva. Os bofes me incharam dentro e o sangue ferveu nas veias, que a falar franco, nunca fui arruaceiro, mas também, o suplicante não se meta a troçar de mim não, que sai roubado em dois tempos.
O narrador sugou as últimas baforadas do cigarro, jogou a ponta fora e prosseguiu:
- Aí eu levantei-me e saltei-me com ele, por aqui assim:
- O senhor é doido, não carrega língua ou que diabo tem, que não fala? A fazer pouco neste cabra aqui (bateu no peito com a destra espalmada) não se meta não que se molha. E se quer emendar os bigodes comigo é só correr dentro.
Ele não respondeu mas, desta vez, pegou a espingardinha e ganhou na estrada, olhando p'ra trás aqui e acolá, e quase de carreira. Eu, já meio receioso, cobri-o com o cano da garrucha p'ra tocar-lhe fogo, mas baixei a mão.
- Daibo leve o homem que mata outro pelas costas.
Após ligeira pausa, findou aliviado:
- E parece que foi Deus mesmo, que me ajudou. No outro dia, quando chegei à rua, foi que soube: o fregues era um mudo que dera por ali há uns oito dias.
Depois, aproveitando a impressão ambiente, ainda acrescentou vaidoso, de olhos fitos na arma, que pousava num dos meios-de-carga:
- Agora fosse eu, temendo a volta dele mais tarde, descarregar uma excomungada daquela num pobre, coitado, que nem falar podia.
Uma estrela-cadente, lacrimejando fogo, desenhou no espaço uma grande risca luminosa.
Os matutos disseram todos, a uma vez, com respeito religioso:
- Deus te salve, Deus te salve, Deus te salve ...
Era hora da refeição.
Caborés e mães-da-lua saltavam na calma da noite, as notas desafinadas do seu canto monótono.
Ao longe, tudo eram trevas. Apenas vagalumes diversos luze-luziam esparsos, nas baixadas próximas.
(publicado no Diário de Natal - Natal, 3 de junho de 1928)
Catarina Neverovsky, artista plástica
Nasci em São Paulo, onde me graduei em
Arquitetura e Urbanismo, e cursei a Escola Panamericana de Artes.
Participei de exposições coletivas em SP, e tive o cartaz
escolhido para a Exposição de 90 anos da migração russa para
o Brasil, no Museu da Imigração em 1996. Mudei para a cidade do
Natal, por pura paixão. Viemos passear em outubro de 1998 e em
dezembro do mesmo ano nos mudamos para Natal. Participei de
várias exposições coletivas, sendo premiada no 2° Salão de
Artes de Macau em 1999 e no 1° Salão de Artes Visuais da UFRN
em 2004 (prêmios aquisitivos). Participei no V e VII Salão da
Cidade do Natal, no I e II Salão da Marinha na cidade do Natal,
entre outras exposições coletivas. Realizei exposição
individual sob curadoria do Dr.Prof. Vicente Vitoriano, na
Galeria Convivàrt da UFRN em 2000. Iniciei minha pesquisa
artística com a tinta a óleo, passando depois para aquarela e
acrílica, por não causar problemas de saúde. Atualmente
ministro aulas em Atelier próprio A3 Arte, Acrílico e
Aquarela. Ambas as técnicas unem a paixão pela vida e pela
água, expressas sobre variados suportes, telas, papel, madeira.
Tenho sido convidada para ministrar cursos de Aquarela Avançada
em cursos de extensão da UFRN sob coordenação do Dr. Prof.
Vicente Vitoriano.Obras no acervo da UFRN, Capitania das Artes e
Iate Clube de Natal.
Combinando uma grande doçura com uma enorme energia ao mostrar grandes espaços, como em Canavial e em Queimada, mas uma extraordinária capacidade de enxergar e sentir beleza e força nos detalhes, como nas três peças sobre mãos (Cigarro de Palha, Mãos que trabalham e Mãos que rezam) mostradas com traços quase mágicos, Catarina Neverovsky é uma natalense nascida em São Paulo, que se apaixonou por Natal, que deve igualmente apaixonar-se pela sua obra, que precisa urgentemente conhecer. É ela, em companhia de alguns dos seus notáveis trabalhos, que apresentamos hoje.
(Geraldo Melo)
Paisagem aquarela |
Marinha aquarela |
Canavial aquarela |
Queimada aquarela |
Poita aqurela |
Laranjas aquarela e nanquim |
Mangue - aquarela |
Cigarro de palha aquarela |
Mãos que trabalham aquarela e nanquim |
Mãos que rezam aquarela e nanquim |
Ana Rique, artista plástica
Ana Maria Cerqueira
Rique, formada em Artes Plásticas pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte/UFRN, nasceu em Natal em 1958.
Atualmente é arte-educadora atuando em diversas escolas
particulares da capital. Além disso, trabalha com deficientes
mentais na Secretaria de Saúde da Prefeitura de Natal.
Opiniões sobre Ana Rique:
Talentosa desde sempre, Ana Rique tem desenvolvido um trabalho excepcional com o uso da aquarela e das tintas acrílicas, sempre tendo como princípio elementar as possibilidades de exploração das transparências que estes materiais permitem. Extremamente madura no seu ofício, esta artista se inventa e aos seus trabalhos a cada investida com os materiais. Atenta às dosagens água-tinta e ao tempo de secagem, ela se absorve em extrair o máximo de luminosidade, criando composições que também absorvem e envolvem os seus observadores. Isto se dá no momento em que surgem formas reconhecíveis, figuras de frutas, flores, peixes, e em que estas mesmas formas se imiscuem na variegada planimetria elaborada nos fundos.
(Vicente Vitoriano)
Em Ana Rique a consitência das superfícies alternam-se com a leveza quase líquida da sobreposição de tons tornando os quadros verdadeiras janelas abertas para horizontes às vezes próximos, às vezes inalcançáveis. Tangíveis e impalpáveis. A clareza do despertar. O início do sonho.
A definitiva inquietude nascida de uma nova contemplação.
(Franco Jasiello - membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Association des Critiques d'Art)
Vlademir Alexandre, fotógrafo
Vlademir Alexandre é
natural do Rio de Janeiro e, desde criança, gosta de trabalhar
com imagens. Inicialmente com o desenho, que o acompanhou pela
infância e adolescência, passando pelas artes plásticas onde
chegou a participar de exposições coletivas.
Mais do que uma forma de trabalho, a fotografia se tornou uma linguagem pessoal onde ele coloca seus sentimentos, idéias e mensagens sobre a vida e a sociedade em que vive. Isso o levou a trabalhar em jornais pequenos de Natal, chegando em 1997 à Tribuna do Norte, onde ficou por três anos.
Participou de mostras fotográficas coletivas e uma individual intitulada "A porta do céu a olho e nu", em Natal e Maceió. Trabalhou como free-lancer em campanhas publicitárias, fotos conceituais, projetos educacionais, ong's e várias publicações editoriais.
Diz que sua verdadeira escrita é a fotografia. "É através dela que nós fotógrafos demarcamos nosso espaço na sociedade, nesta linguagem universal capaz de comover ou encantar qualquer indivíduo no mundo em que vivemos."
Para ele, "entender a linguagem fotográfica como nova forma de comunicar é entender o mundo com uma expressão humana mais apurada para analisar os fatos, além de expressar uma idéia a partir do que vemos e como somos vistos na sociedade, entender os pontos de vista não só no sentido técnico de quem registra de forma profissional, mas de quem é capaz de entender a pluralidade do instante, se tornar um novo observador da vida e de seus pormenores, retirando da realidade o imaginário particular e o impacto possível no observador dessa fração da realidade universal, transformar a fotografia em uma ferramenta de intervenção na vida pessoal e da sociedade, abrindo os olhos para o movimento contido no estático fixando com clareza a importância do instante dos acontecimentos, possibilitando uma compreensão mais relevante da historia de vida, fazendo da luz símbolo moldável e signo imprescindível na evolução para um mundo melhor. Nos deixando o desafio de construir o verdadeiro entendimento técnico, plástico, criativo e crítico sobre a imagem e a fotografia".
Há dez anos participa da ZooN fotografia, ONG que atua utilizando imagens e fotografia como ferramenta de transformação social além de desenvolver trabalhos nas áreas da fotografia publicitária, editorial e documentação de eventos e fotografia conceitual.
Segundo Wanderley, poeta e dramaturgo
Manuel Segundo Wanderley,
"o primeiro do poetas potiguares" na opinião de Rocha
Pombo, foi também dramaturgo, atividade que aliou à de médico,
após formar-se pela Faculdade de Medicina da na turma de 1886.
(...) Na Bahia estreou como poeta com o livro Estrelas Cadentes
(1883), ao qual se seguiram outros volumes de poesia.
Em 1889 ele está de volta a Natal, já casado com a baiana Amália da Mota Bittencurt e exercendo sucessivamente as funções de lente de Filosofia, Francês, Física e Química e História Natural no Atheneu Norte-rio-grandense; inspetor da Saúde e do Porto, médico-adjunto e diretor do Hospital de Caridade, inspetor de higiêne. Foi eleito deputado estadual em 1906.
Em 1891 fundou com seu tio Augusto Carlos Wanderley o quinzenário "O Artista". Militou com bastante assiduidade na Imprensa diária de Natal, especialmente a católica, religião que abraçou com fervor, e que defendeu na polêmica que travou com o jornalista Galdino Lima.
Escreveu e fez representar as comédias Noiva em Leilão e A Pulga, e a revista local Natal em Camisa, musicado pelo professor espanhol José Barrajo. Sua peça Entre o Céu e a Terra foi dedicada à memória de Augusto Severo. Homenageou José Bonifácio, o visconde do Rio Branco, Silva Jardim, Tiradentes, padre João Maria, Miguelinho, Auta de Souza e Pedro Velho. Deixou inéditos os dramas: A louca da montanha, Os anjos do claustro, e as peças fantásticas A rainha do bosque e Dramas da seca. Escreveu o hino À virgem de maio, musicado pelo maestro Smido.
Manuel Rodrigues de Melo admite que a poesia de Segundo Wanderley está impregnada da influência de castro Alves, mas lembra que o poeta potiguar "influiu também de maneira decisiva sobre todos os poetas do seu tempo no Rio Granbde do Norte". Sobre as críticas que Câmara Cascudo fez em Alma Patrícia a Segundo Wanderley, com ênfase no seu condorismo démodée, observa Manuel Rodrigues que Cascudo refez esse juízo em obras posteriores.
Analisando sua obra, conclui Jaime dos G. Wanderley: "Não podemos classificar, com justiça, Segundo Wanderley, senão como sendo o 'príncipe da poesia potiguar', no passado, pois, classificá-lo de outro modo seria tentarmos escurecer a verdade".
Tarcísio Gurgel reacendeu o debate em torno de Segundo Wanderley (mas precisamente em torno de Antônio Marinho) com o estudo que publicou n'O Galo (dezembro/1999) em que se detém sobre a polêmica desencadeada por Antônio Marinho contra Segundo Wanderley e que rendeu, em sua opinião, "um escândalo na literatura potiguar".
(Nélson Patriota in 400 Nomes de Natal - Natal, 2000)
O Combate do Poeta Segundo Wanderley
Manoel Segundo Wanderley nasceu em Natal, em 6 de abril de 1860. Filho de Dr. Luiz Lins Wanderley e D. Francisca Carolina Lins Wanderley.
Estudou em Natal e em Recife e, em 1880, partiu para Salvador, onde se formou em Medicina, no ano de 1886. Nesse mesmo ano, ele se casou com Raimunda Amália da Motta Bittencourt.
Na concepção de Cláudio Augusto Pinto Galvão, "por influência de Castro Alves, abraçou o "condoreirismo", a terceira geração do romantismo brasileiro, sentiu a indicação dos caminhos da forma, que não eram outros, senão a forma e a temática do próprio estilo, tão populares ainda, àquele momento".
O livro "Poesias", de Segundo Wanderley, teve três edições, dias editadas em Fortaleza (1910 e 1928) e a última, pela tipografia Galhardo, em Natal, no ano de 1915. A primeira edição traz um estudo de Gotardo Neto que analisa os dois poetas, o baiano Castro Alves e o potiguar Segundo Wanderley, chegando a dizer que "no gênero patriótico, as duas individualidades se completam admiravelmente".
Segundo Wanderley foi
considerado o maior poeta do Rio Grande do Norte de sua época.
Não foi apenas um grande poeta. Exerceu ainda diversas
atividades: médico, foi também professor de Atheneu
Norte-Rio-Grandense e dramaturgo. Mas seu maior destaque foi, sem
dúvida, como poeta. Gotardo Neto, falando sobre a poesia de
Segundo Wanderley, afirmou: "Falar do espólio intelectual
de Segundo Wanderley é lançar uma vista sobre a poesia
legítima de minha terra".
"Ele dominou e comoveu tanto o coração patrício que, mesmo o eclipse da morte não ensombrou sequer a grandiosidade das suas conquistas".
"Elas perduram e
perdurarão, alacres e soberanas, como o espírito altaneiro do
poeta desaparecido".
Na época em que morou em Salvador, predominou na mente de
Segundo Wanderley a preocupação pelo destino do negro,
combatendo a escravidão. E é justamente esse aspecto que
Cláudio Augusto Pinto Galvão salienta em seu estudo, publicado
na revista "História UFRN". Em um dos versos citados,
Segundo Wanderley chega a dizer:
"Uma idéia - Abolição
Seu verbo - é mais que espada
Seu braço forte é a enxada
Do túmulo da escravidão".
Uma de suas poesias mais conhecidas entretanto, é provavelmente "O Naufrágio do Solimões", que começa assim:
"Tristeza! Funda tristeza
Nos enluta os corações;
Já nada resta das águias,
Dos bravos do Solimões
O mar, esse negro abismo,
Que não respeita o heroísmo,
Nem sabe o que seja o lar,
Rolando, sobre as glaucas entranhas
Para os heróis sepultar".
Romulo C. Wanderley cita suas peças teatrais: "Amar e Ciúme", 1901; "A Providência", 1904, "Brasileiros e portugueses", 1905. Escreveu ainda a fantasia "Entre o céu e a Terra", em homenagem à memória do aeronauta Augusto Severo.
Apesar do seu talento, Segundo Wanderley foi duramente criticado, sobretudo por causa da forte influência que recebeu do poeta baiano Castro Alves. Na defesa do poeta, argumenta Cláudio Galvão: "Muito se comentou no princípio do século, sobre a influência de Castro Alves na poesia de Segundo Wanderley, como se consistisse em demérito ao discípulo, guardar as marcas do mestre".
Cláudio Galvão destaca também um aspecto muito importante: "Segundo Wanderley foi o único poeta norte-rio-grandense a ter participação ativa no movimento abolicionista".
Segundo Wanderley morreu em Natal, no dia 14 de janeiro de 1909.
(Tribuna do Norte - Cadernos Especiais "A História do Rio Grande do Norte - Fascículo 7 - Escravismo e República - Escravismo e Abolicionismo)
Implacável Ao meu íntimo amigo Afonso Loiola Resbalo o raio rútilo rasgado Da imensidade a tela vaporosa: Treme a terra terrível, tenebrosa Ao rugir dos trovões, de quando em quando Volve a vaga valente vomitando Alvos caixões de espuma procelosa; Do firmamento a face fosforosa Vai de chamas as nuvens inundando. Nos sombrios sertões silva a serpente Aos furores fugindo das fagulhas Cede o cedro aos caprichos da corrente ... Só tu resiste da paixão nos mares, Desprezando, do trono em que te orgulhas, promessas, penas, prantos e pesares. |
Tragédia da Glória À memória de Augusto Severo Águia da Pax, de olímpicos sonhares, Da Colméia do Bem formosa abelha Foi ao berço da Luz ver a centelha Para sagrar o Anjo dos Palmares. Já do Porvir nos rútilos altares Da Pátria o vulto homérico se espelha, E dos Andes nas grimpas se ajoelha Saudando livre o domador dos Ares. Mas ao fitar-lhe o busto aureolado, De tamanha ousadia despeitado, Muda-lhe o Gênio da Fortuna o rosto; E o vencedor, vencido na conquista, para o solo natal volvendo a vista - Morre de pé no glorioso posto! |
Elóy de Souza, escritor
Elóy Castriciano de Souza foi jornalista,
político, lutou contra as secas. Nome de município no Rio
Grande do Norte, de rua no Alecrim e patrono da Faculdade de
Jornalismo da Fundação José Augusto.
Irmão dos poetas Auta de Souza e Henrique Castriciano, Elóy, filho primogênito do deputado provincial Elóy Castriciano de Souza e dona Henriqueta Leopoldina, firmou seu nome como uma referência do jornalismo político. A par disso, fez carreira na política, tendo ocupado os cargos de deputado federal e senador da República.
Seu encontro com Pedro Velho, ainda como estudante da Faculdade de Direito do Recife, onde cursava o bacharelado de Ciências Jurídicas e Sociais, foi o momento decisivo na sua vida. Ele exultou-o: "Liquide essa bacharelice que preciso de ti no Rio Grande do Norte." Atendendo a esse pedido, concluiu o bacharelado em 1894, e voltou para Macaíba, onde daria início à carreira política, associada à atividade jornalística. Nesse mesmo ano foi delegado de polícia de Macaíba no governo Ferreira Chaves.
Macaíba era, então, a capital política do Estado. Logo em 1895, era deputado estadual. Dois anos depois, aos 24 anos, era o deputado mais jovem do Brasil, na vaga de Amaro Cavalcanti, sendo chamado "este menino" por Alexandrino de Alencar. Faz parte do grupo denominado "Jardim da Infância", liderado por Afrânio Peixoto, que tinha como componentes os mais jovens deputados brasileiros, como Miguel Calmon e Euclides da Cunha.
Foi autor do projeto que regulamenta o Serviço Nacional dos Correios.
Apaixonado pelo Nordeste, Elóy dedicou-se, como parlamentar e jornalista, aos problemas da região.
Em 1906 pronuncia discurso na Câmara dos Deputados, em que diz a frase-epígrafe do livro Calvário das Secas, que publicaria em 1938: "Pior do que caminhar 40 anos no deserto é chegar à terra da promissão e ter saudades do deserto."
Em 1907 idealiza e redige o Regulamento da Inspetoria de Obras Contra as Secas, futuro DNOCS.
Em 1910 a conselho de Afrânio Peixoto visita o Egito para observar barragens e sistemas de irrigação. Em 1911, como deputado, apresenta projeto de amplo programa de obras de irrigação. Em 25 de dezembro de 1919 o presidente Epitácio Pessoa resucita esse seu projeto arquivado, e sanciona a Lei de Natal, criando um Fundo de Irrigação também denominado Caixa das Secas.
Defende o plantio do algodão, "ouro branco", em terras irrigadas, contrariando a febre da borracha, o "ouro negro". Da identificação com a problemática nordestina foi surgindo paulatinamente uma vasta obra, através de discursos e projetos parlamentares, e também de livros e artigos de jornais, sobretudo os textos produzidos sob o pseudônimo de Jacyntho Canella de Ferro. Estes, "páginas de um rigoroso regionalismo", no dizer do crítico pernambucano Joél Pontes, que o interpreta como uma forma de "registro do mundo amado", o sertão. Defendia a ecologia, em especial das dunas de Natal.
Em 1927 renunciou ao seu mandato de senador por motivos particulares.
Nesse mesmo ano foi eleito deputado federal deixando a Câmara quando esta foi dissolvida pela Revolução de 30. Regressou ao Senado em 1935, permanecendo até 1941. Como diretor d' "A Razão" foi preso pelo então chefe de polícia Café Filho assim como 17 membros da oposição ao Interventor Bertino Dutra da Silva, em julho de 1932.
Algumas proeminências como ele e José Augusto ficaram incomunicáveis. Depois de muitos dias foram deportados para Recife.
Elóy foi diretor da Caixa Econômica Federal, membro da ANI, um dos fundadores da Associação Brasileira de Escoteiros do Rio Grande do Norte, com Henrique Castriciano. Foi ainda, diretor da Imprensa oficial de 1937 a 1941, sendo aposentado como diretor efetivo da Imprensa Oficial. Em 1963, no governo Aluízio Alves tornou-se patrono da faculdade de Jornalismo da Fundação José Augusto, que seria incorporada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte 10 anos depois. Autodefinição nas suas memórias: "Apesar de um mero jornalista de província, e talvez por isto mesmo, eu tinha um grande respeito à liberdade de imprensa e sempre defendi com ardor essa prerrogativa constitucional".
Clarice Palma, poeta
Clarice da Silva Pereira Palma, é norte-rio-grandense, de Natal. Filha do ex-ator teatral e poeta, Francisco Palma e de Júlia Teixeira da Silva Palma. Orgulhava-se por ter herdado do seu genitor todo o temperamento artístico. Como atriz-poetisa, dedicou a maior parte de sua vida à Arte Cênica, o que lhe valeu, o maior aplauso e forte entusiasmo da platéia natalense, na interpretação de Dona Xepa, personagem-título da peça de Pedro Bloch.
Em julho de 1981, recebeu, de seus fãs e amigos, a grande homenagem representada pela aposição de uma placa de bronze, alusiva ao seu trabalho, numa das paredes do principal teatro de sua terra, o Alberto Maranhão. Delegada, no Rio Grande do Norte, do Movimento Poético Nacional, entidade cultural que tem sede em São Paulo e cuja presidência a proclamou como Embaixatriz do Nordeste Poético, tendo sido o respectivo diploma entregue pessoalmente, por uma comissão do M.P.N, na própria cidade de Natal, para onde se deslocou, especialmente para essa solenidade. Possui diversos troféus e pertenceu a diversas Academias de Cultura do Brasil e fora dele. Possui uma bagagem literária de oito livros de poesias, já publicados, e três peças teatrais, inéditas. Tem grau universitário e 1º lugar em Concurso Técnico Judiciário e de Interpretação. Radialista, jogou ao ar programas de grande aceitação e merecedores dos maiores elogios. Como jornalista escreveu, com assiduidade, nos jornais e revistas de sua terra natal. Nasceu a 12 de abril de 1911, aos 73 anos, desafiava a mocidade por seu temperamento jovial, sua energia, sua espantosa memória e seu físico! Dedicando-se também a música, tocou piano, bandolim e violão e seu maior gosto; viajar, conheceu o Brasil quase todo e uma pequena parte do Exterior. Entre os muitos diplomas, os que mais lhe agradaram foram: o de Embaixatriz do Nordeste Poético e o de Elogio, da Academia Internacional de Letras 3 Fronteiras (RS).
(Texto publicado no site do Jornal da Poesia, enviado por Walter Cid)
Clarice (...) fundou o Clube dos Sete, conjunto teatral que encenou peças de autores nacionais e estrangeiros, sob sua direção.Na sua condição de animadora cultural, Clarice pertencia a diversas entidades artísticas da cidade, entre as quais o Clube de Poesia de Natal, a Academia de Compositores do Rio Grande do Norte, a Ordem dos Músicos do Brasil e a Federação Norte-rio-grandense de Autores teatrais.
(Deífilo Gurgel in 400 Nomes de Natal, Natal 2000)
Cismas É pecado este amor que eu sinto com ternura E que, pleno de luz, do teu olhar me veio? É pecado de amor, que cheio de doçura, Foi Deus que fez nascer, imenso, no seio? É pecado este amor, que a minha vida escura Encheu de tanto sol, de tanto sonho e anseio Envolvendo a minh'alma em chamas de loucuras, No desejo de tudo que em teus olhos leio? É pecado este amor? E que importa que o seja? Se o mundo enganador que assim nos apedreja, Pudesse imaginá-lo tão sublime e nobre, Embora disfarçado, em palavras de ofensa, Eu sei que invejaria esta ventura imensa, Que ele próprio condena e o preconceito encobre! Minha cidade-luz Já vem chegando o Natal - nascimento de Jesus - e Natal, Cidade-Luz, é o Presépio Iluminado, sob um céu todo azulado, junto ao mar sereno e lindo, como um lençol verde e infindo, ornado de brancas rendas, feitas de brancas espumas! E quantas bonitas lendas dão à Natal mais poesia... retalhos de fantasia, das vestes de uma Praieira, esperando, a tarde inteira, a volta do seu amor, esse humilde pescador, que lhe deixou com saudade, partindo pra imensidade do mar profundo e bravio, no seu querido batel... Praieira de Othoniel! Natal de brisa suave e alvos morros de areia! Natal, minha terra cheia de forte calor humano, onde o sol, durante o ano, doura a terra e doura o mar! Natal, meu berço querido, sempre alegre e hospitaleiro, onde o maior Cajueiro, que existe no Mundo todo, encanta e abriga turistas! Natal - meu álbum de vistas mais lindas e naturais! Natal, Cidade-Esperança, que eu amo, cada vez mais! Eu, em rimas, para o meu amor
Tudo o que sou, em rimas vou jogando pela folhagem verde do meu chão; por esta estrada em que vou caminhando, coberta, sempre, pela inspiração!
E a caminhar, assim, feliz, sonhando, numa só rima eu me transformo, então; rima que rima com o seu nome brando... rima ditada pelo coração!
Rima que é doce, como o nosso anseio; que se aninhou, de manso, no meu seio e que, comigo, dorme no meu leito!
E essa rima, pura e tão rimada, é o meu segredo, que me traz calada, sem comentários, pelo preconceito! |
Eu, folia
Começa o Carnaval, neste sábado manso e a foliã que fui, como recordo ainda! E aquelas fantasias, que jamais me canso de recordar, sorrindo... quanta coisa linda!
E em minha Irmã-Madrinha, que o perfil alcanço pela forte lembrança, havia a ânsia vinda de me ver a dançar o sonho que inda danço, nos carnavais da vida, que pra mim não finda!
