CAFÉ COM PROSA

 

Esta semana, exepcionalmente, não publicaremos a coluna.

Mas não deixe de ler algumas notícias em "Deu na Imprensa":

Rsvp, nota de Chrystian de Sabóya, publicado em seu site;

Geraldo, a nova vítima, artigo do secretário de Agricultura, Laíre Rosado, publicado no jornal O MOSOROENSE;

e, Caiu a máscara do santo, artigo do jornalista Diógenes Dantas, publicado em sua coluna OBSERVATÓRIO, no jornal CORREIO DA TARDE.

Semana que vem estaremos de volta.

Até lá.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ARTE DA TERRA

Este recanto da nossa página é dedicado à cultura do

Rio Grande do Norte, seus poetas, escritores e artistas.

 

 

Hugo Macêdo, fotógrafo

 

As fotografias de Hugo Macêdo revelam as belezas do interior do Rio Grande do Norte. Nascido em Parelhas, o fotógrafo resgata imagens bucólicas de um sertão, entranhado na sua geografia de menino.

De acordo com o padre Gilmar, parelhense e pároco da igreja de Santos Reis, em Natal, as fotografias de Hugo Macêdo exprimem lembranças de uma infância revivida. “As fotos de Hugo são imagens que mostram as raízes da sua terra, revelando as belezas do Seridó e do interior potiguar”.

Atuando profissionalmente há cinco anos, o fotógrafo Hugo Macêdo já fez duas exposições individuais e participou de várias mostras coletivas, sendo suas fotografias expostas no IV Festival Internacional da Imagem, em Milão, Itália, em 2001.

Segundo o fotojornalista potiguar Canindé Soares, as fotos de Hugo Macêdo são resultado de uma maturidade, conhecimento técnico e talento. “Hugo desenvolveu uma maneira própria de fotografar as cenas do litoral e do sertão. Ele é um dos melhores fotógrafos que conheço”.

Abaixo, imagens feitas por Hugo de um casa de fazenda, da rua principal da cidade de São José do Seridó, de uma romeira no Monte do Galo em Carnaúba dos Dantas e de uma típica cozinha sertaneja com seu velho fogão a lenha. Todas no Seridó norte-riograndense.

 

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Mário Gerson, poeta e cronista

 

marioG.jpg (90310 bytes)Mário Gerson Fernandes de Oliveira nasceu em Mossoró/RN, em 16 de dezembro de 1981. Começou a produzir seus primeiros escritos em 1995. Desde muito jovem travou contato com a literatura, as artes plásticas e, em especial, a poesia. Juntamente com a Fundação Vingt-Un Rosado – Coleção Mossoroense, em 1999 lança seu primeiro trabalho em poesia: 'Traços Poéticos', dentro do projeto 'Poema na Escola', em parceria com a POEMA – Poetas e Prosadores de Mossoró, da qual é membro.

É também cronista. Nesse gênero escreve desde 1999. Só agora, porém, abre a gaveta dos guardados e traz ao lume suas melhores crônicas, semanalmente, aos sábados, no jornal 'O Mossoroense', onde também possui coluna dominical com assuntos referentes à literatura. É editor-fundador do jornal cultural mensal e literário 'Clandestino', em parceria com o projeto Pedagogia da Gestão, jornal este que procura resgatar a literatura norte-rio-grandense. Mário também, em 2002, lançou seu primeiro livro, 'O Catador de Espumas'. E, em 2001, foi terceiro lugar no Concurso Vingt-un Rosado de Poesia, promovido pela Prefeitura de Mossoró.

Obras inéditas:

Comentários de areia (poemas)

A noite de luvas brancas (poemas)

Contos do ser (contos)

Convite aos pássaros (crônicas)

A morte do pescador Jorge Rimenez (novela)

 

Poemas do livro 'A Transposição dos Dias'

 

A Transposição dos Dias

 

Em transposições

Secretas de dias

E horas, e anos;

Os meses, as datas

E os Mistérios

Vão se ausentando

Dos dias, dos meses,

Das horas, dos anos.

 

Na transposição

Dos dias – seus desenganos –

Circunstanciais horas;

Vidas, mortes; insanos

Momentos de tédio;

Instantes mais ínfimos;

Tronos e reinos humanos.

 

Na transposição

Dos dias – agora humanos –

A fonte onde se bebe

Da fome, da flecha,

É a mesma fonte aberta;

É a mesma fonte secreta;

Fontes: vidas na terra

E homens mais que profanos.

 

Transporto os dias

Em seus radicais instantes,

A um momento solitário;

A um momento secreto,

Vezes soberano...

Mas os dias vão se ausentando

Dos dias, dos meses,

Das horas, dos anos.

 

 

O “EU” Transposto

 

...E eu que me

Pensava alheio

Desses destinos

(Ultra) trágicos,

Dispo-me da fala

E da máscara

Que me colocaram...

Encontro na voz

Que me persegue

(Aqui dentro)

O Ouro Escondido;

A Atlântida Perdida

Que meu outro “EU”

Simplesmente abandonou.

 

O Poema Encarnado

 

Eu pensei

O poema

Que tivesse

Trinta anos;

Sua forma,

Seu brilho,

Seu mergulho

Furando

A terra

Molhada.

O poema

Que tivesse,

Afinal,

Seus trinta

Anos,

Nem menos,

Nem mais

Nesta soma

Imprudente.

O poema

Que reparte

Sua forma

De poema:

Estrutura,

Seios,

Mente...

Alegria

De poema...

Sua camada

De vozes;

Seu espelho

Sem visão;

Sua visão

De poema

Adestrado

Na estrada

Que, percorrida,

É bem mais

Ensinada

Que a própria

Distância...

O poema,

Sua forma,

Seu rosto,

Poema

Encarnado...

 

Eu pensei,

Concretizei

O poema

Que tivesse

Trinta anos,

Trinta dias,

Trinta horas,

Trinta além

Da unitariedade.

O poema

Preenchido

No semblante

Que emerge

De ti.

Espera

 

A palavra

Me aguarda

Em maltrapilhos

Lençóis e camas.

Suas faces,

Aqui e ali

Me acenam

Beirais;

Ventos

Sobre

A mão

E pães

Na mesa.

 

 

Soneto Somático

 

Agora nuvem – neutra ansiedade.

Amanhã frutas podres e teu corpo

Como/qual sempre novo esboço

De outro, sem surgir – flexibilidade.

 

Entretanto, em

linhas e pancadas

Sobre a carne, sua força e manhã:

Aparência surgida entre nadas

De tantos outros corpos e lãs...

...E cor e sangue – todo esquartejado

o corpo, sempre cor e forma e ferida,

surgirá do próprio ventre, onde esbarro.

 

Ainda assim, com a luz em tua carne,

O corpo aqui me vence, querida,

Ante ti, onde de medo a alma parte.

 

 

Desapego

 

Pelo chão que

Se resvala

A recatada

Síntese que

Me guia,

Eu, mudo de mim,

Planejo fuga

E perdição.

Eu, surdo de mim,

Alieno noites

E tardes

E manhãs

E invernos

E verões

E outras

Coisas que

Se vão pelo

Seco da manhã.

 

Carta Aberta ao Meu Vizinho*

 

Prezado vizinho,

Sei que já nos conhecemos há muito tempo. Você cresceu conosco, jogou futebol conosco, aqui mesmo nessa rua! Um dia nos deparamos em encrencas e resolvemos tudo pacificamente. Creio que você lembra do dia em que assistimos, de perto, àquela horrenda e lamentável exibição de seus panos em plena rua? Você veio todo sem jeito, me contando, me contando... e eu só a escutar-te.

Lembro de você escutando Chico, Caetano, Gal, Elis, Tom Jobim, e ainda me lembro que você cantava, no banheiro, é claro, aquela:

“Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia!(...)”

A gente escutava coisas boas, brasileiras... Você me convidava, eu acompanhava e no final tudo terminava em boa música, em alegria, em inspiração... A gente refletia, lembra? Você elaborava uns versinhos pobres, mas, afinal, era um esforço. Não reclamava de nada, você, a não ser aquela choramingada clássica com respeito às finanças e a inflação. Lembra que sentávamos e tomávamos refresco de caju, porque você me dizia que a Coca-Cola era uma opressora, uma empresa que oprimia? Você não consumia os refrigerantes importados, as blusas com nomes em inglês ou em francês... e você, vizinho, nem se achava démodé, achava bom ser brasileiro, desses bem mulatos que carregam a espontaneidade nas veias. Uma vez, quando a gente tomava uma dose da mais pura caninha nossa, lembro que você se levantou e proferiu uma frase de Mário de Andrade: “Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil!” Foi uma euforia só; todos nós nos levantamos para aplaudir você. Você, meu vizinho, era um forte inimigo dos estrangeirismos, dos galanteios de Portugal, das agressões e invasões das línguas inglesa e francesa... Você me dizia: - Olha, não agüento essa mania de estrangeirismos, esse consumismo exagerado da cultura alheia! Vamos dar um basta nisso!

E você protestava, alegre e bom brasileiro. Mas aos poucos, companheiro, você foi se esquecendo da gente, das reuniões que fazíamos aos domingos para lermos os escritos dos nossos autores, para debatermos a cultura brasileira, para enumerarmos nossos problemas lingüísticos.

Aos poucos você foi se deixando levar, devagarzinho... devagarzinho... Já permitia que o refrigerante que patrocinava, na sua opinião, os males de povos pobres, chegasse a sua boca; já admitia, aqui e acolá, uma expressãozinha estrangeira e dizia:

- Ora, vamos compartilhar!

Hoje, vizinho, você chegou ao extremo: além de desvalorizar sua cultura, a empobrece.

Encontrei-te, nas surdinas, a escutar uma música animal, degradante e ridícula... e você ainda pulava feito um asno! Depois o seu carro, que era onde a gente escutava Chico e Caetano e outros bons cantores e compositores, se transformou em “marmita”, em “locadora”, de quê?

Ora, vizinho, poupe-me! Que eu soube de suas novas manias: uma é dar boa noite ou bom dia noutra língua; primeiro, porque os outros vizinhos desconhecem; segundo, porque você acha sonoro... Até os meses, os dias, as estações do ano, disseram-me que você os fala em outra língua! Até sua pequena mercearia, daquelas bem à brasileira, hoje traz um enunciando, além de cômico, estranho: Mercearia Pop Estar. Agora, caro vizinho, só tenho a lamentar. Além de não valorizar mais aquelas boas músicas, você regrediu a estágios animalescos, chegando a imitar as vozes e os gestos de animais que se tivessem os sentidos que temos, ririam muito de você...

“Quem te viu,

Quem te vê!”

*Crônica publicada no jornal O MOSSOROENSE

 

 

 

Walflan de Queiroz, poeta

 

Autobiografia

“Nasci sob o signo de São Bento José de Labre.

Pedi esmola na porta de Notre Dame.

E fui encontrado morto numa rua de Madrid.

O primeiro hino foi meu, o primeiro canto

Que comoveu a alma de Francesca de Rimini.

Fui monge, amei a virgem.

Fui marinheiro, estive no oriente.

Mais tarde, pertenci ao grupo dos poetas malditos

e escrevi o meu último poema para uma menina espanhola”.

 

Nascido em 31 de maio de 1930 na cidade serrana de São Miguel, no alto oeste do Rio Grande do Norte, filho de família influente, Walflan se formou em Direito na Universidade de Pernambuco, mas   nunca exerceu a profissão. Poeta, dedicou-se a leituras filosóficas, com grande interesse pelos  escolásticos e o idealismo alemão. Mesmo lendo Hegel e Kant, Waflan não saciou a sua vontade em entender a vida, o ser humano e o cosmos. Homem culto, conhecia vários idiomas. Lia, escrevia e falava em latim. Era fluente em francês e inglês.

O produtor Eduardo Gosson afirma que Walflan Queiroz, "ao lado de Sanderson Negreiros e Miguel Cirilo, pode ser identificado como um autor de cunho místico". Protásio Melo escreveu que Walflan era admirador de Lessing, Novalis e dos metafísicos franceses. Na língua portuguesa gostava de Murilo Mendes e Cecília Meirelles.

Sua vida, contudo, não foi apenas entre as letras. Na juventude alistou-se na Marinha Mercante e percorreu o mundo. "Em suas viagens apaixonou-se por uma bailarina cubana, gostou das noites da Martinica e quase casou-se com uma colegial de Buenos Aires", comenta Gosson.

Walflan escreveu e publicou oito livros de poesia durante a sua vida. Os principais:

- O Tempo da Solidão (Edição Cactus, 1960)

- O Livro de Tânia (Sar Tipografia, 1963)

- O Testamento de Jó (Departamento Estadual de Imprensa, 1967)

- A Colina de Deus (Imprensa Universitária, 1968)

- Nas Fontes da Salvação (Gráfica Manibú, 1970)

- Aos teus pés, senhor (Nordeste Gráfica, 1972)

- A FONTE DE ZEUS (Gráfica Manibú, 1974).

Hoje, sua obra é uma raridade bibliográfica. 

O poeta enfrentou momentos de extrema dificuldade em sua vida. Acometido pela esquizofrenia, Walflan foi internado várias vezes na Clínica Santa Maria, hospital psiquiátrico de Natal, onde deixou uma história de cura e reabilitação. Entre os internos, ele era um dos leitores mais assíduos. Lia para si e para os outros pacientes. 

Quando faleceu, a direção da clínica o homenageou batizando a biblioteca da hospital com o nome do poeta. Entre os livros que Walflan doou à biblioteca estão dicionários, enciclopédias, obras de cunho teológico, livros de literatura e uma edição francesa da bíblia. Em 13 de agosto de 1995 faleceu, vítima de insuficiência respiratória.

 

O poeta Sanderson Negreiros assim se despediu de Walflan:

"Não há nada de novo a revelar, nenhuma coisa a dizer, senão que não somos deste mundo. É o verso de Rimbaud que o grande Walflan de Queiroz trazia como "leit motiv" para seu "O Testamento de Jó". O exílio mortal a que é empurrado o poeta tem a ressonância dolorosa de uma busca metafísica; estamos aqui ainda sem milagres, entregues ao jogo mesquinho das paixões promíscuas, querendo adivinhar o horizonte desigual que seja a possibilidade do Ser de Deus, fazendo-se e refazendo-se em planos superiores de descoberta e auto-contentamento. Por fim, a solução será dividida entre a aventura e o afastamento ao "habitat", que nos fez nascer e nos faz morrer. É o que ocorreria com um Joyce; sua Dublin foi-lhe apenas a ponte que o levaria ao exílio aberto e consciente.

Walflan já demandou os caminho da surpresa viajeira. Dentro de um navio, conheceu o profundo mar azul. Depois, foi ser professor em pequena cidade do interior do Paraná, onde conheceu Irene Porcel: a normalista que lhe encheu de paisagem a alma. Desfeita sua motivação sentimental, encaminhou-se ao rigoroso convento dos trapistas: à Trapa deliciosa e santa. Ali leu a Bíblia e todos os exegetas. Viu a estrela de Davi - e seus poemas seriam sempre a linha de influência e amor aos temas principais do Antigo Testamento.

Mas nunca abandonou Rimbaud e Poe, os demiurgos que viram a face do Absoluto, confirmando o provérbio brasileiro que tanto acalentava a alma de outro poeta - Paul Claudel: o de que Deus escreve certo por linhas tortas. As colinas de Deus, de que fala Walflan, estão à curva do horizonte como em quadro transfigurado de Dali. Lá, há de ser o reino de Notre Dame do Carmelo; o poeta verá Ismael; nós viajeremos de Tiro em busca de Sidon; atravessaremos o deserto; encontraremos Rimbaud em Harar, com a perna cancerosa, a caminho da Europa; e por nós, poeta Walflan, ter-se-à conhecimento da grande nova: os poetas foram os únicos que não mentiram. Tu que morreste com as "obras completas" de Rimbaud.

E fui te ver com este livro revelador, dentro do teu caixão, o leito derradeiro, em demanda do campo santo, onde as aves nunca fazem ninho e o vento dobra, selvagem, os ciprestes e as rosas derradeiras. Amavas os toques de sinos das ave-marias - acreditavas, assim me disseste, que era a brisa dos céus varrendo a terra tempestuosa dos homens, presidida por Maria de Nazaré, que reconstruirá tua dispersa desorientação terrestre. Não mais serás testemunha de um apocalipse. Poderá demorar teu silêncio, teu sofrimento no mundo espiritual - mas serás, um dia, feliz. Tu que nunca rias - apenas choravas na tua solidão carcerária de tantos anos numa casa de saúde. Adeus."

 

Geraldo Melo escreveu sobre Walflan, de quem foi amigo pessoal:

"Não posso dizer que fomos amigos, pois não sei, realmente, como era ser amigo de Walflan..

Eu gostava dele, e penso que ele não desgostava de mim. Pelo menos (às vezes) dava sinais de apreciar a minha companhia.