Era ela que, assim, num maternal carinho, costurava, até tarde, os enfeites de arminho, nas ricas fantasias que pra mim comprava. E, então, de clube em clube, a dançar, delirando, eu fui a foliã, que só se foi parando quando morreu meu pai, que tanto me animava! Eu, velha É difícil se ver uma velha contente, Sempre a rir e a brincar... e piadas contando, desta vida a sentir o lado bom, somente, sendo, assim, tão feliz, a tristeza afastando!
E sobre mim é isto que, de toda gente, eu vivo a escutar, neste Mundo e, vibrando, muito mais eu me sinto, pois é, realmente, assim, sempre a sorrir, que a vida vou levando!
Velha eu sou, só por fora... mas, a mocidade cá por dentro inda existe, com imensidade, e é por isto que os pontos entregar não pude!
Então, me adaptando, acho tudo um barato! E o modo de curtir, dos moços, eu acato e sou bem mais feliz, juntinho à juventude!
Eu tenho tudo Eu quero luz e tenho luz nos olhos! Eu quero paz e tenho paz na alma! Eu quero amor, sem ondas, nem escolhos, e deste amor eu tenho um mar de calma! Quero ter sonhos e, em altos molhos, sinto-os em mim; e o meu ser se espalma sobre o calor que deles, qual refolhos, então, me envolve em esperançosa palma! Quero viver num mundo de certeza e esse mundo eu tenho, na firmeza do cuidadoso amor de minha filha! Quero ter tudo... e tudo, tudo, eu tenho! Por isto, sempre a rir, assim, eu venho, sob o dulçor da vida, que rebrilha! |
Gothardo Netto, poeta
José Gothardo Emerenciano Netto nasceu em
Natal, no dia 24 de julho de 1881 e morreu na mesma cidade, em 7
de maio de 1911.
Como Itajubá, de quem era íntimo amigo, é autor de apenas um livro, também póstumo, que foi lançado em 1913, com o título de Folhas Mortas. Também jornalista, Gothardo, identicamente ao amigo, tornou-se reconhecido por sua capacidade de fazer versos, mesmo de improviso, quando das noitadas dos pastoris. Embora esmerado nos sonetos, já apontando para uma postura parnasiana, verseja e morre como autêntico romântico, bebendo sem controle, por um amor não correspondido.
(Tarcísio Gurgel in Informação da Literatura Potiguar, Natal 2001)
Apesar de ter vivido apenas 30 anos e de não ter podido completar os seus estudos, Gothardo, pelo valor de sua inspiração, situa-se, como Ferreira Itajubá, entre os grandes poetas norte-rio-grandenses do início do século passado, participando de nossas principais antologias desde Ezequiel Wanderley em 1922 até Assis Brasil, em 1999.
Filho do professor Zuza (José Ildefonso Emerenciano), que mantinha uma escola particular e dava aulas em sua residência, Gothardo Neto viveu em companhia do pai toda sua vida. As dificuldades materiais cedo obrigaram-no a suspender os estudos e entrar na vida prática, empregando-se na Capitania dos Portos, na Ribeira, e trabalhando também na redação da "Gazeta do Comércio". Pertenceu à Oficina Literária "Lourival Açucena", que publicava o jornal "O Potiguar".
Um amor impossível pela jovem Maria das Mercedes levou-o a perder o primeiro emprego; o empastelamento do jornal, o segundo. Sem amor e sem emprego, bebendo descontroladamente, viveu os últimos anos de vida na casa do pai, isolado do mundo, contatando apenas com uns poucos amigos, dentre os quais, Jorge Fernandes, Ferreira Itajubá, Ponciano Barbosa e Francisco Ivo. Foi homenageado como patrono da cadeira número 24 da Academia Norte-rio-grandense de Letras, cujo primeiro ocupante foi Francisco Ivo.
(Deífilo Gurgel e Nélson Patriota in 400 Nomes de Natal, Natal 2000)
Página Azul II Vejo-a agora passar ... Volta do banho, Volta, que ainda as pérolas mimosas Descem das ondas puras e formosas Do cabelo aromático e castanho. Na carne em flor, de um colorido estranho, Tem vivas seduções pecaminosas ... - As antigas belezas fabulosas Jamais brilharam em fulgor tamanho. Todos dirão: - que mágicos olhares Tem essa virgem lânguida e franzina, Essa flor das morenas potiguares! E passa ... e passa com gentil verdade, No doce encanto da mulher divina, No divino esplendor da Mocidade. |
Minha Campa Quero-a entre moitas de rosais. Ao fundo, Trista cruzeiro humilde e suplicante, Onde venha pousar o mocho errante Cantando, à noite, a dor do moribundo. E ao pé da lousa, com um ai profundo, A luz crepuscular do céu distante, Deixem cair o orvalho fecundante Dos olhos virgens que adorei no mundo. Seja um soturno e calmo isolamento Onde, por noites longas de amargura, Soluce a treva ao palpitar do vento ... Junto - o cipreste um funeral cantando, na lousa - o nome da saudade escura E um serafim de mármore chorando. |
Carito e Edu Gomez, poetas elétricos
Poesia Sonora ou Música
Experimental de ares rockers?
Parceiros (de 1988 a 1997) na extinta e saudosa banda potiguar Modus Vivendi, Carito e Edu Gomez criaram em 1995 o projeto paralelo Poemas Eletri- Ficados & Outros Que Foram Embora.
Fizeram algumas apresentações, e em 1997 gravaram a célula-mater do projeto. No final de 2003 a dupla reativou o projeto e entrou em estúdio no início de 2004, reprocessando as gravações antigas, criando faixas novas, assumindo o nome OS POETAS ELÉTRICOS e colocando como título do álbum o nome original do projeto: Poemas Eletri- Ficados & Outros Que Foram Embora.
Assim, liquidificando música e poesia, Carito ficou a cargo dos textos/letras e voz principal, enquanto Edu comanda todos os instrumentos (com raras exceções) e efeitos. As influências da dupla se concentram principalmente no universo do rock, mas nas 18 faixas deste CD, se deixaram levar por algumas sonoridades e atmosferas particulares. De forma direta ou indireta, Edu Gomez assume inspirações de Ry Cooder, King Crimson, Bjork, Lou Reed, Durutti Column, Phillip Glass, Kronus Quartet, Massive Attack, David Bowie... Já Carito cita entre suas inspirações poético-musicais Walter Franco, Arnaldo Baptista, Arnaldo Antunes, Paulo Leminski, Chacal, Jorge Mautner, Arrigo Barnabé, Itamar Assumção, Tom Zé ...
O encarte é um caso à parte ... um livreto de 20 páginas onde a cada faixa presente no disco é dedicada uma página com flertes de poesia visual.
O trabalho foi finalizado no Estúdio Megafone (Natal-RN), em junho de 2004, com mixagem e masterização de Eduardo Pinheiro, sob a direção de Edu Gomez. A produção musical foi realizada pelos próprios Poetas Elétricos. Como faixas influenciadas mais diretamente pela música propriamente dita se pode citar Ofício, Cínico Clínico, Gina e E outros que foram embora, enquanto que associadas ao conceito de Poesia Sonora Palavreando, As Viagens de Halu Sinação, Assim e Bumerangue...
Conheça o site dos Poetas Elétricos.
Sobre o CD Poemas Eletri- ficados & Outros Que Foram Embora
"Esse não é um disco de poesia. Nem um livro de músicas. É um livro reencadernado e reencarnado em CD. Tem um pouco de Floyd e acenos de Fluidos. Os lugares-comuns vão comparar com Arnaldo Antunes, mas, no fim, tá mais, nos inícios, pro Vinícius. De Morais. De Moreira. Menos Talking. Mais Heads. Errantes. Psicolisérgicas..."
Mário Ivo / Sanatório da Imprensa / www.sanatoriodaimprensa.com.br.
Eles são loucos pelo que fazem, não estão nem aí para preconceitos e, à primeira audição, podem provocar estranhas reações, indo do amor ao ódio em menos de um frame. O rótulo também não importa, se é poesia sonora, declamada ou música experimental, os Poetas Elétricos preferem não fechar com nenhuma dessas embalagens, nem sabem dizer qual delas é que melhor se encaixa com a proposta do projeto.
Yuno Silva / Jornal "Tribuna do Norte" / Natal-RN
"Convencional é vocábulo advindo do latim conventionale. Equivale a algo proveniente de ajuste, de prévia combinação ou determinação. Convenção, código, regra, padrão limite...são expressôes antitéticas ou antinômicas do material acondicionado no CD Poemas Eletri- ficados & Outros Que Foram Embora, da dupla Os Poetas Elétricos.(...) é o resumo do encontro entre a palavra ora impulsiva e surreal ora intuitiva e cerebral, mas sempre irreverente e criativa de Carito e os experimentos sonoros que viajam por todos os gêneros desde que o rock seja o horizonte do guitarrista Edu Gomez, legado ao público de todas as tendências..."
Jorge Galvão / Jornal "O Poti" / Natal-RN
música e poema amalgamados; liga fervente. (...) Os textos têm passagens memoráveis (Só me interessam os inícios/E os Vinícius de Moraes/Nada mais). De inspiração definitiva (Quando eu sair desse mundo/Onde eu sou poema vivo/Na próxima reencadernação/Na outra vida do livro/Vou cair em soneto profundo/Quando eu sair desse mundo). De idéias e concretudes como em Assim e Bumerangue.
Isaac Ribeiro / Jornal "Tribuna do Norte" / Natal-RN
"Poesia plugada e amplificada (...) Liberdade, diversidade, espontaneidade e experimentalismo poético-musical marcam esse primeiro trabalho dos Poetas Elétricos (...) A dupla não se apegou a um estilo definido, mas é sentida toda uma atitude rock em um jogo de palavras faladas dialogando com a trilha sonora que faz a ambiência "popsicodélica"
Marcílio Amorim / Jornal "O Jornal de Hoje" / Natal-RN
"Caldeirão oscilante de música e palavra onde entram em diferentes doses, rock'n'roll, concretismo, psicodelia, teorias semióticas, batidas eletrônicas, riffs de guitarra e um texto construído em cima do trocadilho, da ambigüidade, do jogo sonoro e da ironia."
Márcio Simões / Revista "Badalo" / Natal-RN
"Uma nova poesia em acordes eletrificados. (...) As faixas são relativamente rápidas, com muitos detalhes, nuances e atmosferas distintas. Ao mesmo tempo, estão ligadas por um clima lúdico que caracteriza todo o disco."
Da Redação / Jornal "Diário de Natal" / Natal-RN
Clique sobre o nome e ouça, em MP3, trechos das principais faixas do CD:
Alexis Gurgel, jornalista e poeta/processo
O jornalista e poeta
processo, Alexis Fernandes Gurgel nasceu em Caraúbas em 17 de
janeiro de 1945. Atuou nos jornais Correio do Povo, Tribuna
do Norte e O Poti, onde se destacou como repórter e
chefe de reportagem e posteriormente, chefe de reportagem da
sucursal do Diário de Natal, em Mossoró.
Fez parte no movimento do Poema Processo em 1967 e fez um trabalho com o objeto/processo chamado Flash Mark, que constituía numa tábua, contendo colagens, além de pregos e martelos, e que permitiam ao consumidor do poema escolher a imagem a executar dentro de um verdadeiro mosaico de alternativas: havia fotos do presidente americano Richard Nixon, de militares em passeatas, de pessoas lutando na guerra do Vietnã, etc... Executando a imagem, batendo o martelo sobre o prego, o consumidor repudiava a situação de violência signo capitalista fotografado, explica o crítico literário Anchieta Fernandes.
Em março de 1977 Alexis Gurgel participou como palestrante do III Seminário de Atualização Pedagógica, desenvolvendo o tema: Comunicação e Educação. O evento foi promovido pelo jornal Diário de Natal, em Mossoró.
Alexis foi sepultado no dia 27 de abril de 1979 no Cemitério Parque de Nova Descoberta. Alexis tinha um incrível talento de repórter, sempre com o olho voltado para o novo que era talvez o seu traço impressionante, escreveu o Jornalista Vicente Serejo na coluna Ponto de Vista.
Obra: Cultura de Massa em Processo (1986 Edição póstuma)
Teses Alexis Gurgel:
A informação é uma necessidade provocada pela cultura de massa
Já não existem mais dúvidas de que o aumento sucessivo dos meios de produção em massa, do aperfeiçoamento dos veículos de comunicação, o progresso da ciência enfim, o desenvolvimento rápido e constante da tecnologia exigem (ou vem exigindo) um aprimoramento do homem, maiores conhecimentos, uma informação adequada, especialização.
Considerado teórico e profeta dos anos 60, o filósofo das comunicações, Marshall McLuhan, escreveu que atualmente vivemos numa "aldeia universal", onde o homem pode viver bem informado em qualquer parte do mundo. E esta observação traz consigo um complemento: cursos especializados sobre diversos problemas surgidos recentemente, além de colocar como ciência certas disciplinas que eram consideradas até pouco tempo como "matérias complementares".
A aldeia
Qualquer pequena capital é mais uma "aldeia" que faz parte do tribalismo universal. Nela o homem pode estar tão bem informado como o novaiorquino, o londrino ou o paulista. O último seqüestro em qualquer parte do mundo é divulgado momentos depois de ocorrido. O que fazem atualmente as principais celebridades, também se sabe. O homem encontra-se informado sobre a política internacional e, enfim, sobre todos os detalhes importantes.
E o complemento da simples informação também se faz presente. Atualmente muitas cidades mesmo no Brasil já dispõem de cursos específicos para cada ciência, que aperfeiçoam a informação. Tudo contribuindo para uma melhor e precisa informação, agora científica e profissional.
Com o advento da nova técnica e as mutações-transformações sempre constantes do mundo de hoje tomou-se necessário ao homem uma informação adequada, bem adequada. Este homem tem de saber cada vez mais, especializar-se. Como conseqüência desta nova necessidade surgiram os estágios, as pós-graduações intensivas e cursos especializados.
A necessidade da informação
Ainda Marshall McLuhan é quem afirma que as cidades de hoje passaram a ser simplesmente um espectro para turistas, e que elas (as cidades) perderam aquela qualidade de centros informacionais, onde todo homem que quisesse adquirir conhecimentos e cultura deveria convergir para elas. Assim a única importância que as cidades grandes, ou metrópoles, podem oferecer é de atração turística, muito embora se reconheça que nelas a informação é mais rápida, chega primeiro, mesmo porque os veículos de comunicação são mais numerosos e melhores.
Enquanto isso, qualquer provinciano, sem nunca ter saído de sua cidade, vive bem informado. Esta informação constitui-se numa necessidade, nos dias atuais. O homem precisa saber do que acontece na aldeia universal, pois somente estando informado adequadamente integra-se na sociedade em que vive, da cibernética, do biorritmo, dos transplantes e da proveta, reconhecendo, todavia, o paradoxo do sub-desenvolvimento e das guerras.
Informação nova
O homem tem necessidade da informação. E esta necessidade caracteriza-se, principalmente, na ânsia de uma informação sempre nova. E não se diga que o homem não procura a nova informação. Sobre isso o livro de Marshall McLuhan Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem, contrariando os prognósticos do seu próprio editor, tornou-se best-seller, mesmo considerado um livro difícil, por conter 75% de informação nova.
Na nova sociedade super-industrializada e desenvolvida, o problema já está demasiadamente elástico, ao ponto de ter quem afirme que o melhor especialista será aquele que conhecer mais informação fora do seu campo de trabalho. Assim, como disse o critico e escritor Décio Pignatari, "a sociedade humana (a Ocidental especialmente) teve de esperar pela eletricidade e pela televisão para poder dar inicio a um lento processo de retribalização e integração social, onde todos possam exercer "papéis" e não ofícios e empregos especializados tão somente. Estamos, pois, assistindo ao fim da era das especializações mecânicas, fragmentadas, de velho estilo (fruto da indústria mecânica do século passado), e vamos entrando na era cm que o melhor especialista é aquele que mais coisas conhece fora do campo de sua própria especialização conseqüência da indústria eletrônica de nosso século".
Arte como anti-ambiente
Décio Pignatari é um dos críticos brasileiros que mais conhece de perto o problema da cultura de massa. Tradutor de Marshall McLuhan; ele escreveu vários artigos que colocam a arte como resposta ao stress que a cultura de massa provoca nas pessoas de todo o mundo. E é dele esta constatação: Os média em sucessão e em atrito cria um ambiente irritante, quase abrasivo especialmente agora, quando sentido que o implosivo, o integrado e o sintético se chocam com o explosivo, o fragmentado e o analítico. Para neutralizar a pressão do ambiente, que produz o "stress" e a irritação urge um antídoto, um contra-irritante. A arte pode ser esse contra-irritante, esse anti-ambiente, pois ela previne e prepara a sensibilidade para as mudanças e os efeitos causados pelos novos meios de comunicação, extraindo deles os meios com que criticá-los e compreendê-los, ou seja, os meios com que criticar e salientar os desmandos provocados pelas novas tecnologias, amaciando os seus efeitos de hipnose e alienação. Em relação à tecnologia, a arte exerceria uma função de metalinguagem, uma função de consciência critica. "Os artistas são as antenas da raça", já dizia Pound.
As verificações de Décio podem bem indicar o antídoto contra a irritação e o stress, provocados pelo atrito da cultura de massa. Aqui mesmo no Nordeste este contra-irritante esta resposta, vem sendo empregada há alguns anos. Os movimentos culturais e os happenings deram a partida, desde o final da década passada, notadamente com a equipe do poema-processo, que pode ser considerada como criadora de anti-ambiente.
E é isso que vem fazendo com que a cultura de massa continue uma cultura em processo. Estamos na Era da Instantaneidade, que é a era da eletricidade e da eletrônica, da recuperação e integração da sensibilidade, e, quem sabe, da Consciência Universal.
José Bezerra Gomes, poeta e ficcionista
"Seu
Gomes", como era conhecido José Bezerra Gomes, entre os
companheiros de vida literária, descendia de tradicional
família seridoense, os Bezerra de Araújo, e viveu a infância
no sertão do Seridó. Fez o primário no grupo escolar
capitão-mor Galvão, em Currais Novos, e o ginasial no Ateneu
Norte-rio-grandense, em Natal. Bacharelou-se em 1936 em Ciências
Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade
Federal de Minas Gerais.
Pouco se sabe de sua atuação como advogado, mas é certo que dedicou-se por algum tempo às lides jurídicas, tendo mesmo viajado a Portugal em função de motivos ligados à sua profissão.
Voltando a morar em Currais Novos, em 1941, candidatou-se e foi eleito vereador à Câmara Municipal, onde apresentou projeto de lei, depois sancionado pelo prefeito, instituindo a Diretoria de Documentação e Cultura da Prefeitura de Currais Novos. Foi o primeiro diretor e organizador do referido órgão. Participou, ainda, da elaboração do Estatuto do Centro Esportivo Currais-novense, e foi seu diretor durante dez anos.
Romancista, pensou em começar um Ciclo do Algodão, a exemplo do que José Lins do Rêgo fez com o mundo dos engenhos de açúcar.
A doença, no entanto, impossibilitou a realização desse projeto.
No campo do ensaio, publicou três livros, entre os quais O Teatro de João Redondo, extrato, pelo autor, de sua tese O Brinquedo de João Redondo - aprovada pelo primeiro Congresso Brasileiro de Folclore (Rio, 1951). Esta obra é fruto de uma pesquisa realizada pelo próprio José Bezerra Gomes sobre o mamulengueiro Sebastião Severino Bastos, talvez a primeira do gênero no Nordeste brasileiro. Outro aspecto interessante dessa pesquisa é que, quando surgiu a oportunidade de apresentá-la no primeiro Congresso Brasileiro de Folclore, "Seu" Gomes fez questão de que Bastos o acompanhasse até o Rio de Janeiro onde, no recinto do evento, o mamulengueiro se apresentou com grande sucesso.
Os seus poemas foram recolhidos por Luis Carlos Guimarães, seu conterrâneo ilustre em 1974, numa Antologia Poética lançada em 1975.
Pela lei municipal 1.191/90, a Prefeitura de Currais Novos criou a Fundação José Bezerra Gomes como homenagem do povo currais-novense a seu ilustre filho.
(Deífilo Gurgel in 400 nomes de Natal)
(...) o Rio Grande do Norte irá conhecer outro ficcionista de peso, apenas na esteira do Regionalismo de 30. Trata-se do currais-novense José Bezerra Gomes. Sua estréia se dá com Os Brutos, no ano de 1938. Por filiar-se à tendência literária então vigente, o livro acabou lhe proporcionando, além de uma recepção animadora, alguns constrangimentos. Ocorre que esse pequeno romance embora tendo boa parte da sua ação no município de Currais Novos, haveria também de ressaltar um gigantesco problema social, motivado por inúmeros fatores, que deram notoriedade à mais importante ficção produzida no período. Tornando por vezes, absolutamente impossível a sobrevivência no sertão castigado pela seca, a situação enfocada nessas obras desdobrava-se em duas perspectivas: a falência no sucessão patriarcal (pais e filhos no mais das vezes optando por uma formatura, um anel de doutor ou uma colocação no serviço público para os últimos) e os dramas dos despossuídos, forçados a se retirarem das terras para não morrer de fome. Embora do ponto de vista de denúncia social o romance escrito por José Bezerra Gomes, não revelasse nada de especialmente novo em dimensão e intensidade, tornava-se, pela agilidade narrativa, pelo tom algo naturalista e - sobretudo por aquela possibilidade de tomar modelos vivos como referência, objeto da curiosidade do público leitor potiguar. O autor provinha de uma tradicional família de fazendeiros e, como a típica personagem de romance do período, acabaria se tornando bacharel de atormentada existência. E o discurso resultante da sua prosa é dominado por certa nostalgia de mando patriarcal, uma indefinição que, como se sabe, enriquecerá algumas das personagens mais elaboradas, psicologicamente falando, do romance de 30. No caso de Gomes, como no de vários outros, com evidente conotação autobiográfica. Em Os Brutos o seu autor, ao invés do drama individual, privilegia um conjunto de tipos e situações bem característicos de uma cidadezinha do Interior, sua Currais Novos. Além do que, o ambiente propriamente rural, com os seus dramas, está fortemente visível nesta narrativa que tem como núcleo a própria contradição em que se afunda a sociedade semi-feudal: áreas de terras vastíssimas nas mãos de uns poucos proprietários numa relação de absoluta dependência entre os trabalhadores alugados e os coronéis; domínio político à custa, quase sempre, da força, da corrupção dos favores e do emprego público. Os descendentes mais sensíveis, entre os quais incluí-se o próprio Bezerra Gomes, ficam atônitos ao travarem contato com as coisas do espírito e as atrações mundanas das cidades onde são mandados a estudar, quase sempre, Direito. Esta complexa situação está por inteiro, aliás, em Por que não se casa, doutor?, livro de 44. Embora de natureza urbana, não será esse menos regionalista, uma vez que os elementos que o tipificam, têm como referencial a profunda nostalgia do protagonista/narrador, filho de gente do interior. Bacharel frustrado e em permanente conflito consigo mesmo sabe-se impotente para, por um lado assumir-se citadino, ocupando à custa de esforço e até de arrivismo, se for o caso, o seu lugar na sociedade. Por outro lado, não se sente capaz de retornar depois de formado, conforme idealizara o pai, para dar segurança à mãe, na velhice da mesma. Tal indefinição leva o protagonista ao terreno da paranóia doença aliás, que perseguiu o autor ao longo de 40 anos e que ressalta no seu último livro da ficção: A Porta e o Vento, publicado pela Fundação José Augusto em 76 o que nos obriga a, inevitavelmente, fazer aproximações da sua ficção com a biografia e a memória. Os três livros compõe, sem dúvida, um painel que, se não corresponde ao que se chegou a classificar como esboço de um novo ciclo dentro da nossa literatura regionalista, um possível "Ciclo do Algodão", revela com certeza a existência de um ente dominado por certo desengonço psicológico, indeciso, intimidado diante dos desafios que se apresentam e que, em razão da extrema sensibilidade não teria como adequar-se ao contexto do sertão patriarcalista. Aquele que, como no verso já citado, de Bandeira, podia ter sido e que não foi. Menino puro que sucumbe em meio a esse turbilhão de problemas, submergindo e emergindo da loucura, sem saber, eterno inseguro, a que colo recorrer: se a da mãe/nossa senhora, se o da amada/prostituta ou mesmo o que parece mais provável, o da mãe-terra, para o descanso definitivo.