Lembro-me de um sábado, boca-da-noite. Aquela hora em que o sábado vai murchando e o Grande Ponto daquele tempo começava a ficar vazio.  Com cara de feriado.

Passei para o cafezinho, mais pelo costume. Como quem vai assinar o ponto.

Lá estava Walflan na esquina do café São Luiz. Um cigarro na boca e os olhos parados fitando um ponto no chão, cenho franzido, concentrado, imóvel. Fiquei à distância, para não interromper.

Quando ele me viu, perguntou alguma coisa mais ou menos assim: "Quantos milhões de anos foram necessários para fazer esta pedra, que agora está quebrada aqui no chão? Me diga, quantos? Acho que muitos amaram e muitos morreram sobre ela nesses anos todos". 

Eu disse apenas "não sei". E ele, como se falasse consigo mesmo, completou: "eu estava agora mesmo pensando sobre isto..."

Havia quem falasse da sua esquizofrenia com um desrespeito que me indignava.  Achavam que ele era apenas "um doido". Não percebiam que ele desenvolvera uma relação especial com o universo e apenas queria que, se as pessoas não compreendessem, ao menos não perturbassem.

Ele amava a humanidade, o gênero humano, mas tinha dificuldade de se aproximar das pessoas individualmente.  

Amou algumas mulheres, mas com tal desespero e tal entrega, que terminou perdendo uma a uma – como sempre acontece aos que amam demais. Talvez por isso tenha escolhido a segregação. Não como uma atitude de loucura, mas de proteção. 

Afastava as pessoas com aparente desdém, como se quisesse com isso reforçar o arco protetor de isolamento e distância em que, na sua timidez e grande solidão, precisava refugiar-se.

Naquele sábado terminei assistindo a uma cena prosaica que bem ilustra essa atitude dele. 

Vendo que Walflan fumava, chegou-se a nós um desconhecido, com um cigarro apagado, querendo acender. Depois de boa tarde, por favor, dá licença e tudo o mais, foi iniciando o gesto de aproximar o seu cigarro apagado da brasa do cigarro de Walflan. 

Walflan o deteve e simplesmente disse: "Tome o fósforo, que é menos íntimo". 

Não sei se isso fazia dele um louco ou um sábio. Sei apenas que, a mim, ele parecia alguém que estava de passagem, à espera, que vinha de outras idades e para outras iria, mas que aprendera a amar o pequeno pedaço de vida que lhe coube por aqui. 

A sua poesia é isso – as pequenas coisas, os pequenos dramas, os pequenos momentos ficam do tamanho da humanidade".

 

O estudante de Letras da UFRN João Antônio Bezerra Neto, que debruçou-se sobre sua segunda obra, 'O livro de Tânia', reverenciou Walflan:

"É fascinante o modo pelo qual o poeta reencontra nos mitos da tradição literária subsídios para a sua obra. Tanto que, inspirado na fonte da mitologia grega, em Orfeu, por exemplo, iguala a figura de Tânia ao arquétipo de Eurídice. Mais ainda: Walflan de Queiroz, leitor assíduo dos românticos, dos chamados poetas "malditos", como um Rimbaud ou um Verlaine, inspira-se no famoso poema "Annabel Lee", do norte-americano Edgar Alan Poe, estabelecendo um intertexto entre ambas, como no verso que se segue: "Annabel Lee dos meus sonhos, lírio de minha solidão". Dessa forma, Tânia está no mesmo patamar da mulher idealizada por Edgar Alan Poe. Imerso em sonhos, o poeta fala para Tânia como se estivesse falando a um fantasma. Um fantasma da solidão, clamando pelo seu nome, senão vejamos a passagem do poema 'Balada a Tânia'":

Tânia, Tânia, 

Minha é a rosa,

Teu é o poente,

De sangue e de coral.

 

Faetonte

Zeus Olimpico recebeu Faetonte

Como outrora o Olimpo a Hercules,

Sob o perdão de Hera.

Já os Imortais esperavam de muito,

A palavra do Onipotente Zeus.

O Filho do Sol acordou então,

Sob o cântico das estrêlas,

Quando Zeus ordenou o perfeito.

 

 

Diana Fontes, diretora artística

 

Diana Fontes, nascida em Natal, dedicou grande parte da sua vida à carreira artística, em especial à pratica da dança.

Iniciou seus estudos em Recife com Mônica Japiassu. Residiu no Rio de Janeiro e em São Paulo por dois anos especializando-se nas técnicas de dança moderna e contemporânea.

Ainda no Recife, vivenciou as tradições no tocante à dança popular tão abundante nessa cidade.

Participou por três anos (1979 a 1981) como bailarina e coreógrafa do espetáculo “ Paixão de Cristo” de Nova Jerusalém.

Entre 1982 e 1983 mudou-se para o México e depois para os Estados Unidos, sempre em busca de novos conhecimentos na área da dança.

Paralelamente, também atuou no teatro, coreografando ou realizando trabalhos de corpo com os atores em peças como “Eggus”, “Muito pelo contrario”, “Calígula”, “Se chovesse vocês estragavam tudo” entre outras.

Recebeu o primeiro prêmio como melhor coreografia para teatro na peca “Romeu e Julieta” com a direção de Rubens Rocha Filho.

Em 1984 veio para natal e em 1985 criou o Grupo Sementes e realizou, junto à Fundação Jose Augusto, o I Ciclo de Dança em Natal.

Em 1986 fundou a Corpovivo Estúdio de Dança, marco na historia de dança da nossa cidade.

Em 1990 fundou a  Corpovivo Cia. de Dança que em 1999 passou a se chamar Duncan Cia. de Dança. Nestes dez anos, acumulou com a Cia. de Dança, 18 prêmios de âmbito nacional:

-         Melhor bailarino (2) – Luis Roberto e Giovanildo Gomes

-         Melhor bailarina (2) – Ana Elisa Supra e Patrícia Marinho

-         Bailarino revelação (1) – Giovanildo Gomes

-         Bailarina revelação (3) – Bianca Dore (02) e Maesia Mendes (01)

-         Melhor iluminação (1) – Diana Fontes

-         Melhor direção (2) – Diana Fontes

-         Melhor coreografia (3) – Marcelo Moacyr

-         Melhor Cia. profissional (1) – Corpovivo Cia. de Dança

-         Melhor espetáculo (1) – Rastro

-         Premio Fundação Nacional de Arte (2) – Corpovivo Cia. de Dança

Recebeu indicação para o mais conceituado premio brasileiro, o troféu Mambembe/95, ficando entre os 10 finalistas ao lado do Cisne Negro, Ballet Stagium, Quasar, Grupo Corpo entre outros.

Em fevereiro de 1994 a Corpovivo Cia. de Dança realizou uma turnê pelos Estados Unidos. Além de apresentações, a Cia. ministrou oficinas na EMORY University (Atlanta) e em oito universidades em Dallas-Texas. Neste mesmo ano a Corpovivo/Duncan Cia. de Dança recebeu o premio internacional “The Year’s Best” como um dos 10 melhores espetáculos da Geórgia/USA em 1994.

Ainda em 1994, a Corpovivo Cia. de Dança viajou para Portugal, ministrando oficinas no Festival de Dança de Guimarães.

Entre 1986 e 1989 foi diretora do Teatro Alberto Maranhão, sendo a primeira mulher a dirigi-lo.

Dirigiu duas Cias. De Dança: a Duncan e Memórias Cooperativa Artística.

Atualmente, exerce o  cargo de chefe do Núcleo de Artes Cênicas da Fundação José Augusto (Secretaria de Cultura do estado) e dirige o parque 'Cidade da Criança', além de coordenar artisticamente os projetos “Vivencia Teatral” em Mossoró e Caico e “Brincarte”, em Natal, que contempla 200 crianças carentes com oficinas artísticas.

Neste mês de dezembro coordenou, pelo sétimo ano consecutivo, o espetáculo “Um Presente de Natal”, todo produzido com artistas da nossa terra. E é ele que destacamos como uma das mais importantes obras de Diana Fontes.

 

Um Presente de Natal 2003

A coroa portuguesa, através das cartas régias de 09 de novembro de 1596 e de 15 de março de 1597, mandou construir uma fortaleza na foz do Rio Potengi e uma cidade em lugar conveniente. A fim de executar as ordens do rei, na íntegra, fundou-se a CIDADE DE NATAL, em 25 de dezembro de 1599, primeiro município do Rio Grande do Norte”.

A citação histórica ressalta o fato de que, nos quatro séculos de sua fundação, Natal, que já nasceu cidade – em um dia de natal – nada mais apropriado que seja a Cidade Presépio em nossos corações, em nossa terra natal e em nosso País.

A partir deste conceito foi criado há seis anos o projeto “Um Presente de Natal”, numa parceria do Banco do Brasil com a Fundação José Augusto, evento que marca de forma majestosa a festa de natal, levando beleza, arte e religião a um público ávido por sentimentos plenos de emoção, solidariedade e cumplicidade neste mundo tão conturbado onde só se prega violência e individualismo. A cada ano este publico tem-se multiplicado, chegando a atingir em cada temporada de 13 dias cerca de 50.000 pessoas, comprovando a aceitação popular e o desejo de que o evento permaneça no calendário cultural e turístico do nosso estado.

O espetáculo, grandioso, agrega, além de numerosa platéia, cerca de 900 integrantes – entre intérpretes (65), crianças e adolescentes que atuam como figurantes (350), bandas de música de todo estado (300 músicos), corais da cidade (150), além de técnicos cenográficos, de iluminação, som , efeitos especiais através de fogos de artifícios e toda a produção executiva.

No “Presente de Natal” integramos bailarinos, atores e músicos – todos prata da casa – interpretando, em prosa e verso, o verdadeiro espírito natalino que é amar ao próximo, ter generosidade, doar-se. Refletir sobre o que realmente representa o nascimento de Cristo em nossa memória. 

Acreditar, resgatar o ser humano – seja americano, europeu, africano ou oriental – em sua plenitude é o que representa o verdadeiro espírito natalino para aqueles que interpretam, criam, executam e patrocinam o projeto “Um Presente de Natal”.

Em 2004 comemoramos sete anos de um projeto comprovadamente vitorioso, sempre com a direção geral de Diana Fontes, o Governo do Estado decidiu amplia-lo, tornando-o acessível e interativo a outras comunidades.

Foi intenção da coordenação do evento ir para o “outro lado do rio” (Zona Norte), assim como estendê-lo até o Seridó, região de concentrada realização cultural.

Teremos então 20 apresentações , sendo de 5 a 7 de dezembro, em Caicó; de 12 a 14, na Zona Norte, e de 17 a 30, no Palácio da Cultura (Natal/Centro). 

O espetáculo “Um Presente de Natal” conta a história do nascimento do Menino Jesus, sempre fazendo uso da liberdade poética. Nesse ano, o espetáculo terá como palco o circo, local onde encontramos as figuras mais puras do picadeiro, os palhaços. Não esquecendo a tradição, todos terão a oportunidade de ver, no desenrolar da história; a família sagrada, os anjos, os Reis, a despedida, o pastoril, o boi de Reis. Mas também assistirão a um maravilhoso show de circo. Enfim, é um espetáculo que conduz a platéia por uma viagem linda, que tem como destino, a emoção.

O “Um Presente de Natal” é uma realização da Fundação José Augusto e conta com o patrocínio do Banco do Brasil e do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, e com o apoio da Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte.

Ficha Técnica:

Direção geral: Diana Fontes

Assistente de direção: Isaque Galvão

Criação/roteiro: Diana Fontes e Isaque Galvão

Composição musical original: Danilo Guanais

Texto e letra das canções: Racine Santos

Figurino, adereço e cenário: Heinkel Huguenin , Isaque Galvão 

Execução de adereços: Heinkel Huguenin, André e Isaque Galvão

Execução das figuras do boi de Reis: Isaque Galvão

Execução do cenário: Heinkel Huguenin

Atelier artístico: Luzinete, Eunice, Joana D’Arc, Kátia, Mariana, Junior, Álvaro Santana e Toquinha

Supervisão do atelier: Vilma Freire

Produção executiva: Joana Fontes, Tatiane Fernandes, Jéferson Tavares e Iara Jácome.

Coreografias: Diana Fontes

Assistentes de coreografia: Alexsandro Rocha, Giovanildo Gomes, Bianca Dore, Danielle Flôr e Jeane Souza.

Monitores dos figurantes das janelas

Palácio da Cultura: Joana Fontes, Giovanna Araújo, Ricardo e Jeanine Ebert

Zona Norte: Maésia Mendes, Giovanildo Gomes, Jeanine Ebert, Titina Medeiros

Caicó: Francisco Maguila, Jonas Linhares, Missinha Santos, Alexandre Freire

Colégios e Instituições de apoio:

Palácio da Cultura: Escola Estadual Passo da Pátria e Escola Municipal Professor Mareci Gomes

Zona Norte: Escola Estadual Iapissara Aguiar e Complexo de Lazer do Panatis II

Caicó: Escola Estadual Monsenhor Walfredo Gurgel, Centro Educacional José Augusto e Escola Estadual Joaquim Apolinário

Iluminação: Castelo Casado e Diana Fontes

Som e Luz: Helisom

Palco: Engrenart

Arquibancadas: Betinho

Fogos: Bazar São Paulo

Telões: TelaViva

Elenco: Allan Costa, Alexsandro Rocha, Alberto Martins, Aurélia Tamisa, Beta Medeiros, Bianca Dore, Carlos Eduardo Arlindo, Carlos Eduardo Pereira, Carminha Dantas, Danielle Flôr, Diego Brown, Dinha Vitor, Doc Câmara, Edna Paiva, Érica, Francis Junior, Francisco Welligton, Fred Santiago, Giovanna Araújo, Giovanildo Gomes, Ijailson Moreira, Isaque Galvão, João do Vale, João Ricardo Ramos, Leonardo Filho, Leonardo Prata, Luiz Nepomuceno, Luana Vencerlau, Maésia Mendes, Maria de Jesus, Mariana Gurgel, Marina Câmara, Marcelo Bruno, Marcelo Guimarães, Marcondes Gomes, Paulinho Lima, Ramona Halina, Rafael Guimarães, Zeca dos Santos, Pedro Queiroga, Alex Ivanovich. Jeane Souza, Clarissa Rego, Leila Medeiros, Vanessa de Oliveira, Carla Gameiro, Karla Amaral, Ana Paula Jotha e Louise Vallado, Artur Galvão, Eri Araújo, Tiquinha Rodrigues, Beto Vieira, Ricardo, Sami Passos, Simone Feitosa, Stela Cris, Vitor Hugo, Mariângela Figueiredo, Titina Medeiros e Valéria Oliveira.

 

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Marlene Gouveia Galvão, pintora e ceramista

 

Marlene Galvão foi professora do Departamento de Artes da UFRN, onde coordenou o Atelier de Artes e dirigiu o Núcleo de Arte e Cultura, além de ter coordenado vários cursos de extensão na própria Universidade. A obra de Marlene faz parte hoje do acervo de inúmeros colecionadores no País e no exterior. Com um trabalho figurativo, mesmo quando se envolve com o abstrato, a forma geométrica está presente no processo criativo.

Sobre a obra de Marlene, o marchand Antônio Marques e o crítico Franklin Jorge escreveram:

 

Pintora e ceramista, uma artista que soube fazer com muita personalidade o seu próprio caminho.Na pintura, destaca-se pelo emprego harmonioso de tons quentes e pastéis; pelo desenho elaborado e pelo lirismo de seus temas.

Na cerâmica, predomina um regionalismo sofisticado que, surpreendentemente, reforça o caráter universal do seu trabalho.

Antônio Marques

 

Marlene Galvão, autora de um trabalho plástico silencioso e conseqüente, nasceu em João Pessoa – Paraíba, mas tornou-se há anos cidadã natalense. Sua formação artística ocorreu no Recife, onde freqüentou a Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco. O trabalho desenvolvido por essa singularíssima Marlene Galvão obedece a uma lógica interna que aspira as grandes dimensões, a pintura mural. Artista se movendo com maestria e obstinação, na elaboração de uma difícil e exigente arte no seu trabalho, que evoca formas orgânicas de grande plasticidade, caracteriza-se pela concisão estilística e cromática.

Franklin Jorge

 

Formação Acadêmica

Curso Superior de Pintura - Escola de Belas Artes de Pernambuco – UFPE

Outros Cursos

“Curso de Sociologia da Arte Aplicada a Situações Luso-Tropicais” – EBAPE

“Elementos Fundamentais da Pintura” – URFN

“Linguagem da  História da Arte” – UFRN

“Curso de História da Arte do Brasil” – URFN

Congressos e Seminários

I Congresso de Arte-Educação em Salvador – BA

II Simpósio Internacional de História da Arte-Educação-BA

32º Congresso Brasileiro de Cerâmica – RN

1º Seminário Internacional sobre Administração e Desenvolvimento Universitário: Problemática e Estratégia – UFRN.