(Tarcísio Gurgel in Informação da Literatura Potiguar - Natal, 2001)
| Mealheiro Meu avô a camisa por cima da ceroula no mourão da porteira do curral de pau a pique cheirando a estrume Contando os bezerros novos das vacas paridas Minha avó no santuário da capela o rosário de contas de capim santo nas mãos devotas Nos terços nas novenas de maio o mês das flores As espigas de milho verde bonecando nos roçados Os algodoeiros casulando As ovelhas malhando na sombra das quixabeiras O rio A cheia A água barrenta da correnteza transbordando pelas vazantes do rio cheio Os sapos os cururus cantando dentro das noites empoçadas As tanajuras Esvoaçando na luz das lamparinas As flores do mato crescendo pelos caminhos orvalhados rescendendo Os meninos gordos de terra sob a chuva sob o inverno se banhando As veredas trilhadas pelos preás Os ninhos dos concrizes balançando na copa das braúnas As asas dos urubus pairando paradas no céu encandeando A barra das madrugadas O aboio dos tangerinos As alpregatas de meu avô arrastando nas lajes do alpendre do mundo de minha infância. |
Evocação da cidade do
Natal Cidade do já teve, de boêmios seresteiros, que não alcancei ... Lourival Açucena (Lorênio), o poeta Ferreira Itajubá, regressando, de manhã, cedinho, das últimas noitadas, cheias de serenatas, lapinhas e pastoris, vestido de fraque, segundo dizem, com uma enfieira de caranguejo dependurada no dedo da mão, ali na antiga feira da tatajubeira ... Onde estão os teus vendedores de vendagens? - rolete de cana ... - tapioca de coco ... - cuscuz de milho ... - bolo pé de moleque ... E os teus turcos prestamistas? que se foram das Rocas e do Alecrim, com os seus baús de miudezas, para a Rua das Lojas da Ribeira, Cidade Alta ... Cadê o teu Porto do Padre? de-frente do Paço da Pátria, com os teus canooeiros, com os teus boteiros, com as tuas negras louceiras lá de Barreiros? - urinóis ... - xícaras ... - mealheiros ... tudo era feito de barro ... Em todas as bodegas, para todos os paladares, bastavam dois vinténs de meladinha, com parede de camarão ... Nos domingos, dias santos, apanhava-se caju, madurinho, no tempo das matas ensombradas das Quintas e do Goitizeiro, com muita fartura de - cajá ... - mangaba ... - pitomba ... |
Lourival Açucena, poeta
Considerado o poeta inaugural, o mais amado dos tempos da Província, Lourival Açucena nasceu em Natal em 1827, falecendo no século seguinte, em 1907. Ele teve seus textos publicados pela primeira vez com o surgimento do pioneiro jornalzinho O Recreio, em 1861, pois seu talento e agitada vida pessoal acabaram se tornando objeto de interesse entre os que residiam na capital e arredores. O seu nome verdadeiro era Joaquim Eduvirges de Mello Açucena, mas ele passaria à história da nossa literatura como Lourival, mantendo o último sobrenome, porque decidiu incorporar à sua personalidade civil o nome de uma personagem (o tenente Lourival) que lhe coubera interpretar, quando jovem, segundo informam seus biógrafos, numa peça de teatro denominada "O Desertor Francês".
Diz-se que era cantor de grandes qualidades e que se acompanhava ao violão. Há também notícias de que não teria se limitado a cantar apenas em Natal, chegando a se apresentar em Pernambuco com reconhecimento e aplauso. Tendo sido entre os nosso poetas um dos de mais longa existência (viveu 80 anos incompletos), ele notabilizou-se não apenas pela qualidade da sua poesia e talento de modinheiro, mas pela agitação que lhe marcou a vida, de modo especial no complicado relacionamento coma elite política da Província.
Não teve livro publicado em vida, mas, chegaria a ver poemas seus, impressos em várias publicações
Trinta dias após a morte de Lourival Açucena os amigos publicaram uma Poliantéia, breve reunião de poemas seus, para homenagear-lhe a memória. O pequeno volume saiu pela Oficina Literária Norte-Rio-Grandense. Coube, porém, a Luiz da Câmara Cascudo, contando coma colaboração do filho do poeta, querida personalidade natalense, Joaquim Lourival (o "professor Panqueca", proprietário de uma concorrida escola particular), a tarefa de reunir tudo o que pode recolher dos seus poemas, publicando um volume a que chamou de Versos, em 1927.
Em 1987 a Universidade Federal do Rio Grande do Norte voltaria a editar este trabalho.
Coincidindo coma irrequieta personalidade do autor, a sua poesia não revela unidade, um traço comum, capaz de caracterizá-la. Ao contrário, é fácil perceber lendo os seus poemas, que a ele não preocupou filiar-se a qualquer escola, (embora seja forte em sua pequena obra a presença do arcadismo). Tal diversificação encontraria uma possível justificativa em sua condição de modinheiro, pressupondo-se, aí, a obrigação de variar o repertório e o seu estilo, com vistas a atender à solicitação popular. Assim, é possível vê-lo também como romântico e até como poeta clássico. Mas, é justamente quando adota a maneira mais próxima do povo, nas quadras, nos termas satíricos, que se percebe um Lourival Açucena mais autentico. Isto é fácil de comprovar em "A Política" onde ele "filosofa" a respeito desta prática à época do Império:
(...)
Esses arautos políticos
Quer de uma, quer doutra grei
Quando estão de baixo gritam:
"Viva o povo" - "Abaixo o rei!"
Mas, o sábio rei,
Que conhece tudo,
Faz que não entende,
Fica surdo e mudo;
E o povo que idéia
Não tem dos negócios
Vai crendo nas loas
Dos tais capadócios ...
Já ouviu, Yayá?
(...)
Cantando em forma de chula (o próprio Açucena acompanhava-se ao violão) o longo "A Política", que abre Versos e de que transcrevemos apenas um fragmento, põe a nu, com bastante irreverência aspectos relacionados com os métodos nem sempre confiáveis da mesma, de que ele próprio, aliás, seria vítima. Advertindo que Yayá está ficando muito analítica, "pois agora deu para interessar-se por assunto tão relevante, o poeta tocava gostosamente a alma do povo, em serenatas que varavam as noites da província.
A importância desse pioneiro no cenário lírico de Natal, pode ser medida, igualmente, pelas homenagens recebidas dos outros poetas que, além de Henrique Castriciano, sobre ele escreveram.
Entre estes, Segundo Wanderley, Gotardo Neto e Ferreira Itajubá.
Este último, por acasião do seu sepultamento, divulgou o poema "No Campo Santo", onde se podia ler:
(...)
Morreste e não soubeste, ó grande veterano,
Que, quando, por Natal, a rosa todo ano
Floresce, alegremente, entre as demais roseiras,
O prado embalsamando, ao lado das primeiras,
Esta alma não rebenta em rosas de ilusão
Como quando cantaste ao som do violão.
(...)
Trata-se, como se vê, de um sentido registro do reconhecimento que o jovem poeta faz a respeito do seu talentoso antecessor o qual, mesmo tendo tido inúmeros poemas publicados pela importante A Tribuna, não pode resistir aos valores de uma nova realidade que chagava com a República. No pungente testemunho de Castriciano ao longo da série de artigos antes citada encontra-se o doloroso registro da sua decadência:
Com o advento do novo regime, acentuou-se a mudança que desde certo tempo vinha se processando no meio natalense.
Os costumes tornaram-se diferentes, a população sedentária fez-se mais egoísta; acabaram-se os grandes pic-nics, as noitadas ao luar, os passeios coletivos à Redinha, ao Barro Vermelho, as festas católicas animadas, as serenatas langorosas.
O poeta, sentido-se isolado, começou a morrer. Nos últimos anos era uma sombra de si mesmo. Trôpego, indeciso, como um sonâmbulo, quase cego, fazia pena vê-lo, não raro, casqueado pelos imbecis atravessando algumas ruas da cidade de que fora a alma irrequieta e de que era agora a alegria morta.
(Tarcísio Gurgel in Informação da Litreratura Potiguar, Natal, 2001)
Figura emblemática da Natal dos meados do século XIX aos começos do século passado, Lourival Açucena foi quase tudo na vida: funcionário público, juiz de paz, delegado de polícia, oficial de gabinete do presidente da Província, comandante do Destacamento da Guarda Nacional ..., mas foi sobretudo, seresteiro e poeta e com estes predicados, entrou para a história de nosso Estado.
Câmara Cascudo, que reuniu seus versos em livro póstumo em 1927, traçou seu perfil: "Lourival Açucena foi cerebralmente, do século XVIII. Possuía a ingenuidade inspirativa, a malícia ligeira, a mania mitológica, a superstição do talento improvisador. Seus versos se destinavam ao violão ou ao pedido oficial de alguma coisa. Poetava sob tema, batia a lira no oiteiro, aceitava sugestões banalíssimas. Durante 60 anos governou as serestas, as ceias e as festas íntimas de Natal".
Além de poeta, Lourival era compositor, músico e cantor, presença infalível não só nas rodas boemias, nos folguedos folclóricos, mas também nas cerimônias religiosas mais solenes. Ganhou fama de cantor sacro.
Foi também, artista dramático. Da sua atuação no teatro amadorístico - informa cascudo - ficou-lhe o nome Lourival. Em 1853, representou o papel do Capitão Lourival na peça "O Desertor Francês", e saiu-se tão bem que os seus amigos o apelidaram com o nome do protagonista.
Outra faceta de sua personalidade singular: de 1861 a 1900, colaborou em quase todos os jornais de Natal. Em 1886 esteve preso por dois meses, na Fortaleza dos Reis Magos, acusado de peculato. Amigo íntimo do comandante da Fortaleza cumpriu a pena com o maior fair-play, sempre rodeado de "ruidosas visitas de íntimos, com cestas de iguarias e bebidas", tão satisfeito, aliás, que se deixou ficar no "cárcere" por mais 15 dias.
Lourival era um exemplo de vitalidade. casou em 1852 com d. Antônia Cândida de Albuquerque. Em 1865, com d. Flora Carlinda de Vasconcelos. Em 1905, já septuagenário, casou com a sua musa, Silvânia, a "gentil poramgaba", velha companheira. Teve 19 filhos legítimos e 13 bastardos.
(Manoel Onofre Júnior in 400 nomes de Natal, 2000)
Soneto
sob o mote: hei de mártir de amor, morrer te amando.
Inda cabe rigor neste teu peito?!
Anália, de afligir-me inda não cansas?!
Cruel, não sentes, ímpia, não alcanças
De tua ingratidão o triste efeito?!
Teu duro coração já satisfeito
Acaso não estará dessas provanças
Que me dão caprichosas esquivanças,
Com que pisas de amor doce preceito?!
Entre surdos arquejos de agonia
Vou a Vida de angústias acabando,
Que um ai! Um só sorriso salvaria.
Mas, embora ferina vais matando
Meu firme coração com tirania,
"Ei de mártir de amor, morrer te amando."
Eli Celso, poeta
Na próxima esquina
um bando de mendigos
incinera-se para
mim,
ladra para mim
Sou o capitalista desse comércio
invulgar Sou o capitalista tra la la la
(Eli Celso)
Eli Celso tem publicado
seus poemas em volumes coletivos (três a quatro poetas), mas
seus trabalhos são verdadeiramente livros completos, como
podemos constatar nos Vale feliz, de 1991, e Gravuras,
de 1995. Com André Vesne, Iracema Macedo e Boaventura Jr.,
poetas nascidos nas décadas de 60 e 70, eles seguem aquela linha
de "pobreza tática" em seus poemas, elevando o
quotidiano temático e linguístico a um desvão algo prosaico,
embora funcional, da linguagem literária.
Embora se considere, atualmente, "mais um poeta bissexto", Eli Celso continua a escrever seus poemas - muitos inéditos - e anuncia pelo menos dois livros, para próxima publicação, ainda de parceria com os poetas das outras coletâneas. Ele nasceu Eli Celso de Araújo Dantas da Silveira no dia 25 de agosto de 1960, em Natal, filho dos poetas Myriam Coeli e Celso da Silveira, também participantes desta antologia.
Primeiros estudos na Escola Doméstica "até onde é permitido aos meninos".
O primeiro ano primário é feito na Casa dos Anõezinhos, para depois cursar e concluir o primeiro e segundo grau no colégio Salesiano São José. Desde 1979 estudando na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, termina o bacharelado em Física em 1982. Fez diversos outros cursos e em 1996 entra no doutorado em Ciência da Literatura da UFRJ.
Colaborando em jornais literários como O Galo, Eli Celso conquista vários prêmios, em destaque o prêmio Othoniel Menezes para poesia, com o livro, ainda inédito Roda resumida. Além dos poemas, dedica-se atualmente à feitura de ensaios "extremamente curtos", por ele batizados de Ensaios Minimalescos. Como afirmou o próprio poeta "no mais, vive como qualquer homem de seu tempo, sem biografia como testemunhou antes Baudelaire": isso, seguido a termo pelos poetas brasileiros, os têm levado ao anonimato. Só que Baudelaire já era Baudelaire quando disse aquela tolice.
Eli Celso é doutor em Teoria Literária pela UFRJ (2002) e mestre em Tecnologia Educacional, UFRN, 1991, onde cursou licenciatura em Matemática (1987) e em Física (1986), tendo também concluído o bacharelado na mesma área em 1982.
(Assis Brasil in A Poesia Norte-rio-grandense no século XX, Natal, 1998)
Algumas Publicações:
- Ensaios minimalescos
- Um pouco de asma
- Elogio das figuras borradas
- Rebanho (versão sertaneja)
- Gravuras
- Driftings, rotations and translations
Estudo solidão A noite estudava Meus gestos de guarda Que tinham pra ti Ponto de chegada De tanto querer-te A vida escusava Rima em solidão Do que me restava Se em ti me aportei É que fui morrer Do flanco apartei Tua parte a ser Vendida por fome Do meu te querer E que me alquebrava Por não me conter Todo solidão Viver enigmava Que coisa já parva A mim me trevava (In Vale feliz, 1991) O clitóris da História Foi assim bem quando Nilsinho, 12 vislumbrou da possibilidade das coxas de ouro da profª e de os fenícios e vikings terem descoberto o Brasil antes do português, tudo ao mesmo tempo viagem. Tudo era mesmo navegação na sua tabuada. Soma e subtração davam nas coxas multiplicadas. E viajou as viagens. E viu as sarças ardentes brotando no vértice das coxas de ouro E escutou a própria voz de Deus. E voltou pra casa com o boletim vermelho. (Inédito, 1995) |
Dias tolos Aquelas explosões fui Disfarçado de tecelão e fluidez Lá encontrei um mineiro miando como uma gaita asma do inferno dente de bálsamo para o pulmão e o tempo roda com a engenhoca Encontrei bem lá varando alambrados um gago Há, eu me tenho roído tudo todo estou em ruínas O tempo está destemperado e a engenhoca pia Aquelas explosões fui disfarçado de fluidez para teu perfume da imaginação dos demônios e seu leite Tive faro de ir até um repuxo mendigar meu passado comigo negativo Há, eu me tenho roído tudo tudo estou todo em ruínas Depois desse labirinto, explosões asma e perfume do inferno me guiam e eu vou - disfarçado - aquelas explosões (In Gravuras, 1995) |
Ivan Cabral, chargista
Nascido em Areia Branca, em
1963, o cartunista e chargista Ivan Cabral, que ocupa lugar de
destaque na página de Opinião do Diário de Natal,
é casado, pai de um casal de filhos, e bacharel em Ciências
Contábeis, apesar de não exercer a profissão.
É chargista do Diário de Natal desde 1988. Tendo iniciado sua descoberta para as artes plásticas desde os 6 anos, quando copiava os desenhos dos gibis, sem perdoar as partes internas das capas dos discos de vinil de seu pai, onde exercitava sua arte, teve sua preparação para a profissionalização na adolescência, quando, através do professor Walfredo Brasil, teve um contato com o Grupehq (Grupo de Pesquisa em História em Quadrinhos), surgido no início da década de 70, quando os quadrinhos passaram a ocupar as páginas dos jornais locais.
Cabral conta que sofreu as principais influências de renomados e bem-sucedidos cartunistas e chargistas brasileiros, destacando o imortal J. Carlos, Ziraldo, Chico Caruso, Canini, Amorim, Jean, Cláudio e Loredano. Na época do impeachment do presidente Fernando Collor (1992), Ivan participou, juntamente com os cartunistas e chargistas potiguares Cláudio Oliveira, Emanoel Amaral e Edmar Viana, do livro (J)á Era Collor, uma seleção dos melhores trabalhos publicados na Imprensa do Estado sobre o tema.
''Esse encontro deu-se na segunda safra de artistas ligados ao grupo, no início da década de 80'', conta Ivan. ''Através desse contato, tive acesso à técnica dos profissionais, uso do material e à literatura. Comecei a publicar na revista Maturi, o menor fanzine do Brasil, na época, com desenhos que seguiam a linha humorística.'' Em 1983, Ivan substituiu Edmar Viana na coluna Cartão Amarelo no Diário de Natal, durante três meses. ''Essa experiência foi decisiva para a minha contratação definitiva, cinco anos depois. No início de 1988, também substituí o chargista Cláudio Oliveira, na Tribuna do Norte. Com a saída de Edmar do Diário de Natal, apresentei meus trabalhos, inclusive os publicados no próprio jornal, e tem início minha carreira profissional'', diz: "Foi o período de maior desenvolvimento da técnica e da perspicácia como chargista. Para mim, foi muito importante a influência do chargista Cláudio Oliveira, já no Diário de Natal, com quem pude trocar idéias e técnicas.''
(Paulo Augusto Repórter do Muito/Diário de Natal)
Ivan já foi premiado em vários salões de humor pelo país:
- 1º lugar em charge no Salão da Unacon (Brasília-DF), 1997;
- Prêmio Juri-Popular no mesmo salão;
- 1º lugar em charge no Salão de Volta Redonda (RJ), 1997;
- 1º lugar em charge no Salão de Volta Redonda (RJ), 1998;
- 2º lugar em charge no Salão de Humor de Natal (RN), 1999.
Em 2000, colaborou com a galeria sobre os jogos olímpicos do site de cartuns italiano Fano Funny.
Ivan, em seu site na internet, explica as diferentes formas de fazer arte no jornalismo diário, a charge, o cartum e a ilustração. Veja as diferenças:
Celina Bezerra, pintora e escritora
Celina Maria Bezerra, seridoense, nascida
em Caicó, é apaixonada pelo seu ambiente natural, o sertão.
"Deve ser porque perdemos o grande referencial que
tínhamos", explica, contando que sua ligação estreita e
íntima com a terra foi gerada na fazenda Serrote, de sua
família, em São Rafael, que foi desapropriada com a
construção da barragem Armando Ribeiro Gonçalves.
Ela diz que por causa disso, tem o sertão dentro de casa, dentro do coração e em toda a sua obra, qualificada com "pintura etnográfica" - retrata a origem da cultura do povo do Seridó, ou seja, a cultura sertaneja.
Suas duas exposições individuais tiveram o mesmo nome, Sertão Sempre, I e II.
O contato com a Arte veio depois da aposentadoria. Celina acreditava que se desligaria definitivamente do trabalho e queria algo para ocupar o tempo. Ledo engano. Apesar da aposentadoria, não deixou o trabalho na área de pedagogia. Atua até hoje como consultora. E não faz arte apenas para se ocupar. É respeitada e construiu seu próprio caminho no cenário potiguar.
Profissional exemplar, Celina, ao decidir pelo novo caminho, buscou o domínio das técnicas e a orientação de gente como Lídia Quaresma, do Atelier de Artes da UFRN. "Foi quem me abriu as portas." Lá, ficou por quatro anos. Depois, passou a frequentar a escola de artes de Jomard Jackson, com quem aperfeiçoa-se até hoje.
A pintura foi só o primeiro passo no mundo das artes. Logo depois, incorporou a Literatura. Daí, em 1997, publicou, com dois irmãos, o livro Meninos de Sítio, falando sobre cultura sertaneja, seu tema dileto. Neste mês de agosto de 2004, lançou outro, agora em carreira solo, Aqui Jaz, onde discorre sobre a sistemática da educação infantil à partir do final do século XIX, quando às crianças tudo era negado. Não é à toa que a palmatória é o ícone da estória. Graduada e mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é professora aposentada da mesma instituição.
Desenvolve atualmente um trabalho de orientação pedagógica na perspectiva da formação continuada de educadores.
Otoniel Menezes, poeta
Para
a maioria dos norte-rio-grandenses, Otoniel Menezes é e
continuará sendo sobretudo o criador dos versos da canção
"Praieira", de 1922, espécie de hino da cidade do
Natal, (aliás, pelo decreto-lei nº 12, de 22 de novembro de
1971, o governo municipal de Natal considerou a
"Praieira", o "Hino da Cidade"), com música
de Eduardo Medeiros. Originalmente intitulada "Serenata de
Pescador", "Praieira", como ficou conhecida
popularmente, foi escrita para saudar os pescadores natalenses
que, em três barcos a vela, viajaram de Natal ao Rio de Janeiro,
dentro das comemorações do Centenário da Independência, em
1922. Otoniel Menezes, certa vez, revelou que uma das alegrias de
sua vida era ouvir, nas madrugadas natalenses, gente do povo
cantando sua "Praieira" em serenatas.
Eduardo Medeiros musicou outros poemas de Otoniel, e outros foram musicados pelo seresteiro Olympio Batista Filho.
Otoniel nunca se libertou das rimas e da métrica. Seus poemas modernos, não obstante a grandeza criadora do poeta, não alcançaram a beleza e a perfeição dos primeiros versos, dos primeiros livros. Sobre ele, escreveu Veríssimo de Melo: "Autodidata, era contudo homem de cultura literária, versado nos bons autores, sobretudo franceses, ingleses e portugueses, o que transparece na sua bela prosa e forma polida e brilhante dos seus versos."
Uma obra original no seu universo poético é o livro "Sertão de Espinho e de Flor", um canto de amor ao Seridó, região onde o poeta viveu 20 anos de sua juventude, conforme depoimento de seu irmão, Francisco Menezes, na Academia Norte-rio-grandense de Letras. Além de uma poesia tipicamente sertaneja, seu autor oferece ainda ao leitor um importante glossário de termos e expressões regionais.
Otoniel foi ainda jornalista escrevendo para o "Diário de Natal" e trabalhando como redator e secretário de "A República", sendo (anonimamente) um dos redatores do jornal "A Liberdade", que o governo revolucionário de 35 lançou em Natal, quando assumiu o poder.
(Deífilo Gurgel in 400 nomes de Natal, 2000)
Aquele que foi cognominado, na sua época, de o Príncipe dos poetas norte-rio-grandenses, embora seus inúmeros livros de poesia não tenham sido mais reeditados - o que se faz necessário - tem tido a sua permanência relativa em muitas antologias poéticas: uma delas antes de sua morte, em 1965, Panorama da Poesia Norte-rio-grandense, edição feita no Rio de Janeiro, e duas mais recentes, a do professor e ficcionista Manoel Onofre Jr., de 1984, Guia Poético da Cidade do Natal, e a de Aluízio Mathias, Poesia Circular, de 1996.
Otoniel Menezes está situado naquela faixa intervalar, algo sincrética, quando a paixão pelo verso bem medido não arrefecera, tendo sido classificado como um neo-parnasiano, "embora tenha adotado, em muitos dos seus poemas, formas modernistas, inclusive o poema-piada", na observação de Manoel Onofre Jr. Mas tal atitude era apenas uma postura, pois já no seu segundo livro, Jardim Tropical, a dedicatória vai para os "poetas Alberto Alberto de Oliveira, o maior do Brasil, Henrique Castriciano, o primeiro da minha terra, Edinor Avelino, a mais bela afirmação entre os novos".
Otoniel Menezes de Melo nasceu em Natal no dia 10 de março de 1895. Dado como autodidata, aprendeu com a vida e as leituras, tirando da própria obra poética a sua vivênvia intelectual. "Pobre e probo", exerceu a atividade jornalística em Natal, colaborando em inúmeros jornais e revistas, e chegando a redator e secretário de A República.
Os livros de Otoniel Menezes vão sair desde 1918, com Gérmen, prefácio de Henrique Castriciano passando pelo Jardim Tropical, em 1923, onde se encontra o poema que o consagrou popularmente, Serenata do Pescador, musicado por Eduardo Medeiros, até chegar ao Sertão de Espinho e Flor, de 1952. Culmina sua obra com A Canção da Montanha, de 1955, quando o poeta tenta os recursos mais livres do Modernismo. Deixou inédito A Cidade Perdida. Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, o poeta morreu no Rio de Janeiro no dia 19 de abril de 1969.
(Assis Brasil in A Poesia Norte-rio-grandense no século XX, Natal, 1998)
Serenata do pescador (Praieira)
Praieira dos meus amores, encanto do meu olhar! quero contar-te os rigores sofridos, a pensar em ti, sobre o alto mar ... Ai! Não sabes que saudade padece o nauta, ao partir, - sentindo, na imensidade, o seu batel fugir, incerto do porvir!
Os perigos da tormenta não se comparam, querida, às dores que experimenta a alma, na dor perdida, - nas ânsias da partida! Adeus à luz que desmaia, nos coqueirais, ao sol - pôr ... e, bem pertinho da praia, o albergue, o ninho, o amor do humilde pescador!
Quem vê, ao longe, passando uma vela, panda, ao vento, não sabe quanto lamento vai nela, soluçando, - a Pátria procurando! praieira, meu pensamento, linda flor, vem me escutar a história do sofrimento de um nauta, a recordar amores, sobre o mar!
Praieira, linda entre as flores deste jardim potiguar! Não há mais fundos horrores, iguais a este do mar, - passados a lembrar! A mais cruel noite escura, nortadas e cerração, não trazem tanta amargura como a recordação, que aperta o coração!
Se, às vezes, seguindo a frota, pairava uma gaivota, logo eu pensava, bem triste: - "O amor que lá deixei, quem sabe se inda existe?" - A ave, então, gritava, triste: - "Não chores! Não sei! Não sei ... - E eu, sempre e sempre mais triste, rezava, a murmurar: - Meu Deus! Quero voltar!"
Praieira do meu pecado, morena flor, não te escondas, quero, ao sussurro da ondas do Potengy amado, - dormir sempre ao teu lado ... Depois de haver dominado o mar profundo e bravio, à margem verde do rio serei teu pescador, Ó pérola do amor! |
A cidade perdida
A cidade-fantasma, a cidade-convento, Com torres de faiança e carrilhões de prata, Dorme, sob o lazúli e real do firmamento, Entre espinho e entre flor, no recesso da mata.
Vindo o bárbaro, um dia, a rugir, temulento, Tudo, ao redor, destruiu ... serena, intemerata, Ela restou, num belo e irreal recolhimento, Fechada em seu dossel de Bretanha - a cascata.
Raro, um viandante esquivo atravessa a paragem. Orquídeas, manacás e baunilhas recendem. Borboletas azuis cirandam na folhagem.
E a Cidade Perdida, em sossego profundo, Entre os altos ipês - tão floridos, que prendem -, Dorme, aquém da mercância e do rumor do mundo ...
Saudade
Quando expira da tarde o último acento, dourando a copa escura da ingazeira, o juriti, num dúlcido lamento, chama ao ninho escondido a companheira.
A amorosa saudade que avivento, encheu do teu perfume, a noite inteira, minha tristeza lírica e solteira, a ânsia de beijos do meu sofrimento.
A pobre janelinha esburacada, aberta, assim, à espera, sobre a rua, ficou aberta, até de madrugada ...
Chove, agora. Amanhece ... airosa e fina, tua silhueta é um lírio, que flutua dentro do adágio estéreo na neblina ... |
Homero Homem, poeta, escritor e contista
Expoente
da Poesia Pós-Modernismo, Homero Homem distingui-se também,
como ficcionista, autor de romances, novelas e contos - obras
estas direcionadas, em boa parte, ao público juvenil.
Seus dois primeiros livros, no campo da ficção, ambos de contos, não alcançaram grande sucesso junto ao público, mas foram bem recebidos pela crítica: "Tempo de Amor" (Livraria Francisco Alves Editora SA, Rio de Janeiro, 1960 - 2ª edição, 1973) e "Carliteana Carioca" (Editora Leitura, 1965 - Obs: os contos deste livro foram incluídos na segunda edição de "Tempo de Amor").
Com o romance "Cabra das Rocas", em que há muito de sua infância (vivida em Natal), iniciou-se na Literatura Juvenil, com muito êxito, como bem atestam sucessivas edições (a primeira, pela Tempo Brasileiro, Rio, 1966 e as 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª e 7ª pela Editora Ática, São Paulo). Sucesso ainda maior, o livro subsequente - "Menino de Asas", novela, com a qual o autor aproximou-se mais do público jovem, abordando, porém, temática diversa da obra anterior (Gráfica Record Editora, Rio, 1968; 22ª ed., Editora Ática, São Paulo, 1989).
Publicou, depois, os seguintes livros (prosa):
"O Excepcional-Flor que Nasceu com uma Pétala de Mais" (Editora Expressão e Cultura, Rio de janeiro, 1973); "O Goleador", romance - primeiro volume de uma trilogia do futebol (Cia. Editora Americana, Rio, 1974); "O Moço da Camisa 10", novela (Livraria José Olympio Editora, Rio, 1978); "Pelejas de Amor", crônicas e narrativas jovens, com mini poemas de abertura (Editora de Orientação Cultural, Rio, 1978); "Mundo do Silêncio Verde", novela de ficção científica para jovens (Prêmio Escritor do Mar e Prêmio Nacional de Literatura) (Editora Nórdica, Rio, 1981).
Na área de estudos sociais, um pequeno livro sobre sua terra natal: "Rio Grande do Norte" (Bloch Editores, Rio, 1978).
Pelo número de edições dos seus livros constata-se que Homero Homem é o mais lido de todos os ficcionistas norte-rio-grandenses. Outra constatação não menos importante: é o único com livro traduzido ("Gente delle Rocas", tradução italiana de "Cabra das Rocas", por Laura Draghi e Danuza Garcez Ourique - Editora Giunti Marzocco. Florença, 1977).
Entre os poetas modernos brasileiros, Homero Homem pode ser definido como neo-romântico, pós-Geração 45. Sua obra tem sido estudada por alguns prestigiosos críticos, como Wilson Martins, Gilberto de Mendonça Teles e Leo Gilson Ribeiro. Deste último, esta definição, exata e concisa: "... poeta de inquieta raiz social (...) lirismo entre a emotividade, a erudição, o tom popular irônico e a musicalidade rítmica".
"O Agrimensor da Aurora" enfeixa onze livros de poesia. Seguiram-se "O Luar Potiguar" (Presença Edições, Rio - Fundação José Augusto, Natal, 1963); "Lírica e Drama de Cordel", 10 folhetos reunidos (Edições Salmo & Cordel, Rio, 1986/87), "Ata 700 e Oratório Ecológico Ladainha de Nossa Senhora do Pantanal" (Edições Sabadoyle, Rio, 1987), "Eu Sem Ego" (Editora Clima/Fundação José Augusto, Natal, 1990).
(Manoel Onofre Jr in Contistas Potiguares, Natal, 2003)
Homero Homem de Siqueira Cavalcanti, nasceu no Engenho Catu, de propriedade de seu pai - no município de Canguaretama, Estado do Rio Grande do Norte - em 5 de Janeiro de 1921. Descendente de velhos troncos, formadores do Nordeste e do Brasil, que enfeixam sangue judeu, português e italiano. Um de seus ancestrais, Mascarenhas Homem, capitão-mor de Penambuco, foi o fundador do Forte dos Reis Magos, à entrada da Barra de Natal e trampolim da ocupação lusitana do Rio Grande do Norte até o Amazonas.
É co-fundador da seção carioca da União Brasileira de Escritores, da qual foi secretário, e fundador da Associação dos Escritores Profissionais da Guanabara, ao lado de Adonias Filho, José Louzeiro, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Plínio Doyle e outros.
A obra literária de Homero Homem - onde a sua grande poesia talvez seja a nota dominante - alinha também o romance, a crônica, a novela, o conto e o teatro. São obras de sua autoria: Cabra das Rocas (Editora Ática, São Paulo), lançado em reedições dentro e fora do país, que já ultrapassam os 350.000 exemplares. Menino de Asas, também sucesso de crítica, adotado desde as escolas de ensino médio às universidades, já ultrapassando 400 mil exemplares de tiragem.
Jornalista profissional, os primeiros passos foram dados ainda no Rio Grande do Norte. Homero Homem no Rio, trabalhou como redator político e repórter especial do Diário de Notícias junto a Câmara dos Deputados, além de colaborador do suplemento literário desse matutino. O Estado de São Paulo, Manchete, Última Hora, Revista do Globo, Leitura, foram as etapas posteriores de sua atividade na imprensa.
Homero Homem mudou-se o Rio de Janeiro, onde foi professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal e trabalhou como jornalista, colaborando em grandes jornais e revistas nacionais. Estreou na literatura em 1954. Escreveu poesia, ensaios e ficção. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais. Faleceu em 1991.
Cidade do Natal à Cassiano Arruda Câmara
A praia com sua saia De cambraia. A cidade no seu platô de vento. O verão com seu calção De brisa. Natal à noite: Marquisa iluminada Pelos refletores dos Reis Magos --E o Farol da Mãe Luiza. (Praia do Meio, 8 de Janeiro de 76)
Círculo De Giz
Por algumas mulheres transitei. Mas em nenhuma, juro, me detive. Filha de Catanduva, de Ninive, atendesse por Ângela ou Maria, Como não as amava, consolei em versiprosa que nada dizia.
Mas a você que, eu afinal, amei, me reflori e me tornei converso, a você que eu amei e multiamei, sonhei dar muito mais que amor em verso. Duas vezes apenas me flori Na estação do amor. Círculo de giz maravilhado, então, eu aprendi que o verso é inútil quando se é feliz e o poema só deflagra seus sinais quando um dos dois murmura "Não dá mais". Adaga ardente que me crava o dia, penetra o sono, fere o coração, compreende agora, meu amor, porque Tremia tanto que, por minha mão, florisse em verso triste a dor tardia eterna e inútil dessa confissão.
O pescador e vento À Luís Maranhão Filho, onde estiver, in memoriam da iinfância na Praia do Meio e da adolescência no Atheneu Numa canoa de sol A manhã me faz ao largo. À noite tiro meu peixe. Um pargo. Moreia Sete Dentadas Cortantes como rocega Vento Nordeste, na volta Me pega.
Ostra da arrebentação, Me lanha a tábua do queixo, Crava dente, tira bife Na gengiva do ar - recife.
Vento filho de uma grota, Como uiva. Aracati de uma figa, Como briga.
No Pontal do Sirigado Com seu chicote queimado Me surra.
Na Croa da Água Bela Com seu anzol de barbela Me fisga.
Desgraçado, toma umas & outras, morre a teu gosto Sopra o terral no seu buso Em agosto.
Dente ciso cariado, Cera do Dr. Lustosa, Japona, chapéu de palha,
Talagada de aguardente Com siri de tira-gosto, Tudo isso é bom encosto
Sudeste, vento aloprado. Desarruma qualquer rota. Dá nó na barba do mar, Entorta vôo de gaivota.
Vento ruim, bandoleiro, Sobrosso de terra e costa. Na Praia do Cotovelo, Já sem força no revólver
Dispara bala de vento. O tiro bate no ar, Ricocheteia na Lua, No relento se dissolve.
Na Ponta da Pedra Lisa Já de porre, Vira brisa, assovia Lento, morre. Numa rede de cem braças, Velha E suja, Fedendo a mijo de arraia,
Debaixo do cajueiro como qualquer um de nós Se enterra o Vento Na praia. (Barra do Cunhaú, RN, janeiro de 1976)
Teoria e lavra do soneto - Teoria
Campo de prova, rubra aciaria o soneto é metal em usufruto. Aro do só, dormida simetria, rosoblonga matriz, corpo soluto, não há como fugir à dessangria de gomos por ligar. País enxuto, aparente melão, sapota fria, sabe o soneto a rolha de bismuto. Reprensado em lagar, no decilitro comporta-se o soneto como arguto plantel de alternativa: mudo espia dirá do seu sabor o travo citro, do seu casto labor, vã iguaria; do seu peso infiel, inócuo fruto. |
Pés de frei Damião à Sanderson Negreiros e Carlos Lyra
Em repouso, já fora das sandálias, No estradinho com fronha e travesseiro Os pés de Frei Damião são retirantes Arranchados à sombra do ingazeiro. Revestidos de pó e couro cru, Palmilharam caatingas, arruados, Serrotes do sertão, adros de fé, Santas Missões de ex-votos e esconjuro.
Os pés de Frei Damião sem as palmilhas São ilhas de repouso merecidas, Varandas brancas, redes de dormir, Alpendres sertanejos, velhos pousos.
No estradinho , libertos das sandálias Os pés de Frei Damião soltos no pasto na madorna São dois jumentos livres da cangalha.
Os pés de Frei Damião no tabuleiro São ovelhas senis. Alvas marrãs De pêlo penteado a carrapicho, Já deram carne tenra e branca lã.
Rudes pés de aliança tão antigas... Viram sóis e luares, seus colapsos. Guiaram pelos céus as avoantes Das bênçãos, confissões, apocalipses.
Os pés de Damião, velhas rodagens Transportaram volantes de socorro A fazendas e sítios, cariris, Grotas de solidão, abas de morro.
Carmelitas Capuchos Franciscanos, Gerações de famílias caminheiras E de avoengos Adões espirituais Dormem nos cemitérios desses pés.
Os pés de Frei Damião são como a obra Da ema correndo pelo descampado, Preparando o sertão para o inverno, Limpando várzeas e comendo cobras.
Despidos das sandálias, no banquinho Os pés de Frei Damião, velhos vaqueiros Conduziram rebanhos bem guardados Pelas trilhas de aboio e cangaceiro.
Pias de carne e osso, velhas plantas De amor e fé em Deus itinerante, São água-benta, potes de matar A sede espiritual do retirante.
Espantalho do Cão com suas tretas Os pés lavados de Frei Damião São loções de limpeza e de esconjuro Vertidas na moleira do Capeta.
Já fora da bainha das sandálias Os pés exaustos de Frei Damião São ainda punhais, santas peixeiras Cravadas no vazio do Bandalha.
Onde não chega a luz da Prefeitura Nem o luar a gás dos candeeiros, As plantas de Damião em terra escura Deram safras de velas nos Cruzeiros.
Trilha agreste de cacto e xiquexique, Via Sistina no sertão dos rudes, Os pés de Frei Damião com as alparcas São aguadas, marrecas nos açudes. Do cafundó à costa das salinas, Nos carneiros e lousas desses pés dormem as velhas gerações meninas De um Brasil de apragatas e buréis.
Chão de mocó e vale da caiana, As solas de Damião no massapé Cresceram como partidos de cana, Deram o de vestir e o de comer.
Os pés dormentes de Frei Damião São velhos alquebrados; são os cacos Das moringas, já secas, dos cassacos, Espalhados e inúteis pelo chão.
Os pés de Frei Damião já foram bilros Tecendo renda fina de almofada Pela mão das rendeiras. Alugados Preparando leirões com as enxadas.
Os pés de Frei Damião são horizontes De arribaçãs voando em formação, Tesouras recortando vento Leste, Asas do agreste, pios do sertão.
Os pés de Frei Damião são caritós Filhas da Imaculada Conceição, Enfeitando presépios de Natal, Ensaiando lapinhas de São João.
Os pés de Frei Damião são camorins Desovados na calma das gamboas, Guiando seu cardume de filhotes Pelas bocas do mar, rumo ao Sem-Fim.
Arca da boca apenas com dois sisos, Os pés de Damião são Lázaros velhos Vestidos de silêncio, já chegados À casa do Senhor, para o Juízo. Sem o porém das meias e o conforto Das sandálias de couro de carneiro, Os pés de Frei Damião são sesmarias, Horto dos simples, porto do romeiro.
Carregados das marcas e dos selos Das topadas e lanhos recebidos No serviço de Deus; e da carícia Dos ungüentos dos dias percorridos,
Filhos já velhos de Nosso Senhor Na modéstia infinita do cansaço, Os pés de Frei Damião adormecido, No tabuleiro caminham no andor. |
Juvenal Antunes, poeta
Juvenal
Antunes de Oliveira é do Ceará-Mirim, onde nasceu, de
importante família, em 29 de abril de 1883, falecendo em
Manaus, em 30 de abril de 1941. Tornou-se advogado e fundou um
jornal A Capital, que teve boa repercussão na
cidade, no qual foi publicado o célebre depoimento
"Como tenho vivido", de Ferreira Itajubá. Irmão
da memorialista Madalena Antunes Pereira, com ela manteve
terna e bem-humorada correspondência, quando se viu forçado a
mudar para o Acre. Esmeraldo Siqueira transcreveu parte da
mesma no seu importante ensaio biográfico Um
Boêmio Inolvidável. Suas irreverência e boemia
determinaram a mudança de Estado e o fato é que
Juvenal pertence hoje às duas literaturas. O seu talento
pode ser medido pelo clássico "Elogio
da Preguiça", onde se revela um humorista
especialmente dotado.
O maior entre os que exploraram a vertente do humor.
(Tarcísio Gurgel in Informação da Literatura Potiguar - Natal. 2001)
A verve de Juvenal Antunes tem o sabor das coisas vivas e originais, um não sei que de esquisito e delicioso como o gosto das frutas silvestres apanhadas e comidas no mato.
(Esmeraldo Siqueira in Assis Brasil, A Poesia Norte-Rio-Grandense no Século XX - Natal, 1998)
Siqueira disse isso quando de seu discurso de posse na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, cadeira de que é patrono Juvenal Antunes, acrescentando, em síntese, um vivo perfil do poeta: "Verso ou prosa, essa verve nos ressucita o seu autor, no-lo desvendando tal qual era, refratário ao maneirismo, sem poses nem solenidades acadêmicas, homem tão só, inatingível e espontâneo, na sedutora naturalidade dos gestos e atitudes".
Rômulo Chaves Wanderley o chamava de "admirável poeta" e se referia aos poemas que Juvenal Antunes dedicou à sua amada Laura, fazendo um paralelo com as amadas, também inatingíveis "pelas leis dos homens", de Camões (Natércia) e de Ferreira Itajubá (Branca). Laura, "mulher que parece ter sido sempre a Desejada e nunca a Possuída". Versos ternos, alegres, em contraste com aveia satírica de outros poemas.
Apesar da paixão fervorosa, o poeta "viveu e morreu solteito". O nascimento se deu no engenho Oiteiro, no Vale do Ceará-Mirim, no Rio Grande do Norte. Os estudos avançados foram feitos no colégio Partenon, no Recife, onde se formou em Direito em 1902. Nos encargos da profissão de advogado, vai fazer muitas viagens, começando a carreira no interior do seu Estado, a cidade de Assu, onde foi promotor.
Depois outras viagens ao extremo Norte do País, Rio Branco, no Acre, onde escreve os versos de Acreanas, publicado em 1922, seu segundo livro de poesia, tendo estreado em 1908 com Cismas. Prepara o livro de Laura, entra a agitação da "vida inquieta e boêmia", as viagens e as visitas de nostalgia à cidade natal, onde se sentia como uma "cigarra".
Obra poética precisando de reedição, juntamente com o livro inédito, Juvenal Antunes tem sido lembrado pelos antologiadores po[eticos de sua época, em destaque a antologia mais recente, Poesia circular, de 1996. O poeta foi colhido pela morte em Manaus, no dia 40 de abril de 1941.
(Assis Brasil in A Poesia Norte-Rio-Grandense no Século XX - Natal, 1998)
"O poeta papa-jerimum, Juvenal Antunes, autor do Elogio à Preguiça e dos poemas à sua musa Laura, que chifrava o marido no Beco do Mijo, era ainda o promotor público que recebia os vencimentos por exercícios findos. O Juvenal era hóspede eterno do Hotel Madrid, recebia por fora do quadro e só pagava hospedagem no fim de cada ano: era a atração do hotel, comendo, bebendo e pagando noitadas no fiado".
(Elson Martins in O livro maldito de um acreano devasso, que conta a história de Océlio de Medeiros)
Aula de Aritmética, por Armando Nogueira
Férias. Quem nunca tirou não sabe como é bom. Quinze dias de contemplação, manso sinônimo de preguiça. Conheci um poeta chamado Juvenal Antunes. Minha conterrânea Glória Perez sabe de quem estou falando. O poeta Thiago de Mello, também sabe. Juvenal passava o dia a recitar versos, quase sempre, cantando a beleza de Laura, a musa inspiradora de sua aventura poética. A voz esganiçada ressoava pelos barrancos do rio Acre: "
... Perdoa, Laura, o meu atrevimento
Lê esta carta, rasga e solta ao vento!"
Sem a lira de Juvenal Antunes, eu não teria saco pra enfrentar a cara de fuinha do professor Ernani. A aula de aritmética do professor Ernani era o grande suplício de minhas manhãs. Menos mal que minha vizinha de carteira era a morena Isabel, em cujos cabelos longos, lisos e lustrosos eu me refugiava da chatice elevada ao quadrado do professor Ernani. Que Deus o tenha!
Nas curtas férias que acabo de gozar, evitei sempre conversas de esporte. Não dava nem pra ouvir falar de futebol. Estava cheio de ver tanta bola no ano de 2001. Cheguei a pensar em sair de bigode postiço e peruca. É natural: neguinho te vê, se lembra da televisão e quer logo saber se o Juninho vai dar certo no Flamengo.
Quando pousei em Parati, outro dia, o guarda-campo me perguntou do Felipão. Respondi que não era quem ele estava pensando. Somos muito parecidos. Há até quem diga que somo gêmeos. Na verdade, nem nos conhecemos. Disse que me chamo Almir, que sou botânico de profissão. E fui logo engrenando uma segunda: meu ramo é outro. Cuido de flores. Vendo mudas de buganvília, exporto bromélias pra Europa e orquídeas pros Estados Unidos. O mais engraçado, digo eu, é que somos iguais fisionomicamente, mas muito diferentes em questão de gosto: eu não ligo a mínima pra futebol.
Na curtição da minha honrada vagabundagem, volta e meia, eu me lembrava do poeta boêmio que escandalizava a cidade de Rio Branco, com seu robe-de-chambre de florões e seus pileques de gin com vermute, a declamar poemas na porta do hotel Madrid. Juvenal Antunes era Promotor Público, mas nunca aparecia no trabalho. Tinha tanto horror ao Fórum quanto eu ao colégio. Acabamos tendo outra afinidade: eu também fiquei apaixonado pela doce Laura que nunca fiquei sabendo quem fosse. Com uma pequena diferença de sorte: o que seria o meu primeiro ardor amoroso, puro devaneio, seria o derradeiro de Juvenal Antunes. Ele morreria pouco tempo depois, de melancolia. Em Juvenal Antunes, descobri a cadência musical de um verso decassílabo:
"Em tudo, me dás vida e me engrandeces
E te vejo mais linda a cada passo."
Com ele, aprendi, ainda, a preciosa lição de que, seja qual for o destino à tua frente, uma aula de aritmética, um caso de amor mal parado, haverá, sempre, um sopro de poesia pra apaziguar teu coração.
Nesta primeira crônica de volta ao trabalho, repito, em louvor das férias findas, os versos que Juvenal Antunes recitava, como se fosse pra mim, quando eu, desconsolado, ia pra mais uma aula de aritmética:
"Bendita sejas tu, Preguiça amada
E não consintas que eu me ocupe em nada."
Elogio da Preguiça
Bendita sejas tu, Preguiça amada,
Que não consentes que eu me ocupe em nada!
Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.
Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.
Lá esta, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã.
Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.
Ó sábios , daí à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento!
Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em na paz, preparar a luta, a guerra!
Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões!
Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas.
Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas...
Cresce o teu filho? É belo? É forte? É loiro?
- Mas uma rês votada ao matadouro! ...
Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz,
Que arda, depressa , a colossal fogueira
E morra assada, a humanidade inteira!
Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente?
Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?
Queres riquezas, glórias e poder? ...
Para que, se amanhã tens de morrer?
Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro,
Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens?
Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas!
Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras!
Ó Laura, tu te queixas que eu, farcista,
Ontem faltei, à hora da entrevista,
E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor - por outro amor...
Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal.
Que me não faças mais essa injustiça! ...
Se ontem não fui te ver - foi por preguiça.
Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir... sonhar ...
(Cismas, 1908)
Laura
Falam de ti, de mim, de nós ... Quem há de
Tentar fechar as bocas viperinas?
Cada dia, mais cresce a intensidade
Do meu desprezo às almas pequeninas.
És a maior de todas as heroínas,
Com esse desdém e essa serenidade!
Que eu beije sempre as tuas mãos divinas
Minha dor! Meu prazer! minha saudade!
Façamos deste amor um relicário,
A pirâmide, o túmulo, o sascrário,
Onde a nossa paixão seja guardada!
Vamos, Laura, assim por toda a vida!
E, embora nunca sejas a Possuída,
Para mim, sejas sempre a Desejada!
(O livro de Laura - inédito)
Iracema Macedo, poeta
Iracema
Maria de Macedo Gonçalves da Silva nasceu em 27 de junho de
1970, em Natal, Rio Grande do Norte. É poeta e professora de
Filosofia. Cursou licenciatura em Filosofia na Universidade
Federal do Rio Grande do Norte. Em 1991, em parceria com os
poetas Eli Celso e André Vesne, teve seus primeiros poemas
publicados na coletânea Vale Feliz.
Em 1995, participou da coletânea Gravuras com os mesmos autores. Nesse mesmo ano, defendeu dissertação de mestrado na Universidade Federal da Paraíba com o tema Idealismo e Amor fati na estética de Nietzsche.
Em 1998, publicou poemas na coletânea Ceia das Cinzas, ainda em parceria com Eli Celso e André Vesne. Atualmente cursa doutorado em Filosofia na Unicamp. No ano 2000, publicou seu primeiro livro individual, Lance de dardos, que reúne poemas inéditos e poemas publicados anteriormente.
"O diapasão personalíssimo da poesia de Iracema Macedo vem chamando a atenção de poetas consagrados , como Paulo de Tarso Correia de Melo."
(Nélson Patriota in A Poesia Norte-Rio-Grandense no Século XX - Natal/RN,1998)
"Com um forte domínio da linguagem poética, usando um contundente vocabulário cotidiano, sem ser prosaica, Iracema Macedo faz uma síntese das suas preferências temáticas, ou seja, "Quero que a minha poesia não seja gratuita, quero que ela me desafie todo o tempo./ Um dos meus grandes desafios é justamente colocar a marginalidade e a loucura dentro da beleza poética, como aventuras terríveis e fascinantes".
Elogiada pelo poeta Paulo de Tarso Correia de Melo, que conheceu a sua poesia através de concursos literários, participante como jurado, Iracema Macedo prepara o lançamento de um novo livro, Asa inacabada, de parceria novamente com Eli Celso e André Vesne."
(Assis Brasil in A Poesia Norte-Rio-Grandense no Século XX - Natal/RN, 1998)
"De todas as integrantes do grupo de que fazem parte Marize (de Castro), Nivaldete (Ferreira), Diva (Cunha), Clotilde (Tavares), embora sendo de uma geração posterior - ou talvez por isso - é a que mais fortemente utiliza a condição feminina para falar, talvez fosse mais certo dizer: gritar, liricamente. Mulher, que consciente da sua libido e nela investindo sem culpa, nem por isso abre mão de refletir sobre a miséria da condição humana, deixando claro que percebe com olhar de extrema sutileza, mas palavras deliberadamente chocantes, a hipocrisia do comportamento humano, especialmente na utilização de certos signos místicos."
(Tarcísio Gurgel in Informação da Literatura Potiguar - Natal/RN, 2001)
Poesias:
Vale Feliz, coletânea, ed. dos autores, 1991, Natal/RN.
Gravuras, coletânea, ed. dos autores, 1995, Natal/RN.
Ceia das cinzas, coletânea, ed. Boágua, 1998, Natal/ RN.
Lance de dardos, edições Estúdio 53, 2000, Rio de Janeiro
Obras acadêmicas:
Idealismo e Amor fati na estética de Nietzsche. 1995, inédito.
Nietzsche, Wagner e a época trágica dos gregos. 2000, inédito.
Prêmios:
Prêmio Othoniel Menezes, 1992, Prefeitura Municipal de Natal.
Prêmio Myriam Coeli, 1992, Fundação José Augusto, Governo do Estado do RN.
Prêmio Auta de Souza, 1994, Fundação José Augusto, Governo do Estado do RN.