34º Congresso Brasileiro de Cerâmica – Blumenau/SC

35º Congresso Brasileiro de Cerâmica e III Iberoamericano de Cerâmica, Vidrios e Refractários – MG

Participação em Comissões Julgadoras

“Concurso Semana da Marinha”

“Prêmio Newton Navarro”

“II Mostra de Pintura da Marinha”

“1º Festival Artístico e Cultural da LBA”

“IV Congresso de Odontologia do RN”

V Salão de Artes Plásticas da Cidade do Natal” – 2001

Trabalho Publicado

“Newron Navarro - O Artista e sua Obra”

Participação em Exposições

“Circuito de Artes Plásticas do Nordeste – Mostra do RN” – TAM.

“I Mostra de Artes da Associação dos Artistas Profissionais do RN”.

“Coletiva de Mulheres Pintoras” – PMN e FJA.

“II Salão Universitário de Artes Plásticas” – UFRN.

“O RN visto por seus Artistas Plásticos” – UFRN.

“Pintores da UFRN”.”Caminhos Atuais da Pintura Norte-Riograndense”.

“Pintores do Rio Grande do Norte”.

“I Circuito NE/SE de Arte”.

“34º Congresso Brasileiro de Cerâmica” – Blumenau – SC.

“1ª Mostra da Pinacoteca da Fundação Hélio Galvão”.

“Salão Arte Verão 99”.

“Seminário Nacional Mulher & Literatura”.

“37º Congresso Brasileiro de Cerâmica” – Curitiba-PR.

“Retratos” – Galeria Conviv'arte – UFRN.

“Exposição de Artistas Plásticos Potiguares” – FIESP-SP.

“Galeria da Escola YAZIGI” (inauguração) – RN.

“Mostra Coletiva de Artes Plásticas” – UFRN.

“Entre Objetos” – UFRN.

“Valei-me São Sebastião” FJA.

“Coletiva de Artes Plásticas – 7 Pintores” – UFRN.

“Reencontro com as Artes Plásticas”.

“12 Pintores do RN/FJA”.

“Natal, Luz e Cor” – UFRN.

“Mostra de Artistas Potiguares” – FIERN.

“I Semana de Cultura” – Solar Bela Vista.

“Exposição Coletiva de Artistas Nordestinos” / Mármore Ltda. - IAB.

“Do Abstrato ao Figurativo” – Galeria da UM (Inauguração).

“Pinacoteca do Estado do RN” – Palácio da Cultura.

“A Mulher e a Arte nos 400 anos de Natal” / Galeria da UM.

“Cores e Formas nos 400 anos de Natal” / FARN.

“Espaço Cultural AMOARTE” (Inausguração).

“Mulheres nas Artes século XXI” – 2002.

“Artistas da UFRN” – 2003.

 

Caixa de Presente

Composição

Igrejas de Natal

Tríptico

Ao lado, o bonito "Solidariedade".

 

 

Flávio Freitas, pintor e escultor

 

Flávio Ferreira de Souza Freitas nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Entre 1975 e 1981, estudou Música (trompete) na escola de música da UFRN, em Natal. Depois, durante dois anos (82/83) cursou desenho de modelo vivo no Cambridge Center for Adult Education, em Cambridge/EUA e desenho à mão livre - Cores e Escultura, no Massachussets College of Art, Boston/EUA 

Voltando ao Brasil, graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela UFRN, e viajou à cidade de Porto, Portugal, integrando o evento "OCEANOS II", em 1998. Em 1999 foi selecionado para o banco de dados do Rumos Visuais, da fundação ITAÚ CULTURAL de São Paulo.

Hoje, vivendo em Natal depois de anos morando na ilha de Fernando de Noronha, Flávio não pára de produzir. Em seu ateliê, além das pinturas e esculturas, imprime sua arte em pratos e camisetas.

Veja mais sobre Flávio Freitas em seu site na internet.

 

Mostras Individuais

2003, Notas Urbanas.

Galeria Elementar, Natal; 

2002, Encantaria da Pedra.

Casa da Ribeira, Natal; 

2001, La Joie de Dessiner, Aliança Francesa, Natal; 

2000, Do Império do Olhar à Arte de Ver.

UFRN, Galeria Convivart, Natal. 

1998, Flávio Freitas Pinturas.

Galeria Officio, Natal 

 

Principais Mostras Coletivas 

2002, Mostra Bienal de Desenho.

Espaço Cultural, João Pessoa; 

2000, IV Salão de Artes Plásticas.

Capitania das Artes, Natal; 

2000, Natal 400 anos.

Galeria da CEF ( Edição de Bilhete Lotérico), Natal; 

2000, Export Brasil, Palma de Mallorca, Espanha; 

1998, Oceanos II. 

Galeria da Praça, Porto, Portugal 

1992, Salão Governador do Estado. 

Museu de Artes do Estado de Pernambuco, Recife 

1992, Noronha 3 Visões. 

Museu de Arte Contemporânea de Olinda, Olinda 

1984, V Festival de Artes do Forte dos Reis Magos. 

Forte dos Reis Magos, Natal 

1983, Salão Governador do Estado. 

Galeria da Biblioteca Câmara Cascudo, Natal

 

Uma mensagem de Dorian Gray Caldas:

Caro Flávio Freitas, a arte nos ensina e nos destina, consagra o instante da beleza e a validade do fruir artístico, dádiva dos deuses. Parabéns, você dignifica o nobre exercício de pintar.

 

Peixe em Serigrafia, 2002

Serigrafia sobre papel Biblos

Série de 100 -  0,14 x 0,29 m

Máscara, 2001

Acrílico sobre MDF 50 x 90 cm

Homem, 2000 

Lápis e nanquim sobre papel 29,5 x 21 cm

Washington no Caminho dos 8 passos, 1987

Guache sobre papel

Casas em Zumbi, 1987

Óleo sobre eucatex 46 x 61 cm

Bicicleta Com Farol, Na Chuva, 2002

Acrílico sobre tela 1,20 x 1,40 m

 

 

Auta de Souza, poeta

 

Do caráter simbolista da poesia de Auta de Souza pode-se duvidar; está, no entanto, ligada ao simbolismo, mais que a qualquer outro movimento literário, pelo espírito religioso.

Otto Maria Carpeaux

 

A citação do Carpeaux é curiosa porque remete a temática de Auta de Souza a um movimento estético, o que é uma impropriedade. O fato é que entre o Simbolismo e o Neo-Romantismo pregava a poetisa, atribuindo-se-lhe coisas tais como "misticismo lírico" e "espiritualismo cristão" Embora Tristão de Atahyde fale em poesia cristã refere-se com mais propriedade quando fala que a poesia de Auta de Souza é simples, com "um sentimento de absoluta pureza"

Como naquela fase de transição, final do século XIX, Parnasianismo e Simbolismo no Brasil ainda eram atropelados pela verve romântica tradicional de nossos escritores, é nessa linhagem que melhor se configura a poesia de Auta de Souza, acentuando ainda Tristão de Athayde que ela "fez versos para si e para aqueles que mais de perto a cercavam. Nunca sonhou com a glória literária" mas "no coração dos simples" "encontrou a mais terna repercussão. Auta de Souza tem vida breve, morta no dia 7 de fevereiro de 1901, atacada de tuberculose, a mesma doença de um irmão seu, o também poeta Henrique Castriciano, mas este superou o mal e viveu vida mais longa. Auta nasceu em Macaíba, RN, no dia 12 de setembro de 1876. A morte sempre a acompanhou de perto: perde cedo os pais e foi criada pela avó materna, e um irmão seu, de 12 anos, também morre.

Os estudos foram feitos no Recife, no Colégio de São Vicente de Paula, de religiosas francesas, o que a levou a dominar o francês e até chegar a escrever algumas poesias neste idioma. Mas a tuberculose estava à espreita, atacada ,foi em 1890, ano de sua volta com a avó para Macaíba. Em 1892, seu irmão Castriciano publica o primeiro livro de poemas, Iriações. "Dela nada se encontra nesse período", observa Raimundo de Menezes.

A atividade literária de Auta de Souza; a partir de 1893, quando passa a escrever intensamente e a participar de clubes literários e a colaborar em jornais e revistas de Natal Outra morte no seu caminho: o namorado. Reúne seus poemas, feitos entre 1893 e 1897 e lhes d o título provisório de Dálias. 0 livro vai acabar nas mãos de Olavo Bilac, que lhe faz o prefácio com o título de O horto - ficou apenas como Horto, quando editado em Natal em 1908. Oito meses depois morre Auta de Souza.

Por Marco Dias

 

Noites Amadas

 

Ó noites claras de lua cheia!

Em vosso seio, noites chorosas,

Minh'alma canta como a sereia,

Vive cantando num mar de rosas;

 

Noites queridas que Deus prateia

Com a luz dos sonhos das nebulosas,

Ó noites claras de lua cheia,

Como eu vos amo, noites formosas!

 

Vós sois um rio de luz sagrada

Onde, sonhando, passa embalada

Minha esperança, de mágoas nua...

 

Ó noites claras de lua plena

Que encheis a terra de paz serena

Como eu vos amo, noites de lua!

Hoje

 

Fiz anos hoje... Quero ver agora

Se este sofrer que me atormenta tanto

Me não deixa lembrar a paz, o encanto,

A doce luz de meu viver de outr'ora.

Tão moça e mártir! Não conheço aurora,

Foge-me a vida no correr do pranto,

Bem como a nota de choroso canto

Que a noite leva pelo espaço em fora.

Minh'alma voa aos sonhos do passado,

Em busca sempre d'esse ninho amado

Onde pousava cheia de alegria.

Mas, de repente, num pavor de morte,

Sente cortar-lhe o vôo a mão da sorte...

Minha ventura só durou um dia.

 

 

Sobre Auta, seu irmão, Henrique Castriciano, escreveu:

Auta de Souza nasceu em Macaíba, pequena cidade do Rio Grande do Norte, em 12 de setembro de 1876; educou-se no colégio “São Vicente de Paula”, em Pernambuco, sob a direção de religiosas francesas; e faleceu em 7 de fevereiro de 1901, na cidade de Natal. Uma biografia simples como os seus versos e o seu coração ... 

Ela não conheceu os obstáculos que encheram de tormento a existência de Marcelline Desborde-Valmore. Desde muito cedo, porém, sentiu todo o horror da morte. Aos quatorze anos, quando lhe apareceram os primeiros sintomas do mal que a vitimou, não havia senão sombras em seu espírito; era já órfã de pai e mãe, tendo assistido ao espetáculo inesquecível do aniquilamento de um irmão devorado pelas chamas, numa noite de assombro.

Assim, desde a infância, o destino lhe apareceu como um enigma sem a possibilidade de outra decifração que o luto. Salvaram-na do desespero a fé religiosa e o resignado exemplo da ignorada heroína para quem escreveu o soneto A minha Avó, publicado neste volume. Horto é, pois, a história de uma grande dor. Formou-o a autora recordando, sentindo, 
penando. 

Em casa, o luto sucessivo; no colégio, as litanias da Igreja; mais tarde, no campo, onde passou o melhor tempo da atormentada existência, a paisagem triste do sertão nos longos meses de seca, a compaixão pelos humildes, cuja miséria tanto a comovia, a saudade dos diversos lugares em que esteve em busca de melhoras aos padecimentos físicos... 

Tudo isso concorreu muitíssimo para agravar a maravilhosa sensibilidade, de seu temperamento de mulher; e essa sensibilidade, à medida que a doença aumentava, se ia tornando mais profunda, fazendo de um ser fragílimo o intérprete de inúmeros corações desolados.

A primeira edição do Horto, publicada em 1900, esgotou-se em dois meses. O livro foi recebido com elogios pela melhor crítica do país; leram-no os intelectuais com avidez; mas a verdadeira consagração veio do povo, que se apoderou dele com devoto carinho, passando a repetir muitos de seus versos ao pé dos berços, nos lares pobres e, até, nas igrejas, sob a forma de “benditos” anônimos.

Auta, sem pensar e sem querer, reproduzira a lápis, na chaise longue onde a prostrara a doença, as emoções mais íntimas de nossa gente: encontrará no próprio sofrimento a expressão exata do sofrimento alheio.

E antes de finar-se ouviu da boca de centenas de infelizes muitos dos versos que traçara com os olhos lacrimosos, não raro para esquecer o desgosto de se sentir vencida em plena mocidade.

Não teve cultura literária vasta. Recordando cenas da meninice, vejo-a neste momento, aos oito anos, curvada sobre as paginas da História de Carlos Magno, outrora muito popular nas fazendas do Norte, livro cheio de façanhas inverosímeis, sem medida, sem arte, escrito no pior dos estilos, - mas delicioso para quem o conheceu na infância. Lia-o Auta no campo, os olhos ingenuamente maravilhados, para o mais ingênuo dos auditórios, composto de mulheres do povo e de velhos escravos, todos filhos d’esse formoso sertão que exerceu em seu espírito tão salutar influência.

Depois, chegou a vez das Primaveras, de Casimiro de Abreu. Um pouco mais tarde, no colégio, não leu outra cousa que os compêndios de estudo e as obras de prêmio, de feição religiosa e sentimental. Nesse tempo, o seu livro predileto foi um romance profundamente triste, Tebsima, episódio lendário da primeira Cruzada.

Ao sair do internato, onde aprendera bem as línguas francesa e inglesa e adquirira boas noções de música e de desenho, começou a ler alguns autores brasileiros, especialmente Gonçalves Dias e Luiz Murat. Estes dois grandes sonhadores, porém, não tiveram ação decisiva sobre seu espírito. Não sei mesmo como ela, que detestava a feitura clássica de certos estilos, podia ler com satisfação crescente o poeta dos Tymbiras. Nunca me explicou também o motivo por que os versos tumultuosos de Luiz Murat constituíam verdadeiro encanto para a sua alma tão meiga, tão cheia de religiosa ternura.

Nos últimos anos, as horas que podia dispensar ao convívio dos autores, consagrava-as aos místicos, a Th. de Kempis, a Lamartine, a S. Theresa de Jesus. A estes, associava Marco Aurélio, cujos Pensamentos muito concorreram para aumentar a tolerância e a simpatia com que encarava os seres e as cousas.

Tal é a história da sua formação intelectual. Pode-se, entretanto, dizer sem exagero que o sofrimento foi o seu melhor guia. A influência das Irmãs de “São Vicente de Paula” é visível em todo o livro. O próprio estilo, simples e claro desde as primeiras poesias, parece-me um produto do esforço das mestras que lhe corrigiram os temas escolares, com o bom senso e a medida dos franceses.

Mas, sem a dor que lhe requintou a fé, Auta certamente não teria encontrado a forma com que deu cor e relevo às visões de seu misticismo. Assim, o Horto, em vez de uma coleção didática de salmos católicos, encerra, com a tristeza de um pobre ser cruelmente ferido pelo destino, perturbado em face do mistério da vida, a queixa universal do sofrimento humano. Nos últimos versos, nota-se a estranha serenidade espiritual a que chegou nos derradeiros dias, inspirando aos que a visitavam a mais religiosa veneração. Via-se-lhe, então, a alma através os olhos brilhantes sem torturas, sem lágrimas.

Naquele corpo desfeito, tão leve que uma criança pudera conduzir, havia agora um coração resignado de mártir, sentindo profundamente o nada da vida, mas sem horror à morte. Realizaram-se o seu desejo:

“Não vês? Minh’alma é como a pena branca

“Que o vento amigo da poeira arranca

“E vai com ela assim, de ramo em ramo,

“Para um ninho gentil de gaturamo...

“Leva-me, ó coração, como esta pena

“De dor em dor até à paz serena.”

A tormenta se desfizera ao pé do túmulo; e do naufrágio em que se abismou esta singular existência, resta o Horto, livro de uma santa.

 

Ao Mar

 

A D. Martha e D. Amélia Pacheco

Ontem à tarde, ao pé de ti sentada,

Eu pus-me a contemplar-te, ó Mar bravio!

Pensava que acolhida em tuas ondas

Talvez minh’alma não sentisse frio!Contei-te, uma por uma, as cruas dores

De minha vida, toda de saudade;

Quis afogar as minhas mágoas fundas

No leito azul de tua imensidade.

 

Como seria bom morrer aí,

Moça, inocente, tendo n’alma em flor

Um mundo virgem de sagradas crenças,

Todo banhado no ideal do Amor!Tu dar-me-ias, então, a sepultura

Nessas espumas murmurosas, belas...

E à noite, se mirando em tuas águas,

Me cobriria o Céu de mil estrelas.

 

Ao pé de ti, como um soluço brando,

Sinto fugir-me, pouco a pouco, a vida...

Chorai, vagas, por mim! dobrai finados

Bem como os sinos de risonha ermida!

No mausoléu augusto do Oceano

De outros dobres minh’alma não precisa;

Por súplica mortuária só deseja

O soluço do vento que desliza...