Agosto
Como um hiato às voltas com o escuro pulsa o meu poema e vibra frio vidro estilhaçado numa ameaça de espanto que me ronda Como uma espécie de arma, como um músculo o meu poema me cerca com gargalhadas de doido com esperanças de cura Ele me assusta me segura me defende com uma mão de fantasma contra a morte O meu poema é um cio, uma dor que me cuida um cão, uma mãe que canta um corpo moreno e luta
Canção de amor para uma moça judia
Conheço Rosinha Palatnik por um único retrato de louça que vive no cemitério entre os túmulos judeus Morreu em 1936 aos vinte anos de idade e há sobre a lápide letras em hebraico que não decifro
Talvez suicídio, talvez outra sorte De qual morte morreu essa moça judia que não morre? De qual vida ela vive naquele retrato de louça que mais parece de carne E por que vem assim semear-me no meio da tarde?
O que te devo, mulher, o que queres? Viveste na minha cidade e queres ainda viver por mim, por meus olhos por minha carne de homem boca lábios ouvidos e queres ser uma música
Te vejo em muitos lugares sempre dentro da retrato presa e viva, branca e morta Que queres, mulher, tanto tempo depois do tempo em que houve calor para ti no mundo? Que queres da tua janela de vidro com o teu corpo de cinzas
Não me faças desejar-te assim Tu que não tens mais carne para o meu desejo nem sequer seda de vestido que eu toque nem um corpo nem seios só o retrato frio na lápide Que amor terrível é este que me trazes? |
Dandara
Eu só acreditava em Drummond: o amor chega tarde Não conhecia o amor que fulgura sem aviso esse que se sabe proibido o amor que já se sabe perdido desde o início Eu não acreditava no impossível vinha tão sóbria, tão cheia de medidas não conhecia o esplendor da queda nem a violência dos abismos
Resposta ao anjo Gabriel
Agora que aprendeste a incendiar-me e me adivinhas inteira dentro do vestido agora que invadiste a sala e o chão de minha casa agora que fechaste a porta e me calaste com teus lábios e língua peço-te afoitamente que me faças assim ínfima e sagrada muito mais pornográfica do que lírica muito mais profana do que tântrica muito mais vadia do que tua
A víbora doidinha neste recinto
Vê como se apressa a pequena víbora como se afoita nas brechas e fria se rende ao cálio buraco? Ou então, meu Deus, atrás dos quadros atrés das velhas mães emolduradas no verso das paisagens penduradas Percebe como a vibora se aquece?
Quanto me quis por tantas horas raiz viva da víbora ligeira o supremo princípio dessa avidez esquecida e a sutil chama fria a transgredir as paredes E assim cinzamente alvoroçada passar por aqui num ímpeto de silêncio fugidio (mais nada)
Ah de víboras e asas vou compor meu mel para comer com o pão desta vida a brasa.
Destino
Matei o gato, mamãe, matei o gato mas o gato, mamãe, não morreu passou o resto da vida atravessando a sala ensangüentado Dona Chica não se espantou e disse em tom muito sábio: Esse bicho, Marília, não morre nunca ou você foge ou finge suportá-lo |
Bartolomeu Correia de Melo, contista
Maior revelação do conto
potiguar, nas últimas três décadas. Bartolomeu Correia de Melo
surgiu cinquentão, quando já bastante conhecido como
pesquisador e professor de Química. Seu livro de estréia -
"Lugar de estórias" foi laureado com o prêmio Joaquim
Cardozo/1977, da União Brasileira de Escritores, e teve duas
edições, quase simultâneas - EDUFRN, Editora da UFRN, Natal,
1988 e Xeroz do Brasil, Recife, 1998.
Desde 1966,BCM vinha escrevendo, nas horas vagas, histórias várias, que engavetavasem pensar em publicá-las. Até que, como ele prórpio disse, com muito senso de humor, "se viu na vez de mal-aposentado (ETFRN, UFPE e UFRN). Aí, por tristeza e descostume de vadiagem quase-quase amofinou-se. Ser biscateiro ou vereador, desapetecia. Cuidar da fazendola "Águas de Março", enchia o tempo sem encher a cabeça. Então, palpitou desencavar a retraçar alguns contos cometidos no correr da vida, afagando as saudades do Ceará-Mirim. Daí que apareceu "Lugar de Estórias" (...)
Ceará-Mirim é o seu país sentimental, fonte inesgotável de inspiração. Nas terra dos canaviais, de tantas tradições, o autor encontraráos cenários e os personagens de sua infância, com os quais contrói suas estórias simples, que o autor sabe explorar como poucos.
Bartolomeu Correia de Melo nasceu em Natal, no dia 7 de março de 1945. "Foi uma criança terrível e adolescente abominável". Confessa e acrescenta: "Desasnado por padres salesianos e formatado por irmãos maristas, logo cedo, coitado, converteu-se ao Magistério".
É graduado em Farmácia (UFRN), com pós-graduação em Físico-química (UFPE e USP). Escreveu trabalhos científicos e pedagógicos, publicados em revistas especializadas, nacionais e estrangeiras.
Quando lançou seu livro de estréia, jurou ser "primeiro e derradeiro". Felizmente, quebrou a jura. Em 2002, publicou nova coletânea - "Estórias Quase Curtas" Edições bagaço, Recife), de grande unidade temática e formal, como a anterior, e dentro do mesmo universo ficcional.
Bartololeu Correia de Melo é casado com Verônica Marques, com quem teve três filhos, Bruno, Ana Cláudia e Ruth.
(Manoel Onofre Jr. in Contistas Potiguares, Sebo Vermelho edições, 2003)
A pegha
"Chegou bem cedinho.
Trazia a fome malenganada e a gaiolinha de carnaúba. No olhar pidão, uma esperança buliçosa. Nunca pisara na feira dos pássaros como freguês nem como vendedor. Vez perdida, somente apigorando, pouco se demorava. Meio encabulado, fingia interesse no vai-e-vem do passarinho. Um pega. Pretume azulando rebrilhos ariscos entre os palitos. Ninguém reparou neles.
Arranjou boa vaga na beira da calçada. Ajeitou caprichoso a a gaiola, entre um galo-de-campina brabo e um sabiá tristonho.Nem se comparavam com a esperteza mansa de sua peguinha. mais confiado, cruzou os braços magrelos, crendo fazer pose de passarinheiro. Gaiolinha barata entre os pés descalços, marcando pertença. Vigiava quieto os passantes, buscando adivinhar comprador. A pega acomodou-se no poleiro, arrulhando baixinho, que nem rolinha cabocla. A fome não sossegava. (...)"
(Trecho do conto A Pegha/São Paulo, 1977)
Xandenguinho
Xandenguinho, zinho mesmo, quase anão. Calunga de joão-redondo, cagado e cuspido. Nunca perdeu dentes-de-leite nem ganhou barba naquela carinha encerada. Afora a timba umbiguda, as carnes chupadas não enchiam um pastel.
Até o apelido era nominho: Quito. Nesse, atendia contente e servidor. Mas, na vez de Menino-velho, o destempero da xingação gasguita mexia nas partes da mãe de quem chamou. Porém, dessem algum cabimento, punha-se em lérias e macaquices; seu jeito de agradar e agradecer.
Nada tinha da lerdeza sonsa do amarelinho de anedota. Mas, que ninguém tirasse aquilo por leseira. Não era manco do juízo, não; só assim meio entrevado das idéias. Mas isso não chegava a defeito. Pelo menos, para quem dele patrão fosse. Cabrinha bom pra cumprir, ali na risca, qualquer tarefa. Nunca fazia diferente do mandado, por carecer maginação pra tanto. Por demais malasnado pra mentir ou preguiçar. Até cisma de tristeza lhe era dificultosa. Por qualquer prosa, logo risonho se desmesmava. Mas nem sempre estava assim desinquieto e falastrão. Por vezes, mostrava lunduzinho de honesta teimosia, quanto a coisas de obrigação e honra.
Quem visse, nunca diria. Quito era pau-pra-tudo! Haja disposição; tirada donde, ninguém informa. De botar galão d'água a cavar leirão; de partejar vaca a capar barrão, o cujinho dava conta. E parecia azougado, na prontidão dos quefazeres. Tinha ligeireza como segunda qualidade. Por desocupação, se amostrava capaz de pegar guiné na carreira e pescar piaba de mão.
Pela hóstia, que era.
Val, artista plástica
Valdeci Gomes Alcoforado de Lucena, natural
de Natal/RN, jornalista e artista plástica, é tratada, por quem
a conhece, apenas por Val.
Desde 1982 que ela se dedica à pintura, aprimorando a sua arte em cursos livres e de extensão. Com formação em estilo acadêmico não só em telas como também em porcelana, tem se dedicado ainda ao trabalho contemporâneo, utilizando as técnicas de óleo sobre tela e tinta acrílica sobre tela, além de misturar elementos como texturas, cordas, jutas, pedras e outros. A característica dos seus trabalhos são os tons de cores fortes e de muita luz.
Participou de várias exposições coletivas e salões nacionais. É sócia fundadora da APPRN - Associação dos Pintores de Porcelana e Tela do Rio Grande do Norte, de onde já foi presidente e atualmente faz parte da junta que a dirige. Participa há 11 anos de todas as exposições da Associação, não só em Natal como em diversos outros estados. Ultimamente, participou de uma exposição coletiva em Nova Friburgo, no Rio de janeiro (maio de 2004) e outra coletiva do Núcleo de Arte e Cultura - NAC/UFRN, também, em 2004 (junho e julho).
Está com exposições programadas para Natal (agosto), João Pessoa (agosto), Maceió (setembro) e Salvador (setembro e outubro).
Assis Marinho, artista plástico
Assis Marinho (PB, 1960 - ), nestes últimos anos de seu trabalho artístico, quase nada mudou. A mesma técnica (lápis, cera ou aquarela), as mesmas figuras, a mesma determinação de recriar as origens vividas entre o rio e o mar, nesta faixa de mangue das margens da cidade ou da paria da Redinha.
Sua pintura fixa de preferência os pescadores, feirantes, catraieiros, mangaieiros, barqueiros, numa biotipologia fantástica e de surpreendentes efeitos realistas.
Olhos da miséria que nos olham de frente, mãos e pés deformados pelo trabalho árduo e, o que é mais surpreendente, o gestual expressivo dos personagens criados por Assis Marinho, numa atitude de tácita submissão. Dobrados sobre si mesmos, amparado na mesma compulsão generosa.
Assis identifica-se com seus personagens, Ele mesmo personagem e drama desse enredo da margem do rio ou da periferia urbana. Da lama mais escura do mangal, da cor mais cinza dos crepúsculos sobre o rio Potengi, emergem os seus quadros que só poderiam ser assim sombrios, fortemente riscados, traço e cor num só torso. Traço e alma num só homem. E Assis pinta a catástase de um impulso inevitável. Doação permanente. Sem revolta, sem panfleto, sem doutrina, sem romantismo. A cor e o traço da destinação humana. Forte, vigoroso, autentico. Porque, nele, fala mais alto o dom da poesia. O menino de praia, que não conhece tratados de estética, dá lições de proporção. O menino de praia, que não conhece anatomia nem "a proporção áurea de Leonardo da Vinci", transmite em seus quadros definições anatômicas que dispensam comentários.
Assim é que ele, sem conhecer a obra magistral de Cervantes, pinta Quixotes e Sanchos nativos, ricos de sabedoria popular. Por isso, é que não se tem explicação. A Arte não deve nem pode ser explicada. Razões subjetivas e poderosas fazem aparecer o artista. Magia ou ancestralidade. A verdade é que, em alguns de seus quadros, Assis lembra o estilo dos expressionistas alemães. Em alguns aspectos, aproxima-se de Nolde e de Kokoschka, pintores de quem Assis talvez nunca tenha ouvido falar. mas é assim que os seus quadros ficarão na galeria das obras feitas com sensibilidade.
Dorian Gray Caldas in Artes Plásticas do Rio Grande do Norte, editora Universitária - UFRN,
"Assis Marinho tem demonstrado, pela análise da evolução de seu trabalho, um aperfeiçoamento e uma simplificação cada vez maior no sentido de adequar sua mensagem à realidade dos nossos trópicos. Seus trabalhos, de intensa dramaticidade, exploram o traço do desenho como pintura; recriados em insistentes momentos, como se o artista, ao reforçar o traço que descreve no papel a violência de sua mensagem, desejasse gritar pelos seus personagens." - Iaperi Araújo - membro a Associação Brasileira de Críticos de Arte
"O pintor Assis Marinho tem construído uma obra baseada no registro de cenas hodiernas das pessoas simples do interior em seu trabalho e em suas festas. Como Newton Navarro, Assis Marinho adapta para o contexto sertanejo ou praieiro temas religiosos como São Francisco e a Ùltima Ceia." -Vicente Vitoriano in Introdução à cultura do Rio Grande do Norte - editora Grafset, 2003
Assis Marinho participou de dezenas de exposições individiais e coletivas no Rio Grande do Norte e em São Paulo. As principais:
- Galeria do Povo - Mostra Livre - Natal/RN - 1977
- Prêmio de pintura Newton Navarro - Galeria de Arte da Biblioteca Pública Câmara Cascudo - Natal/RN - 1979
- 16 Artistas Potiguares - Galeria de Arte Lula cardoso Aires - Palácio Capibaribe - Cais do Apolo - Recife/PE - 1982
- Museu de Arte Comtemporânea - MAC - São Paulo/SP - 1983
- Mostra Livre Praça da República - São Paulo/SP - 1979
- Casa da Cultura de Votuporanga - Votuporanga/SP - 1979
Palmira Wanderley, poetisa e teatróloga
"O
maior poeta feminino do Nordeste." - Tristão de Athayde
"Um sabiá que tivesse as penas de ouro." - Andrade Muricy
Pioneira do jornalismo feminino norte-rio-grandense, Palmira dos Guimarães Wanderley fundou, juntamnente com um grupo de poetisas e escritoras de sua época, a revista Via Láctea, primeira publicação no Estado editada só por mulheres, e que circulou entre 1914 e 1915. Desde jovem, colaborou com poemas, crônicas, discursos e saudações nos jornais "A República", "A Ordem", "Diário de Natal " e "Tribuna do Norte", todos estaduais. Essa atividade se extendeu a publicações de outros estados, como os jornais "A República", "A União", do Rio de Janeiro, a "Revista Moderna", de São Paulo, "Paladino do Lar", da Bahia, "Estrela", do Ceará, entre outros.
Poetisa, oriunda de uma família potiguar com forte tradição intelectual, estreou em livro em 1918, com Esmeraldas. Seu segundo livro de poemas, Roseira Brava, publicado em 1929, recebeu menção honrosa no Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, em 1930. Palmira fez a leitura desse seu último livro na Academia Pernambucana de Letras, sendo publicado por "A Revista da Cidade", do Recife. O livro também lhe valeu a seguinte referência do escritor e crítico Tristão de Athayde: "O maior poeta feminino do Nordeste."
Para o teatro, Palmira fez representar em 1924 a opereta "Festa das Cores", composta de dois atos intitulados "A Glorificação" e "Coroação da cor verde". Deixou várias obras inéditas, entre as quais Neblina da Vidraça (versos); Panorama Histórico (poesia e prosa); O Sonho da Menina Sem Sonho (teatroa); Rosa Mística (versos); Sutilezas Femininas (crônicas).
Na poesia de Palmira Wanderley, comenta Veríssimo de Melo "há momentos de indiscutível beleza, apesar dos versos de circustância que escreveu às centenas. O preciosismo na forma, tão ao gosto dos poetas parnasianos, é outro traço característico da sua poesia".
(Deífilo Gurgel e Nélson Patriota)
Obra:
Esmeraldas (versos) - 1918
Roseira Brava (versos) - 1929
Outros nomes nacionais, consagrados, se manifestaram sobre a poesia de Palmira Wanderley, principalmente sobre seu livro Roseira Brava, publicado em 1929 e sempre citado como tendo conquistado uma Menção Honrosa em concurso da Academia Brasileira de Letras em 1930. Na linha da crepuscular poesia romântica, os elogios acadêmicos vieram de Adelmar Tavares e Olegário Mariano.
Mas outros nomes, como os de Alberto de Oliveira, Hérmes Fontes, Luís da Câmara Cascudo, Medeiros e Abuquerque, Múcio Leão, externaram também a sua encomiástica opinião. Assim, Palmira Wanderley teve o seu momento de palco no restrito "gueto" cultural da província e com aquela oportuna referência da ABL, alguns escritores se lembraram à época de seu nome.
Ela nasceu em Natal no dia 6 de agosto de 1894 e moreu na mesma cidade no dia 19 de novembro de 1978. É tida como autodidata, mas adquirira boa cultura através de leituras. Prima e amiga de Carolina Wanderley, "marcaram época nas tertulias literárias do Palácio Potengi", segundo depoimento de Maria Eugênia. Palmira era a declamadora, "a brilhar nos recitais da poesia". Também conferencista, defendia "causas sociais e religiosas, verdadeiras peças literárias de teor filosófico e poético".
Incluída na antologia de Manoel Onofre Júnior, Guia Poético da Cidade do Natal (1984), o escritor aponta-lhe a delicadeza do estilo, "caracteristicamente feminino" e "a perigosa tendência para o uso de clichês". E reconhece, no seu livro Roseira Brava (reeditado com "Outros Versos" em 1965), as "pretensões modernistas", que não camuflam a "poesia acadêmica". E acrescenta: "Mas há composições rimadas e metrificadas de valor inegável", em destaque o soneto "Pitangueira", "que João Ribeiro considerou primoroso".
Entre seus pares, Jorge Fernandes, João Lins Caldas, Otoniel Menezes, a poetisa procurou dar o seu recado poético, numa já prolongada época de transição entre o passado e o presente poéticos.
Alguns pseudônimos usados por Palmira: Mirthô, Li Lá, Masako e Ângela Marialva
Trovas
As frutas que recebi De tuas mãos milagrosa, O amor mudou, por milagre Num ramalhete de rosas.
Um passarinho no laço Prendi com satisfação ... Qualquer dia estou prendendo Teu amor na minha mão.
Outro dia, meu amigo, Um rico mimo te dei ... Peço agora que me voltes O beijo que te mandei. (Roseira Brava - 1929)
Nordeste
Que mais feliz o teu destino fosse Do que sujeito ao sol que te consome, Pedes na seca a esmola de água doce E um pedaço de pão porque tens fome.
Sumiu-se a voz do boiadeiro mudo. Secaram as fontes que aleitavam o rio. Nos desespero de quem perde tudo Fecha a porteira do curral vazio.
Teus lábios racharam, ao travo das raízes. Carregas o destino de infelizes, Rasgando os ombros nus nos espinheiros ...
Enquanto arquejas, maltratado, langue, A terra tísica vai golfando sangue, Pela boca vermelha cos cardeiros. (Roseira Brava e Outros Versos - 1965) |
Alecrim
É verde, é todo verde como o sonho Que faz verde a minha alma. Parece que Jesus entrou, lá no Alecrim, Levando no ombro a palma Num domingo de ramos E verde ele prospera Como se fosse o recanto Da fada da Primavera ... E cheira! E cheira tanto! Mais cheiroso não há, nem mais ameno, Recende a malva-rosa, a macassar, A cravo branco aberto no sereno, Na panela de barro, Na beirada da casa. Cheira mesmo a alecrim bento, A alecrim da Paixão, Que enfeita na quaresma o Bom Jesus dos Passos No andor da procissão. É o bairro da samba, da folia, Das adivinhações e da magia, Das promessas de fitas, Dos fandangos, dos leilões! E das velhas latadas de maracujá, Das modinhas antigas, Cantadas nos terreiros lá de cima, Ao som dos violões de acorde certo! Das saudosas latinhas de Itajubá, Das serenatas de Deolindo Lima, Das morenas formosas de Gotardo Neto; Do par de namorados, Conversando encostados, Nas cercas de melão cheias de flor, Entre beijos furtados E promesas de amor. |
Celso da Silveira, poeta
"Celso
da Silveira merece também um lugar na imortalidade. Tem todos os
méritos. Tem uma obra. Um trabalho digno de respeito. É um
escritor, é um poeta, será o que quiser."
Dorian Jorge Freire
Nasceu em Assu, RN às 9 horas do dia 25 de outubro de 1929, sendo filho de João Celso da Silveira e Mariazinha Dantas da Silveira. Foi menino "levado", inquieto, peralta, traquinas, desassossegado. Típico menino de rua sem o sentido pejorativo de criança abandonada. Mas, criança carente de aventuras: jogo de bola de meia, queda de corpo, enpinar papagaio com linha cerol, encher balão Junino, na Matriz do padroeiro da cidade nos meses de junho, e de furar um buraquinho no papel de seda para que ele queimasse antes de ultrapassar a torre do "carneirinho" da igreja de São João Batista. E mais: sua grande farra era brigar com a meninada e em casa, ter estória para contar.
Uma vez, com seu amigo Bezerrinha (Antônio Bezerra de Gouveia - vizinho) sugeriu plantarem juntos um pé de farinha com açúcar preto, para terem o que lanchar sem tirar dinheiro escondido dos pais.
Cresceu, estudou no colégio das freiras, migrou para Fortaleza e foi fazer Admissão ao Ginásio no Colégio Castelo Branco da Arquidiocese. Fez-se ajudante de missa e bençãos de maio, a fim de usufruir de licença para comprar hóstias no Seminário de Prainha. No caminho vinha, aqui e ali, degustando as bolachinhas que iam ser o corpo e vida de Cristo depois de benzidas pelo celebrante.
Voltou ao Rio Grande do Norte, formou-se em Jornalismo, exerceu a função e por ela chegou ao ponto em que se encontra - professor de Comunicação aposentado, autor de 38 livretos, amigo e estimado por todos que o conheceram na convivência do bar ou do trabalho.
Este é o retrato como gosta de ser conhecido na cidade do Natal.
(in Celso da Silveira - Seleta de Causos - coleção Mossoroense, 2002)
Também daquela faixa algo heterogênea, do ponto de vista estético, embora todos praticantes do verso livre, com alguma incursão na temática regional, Celso da Silveira faz a sua estréia poética já na década de 1950, com 26 poemas do Menino Grande (1952). Daí em diante, colaborando nos jornais de Natal e com militância jornalística (primeiro assessor de Imprensa do governo Aluízio Alves), só voltaria a publicar livro de poesia em 1961, com imagem virtual, de parceria com Myriam Coeli.
Mais de 20 anos e passam até Celso da Silveira retomar a publicação de seus livros de poesia, Memorial do Grande Ponto (1983), Poesia Agora (1984), No reino da aresia (1987). Na metade da década de 90 publica mais três livros, Eu, pecador (1992), Versicanto (1992) e Trovas (19993). O poeta também incursiona por outros gêneros, do ensaio literário às narrativas, sendo que na prosa de ficção é elogiado como "excelente contador de estórias" e "insuperável contador de causos".
Presente em várias antologias poéticas, as mais recentes, Um dia a poesia (1996) e Poesia circular (1996), tendo passado pela direção da Tribuna do Norte, Jornal de Natal e rádio Cabugi, Celso da Silveira pertence à Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, e se orgulha, segundo ele próprio, de dois títulos: o de Melhor Ator do Segundo Festival Nortista de Teatro Amador (Recife, 1956), e o de Asinus Minor, do Clube Mundial dos Jumentos - Primeira Cocheira Iguatutiva, concedido pelo padre cearense Antônio Vieira, autor do livro O jumento, nosso irmão.
(Assis Brasil - in A Poesia Norte-rio-grandense no Século XX)
Epitáfio
Aqui jaz o poeta e não o canto que dele foi deflagrado como a flecha de um arco. Em cada intercessão do trajeto alcançado inércia e movimento ganham o mesmo compasso. Paro e passo, paripassu o canto e o silêncio para sempre viajado. (Poesia Agora - 1994)
Égua no pátio
A égua cardã flutuava no plano plano do pátio. As patas de luz tocavam os extremos de outras patas invertidas no chão molhado, assim como refletisse o animal no espelho. - Como se fosse o animal um objeto levitado. (Poesia Agora - 1994) |
Antipassadas
Agora que já é noite no sobrado do meu avô ouço passos de fantasmas no assoalho do corredor. Vêm lá da camarinha subindo degraus da escada ou são canções de ninar ouvidas por entre fraldas? Sussurros de quem se ama sob lençóis no escuro, vêm por quarto da cama ou seguem ao fundo do muro? Não há equívoco, por certo ... vou surpreende-los no coito. - Na cama tudo deserto. ao muro não me afoito. São fantasmas de ancestrais, só fazem o bem, nada mais! (Eu, pecador - 1992) |
João Lins Caldas, poeta
"João
Lins Caldas é o Lord Byron brasileiro" - Hermes Fontes
"Os poetas novos lembram-se dele e o chamaram para ouvir-lhe os versos e os conselhos." - Berilo Wanderley
Essa lembrança e homenagem ocorreram em Natal em março de 1958, quando o poeta estava de volta depois de vários anos vividos no Rio de Janeiro, onde se tornou amigo de José Geraldo Vieira. O depoimento é do romancista: "poeta, emigrado do Norte, conheci-o ao tempo de Lima Barreto, Hermes Fontes e Antônio Torres, na porta da Garnier. Trabalhava como revisor de jornais à noite; vivia na Biblioteca Nacional de tarde; almoçava e jantava sanduíches de mortadela e caldo de cana, na Galeria Cruzeiro".
João Lins Caldas nasceu em Goianinha, no dia 1º de agosto de 1888, passando a infância e a adolescência na cidade da família de seu pai, Assu, para onde volta, depois daquela vida atribulada no Rio de Janeiro, e onde morrerá no dia 18 de maio de 1967. Vida atribulada para o sustento cotidiano, mas "perpetrava vinte a trinta sonetos por dia em abas carteiras de cigarros, ou beiradas de jornais", como depõe Vieira.
Embora a maioria de seus poemas tenha sido feita no Rio de Janeiro, reconhece Anchieta Fernandes neles "certos elementos norte-rio-grandenses", naquela fase de reverências tardias aos parnasianos e Simbolismo. Mas devido já à abertura para algumas conquistas do Modernismo (versos brancos/sem métrica), João Lins Caldas tem sido lembrado ao lado de Antônio Pinto de Medeiros e José Bezerra Gomes.
Com vasta obra poética inédita, é de destacar a antologia Poética, de João Lins Caldas, organizada por outro peota, Celso da Silveira, e lançada postumamente em 1975, o que tirou, em termos, Caldas do quase anonimato na província e no Brasil. Ao lado de seleção de poemas, documentos fotográficos e depoimentos sobre o poeta.
Assim, aquele apelo de Newton Navarro fora ouvido: "Penso que é tempo de cuidarmos mais dos nossos poetas. Não deixar para depois, para mais tarde. Fomos tão displicentes com um Ferreira Itajubá, um Jorge Fernandes, e temos sido não tão solícitos com o nosso Antoniel e com esse admirável João Lins. Façamos um pouco em favor deles" .
(Assis Brasil In A Poesia Norte-rio-grandense no Século XX)
| João Caldas com o grande escritor José Geraldo Vieira | Da esquerda para a direita: Veríssimo de Melo, Rômulo Wanderley, Esmeraldo Siqueira, João Lins Caldas, Djalma Maranhão, Evaristo de Souza, Manoel Rodrigues de Melo e, atrás, José Aguinaldo Barros |
Caldas, pioneiro do modernismo
Neste 14 de março, Dia Nacional da Poesia, é preciso lembrar João Lins Caldas (1888-1967) poeta do Assu, que viveu em Natal entre 1908 e 1912 colaborando em jornais da capital e nos almanaques do Brasil - de onde regressou ao Rio de Janeiro, no final de 1912, aos 24 anos de idade, com o objetivo de se projetar literalmente. No Rio, conheceu e conviveu Caldas com grandes nomes das letras brasileiras como Monteiro Lobato, Hermes Fontes, Osvaldo Aranha, entre outros. Vivia Caldas na Biblioteca Nacional. No sul do Brasil, década de 20, Caldas escrevera o melhor de sua obra literária que "tinha títulos que já valiam poemas" como Arvore de Raios, Poeira do Céu, Casa de Pássaros, Deus Tributário, que mereceu elogio de Lima Campos que um dia externou ao poeta: "publica-te, meu filho, para mostrares ao mundo que ninguém é maior do que tu." Pena que sua obra literária (que desejava publicar trilingüe afirmando com a convicção de que se consagraria o maior da poesia universal) ficara apenas nos manuscritos e depois destruída pelas traças, por guardá-la precariamente em malas e caixotes, dado o relaxamento que lhe era peculiar.
Final de 1933 Lins Caldas retorna à cidade de Assu - lugar que escolhera para viver a sua maturidade -, desiludido e mais amargurado de quando a sua terra deixou, passando a viver com sua mãe e depois sozinho numa modesta casa de porta e janela da rua das Flores, bairro do Macapá, periferia da cidade, comprando e vendendo ferro velho (sucata), sendo ele muitas vezes enganado pela meninada da cidade, que desconhecia o seu valor cultural e o que representava aquela figura simplória e de roupa amarrotada, para a poesia da terra potiguar.
Caldas se fez também fruticultor pioneiro no cultivo do cajueiro - em tipo de solo árido - numa pequena propriedade agrícola sem infra-estrutura que ele denominou de Frutilândia (terra de Fruta).
No seu sítio que nas suas próprias palavras era o canto do seu silêncio proclamado - idealizava projetos agrícolas que hoje é uma realidade concreta na agricultura do Vale do Assu - produzia além de frutas diversas, versos e mais versos que ao recitá-los embargava a voz e os seus olhos grandes e vivos se enchiam de lágrimas numa demonstração verdadeira de um poeta amargurado e autêntico, como diz num pensamento filosófico: "Com esses olhos grossos de chuva eu quero chorar".
Alguns dos seus poemas dramáticos foram declamados através da radio britânica BBC. Colaborou Caldas em jornais como o Globo, do Rio de Janeiro, Correio de Bauru, interior de São Paulo, Correio do Povo, de Porto Alegre, Diário de Pernambuco (no tempo em que Mauro Mota dirigia o seu suplemento literário) e Jornal do Commercio, do Recife, e tantos outros importantes jornais e revistas do Brasil.
Em 1936 imortalizou-se quando o seu amigo e escritor José Geraldo Vieira "o grande mestre do romance brasileiro" naquela época, que ganhou prêmio na Academia Brasileira de Letras pelo romance A Mulher que Fugiu de Sodoma (1931), lhe fez personagem de um livro (romance urbano de ficção) intitulado Território Humano, como Cássio Murtinho.
Para Antônio Bento, um dos maiores conhecedores e críticos de arte moderna no Brasil, Caldas "é o pai do modernismo", pois, muito antes da Semana de Arte Moderna (1922), Caldas - que tinha a sua própria forma de constrição gramatical - já escrevia anonimamente versos brancos sem métrica como o poema A Casa Nos Conta a Sua História, que veremos alguns versos para o nosso deleite: "...E ao comprido da rede que se balouça esticada, / Uma cabeça, uma cabeleira preta, / Pés que se estiram, mãos alongadas... / Vamos, irmãos, eu que estou reparando, de retrato, esse quadro que se alonga ao longo da parede."
E o genial poeta Caldas, que se autodefenia como "o louco de há muito tempo e o louco de muito sonho", que sonhava com um Prêmio Nobel de Literatura, que não aceitava crítica ao que escrevia e pensava, visionário, amargurado, que não encontrou o amor que buscou na sua mocidade e que não conseguiu realizar as suas aspirações, morreu sozinho, solteiro e sem deixar descendente em sua casa no final de uma manhã de 18 de maio de 1967, aos setenta e nove anos de idade, vítima de um infarto, e está sepultado na cidade de Assu, lugar que ele dizia repetidas vezes ser o seu inferno
(Fernando Caldas - artigo publicado no jornal TRIBUNA DO NORTE, edição de sábado, 13 de março)
Livro Perdido
Eu tinha um livro irmão desses cadernos Que tenho hoje espalhados na gaveta, Era escrito por mim com tinta preta Tinha sonetos amorosos, ternos ...
Branco, continha os madrigais eternos Que nos lembra a saudade de um poeta Nele brilhava, lânguida, secreta Toda minh'alma em gelidez de invernos ...
Um dia o livro me caiu dos dedos ... Arrastando consigo os meus segredos Foi-se esse raio do meu morto brilho ...
Fui procurá-lo loucamente aflito e pela estrada ressou meu grito Lembrando um pai que procurasse o filho ...
(Natal, 22 de novembro de 1908) |
Isabel
Uma Isabel morreu no mundo Tinha pai e mãe, irmãs e sobrinhos, aquele mundo de primos no mundo. Avós enterrados, bisavós hoje trepidantes em cernes duros de árvores agigantadas. Ascendentes outros na nervura de asas e barbatanas de peixe. Isabel hoje estava cansada.
Remontava das suas origens a dias muito anteriores aos dias de Tebas, Viveu de fresco os poemas de Homero, A guerra de Tróia O passado de Sócrates E, caída Cartago, soldados ruivos assalariados mortos.
Não soube nada de sua crônica. Era uma mulher, vestia saia, os cabelos compridos E se alimentava de pão, rapadura e mel.
Isabel tinha linhas nas mãos, Uma sorte que estava escrita, diferente sem dúvida das outras sortes. O destino de Isabel, o destino da vida, como os outros que carregam a morte. Eu nunca vi Isabel.
(In Panorama da poesia norte-rio-grandense/1965) |
Esmeraldo Siqueira, poeta e crítico literário
Médico, professor, poeta,
crítico literário, nasceu em 16 de agosto de 1908 e morreu em
20 de junho de 1987.
"Expressão mais alta da nossa vida literária e científica", nas palavras de Veríssimo de Melo, Esmeraldo Homem de Siqueira nasceu em Vila Nova, hoje Pedro Velho, filho do juiz Joaquim de Siqueira Cavalcanti e de dona Maria Joaquina de Siqueira Cavalcanti. Transferiu-se com seus pais para Natal em 1913, iniciando no mesmo ano seus estudos primários no Grupo Escolar Augusto Severo. Depois, estudou no colégio Santo Antônio e no Ateneu Norte-rio-grandense.
Em 1928, matriculou-se na Faculdade de Medicina do Recife onde colou grau na turma de 1933. Começou a exercer a profissão em Jardim do Seridó. De lá, nas horas vagas, escrevia e mandava para A República os seus "Intentos", série de artigos sobre literatura e filosofia. A partir de 1936, transferiu-se para Natal e passou a lecionar na Escola Normal a disciplina de História Natural. Em 1941, ingressa no quadro de professores do Ateneu Norte-rio-grandense ensinando Língua e Literatura Francesa. Para essa cadeira publicou "Letras de França" (1969), que é uma espécie de excursão didática erudita nas obras e nas vidas dos grandes autores franceses.
Intelectual polêmico e contestador, portador de uma vasta cultura científica e humanista, colaborou assiduamente nos jornais A República, Diário de Natal, Correio do Povo e Tribuna do Norte. Neste último, manteve uma coluna semanal sobre literatura e filosofia entre os anos de 1954 e 1955.
Era um homem de temperamento arredio, contrário às reverências aos poderosos e aos círculos de privilegiados, preferindo o trabalho intelectual solitário que exercia habitualmente à noite, encerrada a jornada diária pelos colégios onde ministrava aulas. Deixou dezenas de livros editados versando sobre temas da literatura clássica européia, sobretudo francesa, mas também sobre temas da cultura brasileira.
A maioria desses livros foi paga por ele próprio. Na poesia, deixou uma produção vasta e variada, lírica, satírica, romântica.
Descrevendo-o em artigo, assim se expressa seu filho Juliano Siqueira: "Esmeraldo escreveu seus poemas de acordo com seu credo literário: romântico, parnasiano, simbolista, moderno. Um humanista."
Em 1949 funda, com outros colegas, a Faculdade de Farmácia e Odontologia - primeira escola superior da Universidade Federal no Rio Grande do Norte - onde lecionou a cadeira de Botânica Farmaceutica. Foi também um dos fundadores da Faculdade de Filosofia à qual vinculou-se depois que essa instituição acadêmica foi incorporada à Universidade Federal.
Em 1957, fundada a Faculdade de Filosofia de Natal, passa a lecionar Língua e Literatura Francesa. Aposenta-se em 1958 na cadeira que ocupava na Faculdade de Farmácia. Suas aulas, cultas e descontraídas, ficaram famosas por atraírem grande número de alunos, inclusive vindos de outros cursos. Ingressou, a convite, na Academia Norte-rio-grandense de Letras, em 1949, ocupando a cadeira número 29, cujo patrono é Armando Seabra.
(Fonte: Jardelino Lucena e Nélson Patriota)
Obras:
Caminhos Sonoros (versos), Tipografia A. Lira, Natal, 1941; Roteiro de uma Vida, editora Pongetti, Rio, 1968; Música no Deserto, editora Pongetti, Rio, 1968; Fauna Contemporânea - Sátiras, editora Pongetti, Rio, 1968; Novos Poemas (versos), Departamento Estadual de Imprensa, Natal, 1950; Taine e Renan (ensaios), editora Pongetti, Rio, 1968; Sugestões da Vida e dos Livros (crítica literária) Imprensa Universitária, Natal, 1973; Caminhos Sonoros (poesias) editora Pongetti, Rio 1941; Poemas do Bem e do Mal (poesia), editora Pongetti, Rio, 1984; Pretéritas (poemas) editora Pongetti, Rio, 1984; e Jorge Fernandes Desconhecido in "Revista da ANL", número 15, voluma 27, novembro de 1979/80.
Credo panteísta
Creio em ti, Natureza, que és meu culto. Creio, sem ritos místicos e altares. No resplendor pleorâmico dos mares, Onde assoma a grandeza do teu vulto.
Creio na tua força, e pasmo, e exulto, Vendo, através de lentos avatares, A gradação das formas singulares, Até à maravilha do homem culto.
Creio em tuas florestas, nos teus montes, Na poesia dos rios e das fontes, Na beleza da terra reflorida.
Creio nas lindas noites estreladas, No refúgio das brancas alvoradas, Na sinfonia universas da vida. (Caminhos sonoros/1941) |
Oferenda à poesia
Um trono eu te erguerei, um trono, escuta bem, De esmero original, Como, em tempo nenhum, na terra, houve ninguém Que tivesse outro igual
A púrpura - será do meu sangue inda vivo, Ardente e palpitante. O ouro - da áurea prisão do meu verso cativo, Aos teus pés suplicante
Às estrelas irei, na asa da insiração, De uma a uma escolhe-las, Para cingir-te a fronte a reverberação Das mais lindas estrelas
Qu valerão do mundo efêmeras grandezas, Ante o teu resplendor? Vencerás imortal rainhas e princesas, Pela glória do amor. (Novos poemas/1955) |
Cristina Jácome, pintora e escultora
Na infância eu desenhava com intuitiva noção de perspectiva,
sentia forte atração pelas cores e preferência pela
figura humana. Meu trabalho tem evoluído através de uma
figuração eclética de estilos que fundem-se indo do
Barroco ao Cubismo, sintetizado numa linguagem de
coerência estilística, personificada por uma
predominância art décor.
A transição dos desenhos da infância para a pintura profissional veio aos 15 anoscom uma exposição - uma coletiva que reunia artistas como Dorian Gray e Newton Navarro, de quem foi aluna. Começou com o nu acadêmico, passou para o concretismo, em seguida para o figuratismo geométrico e é hoje o seu estilo uma abstração, uma mescla de vários estilos, como o concretismo e os cubismo.
Ao longo desse tempo, já foram mais de 100 esxposições, entre individuais e coletivas, no Brasil e no exterior.
Além de pintar (óleo e acrílica), Cristina Jácome faz esculturas (cerâmica, concreto, resina porcelana e outros materiais) e trabalha com restauração.
Algumas de suas obras estão expostas em museus no Brasil e fora do país.
Cristina por Iaperi Araújo:
"Cristina Jácome passeia entre o figurativo e a abstração. Em muitos trabalhos, o denso das tintas faz contraste com espaço de intensa luminosidade e nos faz sentir a força de sua criação. Neles, o sentido da vanguarda parece atestar o resultado de tanto trabalho. Esforço de criar, busca incesante de novas experiências para torná-las realidade nos trabalhos que nos mostram."
Premiações:
1985 - 1º lugar em pintura a óleo no prêmio Newton Navarro - Salão governador do estado, Fundação José Augusto - galeria Câmara Cascudo, Natal/RN
1988 - 1º lugar em escultura no Salão Sesc, Natal/RN
1994 - medalha de mérito cultural "José Augusto Bezerra de Medeiros"
Ùltimas exposições:
2000 - Acervo Capitânia das Artes - Natal/RN
2001 - Inauguração galeria Amoarte - Natal Shopping - Naal/RN
2002 - Inauguração da galeria Arte Praia Shopping - Natal/RN
2003 - Reabertura Nucleate galeria e ateliê - Natal/RN
2004 - Coletiva em homenagem às mães do acervo de painéis criados para o Auto de Natal
Antônio Pinto, poeta e cronista
A literatura do Rio Grande
do Norte registra o caso de dois poetas potiguares nascidos no
Amazonas (1919): Antônio Pinto e Myriam Coeli. Pinto, filho de
pais mossoroenses, nasceu em Manaus, acidentalmente.
Criança, ainda, veio para o estado e, primeiro em Mossoró, depois em Natal, inicia suas atividades intelectuais como professor e depois como jornalista. Formando-se em Direito em 1950, pela Faculdade do Recife, nunca chegou a exercer a profissão de advogado, vocacionado que era para o magistério, jornalismo e a literatura.
Único membro da Academia Norte-Riograndense de Letras a renunciar à "imortalidade", Antônio Pinto de Medeiros, foi jornalista, cronista, poeta, conferencista, professor. Durante muitos anos, manteve as colunas "Mirante", (diária) no "Diário de Natal", e "Santo Ofício", em "O Poti", aos domingos, onde comentava os acontecimentos da cidade, o futebol e onde fazia também crítica literária. Depois, transferiu-se para o Rio de janeiro onde militou na imprensa carioca e onde morreu (1970).
Antônio Pinto foi casado com dona Stela Medeiros e dessa união conjugal nasceram os seguintes filhos: Plínio (falecido); Maria da Saudade, residente no Rio de janeiro; Manfredo, funcionário do Banco do Brasil e Gilka, advogada em Natal, falecida.
(Deífilo Gurgel)
Mensagem a William Blake * Todos esperam a tua volta Em coluna de nuvens dissolutas, Trazendo o novo sentido e cores novas E paisagens de alma e sangue Multidimensionais. Oh! William O infinito, o universal e o absoluto A morte dos limites anunciada pelos teus coros As visões febris e e rítmo febril! Haverá girândolas e música, Meu caro Blake, Com as velhas cores e os velhos sons ainda. Não faltará o complot dos cadáveres. Mas que seja logo, William Blake, Porque os vermes, a tísica e o tédio já não há. * Do livro "Um poeta atôa" - Natal, 1949 |
Enigma número 2 * Virão nas horas completas Em caravana sinistra Trazendo capuzes negros E albornozes de mouros Pelos caminhos estranhos Que a fantasia sonhou Para um conflito de enigmas Os olhos débeis e úmidos Serão esferas perdidas Dentro de um mundo julgado. Não criarão as paisagens Da infinita promessa E tombarão as sementes Em leitos de pedra e espinhos. Virão nas horas completas Entre harmonias soturnas De blasfemias e de salmos E o outro canto perdido Envolto em cinza dos ídolos Será o incenso sagado Do rito negro e fatal. Entre turíbulos vivos E flores do sacrifício Buscarão as mãos sacrílegas A pedra da redenção E haverá cruzes e máscaras entre reliquias e fumo Alimentando o brazeiro. E os olhos débeis e úmidos Serão esferas perdidas Dentro de um mundo julgado. Não criarão as paisagens da Infinita promessa E tombarão as sementes Em leitos de pedra e espinhos. |
Ana Góes, artista plástica
Ana Góes nasceu no Rio de
Janeiro/RJ e vive em Natal desde 1978. Bibliotecária de
profissão e artista plástica de coração, cursou aquarela com
Vicente Vitoriano e Catarina Neverovsky até meados de 2001. Com
o artista plástico Jomar Jackson estuda desenho e pastel.
Participou da exposição coletiva "Aquarela Avançada"
na galeria Conviv'art de 20 a 29 de outubro de 1999, e da
exposição coletiva do curso de Belas Artes de Jomar Jackson, na
Capitania das Artes em 28 de setembro de 2000.
A artista, na opinião dos mestres:
"Ana Maria Góes experimenta várias técnicas ao interpretar um mesmo objeto, ela observa, estuda, interpreta. Essa abordagem mostra uma artista madura e interessada na pesquisa, na experiência de pintar. Ao realizar esse processo leva o observador a questionar o próprio ato de pintar, onde o objeto é sobrepujado pela interiorização intelectual da pintura. Podemos apreciar seus trabalhos em grafite, pastel e aquarela. Ao interpretar a realidade, através da aquarela, incorpora o fundo à pintura com uma abordagem realista e contemporânea ao mesmo tempo."
Catarina Neverovsky
"Os jogos técnicos de Ana Góes revelam uma artista seriamente empenhada em manter um repertório gráfico estritamente pessoal. Perene desafio para o desenhista, a figura humana colabora com este intento ao permitir uma figuração idealizada, certamente bela. Na construção de suas figuras, Ana estabelece uma particular harmonia entre a criação gráfica e as aplicações cromáticas, especialmente com aquarela."
Vicente Vitoriano
As obras abaixo compõe a mostra "Desnudos", primeira individual da artista:
Mulher na janela - 39x63 cm pastel sobre papel canson mi-tein |
Africa I - 28,5x47 cm pastel sobre papel canson mi-tein |
Equilíbrio - 48x63 cm pastel sobre papel canson mi-tein |
Mulher de costas - 48x63 pastel sobre papel canson mi-tein |
Mulher magra I - 51x33 cm grafite sobre papel canson |
Mulher magra I - 51x33 cm aquarela s/ papel canson montval |
Erasmo Andrade, artista plástico
"A
temática que eu uso vem do berço e é estilizada, não
verossimilhante."
"Eu nasci em São Tomé entre serras azuis-verdes, cobertas de mel e de fel."
Essas duas frases, de autoria do próprio artista, servem de apresentação e revelação de seu estilo. Um misto de espírito sertanejo e vanguarda cultural.
Essa miscigenação dá a Erasmo uma "cara" distinta, retratada em outra frase, esta de Edgar Allan Poe, que ele gosta muito e diz: "Não fui na infância como os outros e nunca vi como os outros viam".
Erasmo é esse, nascido em São Tomé, interior do Rio Grande do Norte, no dia primeiro de junho de 1949, filho de Sadi Andrade e Maria Costa Andrade. Ele se aperfeiçoou em pintura na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais em 1978 e é professor do Departamento de Artes de Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, atuando também como curador do Núcleo de Arte de Cultura da Universidade.
Demonstrou desde a origem do seu trabalho interesse pela forma estética do bule, torres de igrejas, ferro de passar, asas de anjos, olhos, carneiros e pássaros, Erasmo estudou a pintura de Raimundo de Oliveira, Marc Chagall, Teruz, Picasso, Braque e Leonardo da Vinci. Sua terra, São Tomé, lhe instiga a pintar pela cor das serras que a envolve com a torre de Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.
Primeiros quadros:
"Os pavões" 1965
"Retrato do amor quando jovem" 1966
"A noiva" 1966
"Cristo e pavões" 1966
Mais de Erasmo por ele mesmo:
Aos sete anos de idade eu estava na calçada da rua Barão do Rio Branco, 62 em São Tomé, brincando com outras crianças. Uma delas pede que eu desenhe a carvão, um filme que tinha rodado no cinema local.
Foi um acaso? Meninos debruçados sobre a calçada viam aparecer o filme no carvão negro com imitação de vozes e músicas de seriados de 'Flash Gordon, o gavião e a flecha, Tarzã e mulher Leopardo'.
Vicente Ribeiro Neto falou com precisão: Faça! e acreditou que eu desenharia aquelas figuras e reproduziria a seqüência do filme.
Naquele momento apareceu o traço peculiar, com semelhanças aos desenhos e pinturas do Maias, Astecas e Incas, que eu viera perceber, através de estudos sobre "A imagem Mítica" que sincronizavam-se como em sonhos derramados no meu pensamento construindo revelações em cores e formas oriundas das longínquas culturas primitivas. Paul Gauguin em suas cores mostra este mundo visto como um sonho, aura essencialmente pagã e espiritual.
Eram figuras com a plasticidade das pinturas das remotas pirâmides das Américas, com caras de calungas de louça, olhos grandes e casarios das "Mil e uma noites".
Meu desenho primitivo, primeiro passo no caderno de desenho (e na calçada) que minha mãe rabiscava para a tarefa no grupo escolar Amaro Cavalcante em São Tomé. Desenho e caligrafia, um começo traçado para recriar um mundo de fantasia numa Aldeia de Pedra Concreta.
Cabeça de paixão óleo sobre tela - 1986/98 |
Passagem secreta I guache e colagam - 2000 |
O caso de uma ilusão II Óleo sobre tela - 2004 |
Barco à deriva Óleo sobre tela - 2004 |
Erasmo e uma de suas obras |
Serra verde Óleo sobre tela - 2001 |
Caminho da Oiticica
Para sobreviver, inventei um mundo abstrato impossível de ser visto pela maioria das pessoas. Como uma casa de fazenda antiga escondida na serra, banhada por um rio doce.
E quando a lua de prata aparece no céu, tenho a vontade de juntar-me àquela luz de mistério.
O meu olhar busca uma estrela no céu muito distante. Tenho a impressão de ter habitado um mundo estelar e que de lá caíra como anjo derrubado.
Um sentimento estranho toma conta de minha alma no instante lusco-fusco da vida da minha Aldeia. E recordo a Serra da Oiticica na infância com Sadi Andrade, e a cor do ouro sol e o cintilar da Chelita. Garimpeiros garimpando e o céu azul e rasgado em ondas alaranjadas, acenderam minha paleta em sintonia com o irreal, o sonho intacto da fonte que emana do arco-íris.
(Erasmo)

Aqui está o maior de
todos: Luís da Câmara Cascudo. Bastaria o seu nome e um grande
espaço, onde cada um escrevesse a sua própria homenagem,
desenhasse, com traços próprios, o seu retrato. Ninguém foi
maior do que ele.
Ninguém saberia falar sobre Cascudo melhor que ele próprio.
Em 1969, a Fundação José Augusto publicava, no livro PROVÍNCIA, este texto sobre Luís da Câmara Cascudo, que ele mesmo escreveu.
Um provinciano incurável
Câmara Cascudo
Mon pays entier vit et pense en mon corps...- Verhaeren
Nasci na Rua das Virgens e
o Padre João Maria batizou-me no Bom Jesus das Dôres, Campina
da Ribeira, capela sem tôrre mas o sino tocava as Trindades ao
anoitecer. Criei-me olhando o Potengi, o Monte, os mangues da
Aldeia Velha onde vivera, menino como eu, Felipe Camarão. Havia
corujas de papel no céu da tarde e passarinhos nas árvores
adultas, plantadas por Herculano Ramos. Natal de noventa e seis
lampiões de querosene. Santos Reis da Limpa em janeiro. Santa
Cruz da Bica em maio. Senhora d'Apresentação em novembro.
Farinha de castanhas e carrossel. Xarias e Canguleiros. Natal que
se apavorou com o holofote, enchendo as igrejas de bramidos e
arrependimentos. Auta de Souza embalou-me o sono. Pedro Velho
pôs-me na perna. Vi Segundo Wanderley declamar. Ferreira
Itajubá cantando. Alberto Maranhão passeando a cavalo, manhã
do domingo. Tinha treze anos quando veio a luz elétrica. Festas
no Tirol. Violão de Heronides França. Livros. Cursos. Viagens.