Saudade

A ela, a Eugênia, a doce criatura que me chama irmã.

 

Ah! se soubesses quanto sofro e quanto

Longe de ti meu coração padece!

Ah! se soubesses como dói o pranto

Que eternamente de meus olhos desce!

Ah! se soubesses!... Não perguntarias

De onde é que vem esta sombria mágoa

Que traz-me o peito cheio de agonias

E os tristes olhos arrasados d’água!

Querem que a lira de meus versos cante

Mais esperança e menos amargura,

Que fale em noites de luar errante

E não invoque a pobre noite escura.

Mas... como posso eu levar sonhando

A vida inteira n’um anseio infindo,

Se choro mesmo quando estou cantando

Se choro mesmo quando estou sorrindo!Ouve, ó formosa e doce e imaculada,

Visão gentil de eterna fantasia:

Minh’alma é uma saudade desfolhada

De mãe querida sobre a cova fria.Ah! minha mãe! Pois tu não sabes, santa,

Que Ela partiu e me deixou no berço?

Desde esse dia a minha lira canta

Toda a saudade que lhe inspira o verso!

Depois que Ela se foi a Mágoa veio

Encher-me o coração de luto e abrolhos.

Eu sofro tanto longe de seu seio,

Eu sofro tanto longe de seus olhos!

 

Ó minha Eugênia! Estrela abençoada

Que iluminas o horror deste deserto...

De teu afeto a chama consagrada

Lança à minh’alma como um pálio aberto.Quando beijares teus filhinhos, pensa

O que seria d’eles sem teus beijos;

E, então, compreenderás a dor imensa,

A amargura cruel destes harpejos!

Junta as mãozinhas dos pequenos lírios,

Das criancinhas que tu’alma adora,

E ensina-os a rezar sobre os martírios

E a saudade infinita de quem chora.

 

 

Nísia Floresta Brasileira Augusta, educadora, escritora e poeta

 

Nasceu em 12 de outubro de 1809 no sítio Floresta do município de Paparí - RN, cidade hoje denominada de Nísia Floresta em sua homenagem. Seu nome de batismo é Dionysia, sendo seus pais o advogado português Dionysio Gonçalves Pinto Lisboa e a brasileira Antônia Clara Freire.

Aos 19 anos deixava o Rio Grande do Norte, instalando-se em Pernambuco, e posteriormente no Rio Grande do Sul, onde promoveu e organizou um colégio, que ali mereceu o melhor acolhimento. Continuou sua delicada missão educadora no Rio de Janeiro, que a atraíra, talvez para relevo maior do seu espírito forte e fulgurante. Lá realizou conferências sobre o Abolicionismo e a República, sem perder ocasião de revelar-se pela emancipação dos escravos, liberdade dos cultos e federação das províncias, magnos problemas sociais e políticos. Colaborou no Jornal do Comércio, Correio Mercantil, Diário do Rio de Janeiro, Brasil Ilustrado, etc...

Distanciou-se de sua pátria em 1848, passando a residir em Paris, comunicando-se com Victor Hugo, Saint-Hilaire, Lamartine, George-Sand, Laboulaye e correspondendo-se com Augusto Comte, Manzzini, Garibaldi e outros notáveis espíritos da época. Percorreu grande parte da Europa, demorando-se de preferência na Itália, tendo viajado também para o Oriente. Freqüentou cursos de Ciências na Itália, Inglaterra e França.

Em 1831 fez a sua estréia nas letras. No Espelho das Brasileiras, jornal dedicado às mulheres pernambucanas, começa a surgir a escritora. De sua autoria publicam-se vários livros, todos esgotados: 1832 - "Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens", com novas edições em 1833 e 1839; 1842 - "Conselhos à minha filha", de que o Bispo de Mondovi fez versão para o italiano e o francês, acrescentado, na nova edição de 1845,de "Quarenta Pensamentos" em versos; 1847 "Fany ou o Modelo das Donzelas" e "Darciz ou a Jovem Completa", historietas oferecida a suas educandas; 1849 - A Lágrima de um Caeté 1ª e 2ª edições; 1850 - "Revolta praieira", "D'assis" e "Dedicação de uma amiga"; 1853 - "Opúsculo Humanitário"; 1854 - "Páginas de uma Vida Obscura"; "Um Passeio ao Aqueduto da Carioca", "O pranto filial"; 1856 - "Versos"; 1857 - "Itineraire d'un voyage en Allemagne"; 1858 - "Consigli a mia Figlia"; 1859 - "Scintelle d'una Anima Brasiliana"; "Conseils a ma Fille" 1861 - "Trois ans en Italie"; 1864 - "Abysmo sob flores"; 1871 - "Um passeio ao Luxemburg" e "Le Brésil" e outros. 

Quando no estrangeiro escreveu em muitas revistas, tendo o Novo Mundo, de New York, de 23 de maio de 1872, publicado a sua biografia, estampando-lhe o retrato. Em manuscrito, deixou dois volumes de poesias: "Inspirações Maternas" e "Memórias de Minha Vida". Morreu em Rouen a 24 de abril de 1885. O cemitério de Bonsecours serviu de abrigo para seu corpo, que trasladou-se para o Rio Grande do Norte, hoje repousando em mausoléu próprio na cidade de Nísia Floresta.

"Mais notável mulher de lettras que o Brasil tem produzido, quer pela amplitude da visão, quer pela suavidade do estylo", conforme o alto conceito dessa brilhante personalidade intelectual que é Oliveira Lima.

Recentemente forarm republicados os seus livros: A lágrima de um Caeté e Cintilações de uma alma brasileira.

Sua obra literária está sendo resgatada por Constância Lima Duarte (Natal/RN) que escreveu "Nísia Floresta - Vida e Obra", Editora Universitária - UFRN 1995, um belíssimo trabalho de pesquisa, que consagra e enaltece a autora e a UFRN.

Origem do pseudônimo: Nísia, de seu próprio nome; Floresta, da fazenda onde nasceu; Brasileira; por seu patriotismo e Augusta em homenagem ao grande amor de sua vida, Manuel Augusto de Faria Rocha, com quem se uniu.

 

A professora Constância Lima Duarte, da UFRN, estudou a vida e a obra de Nísia Floresta, a quem considera a pioneira do feminismo brasileiro no século XIX.

 

O primeiro livro escrito por Nísia Floresta é também o primeiro que se tem notícia no Brasil que trata dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho, e que exige que as mulheres sejam consideradas como seres inteligentes e merecedoras de respeito pela sociedade. Este livro, publicado em 1832 em Recife (PE), tem o sugestivo título de Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, e, quando surgiu, Nísia tinha apenas 22 anos e a grande maioria das mulheres brasileiras vivia enclausurada em preconceitos, sem qualquer direito que não fosse o de ceder e aquiescer sempre à vontade masculina.

No ano seguinte - 1833 - saiu uma segunda edição e, em 1839, ainda uma terceira, no Rio de Janeiro. Os Direitos das Mulheres de Nísia Floresta foi inspirado no livro de Mary Wollstonecraft, a feminista inglesa: Vindications of the Rights of Woman. Só que, ao invés de fazer simplesmente uma tradução, a autora brasileira aponta os principais preconceitos existentes no Brasil contra seu sexo, identifica as causas desse preconceito, ao mesmo tempo em que desmistifica a idéia dominante da superioridade masculina.

O texto revolucionário de Wollstonecraft havia sido publicado em Londres em 1792, como uma resposta à Declaração Universal dos Direitos do Homem. Neste mesmo ano surgiu a tradução francesa e nos anos seguintes diversas outras edições. Rapidamente o livro se tornou conhecido e repercutiu pela Europa e Estados Unidos consagrando o nome de sua autora como a pioneira na defesa dos direitos da mulher.

Quatro décadas mais tarde seria a vez de Nísia Floresta inscrever seu nome nesta história ao fazer a tradução livre deste livro, baseada na versão francesa. E aí está a grande questão. Na verdade Nísia Floresta não realiza uma tradução, no sentido convencional, do texto da feminista.

Ela realiza sim, um outro texto, o seu texto sobre os direitos das mulheres. Mary Wollstonecraft lhe deu a motivação ao colocar em letra impressa questões pertinentes à mulher inglesa, voltadas para o público de seu país. Nísia empreende então uma "antropofagia libertária" e, poderíamos ainda acrescentar: não como opção, mas até como uma fatalidade histórica. Na deglutição geral das idéias estrangeiras aqui chegadas, era comum promover-se uma acomodação das mesmas ao cenário nacional. É o que ela faz. Assimila as concepções de Mary e devolve um outro produto, pessoal, em que cada palavra é vivida, em que os conceitos surgem das páginas como algo visceral, extraídos da própria experiência e mediatizadas pelo intelecto.

Não é, portanto, o texto inglês que se conhece ao ler estes Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens. Ainda está para ser feita a sua tradução em língua portuguesa. Temos sim, nesta tradução livre, talvez o texto fundante do feminismo brasileiro, se o vemos como uma nova escritura, ainda que inspirado na leitura de outro. Vejo-o como uma resposta brasileira ao texto inglês; a nossa autora se colocando em pé de igualdade com a Wollstonecraft e até com o pensamento europeu, e cumprindo o importante papel de elo entre as idéias européias e a realidade nacional.

 

IMPROVISO

ao distinto literato e grande poeta, 

Antônio Feliciano de Castilho

( ... )

Vate sublime, que os primeiros sonhos

Da juventude minha hás embalado, 

Quando às margens do fresco Beberibe

Os teus primores d’arte eu decorava

Às ilusões entregue dessa idade,

Em que os risos de amor tanto seduzem!

Tu nos deixas enfim! e as plagas nossas

Ao verem-te sair gemem saudosas;

Gemem os corações dos brasileiros,

Que como meu reter-te não puderam

Nesta terra que ufana te incensara

Se o gênio aqui tivesse um templo seu!

 

Inclina triste a fronte, ó pãor-de-açúcar,

Ao poeta que passa! ao gênio deve

A matéria imponente assim curvar-se.

Embalde indiferente ela se ostente,

A grande inteligência, que mar afora

Lá se vai!...nos corações nossos deixando

Da pungente saudade a dor acerba!

(...)

 

A LÁGRIMA DE UM CAETÉ

 

(...) página 2

 

Lá, quando no ocidente o sol havia

Seus raios mergulhado, e a noite triste

Denso-ébanico véu já começava

Vagarosa a estender por sobre a terra;

Pelas margens do fresco Beberibe,

Em seus mais melancólicos lugares,

Azados para a dor de quem se apraz

Sobre a dor meditar que a pátria enluta!

Vagava solitário um vulto de homem,

De quando em quando ao céu levando os olhos,

Sobre a terra depois triste os volvendo...

(...)

 

(...) página 18

 

Não chores, ó Caeté, o amigo teu:

Que caiu, não morreu, porque o bravo

Constante defensor da pátria sua,

Para a pátria não morre.

(...)

 

(...) página 21

 

O bravo selvagem atônito ficou...

- Quem és; lhe pergunta, infernal deidade?

- Uma tal visão de inferno não sou:

Sou cá deste mundo, a realidade.

 

Volta às selvas tuas, vai lá procurar

Alguns desses bens, que aqui te hão tirado:

Não creias, ó mísero, jamais encontrar

A paz, a ventura que aqui tens gozado.

(...)

 

(...) página 23

Um movimento fez de impaciência

Da natureza o filho.

Seus braços estendendo à bela Virgem,

Quis ir a seu socorro...

Mas os olhos volvendo à terra vê

Realidade horrível!

- Dissipa as ilusões, filho dos bosques

A meu rosto te afazei;

E verás, que tão feia eu não serei,

Como agora pareço,

Se de ilusões a mísera humanidade

Não amasse nutrir-se,

Horrenda a face minha não seria

A seus olhos depois...

(...)

 

(...) página 56

 

E súbito o Caeté foi-se saudoso!

................................

Nas margens do Goiana agora expande

Sua dor !

 

- Goiana ! ... clama ele ali vagando,

Mais triste do que lá o Beberibe:

Onde está teu herói ? o filho teu !

- no céu ...

 

- No céu ... responde o eco ! E sabe o mundo

Suas grandes virtudes; sabe a glória,

Que seu nome deixou, nome imortal

Na pátria ! ...

 

E lá do Caeté

O triste pungir,

Com ele se foi

No céu confundir 

 

 

Newton Navarro, pintor, poeta, jornalista, desenhista, cronista e contista

 

Newton Navarro Bilro (1928-1992) nasceu em Natal, a 8 de outubro. Artista de enorme sensibilidade, Newton foi pintor e desenhista e seus trabalhos literários foram publicados nos mais diversos jornais e suplementos de Natal e outras cidades brasileiras.

Sobre ele, Dorian Gray Caldas escreveu:

"Newton Navarro Bilro foi, a seu tempo, um artista polivalente, inquieto e vibrante, orador, contista, poeta, pintor, cronista, esteve à frente do seu tempo e participou de quase todos os movimentos culturais dos anos 50.

Vindo do Recife, para onde foi fazer o vestibular, preferiu a companhia dos artistas, escritores, dos poetas, iniciando uma extraordinária atividade artística-literária, da qual resultou exposições notadamente no Recife, onde frequentou o atelier de Lula Cardoso Aires e teve a amizadade de Hélio Feijó. Em dezembro de 1948, na sorveteria Cruzeiro, realizou sua primeira exposição em Natal com mais de 50 trabalhos expostos, entre os quais, 'Sejamos docemente pornográficos' e 'Os Frutos do Amor Amadurecem ao Sol', ao mesmo tempo em que expõe à bico-de-pena, ricamente, interiores das igrejas conventuais do Recife.

Nos anos 50, participa conjuntamente com Dorian Gray Caldas e Ivon Rodrigues da Coletiva de Arte Moderna do estado, no salão da Cruz Vermelha, situada na João Pessoa, àquela época.

Escritor emérito, deixou-nos livros de contos, poesia e crônicas. Entre eles destacamos 'Suburbio do Silêncio', 1953, poesia; 'ABC do Cantador Clarimundo', 1955, poesia; 'Solitário Vento do Verão', 1961, contos; 'Trinta Crônicas Não Selecionadas', 1969; 'Os Mortos são Estrangeiros', 1970, contos; 'Beira Rio', 1970, crônicas; 'Do outro lado do Rio entre os Morros', 1975, crônicas; 'De como se perdeu o Gajeiro Curió', 1978, novela.

A obra de Newton Navarro foi reunida em livro pela Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte e Fundação José Augusto, na adminsistração de Abelírio Vasconcelos da Rocha, com a parceria de Woden Madruga, tendo ainda a excelência do prefácio do poeta Luis Carlos Guimarâes, já falecido.

Estas linhas dizem muito pouco da extraordinária figura humana que foi Newton Navarro à l'avant garde de uma geração que muito lhe deve na prospecção e no engajamento de uma verdade artístico-cultural de que soube imprimir e honrar."

 

A Cadeira

(A Moça Sentada)

 

O alto corpo se curva,

Quebram-se as linhas

E partidas formas lentas

Se debruçam.

Do vivo traço que era

De pé, como haste erguido

Em três planos se dispersa.

Vivos olhos, agudamente,

Percorrem a sala sem lume.

 

Dois seios pulsam, solenes.

As mãos uma flor seguram

Suspensa sobre o regaço

E o sexo e a flor se ocultam

No sem espaço da curva.

 

Pernas suspendem ligeiras

Os pés, e as alpercatas

Caem no vazio onde foram

Sólidas raízes do corpo

Que a cadeira despedaça.

 

E na sombra,

Sem movimento,

Todo o corpo adormecido

Sobre o corpo da cadeira

Mulher de amor ausente

Talha na sombra envolvente

Vivo relevo de carne

Inútil sobre a madeira

(Março - 1953)

Passistas (Aquarela - anos 50)

 

Vaqueiros (Nanquim aquarelado - 1983)

 

Pescador (Nanquim aquarelado sobre papel - 1983)

 

 

Ferreira Itajubá, poeta

 

Texto retirado do site Memoria Viva (www.memoriaviva.digi.com.br), com material produzido por Sandro Fortunato, baseado em informações retiradas do livro 'Patronos e Acadêmicos', de Veríssimo de Melo, Editora Pongetti, Rio de Janeiro, 1972.

 

Agosto. O claro mês dos meus anos. Que anseio

De ser asa migrante e fugir pelos ares,

Pelos longes do céu, através desses mares,

Em busca do calor do sol de um clima alheio!

 

Mistério e inconstância. Duas palavras que podem definir os quase 35 anos de vida do poeta Ferreira Itajubá. O mistério começa pelo seu nascimento que, não se sabe ao certo, pode ter acontecido em 1875, 76 ou 77. O último ano é o mais provável. A 21 de agosto para ser mais preciso. Pelo menos foi o que assinalou o próprio poeta no termo de nomeação para servente na Associação de Praticagem. Onde nasceu? No Rio Grande do Norte, provavelmente na Praia de Touros.

O sobrenome com o qual passou para a História também não era seu. Nascido Manuel Virgílio Ferreira, incorporou o Itajubá em seus primeiros versos e depois definitivamente à sua vida. A inconstância aparece no que em circunstâncias normais se chamaria de vida profissional. Foi auxiliar do comércio, orador popular, jornalista, professor, funcionário público e dono de circo, cujos espetáculos tinham lugar no quintal de sua casa. Mas acima de qualquer coisa, Ferreira Itajubá exerceu duas principais “funções” em sua passagem por este mundo: a de poeta e de boêmio.

 

Que saudade sem fim de outras terras me veio!

Que ânsia de me esquecer por estranhos lugares!

Pois se não tenho aqui lenitivo aos pesares,

Quanto mais quem me aqueça ao mormaço de um seio!

 

Ferreira Itajubá tinha alma de poeta. Talvez daí sua brevidade neste mundo. Com a alma cheia de poesia, não precisou de grandes estudos. Tinha apenas a instrução primária. Segundo Câmara Cascudo, “morreu sem suspeitar a existência da gramática”. O que em nada diminui o valor de seus versos, “de um lirismo espontâneo, sonoros e ricos de seiva poética”, como disse Veríssimo de Melo. Na introdução de Poesias Completas - obra que reúne os dois livros de Ferreira Itajubá, Terra Natal e Harmonias do Norte -, Esmeraldo Siqueira observa: “No poema de Itajubá, o largo sopro lírico assume facetas sugestivas e variadas. É romântico, amoroso, saudosista, filial, regionalista, patriótico. Não lhe falta mesmo a nuança filosófica, o sentimento da fuga vertiginosa do tempo e da precariedade da vida”.

 

Minha mãe? Minha irmã? Duas mulheres santas

Mas inda falta alguém nesse longo caminho

Que tem na mocidade o perfume das plantas...

 

Alma de poeta e de criança. Já adulto, empinava enormes papagaios (pipas, pandorgas) de papel de seda e, na época de São João, virava fogueteiro. Seu humor também era mostrado no jornal O Echo, que ele mesmo criou. Colaborou em todos os jornais da época. Ainda que raramente, também nos jornais A República e Rio Grande do Norte, políticos e sisudos, bem diferentes de seu estilo boêmio. Como homem simples e com a loucura dos poetas, também buscou auxílio na Bíblia, encarnando um pastor.

 

E como não posso ir, e como vais e eu fico,

À noiva que me espera à beira de algum ninho,

Ave de arribação, leva esta flor no bico!

 

A mãe, a irmã e a misteriosa Branca eram suas fontes de inspiração. E quem era Branca? Seu amor, às vezes perto, às vezes distante, junto ao marido e que, segundo o escritor Nilson Patriota, em seu livro Itajubá Esquecido, poderia ser Emília Ribeiro, nativa da Praia de Touros. O poeta que vivia de saudades e amores oníricos morreu no Rio de Janeiro, para onde tinha ido em busca de recursos médicos inexistentes em Natal, a 30 de junho de 1912. Lá foi enterrado e, anos depois, por iniciativa de Henrique Castriciano, seus restos mortais foram levados para Natal e temporariamente depositado no ossuário da Igreja de Bom Jesus das Dores. Numa das remodelações da igreja, um frade juntou “as velharias existentes, inclusive os ossos que encontrou aqui e ali e lançou tudo numa vala comum, ao lado da igreja”. Os ossos de Itajubá estavam no meio. Termina assim a breve história do poeta, bem diferente do que ele imaginara.

 

Hei de morrer cantando

num domingo formoso

Quando alveja no espaço o luar saudoso

O fulgor das estrelas empanando

 

 

Diva Cunha, poeta

 

Nascida em 10 de dezembro de 1947, em Natal, RN, Diva Cunha está se revelando uma das principais poetas da contemporaneidade. Formou-se em Letras, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e fez a pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, defendendo a dissertação 'Dom Sebastião: a metáfora de uma espera'. Foi professora de Literatura Portuguesa no curso de Letras da UFRN, até aposentar-se, e, atualmente, faz o curso de doutorado na Universidade de Barcelona, e integra os quadros da Universidade Potiguar, onde ensina História da Literatura do Rio Grande do Norte e Cultura Brasileira, temas que se tornaram objeto de inúmeras pesquisas.

Seu primeiro livro — Canto de página — revelou uma poetisa madura, com extrema capacidade de manejo do verso e com uma dicção própria. Os seguintes — Palavra estampada e Coração de lata — reforçam a noção de uma poética que trabalha a emoção e a razão, tentando atingir o equilíbrio possível entre elas. Seus principais temas poderiam ser assim resumidos: a poesia, a cidade, a mulher.

Obra:

Dom Sebastião: a metáfora de uma espera. Natal: Ed. da UFRN, 1979. (Ensaio)

Canto de página. Natal: Clima, 1986. (Poesia)

Palavra estampada. Natal: Ed. da UFRN, 1993. (Poesia) 

Coração de lata. Natal: Ed. do RN Econômico, Profinc, 1996. (Poesia)

 

São os trapos... 

 

São os trapos do coração

a escorrerem caminhos afora

trapos e

tripas

vomitados em golpes escuros

sobre os tetos frios destas

noites

trapos e tripas

tripas e trapos

fitas e fitas

f a r r a p o s

Sou todos ...

 

sou todos

os poetas que li

com a devida

ressalva

eles não são eu

cadeira que ocupo

enquanto escrevo

Salivo ...

 

Salivo soluço

boca ávida debruçada

à janela deste prato

barco de longa ida

quero o meu desejo

fenda que me parte

em duas partes:

vida e arte

Lençol branco

 

Lençol branco

flores de algodão

desfiadas

pelo atrito:

nossas peles

meu grito.

 

 

Dorian Gray, pintor, tapeceiro, escultor e poeta

 

O professor do departamento de Artes da UFRN, Antônio Marques de Carvalho Júnior, é quem apresenta Dorian Gray Caldas à nossa página:

Pintor, tapeceiro, escultor e poeta. Um misto de talento e disciplina, cultura e técnica, inteligência e sensibilidade. Em 1950, juntamente com Newton Navarro e Ivon Rodrigues, expôs no "Salão de Arte Moderna", instalado por eles em um antigo casarão ocupado pela Cruz Vermelha, nas proximidades do Grande Ponto.

O evento sacudiu o marasmo cultural da província, revolucionou a pintura de cavalete, motivou debates sobre as novas tendências artísticas, nacionais e internacionais e, finalmente, ficou com o marco da penetração do movimento modernista no campo das Artes Plásticas no Rio Grande do Norte.

Além do espírito inovador, de vasta e sólida cultura que nos faz lembrar a encarnação dos ideais renascentistas, Dorian Gray também se destacou no desempenho de funções públicas de caráter cultural como assessor da secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte (1967-68) e da Fundação José Augusto (1974), conselheiro e membro do Conselho Estadual de Cultura (1967-68) e da Escolinha de Arte Cândido Portinari (1967-68).

Como artista plástico participou de inúmeras coletivas. Dentre estas, merecem destaque: "Salão de Arte Moderna" em Natal, na Cruz Vermelha (1960, 1952, 1955); "Cerâmica, Pintura e Escultura", em 1956 na Loja 21 de Março, e, em 1958, na Sociedade Brasil - Estados Unidos, ambas em Natal; "Pintura" no Salão Nobre do Palácio Potengi, Natal (1964); "Pintura", na Galeria Berro d' Água, Rio de Janeiro (1967); "O Rio Grande do Norte visto por seus artistas plásticos" - Galeria Conviv'Art - UFRN (1985); "Pintores Norte-rio-grandense", na Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro (1987) e I Coletiva de Pintores Norte-rio-grandenses em Mossoró (1987). Quanto às individuais de pintura merecem registro especial as que foram realizadas nos seguintes espaços: Galeria 7, Olinda (1967); Galeria Goeldi, Rio de Janeiro (1967); Azulão Galeria, São Paulo (1968); Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (1969); Hotel Nacional de Brasília - DF (1969 e 1982); Galeria Conviv'Art - UFRN (1985) e Academia Norte-Rio-Grandense de Letras (1986).

Entre as exposições de tapeçaria importa mencionar a que foi realizada em 1970, na Biblioteca Pública Câmara Cascudo. Efetivamente, a primeira exposição de tapetes artísticos realizada em Natal, além de marcar o início da Arte da tapeçaria no Rio Grande do Norte.

Ainda expôs seus tapetes de colorido "fauve" - nesse aspecto bem diferente de sua pintura que guarda sempre tons pastéis - no Ideal Clube de Fortaleza, sob patrocínio da Secretaria de Educação e Cultura do Ceará (1971); no Inter-American Development Bank of Washington (1973) e no Museu Nacional de Arte Decorativa, Buenos Aires (1980). Atualmente, sua obra artística (particulamente a tapeçaria e a pintura) encontra-se em acervos de instituições culturais e em coleções particulares no País e no exterior. Tornou-se rotina para quem visita Natal levar como melhor "souvenir" um trabalho assinado por Dorian Gray. É que ninguém melhor que ele para expressar, através das cores e das formas, a nossa paisagem física, humana e social. O poeta Sanderson Negreiros assim o define: "Pintor de marinhas, é um dos que melhor neste País souberam ver, trasfigurardo, rever e modificar o grande mar - nordestino e do mundo".

Newton Navarro reforça o depoimento de Sanderson quando em uma de suas crônicas escritas em homenagem a Dorian Gray afirma: "Quantas vezes diante do mar o seu pincel descobre matizes que facilmente outro pintor não descobriria! Pinta e o mar passa inteiro para suas telas".

Comentando uma de suas exposições realizada no Rio de Janeiro, Antônio Bento escreveu: "Paisagens campestres como nas cenas das praias natalenses e em composições diversas, Dorian Gray Caldas tenta fixar a atmosfera e o caráter de sua terra, através de formas e cores de incontestável sabor telúrico ou nativo. É por isso mesmo um pintor representativo da cultura plástica do Nordeste brasileiro".

Dorian Gray sempre soube cultivar, simultaneamente, a gravura, a escultura, a tapeçaria, além do jornalismo, do ensaio e da poesia.

No entanto, o levantamento que realizamos da sua tragetória artística leva-nos a afirmar que houve, de 1950 a 1970, uma predominância da produção pictorial. Desta época datam dois depoimentos importantes a respeito da sua pintura. O primeiro é o de Câmara Cascudo:

"Compreende-se que Dorian Gray, pintor e desenhista enfrentando a composição, tenha a vocação pictórica pela realidade brasileira, incapaz de dformá-la, mutilá-la, sob pretexto de interpretação pessoal. Esses sentimentos, profundos, obscuros, radiculares, na permanência mental, ascendem no impulso irrestível da espontaneidade, constituindo uma anticlinal, uma figura coletiva, palpitante e lógica, na personalidade do artista (THE CREATOR OF BEAUTIFUL THINGS). A emoção duplica os temas da modelagem impressionista, numa diplopia geradora de imagens de assombro e verdade". O segundo foi emitido pelo crítico de Arte Clarival do Prado Valladares:

"Artista de nível nacional, Dorian Gray Caldas tem uma pintura de muito boa qualidade e eficiência, a nível perfeitamente competitivo com o que se vê produzido, e com a vantagem de ter aquele aspecto da tomada da ancoragem no genuíno, que muitos outros já perderam de vista por sentimento de internacionalização. Dorian Gray usa recursos da técnica em grande parte do autodidatismo, mas pelo tempo e pelo exercício bem fundamentados exerce uma criação artística referencialmente do local, mas em termos da pintura universal do homem erudito".

A década que vai de 70 a 80 é a fase da tapeçaria que Dorian Gray realiza melhor sua vocação muralista. Alguns dos seus tapetes chegam a medir vinte metros quadrados. Infelizmente, Natal não oferece campo fértil para o florescimento da Arte Mural. A partir da década de 80, Dorian Gray passa a dividir seu tempo com a pintura, a tapeçaria, a poesia, o ensaio e a pesquisa de fatos relacionados com a vida artística do Estado cuja conseqüência imediata é a publicação deste livro. Talvez sua posse na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, em 1986, tenha contribuído para uma tomada de consciência da sua responsabilidade para com outros aspectos da vida cultural do Estado.

Dorian Gray aindavem intesificando seu trabalho de incentivo aos novos artistas, além de manisfestar sua preferência por exposições coletivas, ao lado dos artistas plásticos conterrâneos. Aliás, a necessidade da exposição individual torna-se menor à medida em que o artista dispõe de um amplo ateliê onde apresenta permanentemente suas obras, além da certeza de que as galerias de Arte do Nordeste e de outros centros culturais do País sentem-se honradas em apresentar, nos seus acervos, quadros e tapetes que trazem a assinatura de um artista plástico nacionalmente consagrado: Dorian Gray.

 

 

 

Berilo Wanderley, poeta, cronista e jornalista

 

Francisco Berilo Pinheiro Wanderley nasceu em Natal, a 21 de abril de 1934. De infância comum, aluno marista, recebeu uma educação literária, segundo ele, aquém de medíocre. Formado em Direito, ainda enfrentou a Promotoria Pública onde se desencantou. Em 1956, com apenas 22 anos de idade, reuniu alguns sonetos e poemas e publicou 'Telhado do Sonho', seu único livro, com ilustrações do seu primo e amigo Newton Navarro. Poeta, cronista, trabalhou também como jornalista.

O poeta foi cedendo lugar ao jornalista, revelando um excelente cronista, crítico literário e de cinema. Na nova profissão, trabalhou no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas o apelo de sua terra foi mais forte. Foi professor do curso de Jornalismo da Fundação José Augusto e depois da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O Centro Acadêmico daquele curso, até hoje, leva seu nome.

Durante muitos anos, assinou a coluna Revista da Cidade, no jornal Tribuna do Norte. Tamanho talento tinha uma fonte inspiradora que era conhecida de todos: Maria Emília, sua mulher. Dessa união surgiram Henrique, Milena, Rômulo e Alexandre, além de linhas e linhas de poesias e crônicas, que imortalizaram o amor entre os dois.

Em 1994, quinze anos depois de sua morte, com o título de “Revista da Cidade”, foi lançado um livro de contos, crônicas, poemas e fragmentos de Berilo Wanderley, organizado por Maria Emília Wanderley.

 

SONETO DA VINDA

 

Vim dar-me a ti. Sinto-te, vez em quando.

Nas sombras dos meus sonhos me acompanhas.

Música dos teus olhos me embalando,

Me fazendo sonhar coisas estranhas.

Não venho como estavas esperando.

Venho como sou: pobre, sem façanhas.

Só posso dar-te um coração sangrando

Como o sal das minhas mágoas nas entranhas...

Vem, bebe em minha boca os meus soluços!

(Ah! quantas vezes solucei de bruços

sobre a angústia que bóia em meu olhar!)

Sei que me vais dizer coisas amigas,

Sei que os teus olhos cantarão cantigas

E os meus, de alegres, vão querer chorar.

 

 

Deífilo Gurgel, poeta, escritor e folclorista

 

Poeta na adolescência, somente aos quarenta anos, Deífilo "descobriu" o Folclore e a ele passou a dedicar-se integralmente. Como poeta, escreveu três livros que pretende reunir numa Antologia, com alguns poemas inéditos.

Na área do Folclore, publicou outros quatro livros, sobre danças, João Redondo, Boi Calemba e romanceiro, frutos de suas pesquisas de campo pelos caminhos do Rio Grande do Norte. Tem alguns trabalhos inéditos sobre romanceiro, conto popular e teatro de mamulengos. Nascido em Areia Branca/RN, no dia 22 de outubro de 1926, Deífilo reside em Natal desde 1944.

Considera-se um "provinciano incurável", como Luís da Câmara Cascudo. Em suas pesquisas, tem-se aprofundado nas nossas raízes históricas, o que resultou em descobertas inéditas, como as de 1985, quando coletou exemplos do romanceiro popular ainda não registrados por qualquer outro pesquisador brasileiro, merecendo menção o "Cavalo Moleque Fogoso", de Fabião das Queimadas.

Sobre Deífilo Gurgel, Iaperi Araújo poeta, membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, escreveu:

"Eis o mérito do Prof. Deífilo Gurgel: buscou as fontes primárias. Palmilhou os caminhos do Rio Grande do Norte de máquina fotográfica e gravador a tiracolo, ouvindo gente, batendo em portas e sentando-se nos terreiros das casas humildes para ouvir contarem os fragmentos desbotados da tradição popular."