Sertão de pedra e Europa.
Nunca pensei em deixar minha terra.
Queria saber a história de todas as cousas do campo e da cidade. Convivências dos humildes, sábios, analfabetos , sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço. Percepção medular da contemporaneidade. Nossa casa no Tirol hospedou a Família Imperial e Fabião das Queimadas, cantador que fora escravo. Intimidade com a velha Silvana, Cebola quente, alforriada na Abolição. Filho único de chefe político, ninguém acreditava no meu desinteresse eleitoral. Impossível para mim dividir conterrâneos em cores, gestos de dedos, quando a terra é uma unidade com sua gente. Foram os motivos de minha vida expostos em todos os livros. Em outubro de 1968 terei meio século nessa obstinação sentimental. Devoção aos mesmos santos tradicionais
Meu povo tem a mesma idade para o interesse e a valorização afetuosa.
Dois homens quiseram fixar-me fora de Natal:- Getúlio Vargas no Rio de Janeiro e Agamenon Magalhães no Recife. Jamais os esquecerei, porque nada pedira. Alguém deveria ficar estudando o material economicamente inútil. Poder informar dos fatos distantes na hora sugestiva da necessidade.
Fiquei com essa missão. Andei e li o possível no espaço e no tempo. Lembro conversas com os velhos que sabiam iluminar a saudade. Não há um recanto sem evocar-me um episódio, um acontecimento, o perfume duma velhice. Tudo tem uma história digna de ressurreição e de simpatia. Velhas árvores e velhos nomes, imortais na memória.
Em 1946 fiz parte de uma comissão enviada pelo Ministério das Relações Exteriores ao Uruguai. Éramos três: Aloísio de Castro, Angione Costa e eu, único sobrevivente.
Voltando, contou-me Aloísio de Castro que Afrânio Peixoto, sabendo da expedição cultural, dissera num leve riso - E ele deixou o Rio Grande do Norte? Câmara Cascudo é um provinciano incurável!Encontrara meu título justo, real, legítimo.
PROVINCIANO INCURÁVEL !
Nada mais.
Drummond fala sobre Cascudo - Falando sobre Drummond, Cascudo disse certa vez "eu não conheço Carlos Drummond pessoalmente, mas somos amigos íntimos. Ele ainda estava em Minas Gerais e já se correspondia comigo. O que acho é que Drummond é superior ao prêmio Nobel". E, por sua vez, falando sobre Cascudo, eis o que, em 1968, Drummond escreveu:
Imagem de Cascudo
Carlos Drummond de Andrade
Já consultou o Cascudo? O Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo.
O Cascudo aparece, e decide a parada. Todos o respeitam e vão por êle. Não é pròpriamente uma pessoa, ou antes, é uma pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário que convém ter sempre à mão, para quando surgir uma dúvida sôbre costumes, festas, artes do nosso povo. Êle diz tintim-por-tintim a alma do Brasil em suas heranças mágicas, suas manisfestações rituais, seu comportamento em face do mistério e da realidade comezinha. Em vez de falar Dicionário Brasileiro poupa-se tempo falando o Cascudo, seu autor, mas o autor não é só dicionário, é muito mais, e sua bibliografia de estudos folclóricos e históricos marca uma bela vida de trabalho inserido na preocupação de viver o Brasil.
Agora, mandam dizer de Natal que vão comemorar os 50 anos de atividades culturais, os 70 anos de idade de Luís da Câmara Cascudo, o que é de inteira justiça. Bater palmas ficou muito sem sentido, depois que, na televisão, artistas se aplaudem a si mesmos, fingindo que aplaudem os acompanhantes ou o público, êste último convidado perenemente a aplaudir tudo e a todos. O govêrno auto-aplaude-se, imitando o nôvo costume, e o Brasil parece uma festa... encomendada. Vamos esquecer o convencionismo publicitário, diante das comemorações a Cascudo. Êste fêz coisas dignas de louvor, em sua contínua investigação de um sentido, uma expressão nacional que nos caracterize e nos fundamente na espécie humana.
Lendo agora o vasto documento de Joaquim Inojosa sôbre O Movimento Modernista em Pernambuco (também dois tomos em véspera de quatro), vou encontrar o jovem Luís da Câmara Cascudo, nos longes de 1925, tangendo a lira nova. Não é surpresa para mim, que o saiba poeta modernista, não arrolado por Bandeira em sua antologia de bissextos. Em carta que Inojosa reproduz (seu livro contém, muita coisa que vale a pena conhecer, como retrato intelectual dos anos 20), o futuro autor da Geografia dos mitos brasileiros manda-lhe dois poemas modernistas para serem publicados no Recife. Eram de um livro que em Agôsto se chamava Bruaá e em Novembro do mesmo ano passaria a intitular-se Caveira no campo de trigo. Nunca se editou êsse livro. O poeta Cascudo permaneceria inédito, sufocado pelo folclorista e historiador.
Êste cronista sabia da fase poética de LCC por haver recebido dêle, eram eras remotas, um Sentimental epigrama para Prajadipock, Rei do Sião, um reino governado em francês. Como também lhe conhecia êstes Lundu de Collen Moore, que marca suas preferências nativistas sôbre os mitos importados de Hollywood, é bem típico do nosso modo de dizer em 1929:
Os olhos de Collen Moore
olhos de jabuticaba
grandes, redondos, pretinhos...
mais porém
são olhos de americano,
meu-bem.
Eu sempre prefiro os seus,
meu bem!
Olhos de ver no cinema,
só lembra a gente espiando
e depois é se esquecendo,
meu-bem.
Eu sempre prefiro os seus,
meu-bem!
Ôlho de gente bem branca
que não mora no Brasil
fala fala atrapalhada,
meu-bem,
é ôlho de terra boa
mas porém
eu sempre prefiro os seus.
Meu-bem!...
Tocando o verso inicial pela prosa, Cascudo não abandonou mais porém a poesia. Em sua paixão de brasileirista, vista-a no lendário, nas tradições, na espiritualidade primitiva e lírica de nosso pessoal. E registra-a com êsse amor de tôda uma vida fiel à sua terra e sua gente.
Andrea Ebert, artista multimídia
Andrea
não é o primeiro artista que entra nesta página sem ter
nascido no Rio Grande do Norte. Como também não é a primeira
que adotou Natal, o Rio Grande do Norte e o Nordeste como o seu
lugar. É por isso que a sua arte é, também, arte da
nossa terra.
Sobre ela se diz que o seu trabalho é figurativo, policromático, com marca e traços fortes.
Mais seguro é não tentar classificá-la e, simplesmente, sentir a força de sua expressão.
Fica mais fácil analisar a obra de Andrea com os olhos da alma. E, com certeza, render-se ao brilho, ao talento, à originalidade, à riqueza de recursos técnicos e à exuberância de sensibilidade, de capacidade criadora.
O contraste mais marcante em seus trabalhos, no entanto, se faz pelo binômio: "alegria e cores" x "formas felizes".
A aplicação de detalhes, fitas, pedraria é cumplice da sua formação em moda. Suas obras têm uma feminilidade e uma sutileza cromática que já são marca registrada do seu trabalho.
Andrea mescla a pesquisa do passado com o exercício da contemporaneidade, e revela um modo único de colocar materiais do nosso cotidiano em suas pinturas.
Nascida em São Paulo em 1970, é formada em Moda pela Universidade Anhembi Morumbi e mora em Natal desde 1996. Ministrou curso de pesquisa de Tendência e Vitrinismo no Senai/RN, produção de Moda no Senac/SP. Realizou trabalhos para Hugo Boss, Botton , Marília Gabriela, revistas Elle e Vogue, MTV, capa para Casa Vogue e edições de calendário 2003 (série Signos) e 2004 (série Bichos) para a gráfica Impressão.
Veja mais no portfólio virtual: www.andreaebert.com.br.
Neste ano, uma reportagem da revista Sim!, de Recife, especializada em arquitetura e decoração, intitulada "Ela acredita nas cores", revelou coisas interessantes sobre a sua personalidade e o seu estilo de trabalho. Também mostrou sua profunda relação com as coisas e gentes daqui, inclusive a influência que confessa receber de alguns artistas do Rio Grande do Norte..
Veja alguns trechos do material publicado pela Sim!:
"Multimídia, estilista, ilustradora, designer de objetos e acessórios, UFA!!! Parece muito, mas não é para a paulistana Andrea Ebert. Dona de um grande talento, ela está sempre experimentando novas técnicas, cores, misturas..."
"Para Andrea, ilustrar é uma grande diversão. Se fico preocupada não sai nada. Tento me divertir, acho que minha criatividade me diverte, diz ela. Assim, ela consegue um trabalho vibrante."
"Moro em Natal há sete anos. Quando mudei para cá, meu trabalho ficou mais colorido e vibrante, afirma.
Muitas cores e traços primitivos são marcantes nas obras de Andrea, que se sente influenciada por Tomie Ohtake, Dorian Gray, Cordel e Rubem Grilo. Tenho uma filha de dois anos e estou mais simplista e primitiva. Quando pinto, estou interessada no start, no ato de ver e lhe passar uma vibração momentânea, através das cores e formas, diz ela."
"Quando questionada sobre o seu público, logo responde: Meu público é como eu, que gosta de se curtir e curtir a casa, sem ficar preocupada se está na moda ou não.
Fico muito feliz de estar produzindo materiais de circulação nacional, mesmo morando aqui no Nordeste. Isto mostra, mais uma vez, que a tecnologia aproxima as culturas e idéias, defende Andrea."
Willame Galvão, artista plástico
Falar de Arte, de artistas
da nossa terrra é falar de Willame Galvão.
Willame, desde criança, ainda em Currais Novos, gostava de fazer trabalhos artesanais, os mais diversos, e hoje é um artista conhecido em todo o estado e em outras partes do Brasil.
Trabalha predominantemente com pintura em porcelana, cerâmica, telas, tudo num estilo bem moderno, bem peculiar, que faz com que reconheçamos uma obra sua antes mesmo de olhar a assinatura do artista. É também pessoa muito querida e benquista na cidade, figura que circula nos mais diversos círculos sociais, onde fez centenas de amigos ao longo de sua trajetória em Natal.
Com trabalhos atualmente publicados em revistas e expostos em locais de destaque, é considerado pelos críticos de arte um modernista, principalmente pelo seu carisma, personalidade marcante e irreverência.
Estudioso da arte que desenvolve, sempre busca inovações, aperfeiçoando-se e atualizando-se constantemente tendo como uma marca própria o perfeccionismo.
Com tudo isto, resta salientar , que Willame Galvão, é dos grandes artistas do Rio Grande do Norte, fazendo assim parte da história de nossa cidade Natal e de nosso estado.
Wilame trabalha em Natal em seu atelier que funciona na Avenida Hermes da Fonseca, no Mercado Público de Petrópolis.
Augusto Severo Neto, cronista e poeta
Augusto Severo Neto é
oriundo de uma família de tradição que remonta ao século XVII
e que deu ao Rio Grande do Norte nomes ilustres como os
governadores Pedro Velho e Alberto Maranhão, o prefeito Djalma
Maranhão, o revolucionário André de Albuquerque e o pioneiro
da aviação, Augusto Severo, entre outros. Sua vida profissional
teve origem no comércio.
O carisma do seu ilustre avô incentivou-o a tentar, por um certo período de tempo, o campo da aviação civil. Espírito inquieto, não tardou a largar as linhas aéreas para abraçar o jornalismo, atividade em que se revelou um cronista sensível às fraquezas e grandezas humanas, em que realizou um tralbalho marcante, que tocou as fronteiras do jornalismo e da literatura.
Foi membro correspondente da Academia Paulista de Letras (na vaga de Cãmara Cascudo), professor universitário (cargo em que se aposentou na Universidade Federal do Rio GHrande do Norte) e viajante.
Esta última atividade, "por fome de vida", segundo a sua mulher, Maria Lúcia Beltrão. Mas, na opinião dela, a principal atividade de Augusto Severo Neto foi "viver e ser feliz".
Formado em Jornalismo pela UFRN, colaborou em diversos periódicos do Rio Grande do Norte de outros estados desde 1942. Sua galeria Vila Flor, foi, nos anos 70, importante ponto de encontro de intelectuais e artistas natalenses.
Apaixonado pela cultura européia, sobretudo a de extração latina, empreendeu dezenas de viagens ao Velho Continente, o que lhe rendeu alguns livros de memória e uma impressão pessoal sobre Paris, cidade a que devotava uma admiração especial.
A vida cultural natalense, com seus tipos boêmios e poéticos, também lhe chamou atenção. Em De Líricos e de Loucos, Augusto Severo Neto presta tributo a essas personagens, sob a forma de crônicas.
Ao morrer, seus amigos escolheram como epitáfio para o seu túmulo, os versos:
Há caminhos de luz escondidos nas trevas
Para achá-los, porém, é preciso ir sozinho.
Os versos são do próprio poeta. Seu corpo foi sepultado no cemitério da vila de Pirangi, litoral sul potiguar, que ele mesmo escolheu como sua última morada.
(texto de Nélson Patriota)
Obras:
Sinfonia do tempo - poemas (1959)
Do outro lado do mar - crônicas de viagem (1960)
Até que o mar (1961)
Tempo ontem - memórias (1978)
Paris, uma visão panorâmica (1979)
Tempo Vida - poemas (1980)
De Líricos e de Loucos: histórias de personagens natalenses - crônicas (1980)
Estórias de distâncias - memórias (1982)
Raconto sem malineza do viver de Lenival - histórias (1983)
Nau frágil - poemas (1984)
A outra face de Severo (1985)
Ontem vestido de menino - memórias (1986)
Do existir façanhoso de Odissélio Gineceu - romance (1987)
Amigo - memórias (1987)
O gume e a pedra - poemas (1991)
Balada daquela casa
Era uma casa sozinha, sem gritos, sem gargalhadas, sem vozes dentro das salas, sem louças batendo louças, sem passos pelas escadas.
Havia um cheiro abafado, um cheiro assim bolorento, talvez por falta de vento, talvez por falta de luz. As janelas quando abertas gritavam tintas quebradas e as portas estavam coladas mais ainda que as janelas, que para abrir uma delas fiquei com as mãos machucadas cheias de manchas azuis.
Mas a porta foi aberta e uma janela também. O vento entrou por elas, eu entrei atrás do vento, olhei por todos os lados, procurei quartos e salas. A casa estava deserta, lá não havia ninguém.
O vento que entrou comigo, decerto um vento menino, brincou com um jornal antigo, folheou velhas revistas atiradas nas cadeiras, soprou poeira dos móveis, fez redemoinho no chão.
Talvez que por um milagre o relógio trabalhava e o seu batido se ouvia por toda parte da casa. A moldura de silêncio que circundava as pancadas uniformes, compassadas, despertou-me uma pergunta: como nós, aquela casa não teria um coração?
Não sei, porém eu sentia que qualquer cousa pulsava, qualquer cousa acompanhava o sangue nas minhas veias. Perguntei-me: que seria? Junto de mim não há nada, a casa estava fechada, os lustres cheios de teias, os móveis empoeirados há muito não vem ninguém. E esse algo pulsando? Talvez eu estivesse certo quando, há pouco, pensava que os batidos que escutava nasciam do coração que essa velha casa tem.
Era uma casa sozinha, sem gritos, sem gargalhadas, sem vozes dentro das salas, sem louças batendo louças, sem passos pelas escadas. Era uma casa deserta, Lá não havia ninguém.
(In Sinfonia do Tempo Biblioteca da Casa Euclides da Cunha Coleção Ferreira Itajubá Vol. II Irmãos Pongetti Editores, Rio de Janeiro, 1959)
Àqueles que ...
Àqueles que apenas lêem faturas balanços duplicatas e somente escrevem cheques àqueles que trocam o cérebro pelo estômago prefiro os loucos
Àquelas que esqueceram o amor e têm apenas cio que têm o gozo limitado ao orgasmo de um minuto sem requintes sem prelúdios prefiro as que morreram
Homens só estômago e cifras mulheres só estômago e sexo não vos levarei à minha ilha minha nau é frágil e naufragaria com carga imensa de vossa ignorância
Ficai! Levarei apenas os que pensam os que vibram os que sofrem os que choram Lá fundaremos uma nova república que não conseguireis entender
Ficai, portanto Minha nau é frágil e naufragaria com a carga imensa de vossa ignorância |
A título de porquê
Itinerário da NAU FRÁGIL não na rota de ausências simplesmente uma mistura antes pertinente de dizeres redizeres recaminhos odes pavanas cantos litânias circumnavegação e travessias gregoricantochão de búzios e de trompas de pontes arco-íris e arquipélagos e mais ainda como cerne essência e núcleo do que sou a constatação dinâmica e alumbrada da permanência em mim da BEM AMADA como causa e efeito inspiração e tema musa e canção é por ela simplesmente que já avistando o inverno carrego em mim tanta primavera.
(In Nau Frágil NOSSA Editora Coleção Myriam Coeli de Poesia - Natal, 1984)
Soneto da Redescoberta
Perdi as minhas vestes de granito rolando paredões de antigos montes meus braços se alongaram e foram pontes ligando-me, mortal, ao infinito
O aceno dos meus dedos, como um rito inaugurava novos horizontes moldava os gestos, germinava as fontes onde afogou-se o indecifrável mito
Calcei os meus dois pés de sal e espuma meus olhos eu perdi dentro da bruma de ocasos impossíveis e vermelhos
e emaranhando o corpo nos sargaços do inelutável mar dos meus cansaços redescobri-me dentro dos espelhos
(In Nau Frágil NOSSA Editora Coleção Myriam Coeli de Poesia - Natal, 1984.) |
Demétrius Coelho, escultor
Quando observamos a obra de Demétrius Coelho, somos
capazes de sentir a sensualidade das formas femininas que nascem
da resina ou do mármore e se concretizam em esculturas que pedem
para ser acariciadas. No mar, o artista buscou a inspiração
para as suas peças de formas orgânicas, onde as cores são
capazes de impregnar o ambiente com plenitude e serenidade.
"Minha obra vem baseada desde o início nas formas femininas e no mar. Eu trabalho muito com esboço. Todo o tempo fico esboçando o que eu estou querendo fazer. São formas femininas e fluídas, ora mais, ora menos figurativas. Desde o ano 2000 houve muita preocupação de minha parte em propor obras mais orgânicas inspiradas no Lajedo de Soledade, em Apodi/RN e com a introdução do mármore meu trabalho conseguiu traduzir de alguma forma este aprisionamento da natureza", diz o escultor, que carrega em seu currículo mais de 200 exposições de arte, sendo que grande parte delas internacionais.
Atualmente, Demétrius tem suas obras em exposição permanente em sua Galeria Demétrius Coelho Art Design.
O artista, que transita no mercado de arte há 16 anos, começou mostrando seu trabalho em Lisboa, no ano de 1989, a convite da Galeria Interni, tendo ainda exposto no mesmo período, na II Bienal da Escultura e Desenho, em Caldas da Rainha (Portugal) e na II Mostra Internacional de Escultura ao Ar Livre, em Amadora (Portugal). Demétrius também já participou de exposições em galerias da Itália, Suíça e Bélgica. Além disso, seu trabalho marca presença em inúmeras capitais do país.
Demétrius é um artista talhado para o sucesso, pois possui humildade e simplicidade - características conferidas aos grandes mestres. Seu jeito de ser é observador e atencioso com as pessoas que o rodeiam. Excentricidade nenhuma, somente seu talento mágico para dar vida às pedras e aos materiais inertes. Um artista disciplinado que trabalha com profissionalismo e compromisso com seus clientes e admiradores de sua obra. Um escultor original,que possui o domínio da técnica e a sensibilidade exigida das pessoas que exalam arte.
Ultimamente, Demétrius multiplica suas horas do dia para cuidar também de seu mais novo projeto: a Revista Formas - uma publicação totalmente colorida em papel couchê que quinzenalmente oferece aos seus leitores a possibilidade de estar por dentro dos assuntos de arquitetura, construção e decoração do Rio Grande do Norte. Belíssima, a Formas está conferindo uma nova configuração ao um mercado, cada vez mais exigente e modelador do futuro.
Henrique Castriciano de Souza, poeta e teatrólogo*
Poeta, teatrólogo,
bacharel em Direito, jornalista, político, fundador da Academia
Norte-Rio-Grandense de Letras, dos Escoteiros do Alecrim e
da Escola Doméstica de Natal. É nome de rua, de complexo
educacional e de edifício em Natal.
Um dos maiores intelectuais do Rio Grande do Norte, Henrique Castriciano nasceu em Macaíba, em 15 de março de 1874, e era irmão de outros nomes de destaque nas letras do estado: o jornalista e político Eloy e a poetisa Auta de Souza.
Como político foi vice-governador do estado, presidente da Assembléia Legislativa, procurador geral do estado e deputado estadual. Como assessor do governador Alberto Maranhão, criou a primeira lei de incentivo à cultura, iniciando o que o escritor Edgar Barbosa chamou de ciclo de ouro das letras e das artes no estado.
Desde criança viveu atormentado por defluxos freqüentes, como conta o irmão Eloy de Souza nas suas Memórias. Assim, realizou viagens à Europa, em busca de tratamentos mais avançados, com médicos de renome mundial. Também passou temporadas em Lausanne, na Suíça, realizando pesquisas para a implantação da Escola Doméstica de Natal, a primeira especializada na educação da mulher no Brasil, inaugurada em 1914.
O seu biógrafo Câmara Cascudo, conta em Nosso Amigo Castriciano (Imprensa Universitária, Recife, 1965): Foi o primeiro escritor, literato, poeta, que conheci e com quem mais longamente privei... Ensinou-me a construir lentamente a cultura, diária, pessoal, fontes e não antologia...
Foram seus pseudônimos: Alex César, Erasmus van der Does, Frederico de Menezes, José Braz, José Capitulino, J. Claudio, Mário do Vale, Rosa Romariz, Y. H. C. e Zumba de Timbó. Livros publicados: Iriações; Ruínas, Mãe e Vibrações.
Henrique Castriciano, que foi eleito Príncipe dos Poetas do RN, faleceu depois de longa enfermidade em julho de 1947, na Policlínica, e está sepultado no Cemitério do Alecrim, ao lado do seu irmão Eloy.
Enigma
A lágrima sem fim, a lágrima pesada
Que eternamente cai do alto desta gruta
Representa alguma alma estranha, desolada
Que mora a soluçar dentro da rocha abrupta?
Esta alma quem será? Não sei! Mistério fundo...
Entretanto eu pressinto alguém que se debruça
E baixinho me diz num gemido profundo:
Existe um coração na pedra que soluça...
(HC, Martins, 29.abr.1895 - versos escritos numa pedra da gruta da Trincheira)
O Aboio
Ah! como é triste o aboio! Ah como é triste o canto
Sem palavras tão vago! a saudade exprimindo
Das selvas do sertão no mês de junho rindo
Pelos olhos azuis das crianças enquanto
No tamarindo verde, asas abertas, trina
A beira dos currais, o galo-de-campina.
(Estrofe de entrada do longo poema de HC junho de 1904)
Monólogo de um bisturi
A Papi Junior
Primeiro o coração. Rasguemo-lo. Suponho
Que esta mulher amou: tudo está indicando
Que morreu por alguém, este ser miserando,
Misto de Treva e Sol, de Maldade e Sonho.
Isto não me comove: adiante! Bisonho
Fere, nevado gume! E, ferindo e cortando,
Aço, mostra que tudo é lama e nada, quando
Sobre os homens desaba o Destino medonho...
Fere esse braço grego! E as pomas cor de neve!
E as linhas senhoris que a pena não descreve!
E as delicadas mãos que o pó vai dissolver!
Mas poupa o ventre nu, onde repousa um feto;
Por que hás de macular o sono fundo e quieto
Desse verme feliz que morreu sem nascer?
(1902)
* material enviado gentilmente por Rejane Cardoso Serejo Gomes
Iaperi Araújo, artista plástico e escritor
Iaperi Araújo é um dos mais importantes artistas
plásticos de sua geração. Sua primeira exposição, uma
coletiva de artistas na galeria de artes de Natal, data de
outubro de 1963. Desde então, tem participado de mais de duas
centenas de exposições entre individuais e coletivas, inclusive
no exterior.
Expôs em João Pessoa, Recife, Vitória, Salvador, Rio São, Paulo, Brasília, Florianópolis e Porto Alegre além dos Estados Unidos, Espanha e Argentina.
Seus trabalhos seguem a temática da cultura popular, num estilo primitivo, também conhecido por ingênuo ou naif.
Esse estilo utiliza cores primárias e um desenho simplificado, tendo como base a estrutura da arte e os temas populares.
Os temas que Iaperi elegeu são frutos de estudos em outras áreas e retratam tanto a religiosidade do povo, quanto suas festas, seus sonhos, fantasias e alucinações.
Pintou santos populares, ex-votos de agradecimentos pela cura das doenças, danças folclóricas, tragédias populares cantadas na literatura de cordel e os mitos da religiosidade do povo como aparições e milagres, além do bestiário fantástico da memória popular. Lobisomens, mulas-sem-cabeças, diabos, monstros alados e as estórias fantásticas do universo popular.
Iaperí Araújo é médico, professor do curso de Medicina da UFRN, pesquisador da cultura popular, escritor com 53 livros publicados, membro da Academia Norte-riograndense de Letras e dos Institutos Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e de Goiás. Vice-presidente da comissão estadual do Folclore e membro da comissão internacional de Medicina Popular e Tratamento por Remédios Naturais da Unesco.