 

OBRAS:

O Diabo a Quatro (inédito)

Romanceiro de Alcaçus (Natal: UFRN, 1992)

Romanceiro Potiguar (inédito)

Manual do Boi Calemba (Natal: Nossa Editora, 1985)

Danças Folclóricas do Rio Grande do Norte (Natal: EDUFRN, 1995, ed.5)

João Redondo - Teatro de Bonecos do Nordeste (UFRN-Vozes-Petrópolis, 1986)

Câmara Cascudo - um sábio jovial. Discurso de Posse na Academia Mossoroense de Letras (Coleção

Mossoroense, série B, n.º 683, Mossoró, 1989)

7 Sonetos do Rio e Outros Poemas (Natal: EDUFRN, 1983)

Os Dias e as Noites (Natal: Ed. Clima, 1.ed., 1979) 

OS FANTOCHES

O fantoche obedece cegamente

ao comando do manipulador: 

um tempo de sorrir e estar contente,

um tempo de chorar e sentir dor.

 

Mas, a face não muda. A gente sente 

olhando em seu olhar, seja o que for 

de morte e solidão, a inconsistente 

vida a que uma outra vida dá calor. 

 

O homem dos fantoches é um sucesso: 

— Distinto público, eu agora peço... 

(Silencia a ululante patuléia). 

 

A lágrima e o sorriso controlados 

nos cordéis habilmente disfarçados. 

 

(Os fantoches no palco ou na platéia?).

A (COM)PORTA 

Serás o dia à noite do outro lado 

Jorge de Lima

Deste lado da porta é noite, já. 

Os homens adormecem seus cuidados. 

Pelos campos desertos, os arados 

pesam, negros e inúteis, ao luar. 

 

Deste lado da porta ruge o mar 

dentro da noite. Os pássaros cansados 

pousaram nos meus olhos tresnoitados 

e dormem ao relento, sem cuidar 

 

que do outro lado desta porta é dia 

e que somente um sopro bastaria 

para esta porta abrir-se do outro lado. 

 

Então, de súbito, amanheceria 

e o que em sonho repousa, deste lado, 

do outro lado da porta acordaria.

GÊNESE

De súbito aconteço. A madrugada

devolve as minhas mãos cotidianas.

E eu pressinto, entre as frágeis persianas,

a vida amanhecendo nas calçadas.

Regresso de uma terra iluminada

em sóis de bruma e luas levianas,

vergastada de gélidas cruvianas

ou explodindo em rosas encarnadas.

Não sei por que parti, nem para que.

Nem sei por que nem para que regresso.

O sonho e a vigília me alimentam.

Dias e noites fluem no meu ser.

E existo, prisioneiro de um processo

onde as coisas me inventam e reinventam.

 

 

J. Araújo, pintor

 

J. Araújo nasceu em Campo Grande/RN, mas reside em Natal, capital potiguar. O desenho veio naturalmente, como um "dom", desenhando histórias em quadrinhos, retratos de pessoas, desenhos de igrejas, etc. Foi na adolescência que teve o primeiro contato com a tinta a óleo. Trabalha com outras técnicas como aquarela, grafite, acrílico, nanquim e pastel, mas tem se dedicado mais à técnica a óleo.

Seus temas favoritos são: paisagens do sertão nordestino, o homem do campo, igrejas, casarões rústicos do sertão, vilarejos, praias do litoral potiguar, paisagens e casas de Natal, naturezas mortas e retratos.

No tema "figura humana" faz trabalhos com a imagem do homem do sertão, lavadeiras e imagens sacras. No tema "Paisagem" pinta o sertão nordestino: suas igrejas, seus casarios e praias do litoral potiguar. A paisagem do sertão nordestino, com sua luz e seu ambiente rústico, seus casarios, suas igrejas e suas fazendas está sempre em destaque no seu trabalho, como também as fazendas, com seus alpendres, porteiras, serras, vegetação e sua paz.

 

Casa do Sertão

Serra do Sertão

Menino

 

 

R. Peixe, pintor escultor

 

Um Peixe Amazônico na Bacia Potiguar, foi como se referiu nosso colaborador Alexandro Gurgel, ao nos enviar a arte de R. Peixe. 

"Gratifica-nos aos olhos a extrema concisão e equilíbrio de formas e cores de um artista como R. Peixe. Sua temática sempre regional obedece a um esquema nitidamente de alegoria festiva. O artista sabe-se criador e por mais estilos que exercite, deixa demonstrar essa inquietude de fazer nascer sempre o belo." (Iaperi Araújo, médico, artista plástico e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte)

 

O artista plástico R. Peixe nasceu numa pequena cidade de São Caetano de Odivelas, no interior do Pará, no ceio da floresta amazônica. Logo cedo aprendeu a pintar e esculpir as coisas que ele via na floresta. Às margens do rio Taperebá, o pequeno Peixe fazia suas primeiras oficinas lúdicas, observando a fauna e a flora regional – o rio, a floresta, o caboclo, o índio, etc... colhendo elementos essenciais para compor sua arte contemporânea, cujo reconhecimento extrapola as fronteiras geográficas.

R. Peixe tem um vasto conhecimento sobre artes plásticas e sua pintura revela sensibilidade Cubista e Impressionista. Em alguns quadros, o artista paraense desenvolve a pintura Expressionista com muita perfeição e sensibilidade.

Mas a grande contribuição de R. Peixe é a Escola Fantástica, criada por ele no início dos anos setenta. Com base em curvas e aspirais, em torno de um colorido singular, as figuras e formas da Arte Fantástica expressam o universo e o mundo que há dentro de cada pessoa, envolvendo-se com clamor fantástico do artista.

Segundo a jornalista amapaense Nazaré Trindade, a pintura Fantástica de R. Peixe leva o espectador a descobrir seus sentimentos de liberdade, angustia, prazer, medo e alegria, num grito de alerta à humanidade.

"R. Peixe é miscigenado pelo orgasmo das multicoloridas auroras amazônicas e pelo pós-vida da pintura renascente", escreveu o promotor público paraense, Benedito Mira, buscando uma definição plausível para interpretar a alma desse artista amazônico que cursou até o 4º ano da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, mas acredita que o verdadeiro aprendizado vem com a experiência.

"A pintura vem com o sujeito. Ele apenas educa indo para a escola para aprimorar as técnicas. Sempre digo que nunca se aprende; educa-se", afirma R. Peixe.

Raimundo Braga de Almeida morou muitos anos em Macapá, sua terra afetiva, onde pintava, dava aulas de artes e tinha um emprego como funcionário público federal. Largou tudo e veio morar ao lado do estuário do rio Potengi, Zona Norte de Natal, numa das mais belas paisagens do Rio Grande do Norte. De seu ateliê é possível ver a Fortaleza dos Reis Magos, a Cidade Alta, a Ribeira, a praia da Redinha e muito verde vindo dos quintais dos sítios vizinhos.

Com uma inquietação constante, Peixe já fez mais de oitenta exposições individuais, levando sua arte e seu talento para alguns estados brasileiros como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.

Em Natal, o artista plástico R. Peixe realizou a exposição "Metamorfose no Tempo", na Capitania das Artes e "Sintonia dos Tempos", na Aliança Francesa, ambas com grande repercussão na mídia natalense. E ainda trouxe alguns artistas amapaenses de alto nível para fazer um intercâmbio através da arte, entre o litoral nordestino e a Amazônia brasileira.

Toda a sua arte pode ser vista no ateliê do próprio artista, construído especialmente para abrigar uma exposição permanente de suas pinturas e esculturas, situado à rua Cândido Portinari, uma travessa da estrada da Redinha.

Atualmente, mostrando sua paixão por Natal, seus quadros retratam as paisagens da cidade do sol e seu povo. A praia da Redinha com sua capela de pedra preta do mar é o retrato perfeito de um domingo azul nas pinturas de Peixe. A ponte velha de ferro, o rio Potengi e seus manguezais são fontes constantes de inspiração para pinceis em permanente ebulição.

Esse caso de amor pela cidade dos Reis Magos foi reconhecido pelos seus cidadãos quando, através do mandato popular do vereador Jorge Araújo, a cidade deu à R. Peixe o título de "Cidadão Natalense".

Com seu inseparável sorriso amistoso e um forte sotaque paraense, R. Peixe é uma figura carismática e acolhedora. Aos sábados, gosta de receber os amigos em seu ateliê para mostrar sua arte, enquanto serve aos visitantes, tacacá, maniçoba e pato no tucupi - verdadeiras delícias culinárias da mesa amazônica.

Admirador de Dorian Gray Caldas, R. Peixe faz parte da seleta galeria dos grandes artistas norteriograndense e foi acolhido por xarias e canguleiros nessa imensa baía da cultura potiguar.

 

Capela da Redinha

R. Peixe hoje (Foto: Héverton Rocha)

 

 

Paulo de Tarso Correia, poeta

 

A quem, com justiça, Iaperi Araújo se refere como "artesão da palavra".

Paulo é um desses fenômenos de erudição e sensibilidade que talvez só a província ainda permita. Mantendo distância segura dos frêmitos e trepidações cosmopolitas, ainda pode cultivar, fertilizar e multiplicar o dom da poesia, que está arraigado nos seus tecidos, nas suas veias, no sangue e nas vísceras, como parte da vida.

PAULO DE TARSO é assim: um poeta convicto e determinado, indo buscar a poesia caprichosamente, consciente de que ...

 

"O poema vem de longe e de perto, chega

de mil antanhos e lugares: 

poças d'água e gregos mares 

o poema navega", 

 

como nos garante no poema PRINCÍPIO, com o qual abre as portas do magnífico universo que edificou no seu livro "TALHE RUPESTRE" (Cooperativa Cultural, UFRN, 1993).

 

ÓRFICO

(em "Talhe Rupestre")

 

O lugar onde está o verão

e outra vez o amor - cataclisma.

O corpo é imaginação

sombra e sofisma.

e outra vez a cor e as uvas que pisa,

o espírito, a dança,

e a danação dionisíaca.

 

O lograr onde está, pretensão

e outra vez a dor se agudiza:

moira é frustração -

certeza da pítia.

 

O ligar onde está a cisão

e outra vez, o cisma -

o outro é dispersão,

diáspora, estigma.

 

O legar, onde está, ilusão

outra vez aviva o

canto chão 

finaliza.

 

 

PASTOR PROTÁGORAS

(em "Talhe Rupestre")

 

A Hélade era azul e as palavras 

de ontem moram no peito de hoje -

ouro de muitas lavras

bronzes que vieram de longe.

 

Cordas vocais e músculos

mexem quando pousas 

auroras e crepúsculos

sobre os nomes das coisas.

 

Hordas vogais e nuvens

passam, cessam e tosas

ovelhas e hunos

e dás medida a todas

as coisas, homem, 

e repousas.

 

 

César Revoredo, pintor e escultor

 

Cresceu sob a influência dos vastos vales de sua região, pintando suas vilas e manifestaçõe populares.

Auto didata, desenvolveu grande número de técnicas, que foram empregadas nas mais de sessenta exposições, entre individuais e coletivas, no Brasil, Alemanha, Portugal, Espanha e Estados Unidos.

Executou projetos especiais de arte para produções da Rede Globo de Televisão como: Perigosas Peruas, Deus Nos Acuda, Mapa da Mina, Olho no Olho, A Próxima Vítima e Malhação; cenografia de shows e teatro e objetos de desenho exclusivos como tapetes, relógios, luminárias, etc. Seu trabalho é marcado por constante investigação de novos materiais e soluções.

Participou de coletivas e individuais no Brasil, Espanha, Portugal, Estados Unidos e Alemanha. Foi premiado em 1981, no VI Salão de Artes de Pelotas/RS e, em 1984 no XXXVII Salão de Artes de Pernambuco.

Tem sua obra citada no Dicionário de Artes Plásticas do Brasil, Júlio Louzada, 3ª e 5ª edições, São Paulo - Brasil / Artes do Nordeste. Ed. SPALA, Rio de Janeiro e Dicionário de Artes Plásticas do Rio Grande do Norte. Dorian Gray - RN.

 

 

 

Wilson Felix, pintor

 

                              Amor e Fogo

                                Paixão é fogo ardente

                           Eu gosto é de um fogo brando

                               Que de quando em vez

                               Solta uma labareda

                                    (WF)

Em companhia da família, Wilson Félix mudou-se para São Paulo, em 1964.

Em visita a parentes viajou pela Europa em 1990. Durante esta viajem conheceu todos os grandes museus do Velho Continente (Louvre, Britânico, Prado... e muitos outros menores na Itália e outros paises). Entrou em contato com o trabalho de todos os grandes mestres da pintura e escultura. (Da Vinci, Michelangelo e etc...). Em Barcelona conheceu os trabalhos de Salvador Dali, Picasso, Gaudi (arquiteto). Ao entrar em contato com as obras de Juan Miró sofreu uma profunda transformação.

De volta a São Paulo passou algum tempo elaborando, no computador, alguns estudos de cores e formas e em 1993 começou a fazer alguns esboços em cerâmica, os quais foram presenteados a amigos.

A partir destes estudos, foi enveredando pela pintura e as paredes da casa de seus pais foram a sua primeira galeria. Em 1997 por falta de tempo e espaço parou de pintar. Em 1998 voltou a Natal, fixando residência em Pium.

Em 2000 conheceu os artistas plásticos Ulisses Leopoldo e Ângela Felipe, que muito lhe incentivaram. Voltou a pintar e realizou sua primeira exposição individual no Restaurante Livre-Arbítrio em setembro deste mesmo ano.

As pinturas de Juan Miró (artista catalão) e Manabu Mabe (pintor brasileiro de origem nipônica) são sua fonte de inspiração.

Seus trabalhos são abstratos e de pura imaginação.

Wilson Felix atualmente é funcionário da Caixa Econômica Federal.

 

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Pedro Pereira, artista plástico

 

Arte devolve a vida -(por Isaac Ribeiro, repórter do jornal TRIBUNA DO NORTE, em 3 de setembro de 2003, dia da abertura da exposição 'O Poder das Cores'.) 

"Pedro Pereira é o exemplo vivo do que a arte pode fazer pelo ser humano. Acometido de um acidente vascular cerebral há um ano e meio, ele venceu a imobilidade que a doença tentou lhe impor e, mesmo ainda se esquivando de algumas barreiras, concebeu um conjunto de telas que chega aos olhos do público natalense através da exposição "O Poder das Cores", na Pinacoteca estadual/Palácio da Cultura.

Na verdade, ele não parou de produzir. A partir do momento em que pôde empunhar um pincel novamente, ainda no leito hospitalar, misturou tintas e continuou criando beleza. Em seu périplo hospitalar, Pedro Pereira realizou duas exposições; uma na unidade do Sarah Kubstchek de Fortaleza (CE) e outra em Brasília (DF).

Até o próximo dia 30 (das 8h30 às 17 h) ele apresenta 26 telas inéditas, seguindo o mesmo estilo com que conquistou espaço no panorama das artes potiguares. "Apenas fiz uma inovação nas cores e na temática. As cores estão mais vivas, mais fortes e acesas", diz Pedro Pereira, empolgado com o novo trabalho.

As limitações motoras impostas pelo AVC foram reprocessadas por Pedro e transformadas em novos métodos de produção. Antes, sem conseguir firmar o pincel, o artista passou a usar a própria bisnaga de tinta para elaborar seus jardins, sóis e temas abstratos pontilhados (estes últimos, uma novidade em sua obra). Alguns títulos: "Crepúsculo", "Mundo Lua", "O Homem Inventou a Roda", "Luz no Horizonte", "Viajando em Cores", "Violeta de Outono", "Nasce um Planeta", "Útero do Universo", "Cores Certas em Linhas Retas" entre outros.

"Tive a oportunidade de pintar 26 trabalhos que me mantiveram vivo. Minha arte está visceral. Não perdi a inspiração", festeja Pedro, para quem a equipe do Sarah Kubstchek adaptou uma mesa para que ele desenvolvesse sua verve artística.

Quando Pedro Pereira manifestou o desejo de voltar a pintar, ainda no hospital, os médicos o incentivaram bastante, acreditando que poderia ser uma poderosa terapia. Não sabiam eles que estavam diante de um artista frenético e altamente inventivo. Os elogios não tardaram a aparecer durante as aulas de terapia; até que descobriram o currículo de Pedro na internet. Logo, foi providenciado material para que ele desenvolvesse seus impulsos criativos - o que serviu de exemplo para a equipe médica e para os outros pacientes. "Antes o pincel pesava. Eu tinha as idéias e não consegui segurá-lo.

A cada quadro, um sopro novo de vida. "A arte lhe dá vigor, rejuvenesce e regenera. Tive um problema seríssimo mas não tive nenhum pouco de depressão; isso porque tenho arte correndo nas minhas veias. Com a arte você salva a humanidade", diz Pedro, que lista como insumos básicos para a produção artística três esforços básicos: mental, físico e espiritual. "Ser artista é uma dádiva de Deus."

Pedro, sempre ao lado de sua esposa, Alda Pereira - uma fortaleza humana de bem querer -, não esquece de agradecer à corrente de fé e o apoio dos amigos e familiares. "Foi fantástico!" Ele tem consciência de sua atual condição e não desanima, mantendo sempre aquele espírito alegre e festivo que sempre foi uma das maiores características de sua forte personalidade. "Minha mente não foi afetada. Passei uma barra pesadíssima, mas hoje vejo que ela já foi, já deu", diz. Viva!"

 

Sobre 'O Poder das Cores' , Dorian Gray escreveu:

 

"Há em cada artista algo que não se explica e nem se define. A imponderável presença de uma magia própria, tão certa como as digitais, tão personalíssima como a íris ou seu modo de ver os objetos apreendidos ou a vida. 

Esta magia é particularmente sua maior vitória à continuidade de uma identidade coercitiva, boa ou má. Erudita ou popular, mas determinante para a obra do artista. Pedro Pereira, artista de uma terceira ou quarta geração após os anos 50, é um desses artistas, com novas e promissoras propostas às artes do RN.

Alegra-me com os seus jardins de flores miúdas vistas no tabuleiro do tema, tocadas pelas matizes do grande campo da tela. Não quis o artista o suporte da natureza morta (tão comum e tão  repetidamente usado pelos mestres), mas a estamparia de um chão/menino, pés descalços na plena convivência de uma infância que tão bem conheci, vencendo caminhos e descobrindo sortilégios. Pedro Pereira ainda é este menino no deslumbramento das cores e dos fazeres, sem a disciplina formal das artes aplicadas ou das lições dos grandes mestres.

Na última fase que pude observar, esses campos de flores e de luzes passaram para o plano vertical, cintilações fragmentadas, feericamente belas. O artista Pedro Pereira planta as primeiras rosas gerais de sua arte. Espero, sinto, sei que o caminho é longo, que a escalada já começou. Agora o artista só tem que juntar os "ramalhetes miúdos do seu jardim" e oferecê-los aos seus inúmeros admiradores: os de sua arte e os de sua sensibilidade".

 

 

Gilberto Avelino, poeta

 

Américo de Oliveira Costa, intelectual eminente do Rio Grande do Norte, em setembro de 1991, escreveu, sobre Gilberto Avelino ( AS MARÉS E A ILHA).

"Há poetas que se fazem ao sabor do tempo e da existência. E há os poetas que já nascem sob o signo da poesia. Gilberto Avelino é desta última categoria. Impossível imaginá-lo, mesmo no dia-a-dia comum da chamada vida prática, sem as manifestações fervorosas da sua condição orgânica e sentimental de poeta". E, mais adiante, conclui afirmando: "Gilberto Avelino é um ser marcado, inapelavelmente, pela fatalidade e bênção da poesia". 

 

 

NA PISCINA

(Trecho. Poema incluído em AS MARÉS E A ILHA)

 

Aquém do mar,

a piscina de águas azuis.

De repente vinhas,

e davas ao corpo a carícia das águas.

Com o exíguo vestir, em relevo expunhas

ao sol o viço da inapagável beleza 

do teu corpo.

E do olhar nasciam-me salsas enlaçantes.

Não te esqueças, portanto,

girassol de dezembro,

de que sempre volto a ver

o azul dessas águas.

 

A ILHA E A LENDA

 

(Trecho, como publicado em AS MARÉS E A ILHA.)

O poema, narrando a lenda da ilha Manoel Gonçalves, tragada pelo mar, completa-se assim:

 

... O mar, incandescendo-se de azuis,

a ilha escondeu entre ondas

ardentes e porões abissais que construíra.

Em noites de lua de agosto, quando 

o mar reveste-se de brancos algodoais,

os pescadores escutam cantes de sino

que vêm da capelinha insepulta,

e identificam a voz -- 

tão leve, bela e pura, 

da Virgem da Conceição falando às águas.

 

PRINCÍPIO

 

O poema vem de longe e de perto,chega

de mil antalhos e lugares:

poças d´água e gregos mares

o poema navega.

 

Na quinta onda sob a prancha

do surfista e outras passageiras

danças, sem partituras ou maneiras

o poema descansa.

 

No átimo em que se ousa

algo eterno e fugaz,

entre o ser e o não é mais,

o poema repousa.

 

No arco entre a carreira

e o mergulho do nadador,

no salto do peixe e no ar que cortou,

o poema espera.

 

Em causa e coisa,

nas rendas e labirintos de antes

e depois, na trama dos instantes,

o poema pousa.

 

Na longa história enfeixada

na menor pedra que guarda secreta

biografia do planeta,

o poema aguarda.

 

Onde paira o enorme

o infinitesimal ondeia,

em arenito e areia

o poema dorme.

 

Na sala de ser, estreita,

na sala de estar sozinho

e outras salas do destino,

o poema espreita.

 

O poema esteve onde sempre estive:

ao alcance da mão,

sob todos os passos,

o poema vive.

 

 

Selma Bezerra, artista plástica

 

Selma Bezerra enriquece a nossa página com a sua presença. A sua personalidade ao mesmo tempo forte e encantadoramente doce escondeu, por muito tempo, a artista sensível que descobriu, com a sua arte, dimensões próprias e fascinantes de emoção e beleza.

Sobre ela, vale a pena ler e refletir sobre o que diz Franco Jasiello: 

"Selma Bezerra escolheu, para esses quadros, o desafio da superfície de papel (o branco mais impiedoso) e não aceitou o aliciamento de aproveitar a textura do fundo, apesar de sua preciosa consistência. Misturou tintas acrílicas -- com o equilíbrio e a perseverança paciente de um beneditino medieval em seu scriptorium -- produzindo tons e cores que, com densa e intensa complexidade, espalham-se, em várias camadas, em toda a área dos quadros estabelecendo uma rígida disciplina dos espaços.

A consistência cromática alcançada por Selma Bezerra resulta de uma evidente geometria que busca, na dramática alternância dos azuis, dos pretos, dos verdes e dos vermelhos, a revelação de inesperadas formas, quase corpos luminosos extraídos de profundidades sombrias que trazem à memória os tenebristas, Caravaggio, Rembrandt, Ribera.

Selma Bezerra mostra aquela capacidade de fabulação que, no dizer de Francisco Brennand, distingue o artista de um simples reprodutor da realidade circundante".

 

Acrílico sobre papel (0.89 x 1.23m)

Acrílico sobre papel (0.78 x 1.96m)

 

 

Enoch Domingos, músico, escritor e artista plástico

 

Músico, compositor, artista plástico, poeta e escritor, Enoch Domingos da Cruz nasceu em Recife- PE, em 10/10/47. Do pai herdou o talento de artesão e do seu tio João a arte do violão. Sua luta começou muito cedo, por volta dos 13 anos. Foi tocando em grupos de baile pelos clubes, boates e inferninhos que Enoch conheceu o mundo e o sub-mundo da música.

Seu primeiro grupo foi os Moderatos, banda em que também tocou Robertinho do Recife. Sua segunda banda foi SilverJet`s por onde passou o crooner Reginaldo Rossi e também Fernando Filizola, um dos fundadores do Quinteto Violado. Em Natal nos anos 70, Enoch tocou no Impacto 5, grupo de baile famoso em Natal que gerou outro chamado Flor de Cactus por onde passaram músicos como: Joca, mingo, Clauton, Babal, entre outros. Enoch também tocou no conjunto do maestro Waldemar Ernesto no América F.C. Esse foi um grupo marcante na história da música em Natal porque por ele passaram duas figuras de grande importância - Flora Purin e Maria Creuza, além do grande guitarrista Joca, Odilon e Expedito, entre tantos excelentes artistas.

Tomando por base essa vivência no meio artístico, Enoch iniciou seu processo de criação compondo a música que lhe deu o primeiro lugar no Festival Universitário da Canção em 1974; a música chama-se : Afeto Farto e foi gravada pelo grupo Impacto 5. Em 1982 Enoch foi um dos finalistas do MPB Shell da Rede Globo com a música Anjo defendida pela cantora Lelé Alves. Ainda em 1982 uma parceria sua e do cantor Leno fez parte da trilha da novela "Livre para Voar" da Rede Globo; a música chama-se Rosa de Maio. Em São Paulo Enoch foi finalista do Festival da RTC com a música No Cio do Rio, também gravada pelo Impacto 5 e Lucinha Lira.

Já compôs as seguintes trilhas musicais para teatro: música para "Apareceu a Margarida" ( de Roberto de Athayde ); trilha para "A Pena e a Lei" ( de Ariano Suassuna). Os Andantes para o teatrólogo Jobel Costa; trilha para "Antígona" (de Sófocles) que foi dirigida por Carlos Furtado. Compôs também músicas para "O Canto Geral do Rio Grande do Norte" com letras do poeta Homero Homem.

Como teatrólogo venceu o concurso de dramaturgia da UFRN em 1993 com as peças A Bruxa Que Virou a Mesa ( texto infantil) e O Carrasco (texto adulto).

Como escritor já publicou artigos na Tribuna do Norte (Natal/RN), no Diário do Comércio em Recife-PE, no estado do Piauí e no Suplemento Literário de Minas Gerais. Publicou alguns livros alternativos: Frutos da Memória I e II (poemas/82), A Morte Funcionária (contos/80), Ao Norte de Libra ( contos/89), Akó (contos/80), Parasitos (conto diminuto/83), entre outros.

Foi um dos fundadores do Grupheq - Grupo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos (Natal/RN) e tem junto com outros artistas potiguares trabalhos de arte visual publicados na Europa e nos Estados Unidos. Também foi citado no livro O Rebelde do Traço - A Vida de Henfil , de Dênis de Moraes (Editora José Olímpio-1996 / pág. 230/232. )

 

O Movimento das Velhas Casas (Guache/Verniz - 28x35) O Cangaceiro e a Serpente (Lápis Cera 30x40)

 

 

Zélia Maria Freire, poeta

 

Zélia Maria Freire, poeta, escritora, considera-se uma reclusa. Por isso, abre o seu caminho sozinha e isolada. O seu trabalho está espalhado em artigos, crônicas e poemas que, como articulista da Tribuna do Norte e de outros jornais, tem publicado esparçamente. Ganhou prêmios em concursos como "Contos do Brasil Contemporâneo" e "Valores Literários do Brasil", promovidos pelo Grupo Brasília de Comunicação. Foi incluida na Antologia editada pela Casa do Novo Autor, de São Paulo, e pela Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil. Ganhadora do prêmio Myriam Coely, em concurso de poesia promovido pela Prefeitura de Natal em 1991. Com um poema em inglês, intitulado "I answer thee", ganhou o prêmio de poesia John Perry de 2002, em Dallas, Texas, USA. Nasceu em São José de Mipibu e é ativa participante dos debates do nosso site. Mantém o seu próprio site na internet no endereço www.zeliafreire.kit.net/textos

 

COISA PENSANTE

 

Já que sou uma coisa pensante

e como tal duvido

concebo

nego

imagino

sinto

quero

não quero

que pouco sei

e ignoro muito mais

vez por outra vejo-me impelida

a questionar a vida

o julgamento que se pode fazer dela

e o que me ocorre é o pensamento de outro

pois já foi dito que a vida

não é um problema para ser resolvido

é um mistério para ser vivido

 

 

Sanderson Negreiros, escritor

 

Um dos mais eminentes intelectuais do nosso tempo no Rio Grande do Norte -- poeta, contista, cronista, escritor e figura humana de extraordinário brilho, cercado de carinho e admiração de quantos o conhecem. Em resposta ao pedido de um "curriculum" que lhe foi feito quando lhe transmitimos o convite para participar da nossa página, respondeu a Geraldo Melo com uma carta que os nossos visitantes merecem conhecer. A carta veio manuscrita. Nela ele explica por que. 

A CARTA

Geraldo:

Estou enviando um disquete com vários artigos/crônicas e uma foto.

Meu curriculo é brevíssimo: nasci no Ceará-Mirim, a 3-7-39. E não pretendo morrer nem muito velho nem agora, que já completei 64 anos. Tenho publicado livros de poesia, enfeixados num livvro só "Fábula Fábula". Um livro de crônicas: "A Hora da Lua da Tarde" e outro de matéria jornalística - entrevistas e reportagens - para ser lançado "Na Direção do Relâmpago". E a publicar um romance - "3º Domingo da Quaresma" - e livros de crônica: "Manhãs do Tirol", "Noites do Alecrim" e "Tarde da Ribeira". Por ora, somente. E você já foi meu chefe de reportagem na velha Tribuna do Norte e mandou entrevistar Carlos Lacerda. Que quis me levar para o Rio, mas, como eu tinha só 17 anos, não tive coragem de aceitar o convite. 

Desculpe, mas fui adjunto de promotor de Ceará Mirim e Santa Cruz do Inharé, embora goste de ler sobre medicina e nunca conseguir direito o Direito.

Acredito que o Fim-do-Mundo já começou. Ou melhor: já se iniciou um mundo melhor em meio à fuzilaria que se ouve e à loucura que sse percebe.

Desculpe ter escrito à mão, pois regresso no tempo, como verdadeira múmia, com todos seus achaques. Mas, um dia, me comunico com você através da Internet. Nem que seja do outro Plano Espiritual. Sim,. acredito em Deus, o que é moda não acreditar. Um abraço afetuoso.

Sanderson Negreiros

Natal, 22-7-03

 

CARTA PARA ZILA MAMEDE

(18 anos depois

 

A última vez que a vi, você caminhava pela Praia do Forte, de maiô cor-de-rosa, chapéu à cabeça, naquele andar que eu adivinhava à distância. Vi-a assim na manhã nascitura, de recentíssimo domingo, pleno daquele verão que amadurece no ar as cores de dezembro — as belas cores de azul e amarelo — e você estava sem óculos. Ao chamar-lhe pelo nome, você não percebia seu amigo pressuroso que, de quase longe, exultava na alegria de revê-la e reconhecê-la, em qualquer lugar e instante.

Mais  tarde, telefono-lhe contando a aparição de minha fraterna amiga. “E por que você não veio me falar de mais perto?” — foi a pergunta, marcada por aquele riso, riso ziliano, que só se concedia pleno de oferta e encantamento.

— Não fui porque preferi acompanhar-lhe com o olhar — respondia eu.

Há pouco vi seu corpo entregue ao silêncio absoluto, horizontalmente, retirado das águas profundas, do mar morto que você adivinhou e descreveu em seu primeiro poema. Os olhos estavam cobertos, esses olhos que perseguiam a Estrela da Manhã, encantamento de seu amigo paternal Manuel Bandeira, e que poderiam descobrir — poderosos olhos videntes — os caminhos do sertão, o hectare onde dorme o vento sertanejo, o acento vertiginoso de sua infância passada em Nova Palmeira, Paraíba, e Currais Novos. Mas, sobretudo, olhos que amaram e revisitaram, durante todos os momentos, o mar que a enfeitiçava, o mar estrangeiro que lhe era um chamamento diuturno, o mar e sua vertigem de horizontes, suas possibilidades de vagas e rumores, seus domínios de assombro e melancolia, de fascinação e alumbramento, de vida e auroras.

Amiga e minha irmãzinha, por que tanto essa presença do mar em suas cercanias, nos limites externos de seus poemas, nos bulevares do seu sonho? Seu espírito já vinha com a certeza dessa prova que iria enfrentar? Você amava essa vastidão marítima ao ponto de dizer, em um poema, que nessa liberdade (que o mar oferece) queria um dia se afogar?

Seu mapa-múndi, querida Zila, já trazia referências indomáveis sobre o naufrágio, frágil, feito da paina e da lã mais comovente, lastro de anêmonas e girassóis (principalmente os girassóis azuis que você amava), e o seu canto comove, não pela gratuidade do sentimento, mas pela inesperada presença ou dom de saber ver as coisas — o Universo, enfim — pelo seu lado solar e lunar, que fica além da visão puramente física.

Tanto a conheci, durante trinta anos! Nossa amizade freqüentou todas as esquinas da surpresa, a instigação de todos os silêncios e compreensões; e essa amizade nunca sofreu um diminuto tom de ocaso. Mesmo que passasse meses sem vê-la, eu sempre veria você pela primeira vez — e me sentia feliz.

Em 1956, você dirigia a biblioteca do Atheneu Norte-riograndense. Eu tinha uns 16 anos, e lia e escrevia furiosamente. Todos os dias ia vê-la, conversar com você minhas inquietudes bastardas, meus desejos incipientes, meus sonhos especulativos. Era uma conversa longa. Mas logo se afirmou para mim a irmã, mais velha, a grande irmã, que me descobria os livros para ler, que madrugava para meu espírito os temas da cultura, a vocação para a poesia e o tom para essa música interior da amizade, que nunca haverá de desaparecer na retina dos meus olhos fatigados, como disse o Poeta. Da biblioteca, íamos para sua casa, que você tão bem recorda em um poema, na vibração das tardes do Tirol, do Tirol que forma para mim uma espécie de triângulo-das-bermudas ao contrário: quem olhar os céus, nas manhãs e tardes do Tirol, não morre nunca.