Foi superintendente do Teatro Alberto Maranhão (1983-1987), secretário municipal de Cultura de Natal (1989-1990), presidente da Fundação José Augusto (1991-1995) e diretor da Maternidade Escola Januário Cicco (1997-1999). Foi menção honrosa em pintura no premio governador do estado, na bienal do sesquincentenário da independência do Brasil na exposição de artes da Marinha em Natal e em dois salões de artes da Prefeitura de Natal. Premio Anna Quadros de pintura primitiva. Sala especial na bienal brasileira de arte primitiva em São Paulo de 1994 e integrante do módulo mestres do Brasil de ontem e de hoje na Bienal de 2002.
Iapperi Araújo tem se destacado nesses 41 anos de pintura pela extrema coerência dos seus trabalhos com sua área de pesquisa, fazendo um registro da cultura popular de quem foi buscar inspiração para o traço, a cor e os temas de todos os seus trabalhos.
Regina Guedes, ceramista
"Em massas fortes, Regina modela delicadezas."
Marília Diaz - ceramista paranaense
Sobre Regina, veja o que diz Dácio Galvão, pesquisador e escritor, comentando a exposição 'Expopular'.
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CONDENSAÇÕES E FÓRMULAS
TRADUZINDO NORDESTE
PEÇAS ENGLOBADAS NUMA
RUSTICIDADE SERTÂNICA.
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ÁRIAS CERÂMICAS
POTE, CHAPÉU, VASO, VIOLA ...
ARGILA, ÁGUA, AR, FOGO AGRESTE!
SINTAGMAS MINERAIS.
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AMOR & HUMOR: OS NOIVOS
VOLUME PUERIL: HABITAT
CABELO "FLOREADO": OLÔR.
PEÇAS SOLTAS NOS ARES D'AGOSTO!
Regina por ela mesma:
Caulim, quartzo, feldspato e argila branca, matéria bruta colhida do solo, este é o segredo da porcelana.
Fazer porcelana é uma arte milenar e faz parte, como a cerâmica, da história de muitos povos. É usando deste material que pratico a minha arte. A matéria bruta serve de meio de expressão das formas que desejo criar.
Minha arte é principalmente um trabalho mental, desde o estudo dos materiais que entram na composição da massa da porcelana, dos componentes da esmaltação, das técnicas que me permitem dar forma às peças, sejam elas torneadas ou modeladas, da utilização dos fornos de alta temperatura, até a aplicação eficiente dos vidrados e óxidos que modificam e dão cor e textura à superfície de cada trabalho.
As emoções também têm parte no meu trabalho criativo; vejo-as porém, como auxiliares no processo de utilização dos símbolos nele existentes. A sensibilidade tem importãncia na criação das formas, texturas e das cores.
O ceramista de alta temperatura que opera em forno a gás, conduz um microsistema, como se fora um jogo com a matéria, onde os quatro elementos: a água, o ar, a terra e o fogo se combinam, resultando no corpo cerâmico branco, a porcelana.
Todo o processo do fazer cerâmico é cuidadosamente controlado. O ciclo se inicia com a extração da pedra do solo, a transformação em magma, e depois a queima, para tornar-se dura outra vez.
Minha arte se apresenta não como produto de um gênio iluminado, mas como resultado de um trabalho árduo e de um estudo profundo da combinação dos materiais que utilizo para expressar, então, minhas impressões e visão das formas que me rodeiam.
Ângela Felipe, artista plástica
A artista plástica Ângela
Felipe, nasceu na cidade de Campo Grande, interior do Rio Grande
do Norte. Desde cedo demonstrou uma certa tendência e
sensibilidade para as artes, especialmente a pintura. Suas
primeiras pinceladas vieram das lições de uma professora local,
que via na jovem artista um grande talento.
Passados alguns anos, tendo saído de sua cidade natal, Ângela foi morar em Portugal, onde teve a oportunidade de conviver mais de perto com a arte portuguesa, mundialmente reconhecida. Lá ficou fortalecido ainda mais o seu gosto pela arte.
De volta ao Brasil, decide morar em Natal, e passa a estudar desenho e pintura. Desenvolveu técnica de óleo sobre tela, exercitando didaticamente propostas de paisagismo, natureza morta, flores, e toda uma seqüência acadêmica. Embora seu aprendizado tenha lições definidas para uma tendência mais retratista e clássica, Ângela nunca perdeu a bússola de navegar no seu próprio estilo.
Embora convivendo com uma tendência clássica e acadêmica, sua pintura sempre foi uma certa abstração da realidade, podendo afirmar até mesmo, que de sua própria admiração, a realidade nunca esteve presente na sua pintura, ficando unicamente na mente do espectador que a observa.
Outra característica responsável e influenciadora da autoria de seu estilo, é, sem dúvida, a compreensão básica e inseparável de sua criação, entendendo a arte, antes de tudo, como um signo, um objeto, ou melhor dizendo, algo que nos sugere a realidade do espírito.
Ângela com seu estilo ímpar, expressando cores fortes e sentimento através do traço, trabalha paradoxalmente uma temática humana, haja vista suas obras já criadas, como o quadro A FAMÍLIA, RITA, A ÚLTIMA CEIA e TUPÃNSY quadro este muito elogiado na exposição da CASA BRASIL, mostra na qual participou.
Na riqueza de seu trabalho e beirando a maturidade, ela já conta no seu curriculum várias exposições coletivas, o que, naturalmente, levou-a a realizar recentemente uma exposição individual, intitulada: Índios. Do seu trabalho já pronto, com o seu estilo de traços e cores fortes, fica uma certeza, que a realidade que os nossos olhos mostram é uma sombra pobre diante da riqueza expressa em sua pintura. (Fonte: Potiguarte)
Algumas obras de Angela Felipe:
Myriam Coeli da Silveira, poeta, cronista, escritora
"No dia em que Myriam Coeli chegou ao céu,
anjos de seda cantaram canções de ninar
para a criança oculta que ela guardava
na chave do seu frágil silêncio".
Dessa MYRIAM frágil e terna é o poema que fez para a avó Maria Carolina, parte do seu INVENTÁRIO, do que reproduzimos fragmentos aqui:
VARIAÇÕES PARA RONDÓ
De compostura conventual,
a avó que foi sinhá
e as avós da avó
sentam-se em longas mesas
cobertas de linho branco de delicados bordados.
Tão meninas e tão barrocas
metidas em tantas roupas
sobrando nos sofás.
De velhas estórias que se guardam, ficaram as avós
como a lenda na lembrança,
deixando-se servir por negras de África,
em porcelanas de Inglaterra e França.
Porque de sins serviam a seus senhores.
Tão meninas e tão barrocas
metidas em tantas roupas
viviam essas sinhás.
E mais adiante:
Tão românticas passaram em varandas patriarcais
de apuradas formas de ânforas, rosetas e flor-de-lis
e em lembranças se arrumaram
assim em retratos, de golas altas e cabelos em bandós,
ornatos de colares de ouro e pedrarias;
tão infantas, Deus meu, mas tão matriarcais,
tão sós e tão serenas em suas estampas retocadas,
tão meninas e tão barrocas,
enfatuadas com tantas roupas,
rendando nos sofás,
que hoje para esta avó de avoengas sinhás
o meu beijo dirijo, assaz respeitoso,
neste século XX desgracioso,
sem dengues, sem leques,
sem doçuras de sinhás.
Ah! Quem nos dera assim meninas tão barrocas,
vestidas naquelas mesmas roupas
arrumadas nos sofás!
Da MYRIAM militante, lutadora, severa, este trecho do que Franco Jasiello chama "versos de luta e o canto de batalha" da poeta:
O chicote do rico é o seu poder
que nos leva às fábricas, às repartições, aos campos.
O nosso sangue escorre, já purificado em suor
que nos faz ilhas.
O poder do rico é a sua bestialidade,
é não ter consciência ativa para fraternidade.
Mas, cada um de nós somos soldados
tão empenhados na luta do dia-a-dia
que não nos fragmentamos,
pois empunhamos sonhos camuflados.
De MYRIAM, como pedaço da humanidade, integrando a sua dimensão humana com a sua enorme efusão poética, trechos da sua emocionada homenagem ao russo YURI GAGARIN, o primeiro homem a circunavegar a terra, a bordo da nave Sputnik e cuja primeira mensagem foi: "A terra é azul":
CARTA A GAGARIN
Camarada,
a emocionada mão que te saúda
deste pedaço da América
é pura e suave;
as palavras que escrevo
para exaltar tua aventura pelo espaço
quero-as simples e antigas
como as canções com que adormeço minhas crianças;
E depois, prossegue assim:
Nós, teus irmãos de origem, te agradecemos
o que nos revelaste: do céu escuro, do sol brilhante e estrelas
e agradecemos as paisagens que viste e a mensagem azul que delas irradiaste
para as nossas frágeis esperanças do cotidiano
e nos orgulhamos de ti, profundamente;
todos de nossa casa, de nossa cidade, dos quatro cantos do mundo,
todos que lutamos, que sofremos,
que temos parcas alegrias e carregamos esperanças,
todos nós que temos no peito canções e braços de berço
e nos alimentamos de azul;
todos em qualquer situação ou latitude,
nos apertamos a mão e te brindamos o nosso abraço,
um largo e caloroso abraço.
E mais te oferto: a úmida ternura
que pressinto brilhar nos olhos dos meus filhos
Christiana Coeli e Ely Celso
quando eu canto para adormecê-los.
Consciente da sua caminhada inexorável para a morte, com sofrimento e sem revolta, escreveu coisas assim:
Neste engano que é o tempo
Eu caminho. Eu me colho.
Meu trovar, travo, recolho.
Ferida vida, eu me agüento
Vicente Vitoriano, pintor, poeta e músico
Vicente Vitoriano Marques
Carvalho nasceu em Mossoró/RN, em 1º de junho de 1954. Ainda
criança praticou desenho copiando as fotografias dos
candidatos de seu pai, invejando seu irmão José Victor que
freqüentou o ateliê de D. Marieta Lima, professora de arte. A
princípio teve o incentivo direto de sua irmã Adelaide,
que também foi sua alfabetizadora.
Adolescente, Vicente Vitoriano trabalhou com o pintor e estilista José Boulier Cavalcanti Sidou, seu primeiro professor de arte, embora este não fosse dado ao sistema de aulas ou a qualquer sistematização. Em 1972, tomou consciência de suas possibilidades como artista quando descobriu a aquarela, por ocasião da preparação de uma mostra coletiva promovida pela Prefeitura de Mossoró.
Até então, o artista havia experimentado a pintura a óleo e trabalhava com guache e lápis de cor, tendo também praticado diversos tipos de artesanato junto a Boulier Sidou e a Luiz Varela, também pintor. Em seguida, Vicente Vitoriano conheceu o já atuante jornalista e poeta Franklin Jorge que o levou à Natal para duas exposições, uma no Centro Cearense e outra na Reitoria da UFRN, em dupla com o próprio Franklin Jorge.
Em 1974, Vicente Vitoriano passou a morar em Natal para estudar Arquitetura e Urbanismo, curso da UFRN que concluiu em 1979, quando já estava casado com Maria Nunes da Silva Carvalho com quem tivera seu filho Caio Vitoriano. O curso de arquitetura teve grande importância na sua formação artística, principalmente pelo exercício de processos de criação mediados pela metodologia do desenho e pelas leituras sobre história da arte e estética.
Em Natal, Vicente Vitoriano participou do Grupo Cobra, criado por Franklin Jorge, e em 1977, ganhou o primeiro prêmio do Concurso de Pintura Newton Navarro, promovido pela Fundação José Augusto. A partir de 1980, o artista dividiu seu tempo entre a produção e o ensino artísticos no Departamento de Artes da UFRN. Estas atividades foram entremeadas por participações no Subgrupo de Teatro Mágico e no Grupo Nuvem Verde de Teatro Aberto. Com este último, Vicente Vitoriano criou o Gato Ludico, grupo musical performático, ativo entre 1982 e 1987, no qual estendeu sua produção poética e suas experiências com música popular. Como poeta, o artista tem dois livros publicados: Os Vértices do Triângulo (1985) e A Falsa Simetria (2002).
A obra visual de Vicente Vitoriano se enraíza na pop art, particularmente em Lichenstein, mas não se limita a esta via. Na verdade, a partir de meados dos anos oitenta, o artista trabalha muito em função da pesquisa técnica com aquarela e pastel. Atualmente, experimenta tintas acrílicas em trabalhos abstratos de inspiração construtivista.
Vicente Vitoriano é doutor em educação, tendo defendido tese, em 2003, sobre Newton Navarro e a Escolinha de Arte Cândido Portinari. Escreve uma coluna semanal sobre artes visuais no Diário de Natal e coordena o Grupo UFRN de Aquarela e Pastel.
Nas telas Primina I e II (abaixo), a nova fase que Vicente apresentará na exposição que está preparando.
Poema do livro 'A falsa simetria':
Da poesia e do Poeta
Ser poeta não é pra qualquer Pessoa.
Por que chamar assim a mim pode ser uma boa?
Juntar palavras é uma coisa Dada.
Quero ver fazer poesia, como Melo Neto, como se não fosse nada.
Mas, que se diga de mim o que se queira.
Em verdade, eu me esforço para que, sobre um poeta, a fala seja verdadeira.
E mesmo sendo trinta anos desta lida
é pouco o texto que alguém diga ter lido.
Mas poesia é só um lance, não vêm ao caso estes dados.
No jogo, corremos todos o risco de sermos derrotados
quando já não o sou a cada investida.
Mas, vez em quando, vem uma palavra-casa e me dá guarida.
Daí vão saindo pesares, deslumbres, indignação.
Um verso pode conter carinho, desprezo, tudo indistintamente, ou não.
E digo mais: o melhor do poema é poder cantá-lo.
Fazer brotar dele a música, encantá-lo.
Porque o prazer de conseguir isto é tamanho
que me engano pensando ter o jogo ganho.
Floral - 2002 Aquarela sobre cartão |
Caio como Macunaíma - 1993 Guache e pastel sobre madeira |
Primina I. Amarelo e verde - 2003 Acrílica sobre cartão |
Primina II. Amarelo e vermelho - 2003 Acrílica sobre cartão |
Walter Medeiros, jornalista e escritor
Walter Medeiros nasceu no
dia 17 de julho de 1953, em Natal/RN. É escritor, poeta,
Jornalista Profissional e Bacharel em Direito. Trabalhou em
diversos veículos de comunicação do país, entre eles a
Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, Rádios Cabugi e
Planalto, TV Cabugi, Tribuna do Norte e Dois Pontos, tendo
colaborado no jornal Movimento. Foi um dos fundadores do
jornal cultural "O Galo", da Fundação José
Augusto. Participou do jornal "O Letreiro", do curso
de Letras da UFRN (1976) e do fanzine poético "A
Margem". Publicou em 1990, o livro ABELARDO,
O ALCOÓLATRA, trabalho que mostra o dia-a-dia de uma
clínica de recuperação de dependentes químicos. Exerceu
a Presidência da CERN, hoje Departamento Estadual de Imprensa e
a Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal de Natal.
No Movimento Estudantil, foi presidente do Diretório
Acadêmico do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFRN, em
1976. Exerceu também vários atividades sindicais, entre
elas os cargos de vice-presidente do Sindicato dos
Jornalistas Profissionais do RN e Diretor da Federação
Nacional dos Jornalistas FENAJ. Trabalha
atualmente na Secretaria da Saúde do RN. Além disso, e
exatamente por esse motivo está aqui publicado, dedica-se a
escrever poesia de cordel. E, como bom jornalista, aborda, em sua
produção literária, estórias do nosso cotidiano,
especialmente as de cunho político e social. Walter mantém um
site dedicado ao tema, o Poesias de Cordel.
A surpresa na escada do amor
Quero contar pra vocês, Com a maior precisão, Qual foi a minha impressão, Quando pensei certa vez Sobre a maior emoção Que temos no coração, Sem contar nem até três.
Pois o amor, quando chega, Vem logo arrepiando, Deixa a gente se enganando, E mole feito manteiga, Quem ama, se abestalhando, Pensa que está ganhando, É a pessoa mais meiga.
Ele vai levando a gente, Com tantos sonhos que traz, A fazer tudo demais, Deixa até impaciente. É como ficar sem paz Ser notícia nos jornais, Junta tudo que se sente.
Eu comparo o amor, A uma grande escada, Comprida e enviesada, Onde a pessoa entrou; E que depois de entrar Nunca pensa em voltar, Por mais que vá sentir dor.
Ela tem tantos batentes, Pelos quais vamos subindo, Avançando e seguindo, Continuando em frente; Mesmo se desiludindo, Todos continuam indo, Lá ninguém é diferente.
A subida continua, Por toda aquela escada, Que é uma grande parada, Maior do que muita rua; Perigosa, engraçada, Não se compara a nada, Parece que se flutua.
Nessa seqüência subida, Com pássaros e jardins, Quem sabe até querubins, Tudo de bom dessa vida, Finda chegando ao fim, Pois a escada é assim, Nunca garante guarida.
Aí vem uma surpresa, Bem lá no fim da escada, Uma parede fechada, Lisa, que é uma beleza; Não tem por onde seguir, Pode chorar, pode rir, É coisa da natureza.
Não se entende por quê Se fez uma escada dessa, Que tem batentes à beça, Quem poderia dizer? Alguém pregou uma peça, É isso que interessa A gente compreender.
Não se quer descer de volta; Ninguém gosta de perder, Mas não há o que fazer, Nem precisa de escolta; O jeito é se render, Começar logo a descer, E ver se ninguém lhe nota.
Cada batente é uma lágrima, É também, uma saudade, Pois é fim indesejado, De deixar a cara pálida Uma grande decepção, Mas por resignação, Uma experiência válida.
Resistindo e não descendo, Tem de se abrir uma porta, Até com a mão, não importa, Todo mundo compreende; Seria uma resposta, Como todo amante gosta, E o problema resolvendo.
Com sacrifício e fé, Com muita perseverança, Inocência de criança, Amor de homem e mulher, Alcançará a bonança, Pois o amor só avança Do jeito que a gente quer.
Não acredito que o amor Nos leve a nada ruim; Então, fazendo por mim, A parede derrubou; Vejam só qual foi o fim Que encontrei bem assim, Quando tudo terminou.
Depois da parede, estava Tudo que a gente procura: Sem choro nem amargura, Vejam só quem lá morava; Quanto mais tal aventura Parecia uma loucura, muito mais apreciava.
Vou lhe dizer a verdade De quem estava ali; Só acredito porque vi, Creia-me, por caridade; Quando rompi a parede, Cansado e com tanta sede, Vi logo a felicidade.
O pior é que ela disse Que tinha ido pra lá Sempre me vendo chegar, Parecendo uma tolice; Mas disse, pra terminar, Que não iria chegar, Se pra lá eu não subisse. (2003) |
Noite de raposas e manhã de carcarás
Nas estradas do Nordeste, temos muito o que ver: d´aurora ao anoitecer, é um verdadeiro teste, que temos que enfrentar, prá poder nos deslocar, desde o sertão ao agreste.
Basta que agora lhe conte uma recente viagem, feita por estas paragens de tão lindo horizonte: prá você ter uma idéia, quem viajou na boléia diz que foi estronteante.
Com destino a Fortaleza, Voltavam de Caicó: Uma alegria só, era tudo uma beleza. De repente, começou aquilo que se tornou numa estranha surpresa.
Coisa que só via em lousa, Um Doutor apreciou, quando bem perto passou uma enorme raposa. Ele até se esquivou, mas firme aguentou tão surpreendente coisa.
Depois veio logo outra e mais outas, outas tais, ele nem ligava mais, dizia que era marota mas todos naquele carro em estado tão bizarro diziam tá com a gôta.
De repente aliviou e as raposas sumiram nenhum mais eles viram quando algo clareou aí veio a novidade em meio à claridade que ao grupo impressionou Pela estrada a deslizar, seguia o rumo traçado quase meio desligados, para o Céu foram olhar; que cena estranha viram quando a vista subiram: a nuvem de carcará.
Lembraram de Hithcock, naquele seu filme lindo, com os pássaros seguindo quem desse o menor toque; Mas, com seus conhecimentos o grupo teve momentos de diferentes enfoques.
O medo de virarem presas criou uma mente só; os carcarás não tinham dó, no rumo de Fortaleza, seguiam o carro pertinho e todo mundo juntinho testavam a natureza.
Uns achavam engraçado, outros tinham apreensão, era tanta emoção, tinha até doutor calado; mas parecia eterno, diziam que era um inferno aquele trecho enfrentado.
Raposas a carcarás chamaram tanta atenção, que o grupo com emoção só falava sobre paz: respirando muito fundo, pensaram por um segundo: - outra dessas, nunca mais.
Tanto que nem mais lembravam o dia anterior, onde no interior tiveram uma agenda brava, Mas isso é outra história que vai ficar na memória de viagem cheia de favas.
Por aqui vou encerrar, quero que tenham gostado do que foi aqui narrado e tenho que homenagear; senão, não tinha histórias, pois aqui quem tem as glórias é raposa e carcará. (2002) |
Diniz Grilo, artista plástico
Diniz Grilo já tem cerca
de 30 anos como artista plástico. Pinta desde criança. Já
participou de mais de 100 exposições, entre individuais,
coletivas e salões, tendo ganhado seis prêmios, como a Bienal
Naïfs, em São Paulo e o Salão Governador do Estado.
Ele também participou desde os anos 70 de vários movimentos de contra-cultura em Natal, como o grupo Cobra. Era uma forma de contestar o status quo cultural até então estabelecido, numa época em que existia uma efervescência cultural muito grande no Rio Grande do Norte.
Segundo Grilo, foi desta época que surgiram grandes nomes das artes plásticas no estado.
Recentemente, um dos seus trabalhos teve destaque no 28º Anuário do Clube de Criação de São Paulo, sendo publicado na capa do catálogo. Trabalhos seus também foram expostos na última edição da Bienal de Arte Naif, realizada ano passado (2003) em São Paulo.
Rosinaldo Vieira, repórter do jornal PÓDIUM
Diniz Grilo representa uma nova geração de artistas plásticos que, de Natal, começa a alçar vôos mais altos; ou seja, ele, não pretende ficar no regionalismo da proposta e, sim, dar uma dimensão nacional à pintura, porquanto, no mundo de hoje, com o célere progresso da mídia eletrônica, isso já não é mais possível.
Na essência do figurativo, Diniz Grilo é um desses pintores que conhece o seu métier. Rostos femininos de um a beleza ora agressiva e outras de suave contemplação, nos dão a certeza de que Diniz Grilo sabe perfeitamente que o surreal não está apenas no inconsciente dos sonhos, mas também na fauna da sociedade moderna, de onde ele nos traz essas gatas, anjos e demônios num mesmo rosto mesclado pela inocência e pelo terror, o colorido às vezes criando uma atmosfera de envolvente poesia, não fosse ele um artista consciente de sua criatividade. Como pintor e como poeta.
Geraldo Edson de Andrade, crítico do Rio de Janeiro.
Flávio Rezende, jornalista e escritor
Flávio Rezende é um
típico natalense: baixinho, alegre, criativo e muito amável.
Com 42 anos, canceriano, desenvolve inúmeras atividades, com
destaque para o jornalismo e a literatura.
Atualmente Flávio trabalha como assessor de imprensa da Secretaria Estadual de Saúde, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da UFRN, além de possuir uma pequena empresa de assessoria de imprensa e clipagem de impressos.
Na área literária tem 14 livros publicados e um a ser lançado em abril deste ano, intitulado Letras no Éter. Flávio Rezende também escreve peças de teatro, tendo duas, Natal em Chamas e Lúcia Pelúcia.
Cheio de planos para este ano, pretende escrever novos livros e mais textos culturais.
Como jornalista ele escreve para vários jornais, tendo mais de oito colunas em espaços como o Jornal de Natal, Metropolitano, Folha de Macaíba, Onda Alternativa, revistas Foco e Paparazzi, sites www.planetajota.jor.br e www.natalfolia.com, entre outros.
Livros publicados:
1. 'Minha Voz, Minha Paz, Minha Energia' - poesia
2. 'O Transparente' - ficção
3. 'Até que nem tanto esotérico assim...' - poesia e colagens
4. 'O Luminoso' - ficção
5. 'Os Pequeninos Iluminados' - ficção infantil
6. 'Admirado Paraíso' - ficção
7. 'Lua Cheia' - conto poético
8. 'Melhor de Três' - juntamente com Mário Henrique e Carito - conto e poesia
9. 'O Invisível' - ficção
10. 'O Caminho' - ficção
11. 'O Predestinado' - ficção
12. 'Os Conselheiros da Terra' - ficção infantil
13. 'Batons e Cadeados' - poesia
14. 'O Enviado' - ficção
Alguns livros têm um formato diferente, como o "Lua Cheia", que é redondo, "O Invisível" que é piramidal e "Os Conselheiros da Terra" e "Batons e Cadeados", que fazem parte de um mesmo conjunto, sendo um de um lado e o outro, do outro.
A temática principal dos seus livros é o esoterismo.
No total Flávio têm publicado cerca de 20 mil livros.
Os livros foram lançados em Natal, Mossoró, Pau dos Ferros, Parnamirim, Macaíba, Currais Novos e Petrolina.
Em Natal os locais foram: Instituto Maria Auxiliadora, Bar Tirraguso, Centro de Turismo, Teatro Alberto Maranhão, bar Kasarão, AABB, antigo Circo da Folia, Pousada Lua Cheia e em alguns locais com lançamentos setoriais.
Você partiu E levou o batom. Não deixou um único cigarro Ou um beijo sequer. Só me resta Um retrato Que lembra você Poesias na mesa Copos de cerveja Um chocolate Nestlé... ........... |
Ao abrir Teus cadeados Descobri Tesouros revirados Diamnates falsificados E bijuterias chinfrins Fechei tudo Fim ... Devolvi-te as chaves ........... |
Na Filosofia do teu corpo Desfilo meus teoremas E minhas teorias E amargo sempre Orgasmos relativistas Sem o prazer De um coito Linear ... |
O poeta é pré O poeta é pós O poeta é... |