Na sua casa, a presença de sua Mãe. Simpática, efusiva, que servia uns lanches sertanejos inesquecíveis. Naquela casa, você contemplou a poesia de seus dois grandes livros, germinativa e seminal, que são O Arado e Salinas. Do terraço daquela casa, da rua tirolesa, ao vento bom ainda dos anos 50, vi o sonho prorromper de seu rosto — e você imaginava viajar, viajar, sempre pensando em crescer por dentro.

                                              * * * 

E estudou nos EUA, defendeu tese na Universidade de Brasília, formou-se em biblioteconomia no Rio de Janeiro. Viveu experiências as mais diversas: iludiu-se e desiludiu-se com a Universidade da capital federal, quase destruída pela repressão de 64; acreditou em novos intentos — a pesquisa da obra de Cascudo consumiu-lhe vários anos, como, agora, a que empreendeu sobre João Cabral de Melo Neto quase sucumbiu suas forças — mas onde estivesse, estariam a impaciência e a obstinação de fazer,  os novos projetos literários, na face, a sua, que exigia convivência, que, apesar de tudo e da solidão que a acometia densamente, estava sempre disponível para participar, dentro de um diálogo aberto, destemido e, até agressivo, na defesa de seus pontos de vista, mas morrendo de amores por quem queria bem e que lhe tenha mostrado o caminho da fraterna convivência humana.

O que poderia em você soar como disposição de luta era resultante da timidez da menina que em você persistia; da menina que quis ser freira, teve sua adolescência banhada pelo sonho conventual —, e, de repente, teve que ser o centro espiritual de toda a família, pela dedicação extremosa, pela doação de si mesma, no silêncio do que lhe passava como revelação; ou como alegria desatada dos que se sentiam felizes ao seu lado.

Extremamente rigorosa consigo, não dava tréguas ao que lhe parecia ser necessidade de disciplina interior. E exterior. Cumpria horários, compromissos, palavra empenhada, direitos adquiridos, com um rigor sertanejo. Sua palavra valia a pena. Não sofria multa, nem correção monetária.

                                             * * * 

Nesses trinta anos, quantas vezes a surpreendi, anonimamente, sendo fiel à amizade! Nesses trinta anos, quantas vezes surpreendi você, Zila, sendo generosa, e exercitando a bondade escondidamente! Um dos seus grandes bens de amizade não era povoado por nenhum sinal semafórico. Você escolhia os rumos da vida no silêncio.

Gostava de mostrar-lhe meus poemas — eu, que há vinte anos não os faço para merecer o nome de poeta — e você me ensinava a Poesia. Você não era apenas  poeta. Era uma mestra, no sentido que quis emprestar a essa palavra Ezra Pound. À maneira de Jorge Guillén sobre Garcia Lorca, eu lhe dizia: — você não faz frio nem faz quente. Você faz Zila. No seu livro Salinas, você diz, na dedicatória, que eu recebesse de você o sal da ternura mais humana. Sal que no Evangelho é sinal de vida — e não de morte. E você lutava com uma ambição imensa, sem cessar um minuto, por viver. Tinha uma ortodoxia de cumprir seu dia que não se vê em poetas. Eram tantas horas para caminhar a pé, tantos minutos para exercícios aeróbicos, tanto tempo para a leitura — e, assim, compartimentava o dia, que se multiplicava milagrosamente.

Na sexta-feira de manhã, você entrou em licença médica e foi para o mar, nadadora afoita. Antes, cantou, feliz, em seu apartamento. Era um mar de ventos e correntes inesperadas. E uma dessas vagas levou-a, submersa, para o outro lado da cidade — a Redinha.

                                           * * * 

A poetisa que Manuel Bandeira considerava uma das maiores de nossa literatura, em todos os tempos, a lírica visionária que conheceu a prática do verso de Rimbaud — “todo sol é atroz e todo luar é amargo” — vestiu-se — como antes tinha-se vestido premonitoriamente em seus poemas —, de marinheira, e mergulhou para sempre. Mesmo sem o seu perfil material, meu olhar, o olhar do amigo e do irmão acompanhará sempre você, como na manhã recente da Praia do Forte, quando caminhava, sozinha, límpida, clara, estuante de ser, como se trepidasse sobre um sismo de ventos; ou se equilibrasse nas calçadas-arrecifes que circulam a beira do mar. Porque ninguém via, mas a Eternidade já pousava a mão de luz sobre o seu ombro. Adeus.

                                          * * * 

PS — Foram estas as palavras que escrevi quando Zila Mamede se foi no profundo mar azul. A 13 de dezembro de 1985. Morreu afogada, possivelmente nadando lá depois da arrebentação. Um dia antes, eu me encontrara com ela, confessava-me: “Entro de férias hoje. Estou com um problema sério. De vez em quando, sinto um “branco” e não sei onde permaneço”. No outro dia não se conteve: foi se encontrar com o mar e afogou-se para sempre. Ela, que sentia esse chamado das águas inquietantes, desde seu primeiro poema. Chamado contínuo, de imprecação — era seu destino de náufraga. Agora, faz 50 anos da publicação de “Rosa de Pedra” — seu primeiro livro, de grande poesia, que tanto entusiasmou Manuel Bandeira, Drummond e Mauro Mota. E mais: faz 18 anos de sua ausência. Saudades da irmã, da professora de poesia, de ternura, de inesquecível bênção para os que amaram sempre.

 

 

Oswaldo Lamartine, escritor

 

“Olhem bem para ele.

Não é um homem comum.

Nele ainda vive o sentimento das velhas baronias.

A grandeza trágica das resistências.

A solidão monástica da vida.

Porque ele é o último Príncipe

do Reinado do Sertão de Nunca-Mais”.

(Palavras de Vicente Serejo, no discurso de saudação a Oswaldo Lamartine,

que tomava posse na Academia Norte-riograndense de Letras).

 

Filho caçula do governador Juvenal Lamartine e Da. Silvina, nasceu em 15 de novembro de 1919. Conforme citado por Serejo, ele diz ser “sobejo da seca de 19, o último de uma ninhada de dez”. Hoje com 84 anos, agrônomo formado em Lavras, Minas Gerais, depois de cumprir uma longa carreira técnica, e de se afirmar como notável escritor, brilhante intelectual, estudioso e amante do nordeste, sua gente e seus costumes, retornou ao Rio Grande do Norte, para a fazenda Lagoa Nova, que foi do seu pai, nas proximidades de Riachuelo, “onde envelhece silencioso e sábio, olhando do seu lenço de terra os longes do sertão, como ele gosta de dizer, até bater com os olhos nas paredes do céu”.

Escreve com grande personalidade, cultivando um estilo coloquial, delicioso, em que consegue ser, ao mesmo tempo, erudito e fiel ao linguajar do sertanejo nordestino.

O SERTÃO DE NUNCA MAIS

(Trechos do discurso de posse de Oswaldo Lamartine na Academia Norte-riograndense de Letras, para ocupar a cadeira que tem como patrono Amaro Cavalcanti e que teve como primeiro ocupante Juvenal Lamartine de Faria, pai de Oswaldo, e depois Veríssimo de Melo)

Primeiras palavras

Entendam. Todo esse meu remancho de chegar para esta Casa, nada tem de menoscabo. Espichados foram os caminhos. Mas, aqui estou. Não vim arrastado como um voluntário-de-corda da Guerra do Paraguai.

Simplesmente, sou um encabulado que se perturba em ajuntamento de gente, clarear de luzes, adereços, pompas e louvações.

Não é cavilação nem astúcia, acreditem. E isso não é de hoje. Em 1940, quando terminei meus estudos na Escola Superior de Agricultura de Lavras, em Minas, não teve quem me fizesse figurar no quadro de formatura. Disse “não” ao diretor, à comissão de festividades e aos colegas. Creio que sou o único ausente naqueles quadros de toda a história da Escola. Quadros de retratos retocados com dísticos pomposos. Tinha um que dizia: “O solo é a Pátria – cultivá-lo é engrandecê-la”. Entendam e, se possível, relevem.

Sobre Câmara Cascudo

E em todos esses chãos – nuvens ou lajedos – ele deixou o rastro. Foi a cumeeira de todos nós.

Sobre Amaro Cavalcanti

É o patrono desta cadeira onde, atrevidamente, estou me abancando, um sertanejo pobre que, em meados do século XIX, nas ribeiras do Seridó, declinava latim.

... graduou-se em direito e voltou para ocupar os mais altos cargos da diplomacia, economia, direito, finanças e administração. Faleceu no governo de Epitácio. Atendia pelo nome de Amaro Cavalcanti e era irmão do nosso santo Pe. João Maria. Na orografia intelectual do Rio Grande do Norte tinha a altitude de um Cabugi”.

Sobre Juvenal Lamartine

Foi ele magistrado, fazendeiro e político. A vida muito lhe deu e muito lhe tirou. Deputado, Vice-Presidente, Senador e Presidente do Estado – era assim que se chamava – governou 2 anos e 8 meses. Deposto e exilado em 30. A política cobrou dele o dízimo da vida do filho que mais queria. O glaucoma o cegou dos olhos, mas não o imobilizou.

... Era assim ele – Juvenal Lamartine de Faria – sucessor desta cadeira número 12. Era um cego que via, disse Lacerda. Era o meu pai.

Sobre Veríssimo de Melo

Naqueles ontens, os estudantes que tinham inclinação para as letras costumavam se enodoar nas tintas das tipografias dos jornais. Foi um deles. Já encabelado, fez-se acadêmico de direito, primeiro na PUC, no Rio de Janeiro, depois no Recife onde, em 1948, botou anelão de rubi no dedo.

... Batia nos peitos pela glória maior de ter sido o único de todos nós a ser citado no rótulo de uma garrafa de cachaça.

... Veríssimo Pinheiro de Melo era o seu nome de batistério. Mas, para os amigos e o povo que o conhecia e estimava, tinha um nome de passarinho: Vivi.

 

 

Etewaldo Santiago, escultor

 

É de Ceará Mirim, onde vive cercado pela sua família de oito filhos, dois dos quais - Edwaldo e Edwanaldo - já começando a receber reconhecimento pelo valor do seu trabalho.

Etewaldo é escultor e entalhador de extraordinário talento, premiado e aclamado em todos os eventos de que participa, tendo, em três anos consecutivos, colhido o primeiro lugar do Festival Inernacional de Artesanato, que se realiza anualmente em Natal. 

Tem peças vendidas para quase todos os Estados brasileiros e para diversos países. O seu último trabalho, realizado por encomenda da Prefeitura de Ceará Mirim, é a estátua de um cortador de cana, produzida em concreto, com 2.60m de altura, colocada na praça Odilon Ribeiro Coutinho, que integra o Parque da Cidade. É uma obra de impressionante beleza, que deve ser apreciada detalhadamente, seja pela imponência, pelo requintado cuidado em todos os detalhes e pela forte  expressão facial, o que se pode observar nas fotos aqui mostradas.

A estátua foi escolhida como símbolo oficial da cidade de Ceará Mirim.

 

Cortador de Cana, imagem noturna

Cortador de Cana, a expressão

 

 

Jorge Fernandes, poeta

 

Na semana que marca os 50 anos da morte do poeta Jorge Fernandes, Isaac Ribeiro, editor do caderno Viver da Tribuna do Norte e vocalista da banda Sangue Blues, nos envia sua contribuição:

Jorge Fernandes nasceu em 22 de agosto de 1887, e faleceu em 17 de julho de 1953, em Natal. De família pobre, teve que abandonar os estudos para trabalhar desde bem cedo. Foi operário de fabrica, viajante comercial e funcionário público, além de autor de poemas e peças de teatro. Quando publicou o "Livro de Poemas", em 1927, causou surpresa pela modernidade de sua poesia e poucos, como Câmara Cascudo, perceberam seu valor literário.

As professoras Diva Cunha e Constância Duarte, da UFRN, dizem, ainda, de Jorge Fernandes, tratando do ´Livro de Poemas´ de 1927:

Surpreedeu pela modernidade, pois sua literatura fez o contraponto com os versos parnasianos e neo-romanticos dos poetas locais.

 

POEMA

 

A noite está fritando estrelas

na caçarola de ágata azul do céu...

No centro há uma gema de ovo

entre claras de nuvens...

 

Escamaram peixe no céu

e as escamas ficaram espalhadas,

fosforescentes,

no terreiro azul...

 

Na alvorada, um gato vermelho

engole todas as escamas

e vai devagar,

por sobre o telhado curvo,

lamber a gema de ovo

que fica desmaiada,

segura na caçarola azul

do espaço...

 

TEMPESTADE SENTIMENTAL

 

A noite anda batendo isqueiro

Para acender o cachimbo do trovão.

E como boa camarada dele

Acende, acende, humildemente, em vão!

Iscou... iscou... no espaço,

Iscou em vão!

O trovão virou as costas foi dormir,

A noite aquietou-se junto a ele

E calmamente foi dormir também.

As estrelas, com medo, apareceram

nas pontinhas dos pés de suas luzes.

 

GAROTADA NO CÉU

 

A tarde fechou o interruptor

Da lâmpada diurna...

E a iluminação pública do espaço

Se acendeu de repente,

Salpicando de estrelas o firmamento...

Mas a lâmpada principal do céu da noite

— o Quarto-Crescente —

Estava com o globo partido...

Foi um garoto do céu

Que jogou um aerólito

E partiu uma banda

Do lindo globo da lua-cheia!

 

 

Zila Mamede, poeta

 

Foi, talvez, cumprir o anúncio que fizera na sua CANÇÃO DO SONHO OCEÂNICO, uma das muitas antevisões poéticas do seu desfecho, a sua apoteose, a morte, o seu gesto, o seu verso final.

Amiga de Manoel Bandeira, uma das suas confessadas e professadas devoções literárias, é incluída por João Cabral de Melo Neto entre os maiores poetas da língua portuguesa. Entrou na água, um dia, entre o Potengi, o seu rio de todos os dias, o Forte dos Reis Magos e o mar, ferramentas, instrumentos de construção da sua paisagem da vida inteira. Dissolveu-se nas águas. Entregou-se às águas, que amava e temia.

 

 

 

 

CANÇÃO DO SONHO OCEÂNICO

(trechos)

Irei brincar com fantasmas,

os governantes do mar;

falarei língua das ondas,

cantarei canções marujas,

escreverei meus poemas

nos lábios dos caramujos;

leva-los-ão chuvas, ventos

aos peixes e caravelas,

que brincarão de cirandas

nos recôncavos do mar.

Dormi o sono dos deuses

no ventre dos sete mares.

despertei boiando acácias

deixadas por navegantes

que tocaram meus caminhos

em naves feitas de sonhos.

 

Passai, marujos, passai,

que não voltarei do mar:

oceânica persisto;

sou produto desse mar

que compus nas minhas mãos

da verdura do meu sangue,

das águas dos olhos meus.

 

Como pois ser continente

se fui nascida no mar?

 

Na mesma linha dessa sua impressionante antevisão da morte, escreveu poemas como MAR MORTO (..."Criança penetrando no mar morto / em busca de um brinquedo colorido / que julga ver no morto mar vogando"...) e este:

PARTIDA

 

Quero abraçar, na fuga, o pensamento

da brisa, das areias, dos sargaços;

quero partir levando nos meus braços

a paisagem que bebo no momento.

 

Quero que os céus me levem; meu intento

é ganhar novas rotas; mas os traços

do virgem mar molhando-me de abraços

serão brancas tristezas, meu tormento.

 

Legando-te meus mares e rochedos,

serei tranqüila. Rumarei sem medos

de arrancar dessas praias meu carinho.

 

Amando-as me verás nas puras vagas.

Eu te verei nos ventos de outras plagas:

juntos - o mar em nós será caminho.

 

 

Luis Carlos Guimarães, Poeta

 

Com a sua morte, a poesia contemporânea do Rio Grande do Norte e do Brasil perdeu uma das suas mais altas expressões.

Leia o que disse Francisco Carvalho sobre ele e o seu trabalho:

"Luís Carlos Guimarães, poeta de larga convivência com alguns dos nomes mais expressivos da poesia universal, por ele traduzidos com inigualável mestria e absoluta competência, está de volta com a sua túnica de Arlequim medieval e com as mãos repletas de poemas para nos dizer a nós, filhos do Terceiro Mundo e deste século de trigo escasso e de sangue abundante derramado pelas guerras, que ainda é tempo de regar a messe e de colher "O Fruto Maduro", antes que os dias se tornem cinzentos, que as luas apodreçam no céu".

 

NONA

(Luís Carlos Guimarães, do livro "O Fruto Maduro", editado pela FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO, na gestão de Woden Madruga)

 

Quando não mais esperava chegou

com a doçura de uvas maduras.

Jorro de luz. Estrela d'alva. Lua

refletida no rio, levada para o mar.

Crença me acenando com a proteção

do céu. Janela aberta à paisagem

que se vê pela primeira vez.

Macia como lã, sua voz na penumbra.

Canto de pássaro tecendo a manhã.